segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Minha Força Aérea - O atribulado início do meu curso em T-33 na Ota

T-33

O nosso começo como alunos da EICPAC na Ota, 1964, não foi brilhante...



Logo da Esquadra de Instrução Complementar de Pilotos de Aviação de Caça. "Os Caracóis"



Num belo dia de 1964 os quatro alunos do P1/62 que, a convite da Força Aérea, se tinham oferecido para os jactos, saem de Sintra rumo a Vila Franca de Xira onde chegam de comboio.

Á espera destes quatro brilhantes aspirantes a Alunos Pilotos da Aviação de Caça, em vez de uma qualquer viatura normal que nos levasse para a Base, fomos presenteados com o camião das compras para a messe.

E foi lá atrás no meio de batatas, cebolas, peixe, carne e laranjas, sentados em cima de tudo isto, cobertos por uma capota de lona verde, que entrámos triunfalmente na Ota. 


As armas da Base Aérea da Ota


A condizer com esta finura de trato esperava-nos um quarto para os 4 em que o espaço entre as camas não dava para andar. Tínhamos que passar por cima das camas.


A alimentação estava também de acordo. Numa determinada altura comemos 3 refeições seguidas de feijoada. A dieta indicada para pegadores de touros e não para se voar aviões pressurizados.


Simultaneamente a nossa saúde, inexplicavelmente, deu para nos sentirmos mal, com palpitações e pulsações elevadas. Uma visita ao médico, duas visitas, e a coisa não melhorava.


Nada disto, para nós, era compatível com o voo, que já tinha começado.


O ambiente tornou-se explosivo e os 4 aviadores deram por mal empregue o dia em que se ofereceram para os jactos, com o consequente acréscimo de 3 anos de tropa.


E foi um passo até á decisão unânime:


- Nós queremos desistir do curso!

- Não queremos voar mais o T-33!



Informado o Comandante da Esquadra, Tenente Vasquez, a quem já nos ligava uma certa amizade pelo bom trato que nos dava e após várias diligências dos instrutores aos 4 desiludidos pilotos ainda não brevetados (estávamos a começar a ser os VCCs…) chegou-se a um impasse.


Solução?


Coronel Diogo Neto, comandante da Base.


Na manhã seguinte os 4 irredutíveis aviadores foram civilizadamente levados ao gabinete do Comandante da Unidade.


Assim que entrei percebi imediatamente onde é que realmente estava.


 
Atrás da grande secretária, de pé, as mãos postas á frente do corpo, alinhados, as medalhas ao peito, estavam o nosso Comandante de Esquadra, o Médico da Unidade, o 2º Comandante da Base e o Comandante, Coronel Diogo Neto, que sabíamos ter sido promovido a Tenente Coronel e a Coronel por distinção por feitos em combate no Ultramar

Por detrás destas egrégias figuras, as bandeiras militares e da República Portuguesa impecavelmente colocadas. E os austeros retratos de Salazar e Américo Tomás.
 

A lembrar-nos a delicadeza do momento.
 

Os nossos chefes olhavam-nos com alguma gravidade, pareceu-me. Porém sem hostilidade.

Era só um assunto muito sério.

Pela primeira vez nas nossas vidas estávamos perante a nossa maioridade, em pleno, entregues a nós próprios e aos princípios que a família e a escola nos tinham ensinado.




Era mesmo um assunto muito sério...





E foi a partir desse dia que aprendi a ser maior, mais responsável. Foi a partir daí que a Força Aérea passou a fazer parte de mim.


Foi também nesse dia que "conheci" o Coronel Diogo Neto.


Feitas as apresentações e sabido o que nos levava aí, o Comandante da Unidade explicou-nos o que éramos, onde estavamos e o que de nós era esperado.


Com civilidade, sem ameaças mas com a autoridade que legitimamente representava.


Finalmente fez-nos ver que, como militares, não havia espaço para desistências. Ou chumbávamos no curso, ou não chumbávamos.


Qualquer outra alternativa deixaria as nossas chefias sem alternativa.


E todos nós trazíamos uma boa classificação do T6 feito em Salamanca, na Base Aérea de Matacán.

Não houve pressão alguma. Esperava-se só uma resposta da nossa parte mas também um sinal de que aquilo de que legitimamente nos queixávamos seria pelo menos avaliado



T-33



Postas as coisas neste pé, decidimos anular o pedido de renúncia ao curso. Sabíamos que havia um irredutível entre nós mas decidiu obedecer temporariamente às regras.

Reconhecidas também as nossas necessidades, fomos finalmente realojados em dois quartos contíguos, e com dieta melhorada.

Quem “desistiu”, mesmo, sentiu-se mal no voo que fez a seguir e foi dispensado, voltando a Sintra, sem quaisquer problemas.


Os outros 3 acharam que “desistir” ou até chumbar seria uma derrota pessoal.


Todos os nossos Instrutores nos receberam de novo de braços abertos e fomos presenteados com “voos para meninas” só para descontrair.

Duvido que outra Força Aérea ou ramo militar tivesse trato mais civilizado para com pilotos rebeldes.


O meu instrutor era o Tenente António Quintanilha. Mais tarde o gémeo Luís, também.


A ambos devo o muito que aprendi.


De trato difícil, mas ensinaram-me muito.


O nosso local de trabalho

Acabámos o curso, bem classificados, respeitados pelas nossas atitudes e pelo modo como, em conjunto, resolvemos os nossos problemas.


Eu, o Ary e o Leite da Silva

O que desistiu "acabou" num looping demasiado baixo em Angola, com outro VCC. Num T6.


Um abraço para vocês dois, amigos. Lá onde estiverem.


Algumas imagens pertencem a ilustres desconhecidos a quem peço desculpa por não os nomear.



 (Actualizada em 20 de Novembro de 2014)






2 comentários:

  1. Caro Amigo:
    Gostei dessa passagem da sua vida na FAP.Pois, lembro-me que na nossa "ARMA",sempre houve "Rebeldes",claro,com sentido de Responsabilidade,Zelo e Profissionalismo.O objectivo era sempre,acabar o curso,com a melhor nota possível!
    Um abraço,
    Carlos Sequeira,o largado em operacional,pelo seu irmão J.Cavaleiro,no Leste de Angola.

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  2. Obrigado amigo. Costumo dizer que ainda não saí da Força Aérea. Como homem e como profissional, devo muito àqueles 7 anos que lá passei, incluídos os dois em Moçambique. Gostei também de saber que o meu irmão lhe apresentou a guerra que tivemos de travar no Ultramar. Pelos vistos temos muita coisa em comum... Grande Abraço!

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