Pedaços de Vida- Memória Colonial


Em Homenagem ao meu Pai,
que soube ser um Ser Humano no meio do Portugal Colonial.

Em 1945 o meu Pai foi colocado em Moçambique, como Secretário de Circunscrição. Um posto abaixo da autoridade máxima regional colonial: o Administrador era a autoridade suprema em qualquer localidade importante. Era autoridade civil e policial. O Administrador só estava abaixo do Governador do Distrito, que vivia nas capitais dos Distritos.

A primeira terra onde fomos parar em Moçambique tinha, tem ainda, um nome bastante original:

Maganja da Costa.

Uma terra pequena do Distrito da Zambézia, rica no cultivo do arroz.
A Zambézia, capital Quelimane (banhada pelo Rio dos Bons Sinais) era considerada o celeiro de Portugal. Arroz, cana-de-açúcar, algodão, copra (o maior palmar do Mundo) chá, com as grandes caixas em madeira a dizerem “Made in England” ao embarcarem nos navios de carga em Quelimane. Eu vi...

Estrada para a praia da Zalala, Quelimane, hoje (alcatroada...) no meio do maior palmar do Mundo.

Tínhamos embarcado em Lisboa em Setembro no navio Moçambique, A minha irmã mais nova com 15 dias de idade. Eu com 4 anos. A minha irmã Lourdes tinha 12 anos.

Lembro-me perfeitamente de haver muitas fagulhas já apagadas de carvão que saiam pela chaminé daquele grande navio.

Foi no "Moçambique" que viajámos para o Índico

A casa do Secretário (o meu Pai) tinha, como todas as casas em África naqueles tempos, um grande quintal. Mais ou menos do tamanho da Praça de Londres em Lisboa…

E por simples observação cheguei à conclusão que tudo quanto havia neste mundo ou vinha do chão ou vivia em cima dele. Logo, o chão é bom! Vai daí, qualquer ferida que eu tivesse era curada esfregando a parte ensanguentada no chão, ao pé dos patos e galinhas, cães e gatos, porcos e perus que por ali viviam e se aliviavam… Sempre fui muito saudável, graças a esta mesinha caseira.
E tenho pena dos putos que não podem por o pé no chão porque é uma porcaria…

Casa do Administrador, com a sua típica varanda, anos 30.

Com 5 anos feitos, era evidente a minha vontade de saber ler as revistas de Banda Desenhada que o meu Pai me dava e que a Lourdes me lia na varanda, como o “Diabrete” ou o “Cavaleiro Andante”.



A revista Diabrete deliciou os mais jovens portugueses no período da 2ª Guerra Mundial, tendo o seu início em 4 de Janeiro de 1941, terminando a sua publicação 887 números depois em 29 de Dezembro de 1951. Começou por ser semanal (até ao #261), terminando como publicação bissemanal. Além da banda desenhada, o Diabrete publicou contos, organizou concursos e espectáculos, além de várias separatas de construções.

Por: José Vitor Silva
Como tal e depois de o meu Pai pedir ao Professor Primário (porque ainda não tinha idade para frequentar a escola) lá fui para as aulas, o mais novo de todos, com um daqueles mini garrafões empalhados de vinho da Madeira cheio de água.

Só assistia. Nem estava matriculado. O único aluno de uma espécie de jardim infantil que nem existia.

E assim aprendi mesmo a ler… com 5 anos.

Esqueci-me de dizer que o único branco dentro da sala de aulas era eu. O Professor que me ensinou a ler era um Moçambicano negro. Um grande Professor que nunca esqueci!

Mas a minha infância não é a razão desta história sobre o Colonialismo.

A descolonização era inevitável e deveria ter sido feita muito mais cedo. Mas na altura em que foi feita, com muitos exemplos como os que eu presenciei, era já difícil não ser em termos incondicionais.

É claro que nem todos os brancos se portaram de modo a deverem ser julgados num tribunal internacional dos Direitos do Homem. Se fosse hoje, eram certamente.

A família Cavaleiro foi parar à vila da Maganja da Costa em 1945. O meu Pai já vinha de 20 e tal anos de Guiné (onde eu nasci) e já era funcionário Administrativo: Chefe de posto.
Em 1920, com 18 anos, o meu Pai, por não querer passar do 9º ano, foi mandado para a Guiné para aprender a viver… o meu Avô era Médico do Exército, Major.

Na Guiné o meu Pai perfilhou uma filha de uma relação com uma mulher nativa da Ponte do Corubal.
 
A minha irmã Lourdes veio com ele já depois de casado com a minha Mãe. E foi ela quem ajudou a criar os outros 3 filhos que os meus pais tiveram. Éramos 4 irmãos. Sempre vivemos juntos até a vida nos separar.

Na Guiné o meu Pai vivia no mato, em muito pequenas povoações por razões que se prendiam com o cargo que ocupava. E desde sempre soube viver em harmonia com a população local, sem ter problemas raciais ou de qualquer outro tipo.

Mas quando chegou à Maganja da Costa as coisas começaram a mudar. 1945.

Por exemplo, eu lembro-me de ver, no meio da vila e ao pé da Escola, uma espécie de carril de caminho-de-ferro, com uns 4 ou 5 metros de comprido que servia para expiação de penas disciplinares dos naturais da terra. Uma pena ordenada pelo Administrador, chefe do meu Pai.

Maganja da Costa, anos 30.

De manhã, dois homens que chegavam da prisão acorrentados um ao outro agarravam no carril, um em cada ponta, assentavam-no cada um num dos ombros e lá se “entretinham” o resto do dia, de pé, carril num ombro ou no outro, até ao entardecer. Depois recolhiam novamente acorrentados à prisão para passar a noite. E esta cena repetia-se até ao fim da pena.
Quando alguma individualidade importante ia visitar a terra, o carril era enterrado superficialmente de modo a não ferir susceptibilidades…

A Maganja da Costa era e ainda deve ser, uma terra fértil para o cultivo do arroz. Essas artes requerem muita mão-de-obra na altura da sementeira mas especialmente durante a colheita.
O Administrador encarregava-se pessoalmente de conseguir a mão-de-obra necessária. É claro que o “voluntariado”, a maior parte das vezes, era conseguido com longas filas de gente amarrada uns aos outros, em longas filas indianas, a caminho do trabalho.

E o Administrador, no fim da colheita, no 1º ano que lá passámos, foi presenteado com um automóvel novo, que toda a gente da terra viu (e era mesmo para ser visto) porque vinha em cima de um camião e porque foi devolvido por ter uma amolgadela. Venha outro!

Esqueci-me de dizer que a mão-de-obra também compreendia mulheres grávidas que passavam o dia a apanhar o arroz, curvadas, dentro de água.



Não me lembro de ouvir comentários, tinha 4, 5 anos, mas acho que o meu Pai devia sentir-se mal naquele ambiente.
Até que um dia…

No gabinete que compartilhava com o Administrador, viu chegar um embrulho dirigido ao chefe. Outra oferta dum arrozeiro. Já depois do automóvel.

Era um cavalo-marinho.

Uma espécie de chicote feito com pele de hipopótamo, outrora usado como castigo. Consiste basicamente numa espécie de punho em madeira, forrado a pele e que na ponta tem três tiras de pele, cada uma com uma bola rija na ponta.

Há-os muito bonitos, como este era. Muito trabalhados, com altos e baixos-relevos feitos à mão. Mas quando batem na carne nua, com força, é muito pior que um chicote!

Pois o senhor Administrador desembrulhou deliciado o belíssimo cavalo-marinho e disse entusiasmado:
- Vou já experimentar!

E saiu porta fora.
Com o meu Pai atrás dele, pronto para o pior.

O senhor Administrador deu a volta ao edifício, na grande varanda colonial, coberta.

E nas traseiras encontrou um velho sentado à sombra.
Um alvo óptimo para a experiência…

Levantou o braço e à 2ª ou 3ª investida tinha o meu Pai a esmurrar-lhe a cara.
Ali à frente dos negros todos…

8 anos depois do devido, o meu Pai conseguiu ser promovido a Administrador, cargo que foi exercendo interinamente durante uns anos, mas sem a promoção efectiva nem o ordenado correspondente.

Mas no dia em que foi transferido daquela terra (ocorrência muito frequente e normal na sua profissão) tivemos uma grande surpresa.

O camião carregado com os pertences pessoais da família (não havia mobília porque todas as casas do Estado estavam apetrechadas com tudo) já pronto a partir, com a gaiola do gato no cimo de tudo, o meu Betinho, de seu nome… não conseguiu arrancar dali.

Uma multidão de gente agradecida apareceu de repente, do nada, de todos os lados, com muitas ofertas (galinhas, ovos, etc) a despedir-se daquela família que nunca mais se esqueceu deste momento muito pouco habitual.

E foi assim que saímos da Maganja da Costa.

Em grande! Mas com muita emoção.


Ainda não consegui lá voltar.

Tinha 5 anos mas lembro-me de tudo isto, quase 70 anos depois...



(Actualizada em 18 de Abril de 2014)








2 comentários:

  1. Boa noite, JVS,
    Sou moçambicano e tenho origens da Maganja da Costa. Terá conhecido, no período que descreve, um tal Pedro João Pereira Lopes? Creio que também trabalhava na administração. Segundo ouvi dizer, é meu bisavó. Agradecia qualquer informação. Abraço

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    1. Meu caro Pedro. Peço desculpa de só agora lhe responder. Eu saí da Maganja da Costa com 5 anos e de pouco mais me lembro para além do que conto e com a ajuda das memórias dos meus Pais, que infelizmente já não me podem ajudar mais… No entanto faça uma busca no Google, onde encontrei muitas referências com esse nome. Mas se calhar é sobre si mesmo, Dr Pedro Pereira Lopes… Abraço

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