terça-feira, 25 de março de 2014

A Minha Força Aérea - Os Cavaleiros Guardiões do Império


Esta é uma história de Cavalaria passada num Império, fictício.


Uma Epopeia dos Falcões nos idos dos anos 60 do Séc. XX




Como se sabe não há Império que dure sempre e na verdade onde haveria um Império em pleno Século XX cujo território se espraiasse por todos os grandes Oceanos da Terra?

Onde existisse um país espalhado por três Continentes diferentes?

É pois uma ficção cujos personagens, os Cavaleiros Guardiões desse Império, eram admirados e acarinhados pelo povo que no entanto vivia subjugado por uma ditadura.

E como acontece sempre...

Um dia o Império, puf!... Ruiu.

Como em Roma, como na Pérsia, como em Moscovo até.

E os novos pequenos guardiões do pequeno país que sobrou reescreveram a História, apagaram todos os vergonhosos feitos do passado que assim deixou de existir e inventaram, num pequeno território, algo que pretendem ser um país como alguns outros.

Reescreveram-na de tal maneira que levaram o povo a considerar que o facto mais importante de toda a sua História foi o 25 de Abril! Sondagem de Abril de 2014 no jornal Expresso

Isto também é uma ficção, claro.

Mas aqueles feitos desta fictícia história de Cavalaria que vos quero contar, para que a percebam melhor, necessitam de um ambiente geo-referenciado (eu, mesmo Reformado, também tenho um smartphone... já o tinha, senão…).

Mas não se esqueçam que é somente uma História de Cavalaria, passada num tempo em que a Guerra varria o Império, época de muitos heroísmos, de muitas traições também.

Naquele tempo...

Os Cavaleiros estavam em plena época de treino na Carreira de Tiro de Alcochete.

Eram pilotos dos aviões a jacto mais evoluídos daquela nobre Confraria a que ainda chamamos, com muita honra, a Força Aérea Portuguesa, que existia naquele tempo e que nos dias de hoje continua a ser uma referência de bem-fazer, de bem servir.

Eram, como hoje ainda são, os Falcões.

Aqueles Cavaleiros guardiões volta e meia juntavam-se em grandes banquetes, alguns memoráveis, fora do Palácio dos Falcões onde habitavam, como este banquete de que vos dou notícia porque o li num amarelado pergaminho que consultei numa noite de muito frio, à lareira, com o meu gato Arnold ao colo. O Silvester não é muito de colos…

E vendo melhor, pode ser que eu também lá tenha estado…
 

Naquele dia os Falcões escolheram uma adega particular perto de uma praia com um grande promontório onde reza a história um outro Cavaleiro, D. Fuas Roupinho (atenção aos mais novos: este existiu mesmo… já não vos ensinam, eu sei) uns bons 784 anos antes, ao raiar do dia 14 de Setembro de 1182, na perseguição a um veado, travou a montada mesmo na beirinha de um precipício após uma breve prece à Virgem Maria:

- Senhora! Valei-me!.

Ainda hoje se pode ver no Sítio o resultado daquela travagem milagrosa.

Até deve ter feito faísca, para marcar assim a rocha…

Pois tudo isto fica muito perto do actual Castelo dos Falcões daqueles nobres Senhores.

Correu bem o repasto que era pago com o soldo dos nobres Cavaleiros. Ou melhor, era pago com as multas, em "bicadas", que lhes eram aplicadas por um qualquer deles quando alguém considerava que um dos Cavaleiros tinha cometido uma asneira.

E, como em Hollywood, aqueles banquetes nem sempre acabavam bem, nem sempre eram muito certinhos...

Àquele almoço, onde como era da praxe também compareceram o Falcão Mor e o Grande Comandante, acabou com os habituais prolongados discursos inflamados, desta vez em cima dos avantajados tonéis de vinho da adega, no meio de uma enorme vozearia onde ninguém ouvia ninguém mas todos concordavam com todos.

Nobre gente...



Acabado o almoço, reconfortados de fartos sólidos e imenso líquido, subiram às montadas e dirigiram-se para a praia onde muitos anos depois, ali mesmo ao lado o também famoso Cavaleiro Mc Namara cavalgou com grande mestria um grande monstro de mais de 20m de altura.


Não me digam que não gostam de Mitologia…


Lendárias paragens, estas. Recheadas com todas estas nobres histórias...

Um lugar mágico, certamente.


Chegados ao grande largo junto à praia, o magnifico Promontório à direita, no meio daquele lugar muito concorrido pelos muitos forasteiros que naquele sábado saboreavam o Sol do fim da tarde, os nobres Cavaleiros escolheram um espaço no meio da mais concorrida das esplanadas e juntaram as mesas suficientes onde coubessem todos.

Mas faltava ainda o Grande Comandante (que se atrasara, vá-se lá saber porquê…) Que o era não só dos Cavaleiros, mas de todo o Castelo a que os Falcões pertenciam. Um nobre cujos feitos memoráveis em combates pelas Terras do Demo lhe tinham valido duas promoções sucessivas.

Juntas as mesas, esperaram sossegadamente por ele. Chefe é chefe e sem ele, nada!

Até que…

  - Mas o que é isto?! Berrou o espantado empregado de mesa, toda a esplanada a ver, incrédula.
 - O que é que vem a ser isto?!
 - Isto o quê?!
 - As mesas!
 - O que é que tem?
 - O que é que tem?!… O que é que tem? Quatro mesas em cima umas das outras???!
 - E acha que cabíamos numa só?
 - Mas em cima umas das outras?!
 - E atão?!
 - Não vos sirvo nada!


E desandou, felizmente para ele...

Ao redor de toda a praça começa a juntar-se gente. O bom povo daquela nobre terra de pescadores.

Perante coisa nunca vista…

Afinal havia quem, à luz do dia, no meio da rua, afrontasse a podre normalidade daqueles tempos.

Havia quem afrontasse a ordem Superior e Divinamente estabelecida naquela ditadura.

Eram certamente seres poderosos. Só podia… e como tal o que é que mais poderia acontecer…

O silêncio começou a pesar. Quem serão estes... Pensava aquela muita gente já temente do que de desconhecido poderia ainda vir.

E eis que finalmente aparece o Grande Comandante, muito calmo sempre de semblante carregado e a dar-se conta daquela grande agitação em torno dos seus Cavaleiro Falcões!

 - O que é que se passa aqui?
 - Senhor Comandante, juntámos as mesas e o empregado diz que não nos serve o café!
 - Como?!
 - Não nos serve o café... foi o que ele disse!
 - Vamos já buscar a máquina do café!


Manda quem pode…

Levantaram-se todos de supetão, obedientemente como convinha e meia esplanada também!

Ui...

O dito café era antes um moderno snack-bar com toda a fachada em vidro. Óptimo écran para reproduzir completamente as muitas caras coladas, esborrachadas, a ver no que aquilo ia dar lá dentro…

No interior, poucos clientes, 2 ou 3, assistiam calma e silenciosamente.
Sentados ao balcão, aqueles bem vestidos e apessoados Cavaleiros em alegre convívio como se estivessem no Bar da Messe dos Oficias, pediam, com muitas palmadas no tampo:

 - Queremos café! Queremos café!

 - Não sirvo café a ninguém, respondia o indignado proprietário!


A montra já não tinha espaço para mais caras esborrachadas de atónitos cidadãos, na maioria autóctones, que estavam em pleno Reality Show.

 - Queremos café! Queremos café!

 - Vou chamar um polícia!


 - Olhe que um não chega! Tem de chamar mais...


E finalmente lá veio a Polícia da Esquadra ali perto. Mandaram dois ou três Agentes para controlar o motim.

A legítima autoridade presente tentou algemar um dos Cavaleiros que começava a asneirar em demasia mas o Grande Comandante agarrou-o por um braço e logo de seguida foram todos gentilmente convidados a seguir em procissão pela esplanada fora, para a Esquadra, custodiados pelos Agentes.

Em fila indiana. A furar literalmente através de um estreito corredor que se ia abrindo no meio de uma multidão que aplaudia em delírio, vibrantemente!

Simplesmente inacreditável mas só possível nesta ficção de Cavalaria Medieval…

É por isso que passei a respeitar ainda mais as gentes do mar. Nobre gente desta destemida Nação!

Chegados à esquadra com o “prisioneiro” de braço dado ao Grande Comandante, o guardião daquela unidade policial acedeu gentilmente que remédio permitir que o Grande Comandante, que se identificou verbalmente, fosse ao Castelo dos Falcões ali tão perto buscar as credenciais que o identificavam oficialmente.

O asneirento Camarada ficou como refém dentro da Esquadra.

Foi a mais sensata das soluções... Já que todos os demais Falcões se sentaram em amena cavaqueira nas altas escadas daquela Esquadra, completamente cercados por uma enorme multidão de intrigados mas alegres e vibrantes cidadãos daquela vila que no entanto aparentavam estar mais dispostos a dar a vida por eles do que a defender a autoridade e o bom nome locais.

Pelo menos parecia que ameaçavam isso... E na Esquadra a adrenalina subia.

E quando as coisas se podem complicar ainda mais, é certo e sabido que se complicam mesmo.

Nem 15 minutos depois aparece no largo um pequeno carro de matrícula francesa com um desvairado citoyen aos berros também.

Uma perfeita loucura aquele fim de tarde…

E declarou o seguinte, ao atónito Comandante da Esquadra:

- Fui abalroado por um Volkswagen preto! Ali mesmo à entrada da Vila! A matrícula do carro começa por "AM" (de Aeronáutica Militar, já se vê…) e o gajo… o gajo, veja lá, foi-se logo embora e ainda me mandou à merda!

O desgraçado do Comandante da Esquadra começou a arrepender-se e a ver a vida a andar para trás...
E com toda aquela ameaçadora gente ali mesmo à frente, do nosso lado, a torcer por nós.

Passada mais meia hora de grande emoção para todos os sitiantes e de completa descontracção entre os Falcões lá aparece um "novo" Comandante, agora devidamente fardado, ostentando discretamente (…) no peito os símbolos que a Nação achara por bem, por duas vezes, outorgar-lhe pelos muitos actos de bravura cometidos para com a Pátria. Promovido por distinção, sucessivamente a Ten Coronel e a Coronel...

Um pequeno intervalo para eu explicar melhor quem era este Senhor:

Em plena boda do casamento de um seu Camarada que viria a ser General (Galvão de Melo) este agora Comandante do Castelo dos Falcões, impecavelmente fardado, com a farda de gala, andava com um elegante prato com um enorme e delicioso bolo coberto de chatilly que oferecia às senhoras.

As que aceitavam ficavam com um bonito e farfalhudo bigode branquinho...

Voltando novamente àquela Esquadra da Polícia.

Após uma breve e protocolar conferência, as duas entidades soberanas da Nação ali representadas apertaram civilizadamente as mãos e tudo se resolveu com galhardia (não faço a mínima ideia do que teria realmente acontecido entre eles...)

Povo e guardiões da Pátria puderam assim voltar à sua vida rotineira.

Incluindo o asneirento Cavaleiro.

Ok…Falta o francês. Não me esqueci.

Este foi informado das circunstâncias e convidado a comparecer no dia seguinte no ninho dos Falcões para um almoço, pelo Grande Comandante.

E lá apareceu na manhã seguinte.

Enquanto comia umas coisas e bebia muitíssimo mais do que devia (é para aprenderes…) o seu pequeno carro foi completamente restaurado e ficou como novo.

Ao sair, o agora imensamente feliz citoyen e a sua gentil esposa tiveram de ser cuidadosamente acompanhados até à porta de armas não fosse ele falhar a pontaria entre os grandes portões, e com uma bela história para contar aos netos.

Isto podia ter ficado por aqui, não fosse a mania do costume de algumas pessoas não se conformarem por não ficarem nas fotografias.

Poucos dias depois o nosso Comandante irrompe no Palácio dos Falcões de semblante carregado como de costume e com um papel na mão que exibia ameaçadoramente. Percebia-se logo que o assunto era sério.

E dirigindo-se ao Falcão Mor, que era o Cavaleiro alado que comandava todos aqueles gentis-homens (em francês ficava mais bonito mas ninguém ia perceber-me) disse mais ou menos isto, a memória já me falha:

- Recebi esta carta do Presidente da Câmara daquela Vila a denunciar o comportamento dos seus subordinados naquela tarde. Queira agir em conformidade.

E foi-se… Sem mais palavras.

Cá se fazem, cá se pagam.

Como dizia o saudoso Vitorino Nemésio, se bem se lembram, eu disse lá mais atrás que quando esta ficção começou os Falcões estavam em plena época de tiro na Carreira de Tiro de Alcochete.


Torre de controlo da Carreira de Tiro
Como guerreiros que eram, as artes de tiro ao alvo com bombas rockets e metralhadoras, montados naquelas bem ajaezadas supersónicas montadas, tinham de ser praticadas nalgum sítio. Ele ainda hoje existe e no mesmo lugar. Onde o “Jamais” quis construir o eterno futuro Novo Aeroporto de Lisboa. Em Alcochete.

A propósito, eu tenho, tenho mesmo! um grosso livro com um estudo sobre esse futuro novo aeroporto, datado de 1972. Idade Média, claro…

Aquelas belas montadas descolavam da Base Aérea que fica a um curto galope do Castelo onde D, Dinis e a Rainha Santa Isabel viveram. Um muito belo Castelo… mandado construir pelo trisavô, o fundador do Reino.





Sentados naquela magnífica varanda virada para o rio Lis, o nosso Rei Lavrador e a Rainha Santa mandaram ajardinar tudo aquilo lá para trás com milhares e milhares de pinheiros (diz-se que foi o Rei mas sabe-se como são as Senhoras em questões de plantinhas) para, entre outras coisas, terem matéria-prima para construir as naus que a Coroa mais tarde mandou à Descoberta de tudo aquilo e que agora a República perdeu, ou entregou ou devolveu, uma coisa dessas.

Não interessa agora.

Cá se fazem cá se pagam e o que é que se pagou pelos sucedidos naquela tarde?

O Falcão Mor ordenou que «todos as supersónicas montadas, na ida e na volta de Alcochete, sobrevoassem aquela simpática vila a rapar os telhados».

A RAPAR OS TELHADOS!


Foram as suas ordens. Como castigo…

E foram umas dez parelhas de máquinas que durante uns dias passaram por ali duas vezes, na ida e na volta, cada uma.

A rapar os telhados.

Acho que ainda sei quantas telhas tem cada casa…

O Presidente da Câmara deve ter-se dado por satisfeito, mas ao menos podia ter agradecido. Nem uma palavra…

E pronto, acaba aqui esta fictícia história muito adequada para estas noites agora frias de Primavera.


(Actualizada em 17 de Abril de 2014)




2 comentários:

  1. Muito interessante, alias, tudo o que escreve é excelente... Ahhh o Rio dos bons sinais, vivi em Quelimane durante 14 anos, vindo para Moçambique com 5 anos de idade. Ainda hoje estou a viver em Lourenço Marques, quer dizer, Maputo...
    Um abraço.

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  2. Obrigado pelo seu comentário. Só posso ter,,,Inveja... Grande abraço

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