Mostrar mensagens com a etiqueta B 707. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta B 707. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Linha Aérea e outros voos - Era uma vez... Umas quantas bandeirolas


Era uma vez...


Começavam assim as histórias que se contavam aos putos, "no meu tempo", como dizem todos os nascidos há séculos, como eu.





 















 Hoje os miúdos vêem "bonecos" onde não há fadas.
Nem boas nem más.

Há só "gente" esquisita...

E travam-se ferozes batalhas entre seres que parecem saídos da cabeça de Hieronymus Bosch

 


Nesta história, verídica, juro!, também não há fadas nem seres como aqueles.

Há gente de barba rija, sim, mas num enredo quase infantil.


Daí o "era uma vez"... 
 

Pois foi assim:


 
      Montreal nos dias de hoje

 

Numa gelada noite da primeira metade dos anos 70 (do século passado, óbvio...) era eu Copiloto de Boeing 707, preparava-me para deixar Montreal, a bela cidade da província do Quebec no Canadá, depois de uma estadia de dois dias com neve por todo o lado.

O meu Comandante era o Aiala.

Um personagem extrovertido, falador, bem disposto como a maioria dos Brasileiros nossos colegas.





 

Quando a Panair do Brasil foi fechada à força por Coronéis da Força Aérea Brasileira para criarem a sua VARIG, vários Comandantes, muito experientes, rumaram à TAP e deram nova vida ao ambiente entre todos os tripulantes de voo.


(Vejam o que aconteceu, aqui , à Panair)



Só no meu curso TAP tive dois colegas que sistematicamente abrilhantavam as aulas com a sua maneira de ser alegre e despretensiosa.

Nessa noite, em Montreal, o meu Comandante era o Aiala, como já disse.

O  Chefe de Escala da TAP, em conversa informal, informa-o que ia embarcar como passageiro, acompanhado da sua mulher, um colega nosso, também Comandante no mesmo tipo de avião que o nosso.

Este nosso colega era uma figura muito especial. Tinha um currículo de mau comportado (no bom sentido, um mau comportado com graça) já desde os tempos da Força Aérea. Por estas e por outras tinha uma alcunha apropriada, provavelmente devido à sua anatomia compacta e fisionomia sempre mais ou menos divertida.

Morreu recentemente. Paz à sua alma simpática, truculenta mas amado por todos.

E no final do embarque lá apareceu o nosso passageiro. Férias a acabar, com a sua mulher.

Faziam um casal estranho. Ele baixo e atarracado. Ela grande e muitíssimo mais calma que ele, que embarcou todo vestido de branco.

Descolámos normalmente rumo a Santa Maria, nos Açores. A escala normal a caminho de Lisboa.


E foi aí, em santa Maria, que o Aiala começou a pôr em prática a sua maquiavélica aposta...


Daí para diante o nosso voo iria entrar na parte mais chata. Fim da madrugada, o sono a apertar cada vez mais, o Sol que iria nascer mesmo à nossa frente, já perto da chegada a Lisboa. Esse Sol aquecia-nos e fazia desfazer todas as nossas defesas contra o sono. Por vezes era complicado.


E qual foi a solução manhosa que o Aiala encontrou?

Reabastecimento a fazer-se, carga a entrar e a sair, no meio de uma conversa informal, volta-se para o nosso colega Comandante passageiro ainda em férias, bem dormido até ali e diz-lhe:


-Ei cara! Cê não quer fazer uma perninha daqui até Lisboa? Depois das férias deve saber bem fazer o gosto ao dedo, né?


Proposta aceite de imediato, o Aiala pôde fazer o resto do voo a dormir na 1ª Classe. Sabia muito o cara...

E assim mudei inesperadamente de chefe. Nada contra, gostava dele e estava legalmente habilitado para a função.

E tudo continuou a processar-se rotineiramente.

A cama chamava por nós todos dentro daquele avião. Eram 4 horas da manhã, 3 nos Açores.

Autorizados pela Torre de Controlo do Aeroporto a pôr os reactores em marcha, o meu novo chefe executa os procedimentos que há quase um mês não fazia e diz-me para pedir autorização para o avião deixar o estacionamento em direcção à pista de descolagem.

Autorização concedida o Comandante inicia a rolagem, feliz por fazer o que mais gostava de fazer, voar.

Saídos do estacionamento, encaminhamo-nos para a pista

Nesta altura o Copiloto devia pedir à Torre de Controlo a confirmação da rota pretendida para aquele voo. A sequência de todas as posições geográficas coordenadas entre todos os outros controlos respectivos de modo a garantir um voo seguro, previsível, sem perigo de colisões com os outros aviões que também voavam naquele espaço aéreo.

Mas como o voo era todo sobre o Mar, não havia pontos a que se pudesse dar um nome.

Era para mim a parte mais difícil do voo. Sabia que ia ter de lutar com os números que me iam debitar pela rádio e que eu tinha que repetir sem falhas.

Eram as Coordenadas geográficas de todas as principais posições por onde iríamos passar até chegar à Caparica.

Aquela luta com os números dizia respeito ás 3 ou 4 posições GPS (que ainda era uma miragem) cada uma com os graus minutos e segundos Norte e Oeste,

Qualquer coisa como isto, 3 ou 4 vezes com números obviamente diferentes:


> 38º 25' 20.67"N 18º 09' 55.17"O


Dá para vocês entenderem?

Um suplício! Com receio de trocar alguns dos malditos números...

Tudo isto era feito enquanto o Comandante seguia o trajecto entre a Placa de estacionamento e a Pista.

Eu ouvia os números com muita atenção, num enorme stress (vais-te enganar! vais-te enganar!) escrevia-os num caderninho e no fim tinha de repetir a mensagem sem falhar número algum sob risco de voltar tudo a ser dito e repetido até bater certo.

E quando não batia certo bastava olhar para a cara do Comandante para se perceber que a partir daí corria-se o sério risco de se ser apeado do voo.

Mas não... Acertei naquela sequência rapidamente transmitida de 72 números e letras, como normalmente aliás, e dali para a frente era só continuar a rotina do costume.


- E agora!?


Agora o quê? Pensei eu. O que é que o Comandante quer dizer com isto?


E foi então quando, seguindo o olhar dele, vi emergir, na noite fria, muito escura e húmida, uma corda esticadinha, a meia altura, com uma data de bandeirolas vermelhas em forma triangular com os bicos virados para baixo.


E o avião pára ali, embasbacado...
Mas o que é aquilo!?


Rapidamente revi mentalmente o mapa do Aeroporto e os seus caminhos de circulação e percebi logo que não é bom, nada bom, voar em férias...

O avião tinha-se metido, certamente por vontade própria, num Taxiway (caminho de circulação) vedado à circulação provavelmente por mau estado do piso ou outra coisa qualquer.

Isto enquanto eu me tinha debatido com a aritmética pela radio com a Torre de Controlo...


- E agora!?


Era a grande pergunta...


Avião parado. Noite escura como breu, fria e húmida e uma corda com bandeirolas a dizer:


- Nã, nã, por aqui não dá...


E não era possível fazer meia volta.

Rapidamente avaliei a situação e no intuito de evitar problemas ao Comandante saiu-me instantaneamente pela boca fora a coisa "mai" parva que poderia ter dito:


- Ó Comandante, uma vez que isto parece não ter solução fácil, o melhor é seguir em frente, acho eu...


Manetes à frente e o Boeing 707 esquece bandeirolas, mau piso e outras coisas menores e encaminha-se calmamente para a pista.


Tinha-se juntado a fome do Comandante com a vontade de comer do Copiloto... 



Daí para a frente não houve mais história.




Sobre o Tejo a voar para o Aeroporto


Foi só descolar, subir, seguir religiosamente aqueles pontos geográficos que eu quase tinha vomitado.

Rumo à Caparica, Ponte Salazar (isto passou-se antes do 25 de Abril...) Monsanto, Campo Grande, Bairro de Alvalade, Hospital Júlio de Matos, está ali a pista 03, OK, agora vou dormir...


















sábado, 15 de outubro de 2011

Linha Aérea e outros voos - Treino em Faro no B 707 com o Comandante A. Reis



Aventuras e desventuras entre alunos e instrutores.

Em Boeing B 707... 
 



Era um Senhor o Comandante A. Reis 




      No cockpit do Boeing B707


 

Em 1971 foi o meu Instrutor de Voo em Boeing B 707.

 

Durante a formação técnica, os futuros pilotos da TAP, quando acabavam as teóricas, começavam a instrução em voo, o “Voo Base”, para a função de Co-Piloto, no avião mais baixo da hierarquia. Naquele tempo, seria o B 727, dado que o Caravelle estava a acabar a sua vida útil. Mas como a movimentação de pilotos estava a ser muito grande e para evitar acessos a aviões uns atrás dos outros, com um intervalo entre os cursos demasiado curto, optaram por nos colocar directamente no avião a seguir.

 

Foi assim que comecei a minha carreira de piloto da TAP, logo no Longo Curso, no B 707.







Exactamente antes do meu primeiro voo, tive a pouca sorte de me aparecer um abcesso num dente. Ora eu tinha que fazer, a todo o custo, aquele curso! Única solução para não dar baixa: comprimidos para as dores e um forte antibiótico.
 

Parecia resolvido o problema, mas não. Em voo, a medicação provocava-me um grande enjoo e por mais de uma vez me vi atrapalhado.
 

Alternativa? Um médico receitou-me uns supositórios que eu tinha de utilizar momentos antes de iniciar a minha sessão de treino em voo. Contra o enjoo.
 

Como éramos dois alunos em cada voo e começávamos a instrução alternadamente, quando eu era o primeiro, o supositório era aplicado logo no início do voo. Se não era eu a começar, a aplicação fazia-se quando o colega estava mesmo a acabar a sua sessão.
 

Uma desgraça...e assim fiz todos os meus voos!


 

O Comandante A. Reis era uma velha raposa, com muitos saberes.




 Piloto militar com curso feito nos Estados Unidos. É o primeiro à dta.




Da velha escola. Do tempo em que se sabia tudo de cor. Toda a ciência, todo o saber, estava fielmente depositado em cabeças de grande capacidade, em grandes decisores. E neste caso, um piloto, esses saberes tinham que aparecer no momento exacto em que eram necessários.

Era uma aviação… diferente. Como é com tudo, em intervalos de uma geração ou mais. 


Foi sempre assim. Assim será



 
O Comandante A. Reis está ao centro  



Isto para sublinhar a grande competência técnica do meu colega de curso, companheiro das teóricas, do Simulador e agora da instrução em voo, que tinha, como todos nós também tínhamos, uma autêntica “Bíblia”, com um condensado do que cada um achava mais pertinente como auxiliar de memória, manuscrita e cheia de muitos desenhos, ao gosto de cada um e consoante as necessidades de cada um. Uma sebenta aeronáutica.

Ainda guardo, religiosamente, o meu livrinho. Existe há 41 anos na minha posse:

 





O Índice do meu "livrinho"



Performances




E quando havia uma dúvida, durante aqueles voos de instrução, o meu companheiro, muito competente quanto aos seus saberes sobre os vários sistemas do avião, tinha sempre uma resposta pronta, que ele achava a adequada.
 

E invariavelmente o Comandante A. Reis perguntava-lhe:

 

- Ai é!? Como é que você sabe isso?
 

- Tenho no meu livro!
 

- Ok, rasgue-o!


 
E por mais que eu lhe dissesse que não devia falar ao Comandante na porcaria do livro, nada feito... O livro era realmente muito importante para ele!
 

Eu, sem os mesmos saberes - importava-me mais a pilotagem correcta do avião - manifestava-me pouco nestes assuntos em que não conseguia, tinha a certeza, brilhar.
 

E assim fui progredindo, voo atrás de voo, até ao treino do voo nocturno, que me saiu realmente muito bem.
 

E notei que o meu Instrutor começou a ter um comportamento mais amistoso para comigo. Eu sempre era mais calmo, calado… menos belicoso e até parecia que não tinha livro, coisa em que, obviamente, nunca falei.

Deus me livrasse…

 

O Comandante Reis tinha um tique que lhe denunciava os momentos de descontracção: abanava a cabeça de um lado para o outro, de um ombro para o outro, sempre na vertical, com alguma rapidez. Para mim era o sinal de que as coisas me estavam a correr bem. E isto começou a acontecer cada vez mais…
 

Num dos últimos voos, feitos em Faro já ao acabar o dia, ele resolve tomar conta do avião e prepara-se para ser ele mesmo a fazer um toca e anda na pista apontada ao pôr-do-sol, enquanto eu observava pelo canto do olho a cidade, à minha direita.
 

Mas o senhor Comandante não se estava a aproximar da pista mas sim do taxiway (caminho de rolagem dos aviões de e para a pista, paralelo a esta).


Bem, o homem vai aterrar, ali?!


E o Aeroporto cada vez mais perto. E eu com as mãos no colo e os pés encolhidos porque aquilo não era nada comigo.
 

E quando já não havia dúvidas do que ele ia fazer, estávamos a 500 pés, pouco mais de 150m de altura sobre a Ria Formosa, enfiadinhos ao Taxiway, a 300km por hora, o Quartel dos Bombeiros já mesmo ali, o Comandante A. Reis larga os comandos e diz-me calmamente:

 

- Aterre!

 

O quê!!? Aquilo era comigo?!

 

Era mesmo! Ele não tinha as mãos no manche e olhava para mim expectante com um meio sorriso desafiador.
 

Agarro imediatamente nos comandos e continuo a aproximação, já muito baixo, apontado ao taxiway, asas muito direitinhas para manter o voo tal e qual ele estava a fazer. Ordens são ordens!
 

- Aonde é que você vai?!
 

- Aterrar… Já não tinha muito tempo nem consegui dizer mais.
 
 

- Na pista! Grita-me ele. Na pista!
 
 

Como!? Só agora é que me dizes isso!? Pensei, mas desisti de mais quaisquer dúvidas.


 

Estava mais ou menos nesta posição, a 300km/h quando tive de começar a executar a manobra




Já mesmo muito baixo, “entorno” o grande B 707 para a esquerda até apanhar o enfiamento da pista onde afinal o meu Instrutor queria que eu aterrasse, volto a entorná-lo agora para a direita, os pés a trabalhar a todo o gás para obrigar o grande avião a ficar quieto naquela direcção e endireito as asas mesmo a tempo do suave toque das rodas no chão, exactamente na marca dos 1000’, o sitio onde se deve tocar o chão, em qualquer pista, em qualquer avião, faça Sol ou faça chuva e o avião certinho, mesmo sobre a linha central!

 

Aquilo é que aquela cabeça abanava de um lado para o outro!...

 

Logo a seguir, meteu motores a fundo e descolámos rumo a Lisboa, para acabar em beleza mais uma sessão de treino.
 

Esta manobra que o Comandante A. Reis me obrigou inopinadamente a fazer, tem uma explicação. Naquela altura, anos 70 do Séc. XX, tanto aviões como Aeroportos não estavam equipados com a electrónica que hoje, felizmente, é comum. E muitas vezes acontecia, nas aterragens em sítios menos próprios, vermos a pista fora do alinhamento em que supostamente devia estar, na transição do voo por instrumentos, da aproximação, para o voo à vista, para aterrar. E quando, de repente a víamos, a pista, afinal, estava um bom bocado mais para um dos lados. E era mesmo preciso aterrar...
 

Treinava-se esta situação, sem nos dizerem nada.

Chamava-se fazer uma "cangocha".
 

No Simulador, o meu colega de curso tinha captado a atenção de outro Instrutor, tanto pelo excelente desempenho como por aquilo que demonstrou saber, graças também ao seu livrinho. E teve a nota mais alta que a TAP dava, 4 em 5. Ninguém tinha 5. Eu, claro, a actuar com mais cautela para disfarçar o não completo à vontade com os meandros do B 707, fui brindado com o 3.
 

Mas a minha táctica nos voos de instrução de me dedicar só a pilotar o avião o melhor que pudesse, também deu frutos. Para grande surpresa minha, tive um 4, em 5 também, na nota de Voo Base.

E como o coeficiente desta disciplina era superior à de quaisquer outras do Curso, a minha nota final não foi nada má… saí-me mesmo muito bem…

 

Graças também àquela cangocha…








O Comandante A. Reis no vôo inaugural Lisboa-Caracas, com o Embaixador da Venezuela em Portugal



Nota:

Todas as imagens em que o Comandante A. Reis está foram gentilmente cedidas pelo seu neto Pedro Reis Anjos, a quem muito agradeço.

 




(Actualizada em 26 de Janeiro de 2018)