segunda-feira, 28 de março de 2011

A minha Força Aérea - Psst! Psst!


Páscoa de 1963. Foi só há …mais de 50 anos!


Dez jovens alunos pilotos da Força Aérea Portuguesa (P1/62) foram colocados em 1962 na “academia do T-6” em Espanha, na Base Aérea de Matacán, Salamanca, ao abrigo de um acordo para a formação de pilotos portugueses pelos Espanhóis, devido à sobrecarga de alunos Pilotos em Sintra nos primeiros anos da guerra do Ultramar.

Salamanca vista do Rio Tormes

A belíssima Plaza Mayor de Salamanca

O Tormes e Salamanca
Nas férias da Páscoa de 1963, eu e o Hugo Mendol, resolvemos fazer uma mini volta à Espanha já fartos de Base Aérea e a precisar de ver o Mar.

Um T-6 Espanhol no Museo do Ar de Quatrovientos, Madrid

A placa da Base Aérea de Matacán, Salamanca, em 1963
Partimos de Salamanca rumo a Barcelona via Valladolid e Zaragoça, com 7.700 pesetas nos bolsos (de ambas as nossas calças…) no carro do Hugo, um “ovo” – “uma espécie de automóvel” de três rodas e uma única porta, à frente – que nunca nos deixou ficar mal. 

Desde o primeiro dia. O da chegada do “ovo” a Salamanca, vindos de Lisboa.

Um Heinkel Trojan:




O Hugo e o seu belo carro
                                    


7 horas da tarde, já noite. A cidade em peso na rua, como é hábito.

E o “ovo” a passar muito lentamente… encostado a centenas de jovens universitários que nos ovacionavam aos gritos, copos na mão, a animação que se imagina.

Enfim, uma enoooorme algazarra!

O Hugo ao volante e eu de pé com a capota aberta, braços esticados a gesticular freneticamente para agradecer a apoteótica e inesperada “recepção”, tal qual o Neil Armstrong quando voltou da Lua, na 5ª Avenida, em Manhattan. Não exagero rigorosamente nada! Garanto.

E lá íamos nós avançando, eufóricos, muito lentamente, a caminho da mais bonita Plaza Mayor de Espanha, a navegar no meio daquele mar de gente jovem, muito divertida!





Voltando à história das férias da Páscoa, chegamos a Barcelona e temos o primeiro contacto com Gaudi e a Sagrada Família. Um espanto para estes dois Moçambicanos!


Barcelona e a Sagrada Família

A primeira preocupação foi onde dormir e nas Ramblas quase ao fundo, por baixo de um anúncio “Habitaciones” entrámos e subimos ao 1º andar.
 

Toc toc toc e uma porta abre-se lentamente. Á nossa frente, um homem sorridente, todo vestido de branco. À sua volta paredes forradas a veludo vermelho. A admiração era mútua.
 

O diálogo foi breve.
 

- O que é que os senhores querem?
- Um quarto…
- Solo por un ratito, no?
(Só por um bocadinho, não é?) E sorria ainda mais.
 

Desfeito o engano lá nos indicou o sítio que nos fazia realmente falta…

Dois dias depois, e se fossemos a Palma de Maiorca?

500 Pesetas a menos, para os dois bilhetes, embarcámos num DC-3 da Aviaco, para as Baleares. Gente fina é outra coisa!

Aquele ambiente cosmopolita que nos fazia vagamente lembrar Lourenço Marques, convidava a longas horas de esplanadas cheias de nórdicas e bifas (Inglesas, para os Moçambicanos). Belas vistas… belas vistas…

A Catedral de Palma de Maiorca
Mas os “camareros” é que nem sempre colaboravam…

Num dia de mais modorra, um dito cujo simplesmente ignorava-nos, depois de repetidos gestos a chamá-lo.

E vai daí:

- Psst! Psst!

Finalmente… aí vem o “camarero”, mas com ar muito sisudo e de dedo em riste, a abanar, virado a nós. Podia ser nosso Pai:

- Oiga, con Psst! Psst! se llaman los perros!...

E foi-se…

As Pesetas no fim, metemo-nos num barco de volta a Barcelona, sem direito a beliche… sentados numa cadeira, toda a noite.

Partida para Valência e Madrid no “ovo”, obviamente…


A caminho de Madrid
Domingo de Páscoa de 1963 em Madrid!

Um dia glorioso, cheio de Sol, que nunca mais esqueci e que celebro todos os anos desde então a pensar nesse dia. Parecia que tínhamos uma família de um milhão de irmãos e primos. Toda a gente falava com toda a gente na rua…

Os nossos 21 anos e o nosso deslumbramento ajudaram também muito.


Madrid

No dia seguinte, 2ª Feira, tínhamos de estar na Base. E as pesetas reduzidas a 7… para o caso de ser preciso telefonar.

Foi uma difícil retirada, muito apressada, para a nossa base aérea.
 

Chegámos a Salamanca uma semana depois da partida.
 

Com 7 Pesetas ainda nos bolsos, e uma grande lição:


- Psst!, Psst! nunca mais!…

 E umas quantas novas grandes paixões:



  • Espanha, sempre!
  • Barcelona, Gaudi e a Sagrada Família.
  • Madrid.
  • A Catedral de Palma de Maiorca.



(Actualizada em 25 de Abril de 2014)




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