segunda-feira, 23 de junho de 2014

Outras Navegações - A muito Trágica História da nossa Marinha Mercante



Esta não é uma história sobre a Idade Média.




Mas começa aí...


E atinge o auge 500 anos depois, embrulhando as Grandes Guerras com Américo Tomás, o Boeing 707 e a Guerra do Ultramar, os Retornados e a União Europeia.

E os portugueses, sempre os portugueses a verem, como de costume, tudo a fugir-lhes debaixo dos pés.

É uma história sobre o Mar Português.


Que começa entre naufrágios e batalhas acontecidos em locais relativamente mais inóspitos e distantes do que a ida à Lua, quando ocorreu em 1969.


A lua está ali. É só olhar...




Mas para lá de Sagres, nos finais do séc 15 o que havia era mesmo outra galáxia, povoada de dragões.
 






 



A História Trágico Marítima, de Bernardo Gomes de Brito, “em que se escrevem chronologicamente os naufragios que tiveram as naus de Portugal, depois que se poz em exercício a Navegação da Índia”, uma "colecção de relações e notícias de naufragios, e successos infelizes, acontecidos aos navegadores portuguezes", reunidos por Bernardo Gomes de Brito e publicados em dois tomos em 1735 e 1736, durante o reinado de D. João V, descreve os mais terríveis naufrágios dos gloriosos anos das Descobertas.


 Pintura de Vieira da Silva. História Trágico Marítima,
1944, pintado no Brasil



Essas crónicas ilustram a luta de um povo que ia descobrindo 2/3 do Mundo que então o Ocidente desconhecia que existisse.


E meio Mundo deu-se conta que era afinal só uma metade. Havia outro tanto para se descobrir mutuamente.


Foi a verdadeira globalização.



A Humana
 











Os Descobrimentos foram uma epopeia fenomenal que teve que pagar em bens mas principalmente em vidas esse esforço de um punhado de homens e também de mulheres, como está documentado por um autor anónimo na trágica narrativa do naufrágio do Galeão Grande S. João” de Manuel de Sousa Sepúlveda em 1552.

 


Uma outra história muito diferente foi o forte desenvolvimento e rápido declínio da nossa Marinha Mercante no Séc XX.
 

Foi por divina vontade...?

Foi por humano desleixo!?

 



As primeiras companhias de navegação portuguesas aparecem em Portugal, nos finais do Séc XIX em plena era da máquina a vapor, com navios agora mais rápidos, substituindo os grandes veleiros comerciais.

A Empresa Insulana de Navegação  e a Empresa Nacional de Navegação,  transitam para o século XX explorando ambas uma pequena frota mercante.

Poucos anos depois, durante a Primeira Guerra Mundial, são apresados navios alemães nos nossos portos, o que muito beneficia a actividade naval.




( Como o navio Alemão da Hapag, Numantia, que em 1914 se refugiou no porto de Mormugão - na antiga Índia Portuguesa - onde foi apresado em 1916 passando a denominar-se Cassequel.  

O Cassequel acabou por ser afundado pelo submarino alemão «U-108» sob o comando do capitão de corveta Scholz a 250 milhas a Sudoeste do cabo de S. Vicente no dia 14 de Dezembro de 1941. O submarino «U-108» foi por sua vez afundado pelos Aliados em 1944 no Mar Báltico.)




Como consequência lógica, no período pós-guerra são constituídas a Sociedade Geral, SG e a Companhia Colonial de Navegação, CNN, com o fito de estabelecer um tráfego regular entre Portugal e as suas Colónias embora com navios antigos, desactualizados, obsoletos e em pequena quantidade.

Durante e principalmente após a Segunda Grande Guerra, com a premência de resolver problemas de toda a ordem nomeadamente de abastecimentos e transporte de um grande número de refugiados, as companhias de navegação vêem-se confrontadas com a necessidade de novos navios.

E em 1945, através do célebre Despacho 100 do Capitão de mar-e-guerra Américo Tomás, dá-se uma revolução na nossa Marinha Mercante.



Américo Tomás?...

quem foi este homem?


Foi o Presidente da República Portuguesa deposto no 25 de Abril.



Um brilhante Oficial da Marinha que teve o manifesto azar de ser colocado na Presidência da República por Salazar após umas polémicas eleições em que “derrotou” o General Humberto Delgado.

Américo Thomaz nasceu em Lisboa no dia 19 de Novembro de 1894.

Estudou no Liceu da Lapa entre 1904 e 1911.

Frequentou a Faculdade de Ciências, entre 1912 e 1914.

Iniciou a sua carreira militar como aspirante no corpo de alunos da Armada em 1914.

Em 1916, ao terminar o curso da Escola Naval e durante a I Grande Guerra, desempenhou funções no serviço de escolta aos comboios que se dirigiam para a Inglaterra e Norte de França, primeiro no cruzador Vasco da Gama, depois no cruzador auxiliar Pedro Nunes e nos contratorpedeiros Douro e Tejo.

Comanda ainda durante este período o guarda-marinha Janeiro com a missão de protecção aos navios de pesca que operavam em alto mar.

Em 1918 é promovido a 1.º tenente e serve como oficial imediato a bordo do contratorpedeiro Tejo.

A 3 de Outubro de 1919 é nomeado para a 3.ª Direcção-Geral do Ministério da Marinha.

Em 1920 Américo Tomás entra ao serviço do navio hidrográfico “5 de Outubro “ onde serviu nos dezasseis anos seguintes, desempenhando ainda as funções de chefe da Missão Hidrográfica da Costa Portuguesa e vogal da Comissão Técnica de Hidrografia, Navegação e Meteorologia Náutica e do Conselho de Estudos de Oceanografia e Pesca.



(A Oceanografia Portuguesa nasceu em 1 de Set 1896 quando D. Carlos a iniciou a bordo do seu primeiro iate Amélia.




Com a implantação da República em 1910 o último dos iates “Amélia” do Rei D. Carlos, o “Amélia IV”,




 foi rebaptizado como “5 de Outubro” e atribuído à Missão Hidrográfica da Costa de Portugal.)



Américo Tomás foi perito do Conselho Permanente Internacional para a Exploração do Mar.

Participou ainda em levantamentos hidrográficos nos arquipélagos dos Açores e Madeira.

A 5 de Outubro de 1928 foi feito Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

A 5 de Outubro de 1932 foi feito Comendador da Ordem Militar de Avis.

A 9 de Maio de 1934 foi feito Comendador da Ordem Militar de Cristo.

Foi nomeado chefe de gabinete do Ministro da Marinha em 1936.

Presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante de 1940 a 1944.

A 10 de Agosto de 1942 foi elevado a Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis.

A 1 de Agosto de 1953 foi elevado a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Em 1944, Américo Thomaz substituiu Ortins Bettencourt na pasta da Marinha, prosseguindo a política de “Regresso ao Mar”.

Foi Ministro da Marinha de 1944 a 1958.

Nesse ano é eleito Presidente da República em eleições muito contestadas em que concorreu com o General Humberto Delgado.

Foi reeleito em 1965 e em 1972 por colégio eleitoral.

Enquanto foi Presidente da República, morou sempre na sua residência particular. O Palácio de Belém servia-lhe unicamente como escritório e para as cerimónias oficiais.

Era muito pouco amado nas funções que tinha de exercer a mando de quem mais mandava, o ditador Oliveira Salazar.

Sem grandes dotes de oratória fazia normalmente a contabilidade das vezes que visitava as terras onde inaugurava amiúde os mais diversos equipamentos, como exposições de flores, sendo conhecido popularmente por "O corta-fitas".





Foi deposto na Revolução dos Cravos no dia 25 de Abril de 1974, pela Junta de Salvação Nacional, Lei nº 1/74 de 25 Abril, poucos meses antes de cessar funções.

Foi detido. enviado para a Madeira com Marcelo Caetano (o então Chefe do Governo) e mais tarde  recambiados para o Brasil.


E foi aí que um belo dia vim a ser seu vizinho de quarto.


As tripulações da TAP, nas estadias no Rio de Janeiro no início dos anos 70, ficavam hospedadas em plena Baia de Copacabana no simpático Hotel Miramar.

E uma manhã, ao sair do meu quarto, Co-Piloto de Boeing 747 a caminho da bela praia de Copacabana, dou de caras com os meus vizinhos do lado Almirante Américo Tomás a sua mulher Gertrudes e a filha Natália que também saiam para o pequeno almoço no Hotel onde estavam também hospedados, dizia-se, por conta de alguns membros da Comunidade Portuguesa.

Segundo os empregados do Hotel o Almirante e a sua mulher eram simpáticos. A filha nem por isso...


Em 1978, o general Ramalho Eanes permitiu o regresso a Portugal do ex-Presidente.

Em 1980, morre, subitamente, a sua filha mais velha, Natália.

Foi-lhe negado o reingresso na Marinha e o regime de pensão extraordinária na altura em vigor para ex-presidentes da República.

A 18 de Setembro de 1987, Américo Thomaz morreu numa clínica em Cascais, após uma cirurgia, com 92 anos.


E no entanto...


Durante o desempenho de funções como Ministro da Marinha, o então Capitão de mar-e-guerra Américo Tomás foi o principal responsável pela elaboração e aplicação do Despacho 100, diploma que reestruturou e modernizou a Marinha Mercante portuguesa, permitindo também a constituição da moderna indústria da construção naval no país.

Naquele Despacho estava prevista, no prazo de 10 anos, a construção de 70 navios com um total de 376 300 toneladas de porte bruto distribuídos pelos diversos armadores nacionais.


Seriam construídos de 9 navios mistos de passageiros e carga, 4 navios-tanque, 45 navios cargueiros e mais 12 navios costeiros para cabotagem em África e nas Ilhas Adjacentes.

Note-se que a 1 de Janeiro de 1945 a nossa frota de comércio de longo curso era constituída por 61 navios com 225.901 toneladas de arqueação bruta e 307.871 toneladas de porte bruto.

No Despacho 100 previa-se também que 60% das necessidades de transporte fossem supridas por navios portugueses.

O BENGUELA, navio de carga e passageiros de 1946 da Companhia Colonial de Navegação, foi o primeiro navio do Despacho 100 a navegar.



Esta acção fez com que, nos meios navais, ao contrário do resto da sociedade portuguesa, o nome do Almirante Américo Thomaz seja, ainda hoje, muito respeitado.

Surgiram assim diversas empresas que operavam quase exclusivamente entre o Continente e o Ultramar, as ex-Colónias, como as CNN, SG, CCN, EIN, CNCA, SOPONATA e SACOR.


 Companhia Nacional de Navegação


 Companhia Colonioal de Navegação


Funcionavam no entanto em regime de mercado altamente protegido, monopolista concorrencialmente controlado, um mercado fechado, e que operava quase exclusivamente entre as Colónias, as Ilhas e o Continente.

Os portos portugueses regiam-se também por estatuto monopolista. Eram inevitavelmente ineficientes, pouco produtivos, obrigando os navios a estadias prolongadas com custos de operação demasiado elevados.

No início dos anos 70 a CNCA funde-se na EIN, a SG funde-se na CNN e no início de 74 a EIN e a CCN dão origem à CTM.



E finalmente surge o 25 de Abril.

 


E uma série de factores empurram definitivamente o mercado marítimo para uma perda irreversível.

A massificação, eficiência rapidez e comodidade do transporte aéreo, cujo expoente máximo foi o Boeing 707, em que fui Co-Piloto na TAP entre 1971 e 1974

A Revolução do 25 de Abril, o fim do Império, o regresso definitivo dos militares e pouco menos de um milhão de portugueses a Portugal Continental, quase exclusivamente em grandes e rápidos aviões, a maior parte Boeings 707 na maior Ponte Aérea da História Mundial.

A Revolução e o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) levaram o país inevitavelmente para as nacionalizações.

Da banca e seguros, por exemplo que acarretaram a nacionalização da Marinha Mercante portuguesa transformada em várias Empresas Públicas, controladas pelo Estado através de Gestores Públicos com modelos de exploração incapazes de concorrer no mercado internacional.

De todas aquelas empresas só a SOPONATA consegue evoluir, modernizando-se e renovando a frota.

E é neste contexto que surge o que se afigurava ser a solução de todos os males:


- A União Europeia


Em 1977, a 28 de Março, Portugal apresenta a sua candidatura de adesão à União Europeia e assina o acordo de pré-adesão a 3 de Dezembro de 1980.

Em 1984 as enormes dívidas acumuladas na maioria das empresas do sector marítimo leva à extinção da CTM e CNN.


No dia 12 de Junho de 1985 é assinado em Lisboa o Tratado de Adesão de Portugal à CEE.

A Espanha assina o Tratado de Adesão em Madrid no mesmo dia.


Em 1 de Janeiro de 1986 Portugal é formalmente membro da CEE


E toda a nossa economia é obrigada a acomodar-se ao mercado comum para cumprir as normas do Tratado.



E foi assim que...


Entre 1986 e 1998, o PIB português cresceu a uma média de 5% ao ano, depois baixou para zero. O desemprego, em 1998, estava nos 5%  subiu para 8% em 2005.

A divida pública era 55% do PIB.

Subiu para 64%










Em 1992 a CEE dá origem à União Europeia.










O rendimento "per capita", em 1998, era 71% da média europeia.



Portugal adere ao Euro em 2002.




O rendimento "per capita", desceu para 66% da média europeia em 2005.


A moeda forte, o crédito barato, a corrupção a alto nível (que hoje começa a conhecer-se melhor e ainda a procissão vai no adro) levam ao aumento do consumo interno e ao forte endividamento das famílias.



E sem darmos por ela ficámos sem Marinha Mercante!

 Mas também sem frota de pesca...

 


Somos agora um pequeno país à bolina com um enorme Mar.

Sem barcos para navegar…

 



Os Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: 

"Navegar é preciso; viver não é preciso."




Navigare necesse; vivere non est necesse" - em latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra





Para compor esta concisa THNMM (Trágica História da Nossa Marinha Mercante) utilizei principalmente os muitos saberes de Luis Miguel Correia que escreve em inúmeros Blogues e é uma referência em História Naval.

Fui buscar também informação a muitos outros autores, de que dou conta abaixo nas ligações que utilizei.

A todos os meus respeitos, agradecimentos e a garantia de que tudo o que escrevi a eles o devo.

Nos mesmos sítio da blogsfera encontrei as fotos que ilustram a história.

Brevemente publicarei Álbuns de fotografias dos muitos navios que cobriram os Mares do Império Português.

Em vários dos quais tive grande prazer em navegar...






Algumas das Ligações utilizadas, mais ou menos por ordem de acesso:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Livro_de_Lisuarte_de_Abreu
https://www.google.pt/search?q=Lisuarte+de+Abreu&client=firefox-a&hs=tGS&rls=org.mozilla:pt-BR:official&channel=sb&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=uCOcU7GGLcaX1AWY9oCADw&ved=0CCkQsAQ&biw=1366&bih=606
 http://jaimemb.no.sapo.pt/ilustra/HistoriaTMnv.htm"://jaimemb.no.sapo.pt/ilustra/HistoriaTMnv.htm
http://www.transportes-xxi.net/noticias/810
http://lmc-naviosportugueses.blogspot.pt/
http://nossomar.blogs.sapo.pt/1282.html
http://www.companhiademocambique.blogspot.pt/
http://lusotopia.no.sapo.pt/indexPTEuropa.html
http://www.clusterdomar.com/index.php/temas/case-study/2-uncategorised/129-um-pouco-de-historia-a-marinha-mercante-portuguesa
http://www.arqnet.pt/portal/imagemsemanal/janeiro0503.html
http://www.clusterdomar.com/index.php/temas/case-study/2-uncategorised/129-um-pouco-de-historia-a-marinha-mercante-portuguesa
http://salvaterraeeu.blogspot.pt/2012/01/lembrancas-da-marinha-mercante.html
http://espoliado.blogspot.pt/2011/07/marinha-mercante-portuguesa-infante-dom.html
http://www.vidaslusofonas.pt/manuel_sepulveda.htm
http://www.vidaslusofonas.pt/index.htm
http://www.simplonpc.co.uk/
https://plus.google.com/106305025568133775583" Miguel Correia
http://lmcshipsandthesea.blogspot.pt/2011/08/despacho-100-promulgado-ha-66-anos.html
http://lmc-naviosportugueses.blogspot.pt/
http://santamariamanuela.blogspot.pt/
http://lmc-creoula.blogspot.pt/
http://www.companhiademocambique.blogspot.pt/2009_03_01_archive.html








3 comentários:

  1. Muito bem Gabriel, soma e segue!!!

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    1. Caro Gabriel Cavaleiro é gratificante aos olhos e restantes sentidos.Creio serem poucos ou talvez não quem sabe?Os que têm memória e gratidão pelo que fomos e também pelo que somos.Bem haja.
      Numa altura em que num espaço relativamente curto vi dois elementos da nossa Força Aérea escreverem dois livros, lembrei-me se não estará na altura de o Gabriel por em
      livro as suas vivências que me parecem tão ricas, quer como piloto militar quer como piloto de linha Aérea(perdoe-me a audácia de tal lembrança) assim não lhe falte a paciência porque engenho e arte parecem estar à vista.Um grande abraço e audações aeronáuticas.Carlos Gaspar

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  2. Alia´s quanto ao Gabriel escrever um livro não sou o primeiro a desejá-lo, uma vez que na sequência das memórias do Gabriel sobre a ponte aérea e sobre os acontecimentos no Funchal, publicado neste belo Rio dos Bons sinais, li (creio que escrito por alguém amigo/a desafia-lo para quando um livro) sobre tantos acontecimentos num percurso tão rico embora
    com algum dramatismo (e dizer algum estou a ser bastante parcimonioso)Mais uma vez um grande abraço deste admirador grato pelas suas memórias e deste Pais`.CGaspar

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