terça-feira, 25 de outubro de 2011

A minha Força Aérea - Luz do óleo acesa em F-86F



 As coisas que podem acontecer a um jovem aviador aprendiz!

Os primeiros voos em F-86, na Esquadra 51 em Monte Real, eram sempre uma experiência vibrante. Todos queriam cumprir à risca a exigente disciplina e estar à altura do que era esperado de todos nós. Afinal tínhamos a sorte, mas também o mérito, de voar o avião no topo da hierarquia de todos os da Força Aérea Portuguesa.

Um avião monolugar para o qual não havia simulador. Era entrar e fazer o primeiro voo consciente de que poderia ser o último. Mas na nossa Força Aérea nunca aconteceu…

E numa esquadra em que havia Oficiais da Academia Militar, de Majores (o nosso Comandante de Esquadra) a Alferes (estes, obviamente, ainda sem muita experiência) Sargentos-ajudantes e 1ºs Sargentos (muito, muito experientes) e Furriéis (a caminho de virem a ter alguma experiência…) as saudáveis rivalidades nunca chocavam com as competências e os deslizes de uns e outros.

Deslizes, deslizes, todos tínhamos. Mas pagávamos por isso. Em multas a que chamávamos bicadas. Em escudos depositadas num mealheiro que era aberto ao fim do mês para ajuda de jantares. Indescritíveis jantares onde valia tudo. Por vezes a convite de Administrações de Caves de vinhos, cujas primeiras "vítimas" eram eles mesmos, os Administradores. Mas a amizade era assim cimentada. Tempos de guerra, de quem já lá tinha estado ou para lá caminhava ou voltava. Amizades destas perduram toda a vida. Quase 50 anos depois as relações estão intactas!

O Comandante da Base, Coronel Soares de Moura, promovido a Tenente Coronel e a Coronel por distinção, era, obviamente, o mais digno aviador.

No caso dos Furriéis, Ary, Leite da Silva e eu, estas questões entre nós não se punham em termos de rivalidades mas sim num feroz combate ao erro, à indisciplina, ao facilitismo. Éramos muito críticos uns dos outros. E como vivíamos numa casa que alugámos no meio da vila de Monte Real, era fácil este lavar de roupa suja.

Só entre nós, normalmente depois do jantar, de modo a que no dia seguinte as coisas voltassem ao rigor que nos impúnhamos. A nossa grande amizade (que perdura e perdurará sempre, afinal ambos são meus Padrinhos de Casamento…) nunca deixou nenhum de nós os três para trás.


Ary Meca Murraças, Leite da Silva e eu

Além disso tínhamos os Sargentões todos à perna! Ai de nós se algum fugia um milímetro da linha…

Aquela Base Aérea foi a minha maior escola de vida.

Muita camaradagem mas só para quem cumpria. Era preciso ser o melhor, ou pelo menos demonstrar que se lutava para isso.

E quando se subia para o avião, naqueles dois passos mágicos, sem escada, caia-nos subitamente em cima todo o rigor necessário para a execução rápida dos procedimentos. O timming era para cumprir, os procedimentos para executar à risca mas a segurança não era para desprezar, de modo algum!

Quando o Comandante da Esquadrilha (4 aviões que iriam voar juntos) estivesse pronto, os outros três aviadores dentro dos seus aviões já deviam estar à espera do sinal para deixar o estacionamento rumo à pista.

Nos primeiros voos era uma terrível azáfama para fazer tudo bem e no tempo certo. Faltava-nos sempre o tempo.

Sobravam sempre as mãos...

E quando uma contrariedade acontecia era como se o mundo estivesse prestes a acabar. Principalmente se era fruto de algo errado que tivéssemos feito.

Quando tal acontecia, com os segundos a passar aos dois e três de cada vez, havia que voltar a verificar muito rapidamente os procedimentos todos de novo antes de declarar a nossa eventual incapacidade em prosseguir a missão.

Situação delicada… fui eu que meti os pés ou isto está mesmo a acontecer!?

Num dia assim, um aviador dos menos experientes mas muito dedicado e competente descobre que tem uma luz acesa, quando já estavam todos prontos para sair da placa de estacionamento com os reactores a rugir.

O comandante da Esquadrilha, ciente do breve atraso, tentava já perceber o que se passava sem querer apressar o novato.

A luz, mais brilhante que o Sol, como lhe parecia naquele aperto, mesmo no meio do painel de instrumentos, faiscante à frente dos seus olhos era amarela e dizia:

-  “Low Oil Pressure”.

Terrível, terrível!

Avaria grave, quando se sabe que os motores precisam de óleo para suavizar o atrito entre as partes que se movem a grande velocidade. Sem óleo um motor está condenado.

E aquele voo também parecia estar condenado, logo à partida.

- É preciso ter azar…

E agir com rapidez!

O motor pode gripar, como o de qualquer corta relva…

Enfim, um grave impedimento para a execução do voo a pedir a intervenção pronta da Manutenção, ainda por cima agora que já estão todos os reactores a trabalhar o que impede uma circulação livre à volta dos aviões pelo perigo de alguém ser sugado ao passar em frente deles.

O nosso aviador aprendiz faz sinal ao Cabo Mecânico que sobe lá acima e inteirado do problema, estudada a situação rapidamente, considera-se também incapaz de dar andamento ao problema e vai chamar o chefe da Linha da Frente, sempre a andar por ali a supervisionar as coisas.

- Luz do óleo do motor, acesa? Coisa estranha e pouco comum… vamos lá ver o que se passa.




O nosso 1º Sargento Mecânico, daqueles homens que todos nós, pilotos, conhecemos, profundamente conhecedores dos aviões que têm a seu cargo, sábios também na maneira de lidar com aviadores a cheirar ainda a pó de talco, ou mesmo dos outros a cheirar a Gitanes sem filtro e dentes amarelos, dirige-se rapidamente ao avião e sobe.

- Então, o que se passa?

O stressado aviador, estica o braço e com um dedo aponta, infeliz, para a ofuscante luz amarela.

- A luz do óleo! A luz do óleo!

Mas ninguém o consegue ouvir.

Com todo aquele barulho e de capacete na cabeça, o diálogo não era fácil. Mas lá se entenderam.

O nosso muito competente 1º Sargento, chefe da Linha da Frente, o barulho de todos aqueles reactores a entrarem-lhe pelos ouvidos, dá uma rápida olhada a todos os instrumentos do cockpit, analisa a situação e embora habituado a algumas asneiras naturais em novatos, é com alguma bonomia e muito espanto, mas com um sorriso que qualquer Pai faria em situação semelhante, que dá uma pequena palmada no ombro do aviador e diz-lhe bem alto, tão alto que ele ainda hoje deve ouvi:

- Ó nosso Alferes! Porque é que não experimenta pôr o reactor a trabalhar!?...

Para quem não está dentro destes assuntos, aquela luz só acende quando, estando o reactor a trabalhar, falha a circulação do óleo pelo motor.

Ou, como neste caso, com o reactor ainda parado… à espera que alguém lhe tivesse ligasse a ignição, como já devia ter feito… e por stress se esquecera.

Este muito jovem Top Gun era muito divertido, muito bom camarada, excelente piloto e com uma sólida formação.

Ocupou mais tarde altos cargos na Força Aérea.

Para ti, um grande abraço...



(Actualizada em 19 de Abril de 2016)





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