Mostrar mensagens com a etiqueta AB 6. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AB 6. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Na Guerra do Ultramar - Vale: 1 Drambuie


Um leasing que resultou.

O primeiro leasing na Força Aérea Portuguesa!



Para reduzir despesas, durante a minha estadia no AB 6, Nova Freixo, 1968, aluguei uma casa a meias com outro jovem piloto, também casado e também com um filho bebé, mais novo que a minha filha de pouco mais de um ano.
 

Vivíamos os 6 numa simpática moradia com um grande quintal que confinava com o quintal de um MMA (Mecânico de Aviões). Este, menos jovem, tinha um filho de uns 11 anos que era regularmente mordido na barriga pela minha adorável filha que se abraçava a ele para o fazer.
 

Por mais que dissesse aos pais do miúdo para lhe darem uma palmada quando ela fizesse aquilo, nunca resultou. Até um dia em que ao puto lhe doeu mais e alçou da mão. 

Remédio santo…
 

Mas esta história tem a ver com o meu camarada e colega de casa.
 

Era comum os aviadores do AB 6 passarem os tempos livres na nossa casa.


A Vila de Nova Freixo

Muitas tardes e noites passámos na nossa sala de estar com quem estivesse “desempregado” naquele dia, em amenas tertúlias.
 

Normalmente a esvaziar umas quantas garrafas do que houvesse…Todos contribuíamos, como é óbvio, sem grandes contabilidades pessoais.
 

Havia no entanto uma garrafa sagrada! Garrafa que nunca ia à sala, mas que toda a gente sabia que existia. E não poder chegar-lhe era uma tortura que ia roendo muito boa gente.
 

O meu coabitante da casa tinha um tesouro líquido no quarto que não convivia com o restante álcool que por ali se consumia. 

Uma garrafa de Drambuie!
 

Lembro-me que nos últimos tempos que ali vivi costumava jogar crapô com um aviador muito elegante, vestido de branco e a fumar por uma comprida boquilha em marfim. Ele bebia gin tónico puro e eu vinho do Porto, ambos em grandes copos de água…
 

Ora há sempre um dia em que se baixa a guarda e as coisas precipitam-se muito rapidamente.
 

Deu-se o caso de o meu coabitante ter ido de férias com a mulher e filho, não tendo, no entanto, as nossas tertúlias abrandado.
 

Antes pelo contrário…

A garrafa de Drambuie começou a ser um elemento essencial desses convívios, vendo-me eu obrigado a assumir a condição de guarda dos preciosos bens do nosso colega, na sua ausência.
 

Mas a pressão era enorme. Até havia excursões á cama dele para ver a garrafa aninhada debaixo dela, praticamente cheia.
 

- Até dá gosto, pá…
 

- Desculpem lá mas eu não estou para me chatear com ele…
 

E um dia alguém teve uma ideia genial. Havia uma solução honesta, muito avançada para a época em termos económico-financeiros.
 
Fazer-se um leasing!

- Faz-se um leasing, pá!

Um leasing da parte do precioso líquido consumido, coisa que me pareceu um procedimento correcto, já que salvaguardava a legítima posse do bem cativo.
 

Ou seja, o pessoal, quando lhe apetecia, ia á garrafa, enchia um cálice normal seguido do seguinte rabisco num qualquer pedaço de papel:

- “Vale: 1 Drambuie” e assinava-o com assinatura legível e legítima, data e tudo e colocava-o debaixo da garrafa, esta sempre debaixo da cama.
 

Nada a dizer… A legalidade do procedimento pareceu-me perfeita.
 

E quando as férias acabaram, lá estava a garrafa, debaixo da cama, com todo o bem líquido agora transformado em leasing legalmente representado por um belo monte de vales por baixo do vasilhame.
 

Ele nunca me pediu explicações. Também não havia nenhum vale assinado por mim… E o conjunto dos vales representava um valor proporcional ao álcool consumido.
 

São estes expedientes que fazem o mundo avançar…
 

Mas nem sempre o bem que se possui está devidamente salvaguardado.
 

E a prova é que, mesmo que todos os requisitos legais tivessem sido cumpridos, o leasing do Drambuie resultou numa perca total do bem para o seu legítimo dono que não reclamou o líquido emborcado.
 

Um mecenas involuntário que, mesmo sem o desejar, proporcionou ainda assim bons momentos de convívio entre aqueles que sabiam como tudo iria acabar, enquanto saboreavam aquela preciosidade.

 

E eu nem gosto de Drambuie…
  




(Actualizada em 29 de Abril de 2014)





quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Guerra do Ultramar - O Grandalhão e o Elegante


Os autênticos, originais e gloriosos malucos das máquinas voadoras!


Eram dois pilotos que sabíamos terem uma relação muito descontraída com os aviões. Cumpriam, claro, mas tinham dias…

E naquele dia… foram incumbidos de ir do AB6, Nova Freixo, a Nampula num T6. Os dois no mesmo avião.

Estamos em 1968.


O AB 6, em Nova Freixo, Norte de Moçambique



A pilotar no lugar da frente, por acordo entre ambos, foi o mais elegante e mais baixo. Atrás, instalou-se o mais alto e mais desengonçado.

O intercomunicador entre estes dois ilustres aviadores não funcionava. Os aviões eram normalmente operados por um só piloto de modo que não era um item muito importante.
 

O grandalhão meteu-se no lugar de trás, confortavelmente instalado, de romance na mão.
 

Á frente, muito compenetrado, o elegante descolou rumo a Nampula, numa tarde soalheira.
 

Ao grandalhão por ser alto, desengonçado, efusivo e muito falador, deram-lhe a alcunha de “o Pateta”, dos desenhos animados da Disney. De pateta mesmo não tinha absolutamente nada. Era só a figura…
 

Ao elegante chamo-lhe eu assim por ter aparecido na guerra, figura esguia, vestido de branco dos pés à cabeça e a fumar uma longa boquilha em marfim. Um autêntico Peter O'Toole.
 

Um Lawrence de todas as Arábias…
 

A primeira vez que foi a minha casa (eu era o único piloto em Vila Cabral que vivia com a família numa casa civil, a do Director do Aeroporto) vestido naqueles propósitos, um autêntico manequim, num lanche que era comum haver com todos nós virou-se para a minha mulher muito sério e perguntou-lhe, finamente:
 

- Que bolos horríveis! Foi a senhora que os fez?
 

Era só uma maneira diferente de agradecer a iguaria.
 

Voltemos à história daqueles dois magníficos personagens descolados de Nova Freixo rumo a Nampula...

Uma meia hora depois o grandalhão, incomodado naquele espaço lá atrás que era mesmo à justa para ele, teve necessidade de mudar de posição.

E o pé que estava esticado foi encolhido e a outra perna pode finalmente distender-se. Porém, porém… a manobra foi feita com alguma largueza e ele não conseguiu evitar mandar uma sapatada no pedal do leme de direcção do avião, que estremeceu um pouco.
 

Aquela súbita manobra “acordou” o elegante que se voltou para trás para tentar perceber o que se passava.

O grandalhão, com um gesto de mão aberta no ar, pediu-lhe desculpa, entre dentes, claro.

Lembrem-se que não havia interfonia e o barulho aerodinâmico do voo não permitia conversas de viva voz.

Afinal não fora nada.
 

O elegante, satisfeito com o que viu, virou-se para a frente e tudo voltou à normalidade. 

Agora muito mais descontraído.
 

Um olhava em frente, tranquilo e o outro voltou á leitura empolgante do livro.


T6 em voo

Como já devem estar a perceber, a coisa não podia acabar bem.

Aliás a coisa, coisa, encaminhava-se sub-repticiamente para a asneira, para a tragédia mesmo…

O que o elegante percebeu quando olhou para trás foi uma mão aberta a querer dizer: “Olha, o avião é meu!” Um termo que os aviadores usam para dizer que, agora, sou eu quem pilota. Irrevogável!
 

Afinal o dono daquela mão era mais antigo e mais graduado e portanto não deixava de fazer sentido. Embora o combinado não estipulasse nenhuma mudança de piloto a meio do voo.
 

E assim temos um T6 em voo em que um piloto, lá atrás, lia muito concentrado um belo romance e o outro, lá à frente,  observava, deliciado, a paisagem com as mãos gentilmente pousadas no regaço… 

Em descanso, como a Inês do soneto.
 

Simplesmente idílico...
 

Iriam a uns 3.000 pés de altitude, calmamente.
 

O primeiro, ou talvez não, Drone da Força Aérea Portuguesa…
 

Pouco a pouco o T6 em auto gestão mas deficientemente equipado para tal, achou que também podia fazer umas graças e resolveu começar a descer.
 

E a dar uma pequena voltinha.
 

E a ganhar velocidade.
 

E por aí fora.
 

Coisa que não preocupou minimamente nenhum dos dois, já que tinham acabado de entrar de folga havia breves minutos. O da frente, porque o de trás nem ainda tinha feito nada. A cultivar-se, devorando página atrás de página do empolgante livro.
 

Quando a manobra se revelou francamente fora do combinado em terra, o grandalhão olhou para o lado e viu que o avião executava uma volta larga a descer, entre dois morros, com centro numa aldeola, em zona livre de terrorismo. E pensou que o elegante estaria interessado em observar melhor aquela aldeia.

Normal… e voltou ao romance, alheado novamente.
 

Já o elegante não pensava nada. Deixa-o lá fazer o que ele quiser. Ele é que sabe. Ele é que é o verdadeiro chefe desta missão.
 

À segunda volta consecutiva, sempre entre os morros, o grandalhão incomodado tira os olhos do livro, avaliou melhor a situação e achou que aquilo talvez fosse muita velocidade a mais, muita mesmo!
 

Além disso a canopy tremia a bom tremer.

Mas…
 

Não deram a terceira volta porque finalmente alguém tinha de tomar uma atitude e a canopy, assustadíssima, achou por bem evadir-se, desertar mesmo, avião fora… Antes que fosse tarde. Um verdadeiro suicídio!
 

Saiu e nunca mais ninguém a viu! Até hoje!
 

O voo picado a grande velocidade passou a ser feito em descapotável...

E o susto levou a que ambos resolvessem fazer um duplo comando, se calhar a quatro mãos e evitaram o pior.
 

Mesmo à beirinha da tragédia!
 

A canopy era o menos…
 

Boa gente estes dois, de quem eu era e sou, amigo…



(Actualizada em 8 de Janeiro de 2016)