sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Pedaços de Vida - Parabéns Quelimane


Hoje é o dia da Cidade de Quelimane. Há mais de 70 anos foi elevada a Cidade. No dia 20 de Setembro de 1942. Tinha eu 1 ano e pouco de vida.

Foto recente de Quelimane


Quelimane foi decisiva para a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia. Foi aqui que Vasco da Gama, em 1498, teve notícias do muito Comércio que já naquela altura por ali se fazia com a Índia.

Foi aqui que iniciou as diligências para contratar um Piloto que o guiasse até á Índia aproveitando as Monções.

A cidade no início do Sec XX

Foi aqui que me apaixonei pela primeira vez.

Exactamente no dia 5 de Julho de 1953. No dia em que fiz 12 anos. No dia em que desembarquei naquele cais do Rio a que Vasco da Gama chamou "dos Bons Sinais", que dá o nome a este Blogue.

Vinha de um colégio interno (Instituto Portugal) onde estava há dois anos. Fiz a viagem de barco desde Lourenço Marques num navio costeiro, sozinho, numa viagem de sete dias.

Lurio

Dois anos antes o meu Pai metera-me neste mesmo barco ou noutro semelhante não me lembro para iniciar a 5ª classe naquele Colégio por não haver mais que a 4ª classe em Pebane onde morávamos na altura e onde o meu irmão mais novo nasceu.

Tinha eu portanto 10 anos…

A cidade e o Rio dos Bons Sinais

Depois do almoço após o barco zarpar de Quelimane para Lourenço Marques, os seis passageiros que eu nunca tinha visto, já que não conhecia ninguém a bordo, reuniram-se no bar para o café e o bagaço da ordem.

Conversa puxa conversa eu a um canto muito calado ouvi um dos meus companheiros de viagem dizer bem alto:

- Logo vamos ao pacote ao puto.

Nos meus primeiros 10 anos de vida sempre a viver no mato sem miúdos brancos com quem brincar (os meninos pretos eram os meus únicos e melhores amigos) nunca tinha tido medo de nada a não ser de uma viagem de almadia (piroga feita de tronco de árvore escavado) com os meus pais numa travessia em dia de temporal e de uma cobra que às tantas apareceu do nada entre as cadeiras em que eu e a minha irmã mais velha, a Lourdes, nos sentava-mos ela a ler-me o Cavaleiro Andante.

Foto do porto de Quelimane muito antiga

Aquela frase dita num bar de um pequeno barco costeiro no meio do Oceano Índico entre gente desconhecida eu com 10 anos sozinho sem família nem ninguém a quem pedir ajuda, levou-me a lutar contra o que me pareceu vagamente uma ameaça.
Nem eu sabia o que em gíria “pacote” queria dizer.

Nem eu sabia que havia sexo e muito menos pedofilia.

Mas o instinto de sobrevivência levou-me a sair calmamente do bar e a desaparecer naquele pequeno barco ilha minúscula no grande Oceano Índico.

Resultou.

Era noite cerrada quando finalmente o Comandante do pequeno navio me encontrou escondido debaixo de um oleado dentro de uma baleeira.

Acalmaram-me e disseram-me que estavam a brincar comigo, brincadeiras parvas já se vê.

O resto da viagem decorreu sem mais incidentes.

Comecei por dizer que Quelimane foi onde me apaixonei pela primeira vez. Paixão que durou uns bons 8 anos. Pudera a Bela era a miúda mais gira de Quelimane por quem todos se apaixonavam quando lá chegavam e era minha vizinha e irmã de um dos meus3 ou 5 grandes amigos, até hoje.

Apaixonei-me depois variadíssimas vezes mas a última... é que foi fatal! Vivemos há 26 anos juntos.

Mas Quelimane foi muito mais que uma paixão.

Foi onde aprendi a conviver com gentes muito diferentes de mim sem isso causar conflito algum.

Perfeita analogia com o que aconteceu ao Vasco da Gama o que me enche o ego mas com pouca validade como se perceberá…

No Colégio de Freiras onde estudei, o Colégio do Sagrado Coração de Maria porque não havia Liceu, contrariamente ao que se passava em Portugal Continental, na Colónia de Moçambique (na altura ainda não era uma Província) todas as salas de aula tinham rapazes e raparigas, cristãos e nessa altura eu Comungava todos os dias, protestantes, muçulmanos com o seu Ramadão que respeitávamos muito por o cumprirem à risca e simultaneamente todas as obrigações académicas incluindo desporto, hindus, mestiços, goeses, pretos e brancos tudo à molhada e com fé em vários deuses..

O Colégio novo que eu já não conheci mas vi em obras


A Igreja de Nª Srª do Livramento, hoje em ruinas
O Mundo para mim ainda é assim. Uma grande panela onde cabe tudo e todos têm direito ao mesmo lume aos mesmos temperos e acabam cozinhados todos ao mesmo tempo.

Uns têm melhor sabor que outros.

Nem sempre se gosta de tudo.

Mas há sempre quem goste. É normal assim.

Em Quelimane aprendi a andar a sério de bicicleta

Pratiquei muito também o fascinante desporto de “roubar” almadias “perdidas” e então remar ao longo da marginal e pelos mocurros acima que são pequenos riachos, na maré enchente e depois descê-los a toda a velocidade na vazante. Mas depois deixava-as onde as tinha tirado.

Aprendi a desobedecer e a ser penalizado da maneira que mais dói.

Um fim-de-semana em que estava proibido de ir ao cinema se calhar por más notas pisguei-me a meio da tarde como se fosse dar uma voltinha de bicicleta.

Mas o meu Pai, Administrador de Quelimane e portanto Comandante da Polícia é que desconfiava onde é que eu me tinha metido entretido a desobedecer-lhe.

Era neste edifício, a Camara Municipal, que o meu Pai trabalhava

A meio do filme tudo às escuras e em silêncio profundo as pipocas eram ali desconhecidas ouve-se na coxia uma frase em voz bem alta e muito afirmativa:

- Minino! Sr Administrador está chamar!

Era mesmo um Cipaio impecavelmente fardado de cofió e tudo. (Polícia negro com o característico barrete castanho) de dedo em riste a apontar para o meio da fila exactamente onde eu estava sentado, já todo encolhido.

Felizmente o cinema só levava 200 pessoas e TODOS sabiam quem eu era…

Em Quelimane aprendi a nadar bem na Piscina Municipal construída em 1937 com o treinador do Campeão Nacional de bruços João Godinho meu colega no Colégio. O Treinador chamava-se Passeti.


A legenda desta foto diz: Clarinha Soares de Albergaria Ferreira Martins, tia da Clarinha Múrias, duas amigas e a sua mãe Petitinha Soares de Albergaria Brandão de Mello. Na piscina de Quelimane, 1949.

Em Quelimane comecei a tirar a carta de condução teria 16 anos com um Instrutor que às tantas adormecia e eu andava por ali fora sozinho no meio da cidade a embalá-lo docemente não fosse ele acordar e lá se ia o gozo.

Foi em Quelimane que a minha vida sem eu o saber tomou o rumo que me havia de levar até à Reforma:

- Aprendi a voar num Piper Cub do Aero Clube da Zambézia com o Instrutor Câmara e fui largado (voei sozinho) com 16 anos e 8 horas de voo. Com subsídio da Mocidade Portuguesa pois claro.

Era mais ou menos assim...

Foi em Quelimane que fiz outro dos 2 ou 3 ou 4 ou 5 grandes amigos para a vida. O Pedro era filho do Governador Civil, chefe do meu Pai.

Nós os dois aprendemos a hipnotizar com o curso do Sr C. H Ciernan que encontrámos na Biblioteca Municipal.

Comprei anos depois os livrinhos e ainda os tenho.

Era o Joel a nossa “vítima” um colega do Colégio. Com ele conseguimos ler o pensamento das pessoas e o meu amigo Pedro sabia sempre quando devia ir para casa porque o Joel o avisava dos passos do Pai não fosse o “velho” chegar primeiro e ele não estar lá como devia. Nunca falhou. Mas a Madre Albert soube das nossas actividades "paranormais" e fez-nos jurar que nunca mais o fazíamos e por ali nos ficámos.

O Palácio do Governador, a casa do Pai do Pedro




Reunião de Administradores em Quelimane. O Governador Dr. Gouveia e Melo está na frente de casaco branco e o meu Pai logo atrás dele no ombro esquerdo.

Também foi em Quelimane que aprendi que as diferenças entre as pessoas são para serem respeitadas até ao último grau.

Um fim de tarde apareceu um Cipaio aflito em nossa casa e pediu ajuda pessoal ao meu Pai, na qualidade de Comandante da Polícia:

- Sr. Administrador! Tem um branco bêbado na Mesquita sentado na cadeira do Profeta a dizer:

- Agora aaaadorem-me!

O meu Pai quis ir prendê-lo pessoalmente para dar o exemplo.

Foi em Quelimane que comecei a ver o que era política.

Nas eleições em que o Gen Humberto Delgado participou os comícios eleitorais eram em recintos fechados com a devida autorização obrigatória.

Ora a União Nacional do Estado Novo do Salazar resolveu fazer um comício em Quelimane e nem se preocupou com autorizações nenhumas.

Foi o Pai do Pedro, o Governador Civil, que convenceu o meu Pai a não "mandar prender aqueles gajos todos". Era o que lhe apetecia fazer…

Quando saí de Quelimane após o 5º ano porque não havia 6º no Colégio não sabia que nunca mais viveria naquela terra tão amada.

Mas não faz mal.

Eu nunca saí mesmo de Quelimane…

Parabéns Quelimane!!!
Parabéns Quelimanenses!
Parabéns Chuabos!



(Ultima actualização em 14 de Abril de 2014)




2 comentários:

  1. caro Gabriel Cavaleiro

    Leio com interesse as suas histórias sobre este pedaço do nosso Portugal. O meu sôgro viveu em Quelimane, quando miúdo, e o seu pai foi enfermeiro-chefe no hospital, penso que nos anos 30 a 40. Tem alguma foto do hospital, ou link que eu possa consultar?

    abraço
    João Amorim

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  2. Olá Sr. Gabriel, andava aqui à procura de fotografias do Carnaval da Madeira de 1983 e deparei-me com o seu blog e com o triste acidente. Li a sua reportagem, e acho que o senhor escreve e explica-se muito bem, quase que conseguimos visualizar tudo através de si :). Eu já sou nascido em 80 mas adoro história e tenho sempre muitas dúvidas relativamente à história de Portugal e ainda hoje não percebo porque Moçambique se quis separar de nós e porque fizeram guerra, mas fiquei muito contente em saber das suas aventuras em Quelimane e que Vasco Da Gama ali consegui a estratégia final para chegar à Índia :) isso vai contribuir para o meu relatório de história que está em constante evolução.
    O meu padrasto também foi piloto, nasceu em lourenço marques, mas cá em portugal nunca chegou a voar na tap só em Moçambique, nascido em 55 salvo erro de nome José Manuel Carolino (da?) Cunha, certamente não deverá conhecer mas tinhamos um hospedeiro que era muito amigo dele o Sr. ISRAEL BENOLI que ainda hoje voa.
    Enfim obrigado pelo tempo que dispôs em ler o meu desabafo e se tiver como explicar-me aquela história de Moçambique na sua própria pessoal fico agradecido.

    Cumprimentos

    Marco De Sousa Caneira

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