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sábado, 22 de março de 2014

A minha Força Aérea - Alferes Rica


 







Uma Homenagem a um jovem Camarada prematuramente perdido











A gabardina em Terylene forrada a espuma sintética, bege clarinho, a última moda e muito cara, era à estreia...

Tinha-a comprado nesse dia e estava agora transformada num instrumento de degranhar o milho, de subelar as espigas, tanto que batia com ela furiosa e repetidamente no chão...



O jantar mensal da Esquadra 51, dos pilotos de F-86 em Monte Real, tinha corrido como sempre muito bem, demasiado bem, digo eu… e ali estávamos nós agora no Bar da Messe dos Oficiais da Base Aérea Nº 5 para o grande rescaldo do costume...

Estas coisas passaram-se em 1965/66, em ambiente de preparação de pilotos para a Guerra do Ultramar, num país fortemente condicionado para tal. Em ditadura. E onde ser militar era ainda um bem precioso para a Nação.

Já era a segunda ou terceira vez nessa noite que voltava a malhar milho, depois de os meus camaradas me terem metido à força na cama várias vezes por causa de uma minha enorme incapacidade acidental para me manter na vertical…

Enquanto desfazia a gabardina à estreia contra a calçada frente à Messe, na ausência de milho verdadeiro, chorava copiosamente e todos os meus camaradas sabiam o que me estava a acontecer:



- Muito poucos dias antes o Alferes Rica tinha sido vítima de um fatal
acidente de viação no seu pequeno Morris vermelho, descapotável.



Na Força Aérea sempre me senti um privilegiado. Fiz alguma coisa por isso, claro, mas fui sempre muito amparado, muito protegido, beneficiando de muitas oportunidades que agarrei avidamente.

Comecei por ter sido brevetado em T-6 pela Força Aérea Espanhola em Salamanca. Só depois o fui em Sintra, há meio Século... a comemorar este ano de 2012 no Palácio da Base Aérea de Sintra.

Convidaram-me depois a frequentar o Curso de Piloto de Caça, em aviões a jacto T-33 na Ota. Foi o primeiro curso na nossa Força Aérea em moldes totalmente Americanos. E no fim… o F-86 onde cheguei à Esquadra dos Falcões, acabado de ser promovido a Furriel.

Aqui, depois de me ter sido dado o curso ficaram à espera que digerisse o resto que me cabia estudar, sozinho, o tempo que eu considerasse necessário. O camarada anterior tinha sido devolvido ao remetente ao fim de 6 meses de boa vida e nenhum empenho.

Pois eu, em 15 dias, apresentei-me ao meu Comandante de Esquadra, Major Moreira e declarei-me pronto a voar naquele avião, o F-86, que era supersónico (em condições especiais) e monolugar ou seja teria de o voar sozinho sem ninguém a ensinar-me ao meu lado, dentro do avião…

Foi grande o seu espanto e logo ali ele, sentado à secretária e eu de pé à sua frente, me fez um exaustivo exame sobre um variado leque de matérias. Técnicas, de segurança e outras.

Nessa mesma tarde aprendi naquele fantástico avião a manobrá-lo no chão, com o instrutor encavalitado em cima da asa e eu a executar o que ele me dizia aos gritos, por causa do barulho do reactor.
 

Um grande instrutor, o Carvalhão!


E no dia seguinte estava a fazer o meu primeiro voo num avião que poucos dias depois me levou a bater a Barreira do Som!

Eu, o Ary e o Leite da Silva (um malandro que nos deixou há pouco, rumo às estrelas), o cocó o ranheta e o facada, a ordem dependia das asneiras que fazíamos, já andávamos nisto desde 1962 e chegar aqui foi um grande feito para nós, tão pouco graduados no meio de gente tão ilustre. Que olhava para nós com alguma natural desconfiança e expectativa, mas com toda a solidariedade.

Os senhores Tenentes pilotos nossos superiores pareciam-nos de outra galáxia. Os Sargentos-Ajudantes, mais próximos, tinham sempre um dedo apontado a nós: “Portem-se bem, senão…”

E tudo corria muito bem até que somos informados que uma nova leva de pilotos estava a chegar.
Pilotos da Academia Militar.

Imaginámos o que nos iria caber, agora que já estávamos encaixados naquela estrutura, com jovens Oficiais da Academia Militar a confrontarem-se connosco, nós mais antigos na Base, mais experientes mas de uma condição militar muito inferior.


Mas isto passava-se num tempo e num lugar que hoje parece mais ficção que realidade.


Nós os três, abaixo de Sargentos, fomos encarregues de dar instrução àqueles jovens pilotos Top Gun, acabados de sair da Academia.

Ao mesmo tempo que nos divertíamos imenso a ensiná-los a voar Chipmunk e Super Cub (é melhor não falar muito no que se fazia…) também íamos para o ar, em parelhas de F-86, para lhes dar a qualificação de Comandantes de Parelha.

Ou seja, à chegada à Esquadra, de manhã, batíamos a pala aos nossos superiores e depois íamos para o ar, eles a obedecerem às nossas instruções como mais qualificados que nós éramos. No fim do debrieffing saía mais uma palada nossa de despedida.

Este era o ambiente em Monte Real, anos 60 do Século XX.

Um dia cabe-me levar o Alferes Rica num voo de instrução que acabaria com manobras de aproximação e aterragem à pista da Base, às cegas, só com apoio radar, até ao chão. o GCA (Ground Controlled Aproach, um controlador fechado dentro de uma roulote junto à pista, a dar instruções de aproximação e aterragem pela rádio, frente a um grande écran).

No brieffing delineámos todas as manobras que se iam executar, estudou-se o quadro meteorológico, não muito famoso mas razoável, em que iríamos voar, a quantidade de combustível necessária e todos os itens pertinentes a uma missão que teria de ser executada com todo o rigor.

Nesse dia cabia ao meu aluno, o Alferes Rica, fazer de chefe e executar todas as manobras comigo no outro avião ao seu lado mas um pouco mais atrás, como se eu fosse o nº2 da parelha.

Como instrutor eu tinha o dever de lhe ministrar tudo o que sabia mas nunca descurando a segurança, ou seja, se algo corresse mal a responsabilidade era só minha e eu podia e devia assumir o comando da parelha em qualquer altura que entendesse.

E lá fomos para o ar, o Rica todo ufano no avião da frente, ele era o “chefe” e eu expectante mas confiante nele.






A missão compreendia umas quantas manobras iniciais em voo para apurar as capacidades de chefia de parelha e ao mesmo tempo descontrair antes das complicadas manobras de aproximação e aterragem sob controlo de radar, GCA, na nossa Base.

Já a grande altitude a situação meteorológica, contrariamente ao brieffing que nos tinham dado, alterou por completo os nossos planos.

Num instante a nossa Base “fechou” meteorológicamente e fomos encaminhados para pistas mais a sul, na zona de Lisboa. Pouco depois, para nosso espanto, fui também informado que as Bases de Tancos e da Ota, bem como Alverca e Lisboa estavam abaixo dos mínimos, impedindo qualquer tentativa de aproximação.

E como os homens só são postos verdadeiramente à prova quando tudo parece fugir do nosso controlo, as frequências rádio começaram a falhar. À medida que os minutos passavam fomos progressivamente ficando sem contactos rádio ao mesmo tempo que nos dirigíamos para Norte, confortáveis quanto ao combustível nos depósitos, mas sem saber onde aterrar…

Lembro-me que só tinha uma frequência rádio funcional de um qualquer interlocutor que tentava ser prestável mas que pouco podia fazer.

Entretanto eu como responsável pelo desenrolar dos acontecimentos começava a ter outro problema que para mim era não menos grave.

O meu aluno, que tinha o comando provisório do voo em si, estava a ficar, naturalmente, nervoso.

Quando falava eu ouvia perfeitamente a respiração alterada dentro da máscara de oxigénio, equipamento obrigatório neste tipo de aviões.

Não sei se as minhas palavras denotavam ou não o meu stress mas esforcei-me para lhe falar calmamente sem nunca o perder de vista, antes quase colado a ele, a 10km de altitude e a quase 500km/h.

E aí comecei a pensar que o melhor seria eu tomar os comandos reais da parelha…

Era fácil. Eu é que era ali o responsável perante o Comandante da Base e da Esquadra.

A Meteorologia impedia-nos de aterrar fosse lá onde fosse. As frequências rádio reduziam-se a uma única e não era de uma torre de controlo sequer. O meu aluno estava a ficar nervoso.


Faltava o quê para eu assumir o comando?


Faltava o respeito pelo meu aluno.

Faltava saber realmente se ele era ou não capaz de chefiar uma parelha numa situação de emergência.


E se eu assumisse o comando o que seria da sua auto-estima? Estaria a ajudá-lo? A formá-lo como piloto?

E se ele pensasse que eu queria pôr-me em bico dos pés perante ele? Não ajudaria ao reconhecimento da sua hipotética incapacidade de gestão da situação.


A 500km/h e sem pista onde aterrar não há lugar para grandes divagações.










 

O Rica tem de seguir à frente, decidi eu.

Enquanto isto se passava eu tentava falar
com mais alguém capaz de nos ajudar.





Já perto de Monte Real consegui contacto com o GCA mas não conseguia falar com os outros responsáveis do controlo da Torre ou da aproximação da nossa Base.

Ficou decidido que o Radar ia tentar levar-nos à pista que não estava operacional devido às condições meteorológicas. Mas a descida para o encontro da capacidade de alcance do Radar teria de ficar por nossa conta.

Éramos  os únicos aviões militares no ar, naquele momento...


O Rica continuava a respirar com algum nervosismo mas ia cumprindo o seu papel e eu seguia-o que nem galgo a uma lebre, controlando-o “à distância”, o que ele supunha não estar a acontecer.






Quando o GCA finalmente nos apanha no Radar e dá início a uma tentativa de aproximação à pista, o Rica aumenta os níveis de stress e eu baixo a voz uns tons a ver se consigo simular uma normalidade que de todo não existia.

Era talvez a nossa única oportunidade de colocar aquelas preciosas máquinas e os seus dois pilotos no chão, em segurança.

Asseguro-me de que o Rica cumpre escrupulosamente as instruções do radar e simultaneamente vou tentando ver se encontro algum vislumbre de terra, eu que estava confortável quanto à capacidade do Radar em nos guiar até a um ponto de decisão. Conseguir ou não ver a pista era um assunto para mais à frente…


Pouca conversa havia entre nós os três, o Alferes Rica, eu e o magnífico controlador do Radar.
Só o estritamente necessário para resolver aquela delicada situação, muito pouco habitual. 


Agora estamos já a chegar à nossa hora da verdade e o Rica continua a cumprir a sua função de futuro Comandante de Parelha...


E de súbito vejo finalmente a pista!



Mas como nunca a tinha visto!


Parecia que metade do Pinhal de Leiria tinha “aterrado” nela, tal era a quantidade de pequenos ramos de pinheiro aqui e ali plantados por algumas rajadas de vento não previstas no brieffing meteorológico que tivéramos há menos de uma hora.

Pedi ao Rica para não travar muito fortemente (uma tentação nestas emergências em que finalmente se vê a salvação à frente e o que se quer é parar "aquilo" rapidamente) e aterrei atrás dele como me competia.

Missão cumprida! O meu aluno cumprira integralmente o que seria de esperar de um chefe e eu cumprira bem o meu dever de o levar a assumir as suas futuras responsabilidades.

Estas coisas, quando se corre grande perigo e tudo acaba bem porque nós fazemos bem o que deve ser feito e ainda mais em equipa, levam a um grande aproximação entre as pessoas.

Quando finalmente nos encontrámos no chão, os aviões intactos e nós melhor do que nunca, as lágrimas a cair no meio de um forte abraço, em silêncio, percebemos que os nossos caminhos estavam inexoravelmente ligados.

Foi por isso que naquele jantar, poucos dias depois, eu não aceitei a ausência do meu Amigo Rica.

Foi por ele que naquela noite malhei tanto milho. Foi por ele que não consegui ficar na cama as vezes que tentaram deitar-me lá.



E é em sua memória que escrevo isto.




PS: a fotografia do Alferes Rica foi "colhida" por mim no painel onde estão todos os pilotos que passaram pelo Palácio dos Falcões, na Base Aérea N 5, em Monte Real, no último encontro dos Falcões, 4 de Outubro de 2017.




(Ultima actualização em 29 de Março de 2018)





quarta-feira, 19 de junho de 2013

Aviões que voei > F-86F - 1ª Parte



O F86-F foi, obviamente, o avião militar que mais gostei de voar.



Com o grande desafio de não haver simulador para aprender nem instrução em voo em duplo comando.

O  avião era monolugar...

Fiz o meu primeiro voo em Monte Real, na Base Aérea Nº 5 no dia 16 de Setembro de 1964.


Descolei... e depois tive que aterrar.

 


O Sargento Ajudante Carvalhão foi o meu instrutor, a voar num avião ao lado do meu, instrução dada por rádio, entre os dois aviões.

Normalmente as lições acabavam num super stressante voo em formação cerrada, o Carvalhão a chamar-me nomes por o meu avião estar a mais de 50cm, asa com asa, do dele, a voarmos a mais de 500km/h, a subir e a descer as ondas junto à rebentação, entre a Figueira da Foz e a Nazaré...


Por culpa do Carvalhão ainda hoje o faço, principalmente nas rotundas, onde gosto de ultrapassar os terráqueos mais lentos, para grande espanto do automobilistas melhor comportados...


Servi-me de muitas ajudas para vos contar a história deste fantástico avião. Algumas vezes limitei-me a traduzir textos que encontrei. Salvo pequenos comentários, grande parte do que se segue não é de minha autoria. Coube-me organizar a informação para tornar mais apelativa a leitura.

As imagens têm a identificação que lhe deram. Foram todas tratadas por mim.

Dividi a história em duas partes. A segunda parte começa com a chegada do F-86 a Portugal.

Nesta primeira parte podem ler-se coisas como:

  • Generalidades
  • Desenvolvimento do F-86
  • A Barreira do Som e outros recordes de velocidade
  • O MIG-15 e o Fury
  • Armamento
  • Conforto e segurança

Vamos então dar uma voltinha neste fantástico avião.



Generalidades



O F-86 Sabre, foi um caça de combate a jacto, transónico, desenvolvido pela North American a partir do final de 1944.

Veio a ser um dos caças mais produzidos no mundo Ocidental, no tempo da Guerra Fria.

Foi o mais proeminente avião de combate de segunda geração, que incorporou tudo o que de mais desenvolvido tinha sido assimilado pelos projectistas Norte-Americanos na concepção de aviões a jacto e que beneficiou ainda dos avançados conceitos aerodinâmicos desenvolvidos pelos cientistas Alemães no decorrer da Segunda Grande Guerra.











Foi construído em grandes quantidades nos Estados Unidos, no Canadá, Itália e Japão, em várias das suas versões e variantes e operado por mais de 35 forças aéreas em todo o Mundo, representando um importante papel na defesa do mundo Ocidental nos primeiros anos da Guerra Fria.





O XP-86 (eXperimental Pursuit), designação do modelo experimental, voou pela primeira vez no Muroc Dry Lake, California, a 1 de Outubro de 1947.

 




O primeiro voo do modelo de produção, inicialmente designado P-86A (modificado para F-86A em Junho de 1948) foi no dia 20 de Maio de 1948. Menos de 4 meses depois, no dia 15 de Setembro, estabelecia já um novo recorde de velocidade: 670,9 mph, 1.079,71km/h.




Na altura em que entrou ao serviço da US Air Force, em 1949, ganhou o nome “Sabre”.


Muitas variantes foram produzidas durante a vida do Sabre, as mais numerosas foram o F-86D com 2.054 unidades do modelo all-weather/night fighter.

Apesar de no final de 1950 já não ser um avião de primeira linha, manteve-se no activo durante mais de quatro décadas até 1994, quando finalmente a Força Aérea da Bolívia o retirou do activo.



Desenvolvimento do F-86




No início da Segunda Grande Guerra os engenheiros aeronáuticos Americanos foram confrontados com o problema das ondas de choque que se formam nas superfícies frontais dos aviões de grande velocidade, particularmente nas asas e nas caudas. Estas ondas de choque foram a causa de inúmeros acidentes graves nos Lockheed P-38 "Lightnings".

O North American P-86 Sabre foi o primeiro avião Americano a tirar vantagem dos estudos Alemães feitos para o Messerschmitt Me 262 apreendidos à Luftwaffe no final da II G. Guerra.





Utilizando dados recolhidos de experiências da Luftwaffe, as asas e os estabilizadores horizontais e verticais (da cauda) do Sabre tomaram a forma de flexas, com ângulos de 35º com a fuselagem de modo a minimizar o efeito das ondas de choque, permitindo assim maiores velocidades.

No final de 1944 a North American estava a desenvolver estudos baseados no modelo NA-135, o qual originou o FJ-1 Fury da US Navy.















Tratava-se de um caça a jacto convencional com as asas ainda em ângulo recto com a fuselagem e propulsionado por uma turbina Allison TG-180.








Sensivelmente na mesma data, 1944, a Força Aérea do Exército dos Estados Unidos da América encomenda um avião similar, nomeado projecto NA-140 e do qual resultaria o F-86.













Após a apresentação da maqueta, o fabricante propôs a incorporação de uma asa em flecha com um ângulo de 35º, baseada nos estudos do Me-262.





Esta tecnologia permitia também o aumento da velocidade sem que fosse necessário um grande aumento de potência.


O F-86 foi assim o primeiro avião a jacto de combate de asas em flexa.





Armado com seis metralhadoras, os pilotos do Sabre tinham de estar em contacto visual com o inimigo para o poder eventualmente abater, sendo o último verdadeiro 'dogfighter'  da história da Aviação Militar.

Aproximadamente 10.000 Sabres foram produzidos em 20 variantes diferentes (incluindo as do FJ Fury da Navy) e com cinco motores diferentes.

O que se tornaria numa espectacular carreira como avião de combate começou no dia 14 de Maio de 1945 quando a US Army Air Corps encomendou três cópias do modelo experimental NA-140 da North American.

O modelo experimental XP-86 mais leve e consideravelmente mais rápido que o Fury, com uma velocidade estimada de 937km/h contra os 880km/h do Fury, estava equipado com um motor a jacto General Electric J-35-C-3 construído pela Chevrolet, de 4.000 libras de impulso.

Apesar de uma forte oposição do staff mais sénior da North American, o desenvolvimento do projecto levou à incorporação das asas e cauda em flexa, slats de operação automática, como no Messerschmitt Me 262, e um estabilizador horizontal electricamente ajustável, outra característica do Me 262.

Posteriormente foi reequipado com o mais potente J47-GE-3 (de 5.200 lb de impulso) e então designado YF-86A, devido à reestruturação das designações atribuídas aos aviões da USAF (0 "P" de Pursuit foi substituido pelo "F" de Fighter). Ainda durante a fase de construção dos três protótipos, foram encomendados os primeiros 33 F-86A de produção final, de um total faseado que atingiu as 554 unidades. Durante a sua construção foram sendo equipados com novas actualizações de motor: J47-GE-3, J47-GE-7, J47-GE-9 e J47-GE-13.

Durante a fase de testes a maior velocidade obtida foi de 618,33 mph (994,6 km/h). Tinha um tecto de 41.300’ e a velocidade inicial de subida era de 4.000 ppm, parâmetros fantásticos na altura num avião com características únicas, o que levou os pilotos de testes a afirmar que se tratava de “uma plataforma de tiro estável como uma rocha e tão fácil de pilotar que quase se conseguia voar com o pensamento”…
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  • A Barreira do Som e outros recordes de velocidade

O F-86A estabeleceu o seu primeiro recorde de velocidade no dia 15 de Setembro de 1948: 670 milhas por hora,1,080 km/h. Mesmo assim 32 milhas por hora, 51 km/h, menos que as 702 milhas por hora,1,130 km/h do record de velocidade não oficial do Me 163B, propulsionado por um rocket, nos testes de Julho de 1944. O Me 163B tinha asas em flexa com um angulo de 23,3º.

Há reportes de técnicos projectistas do F-86 sobre uma eventual ultrapassagem da barreira do som pelo piloto de testes da North American George Welch durante o primeiro voo de testes do XP-86 no dia 1 de Outubro de 1947, facto que parece carecer totalmente de validade.

Ver: "George Welch and the Sound Barrier" no Duncan's Sabre Website














O lendário piloto de testes Chuck Yeager bateu pela primeira vez a barreira do som em linha de voo, a mais de 1.225 quilómetros por hora, no dia 14 de Outubro de 1947 no Bell X-1, propulsionado por um rocket num voo de só 2 a 3 minutos e largado de um Bombardeiro adaptado B-29, sobre a cidade de Victorville, Califórnia.

Chuck Yeager alistou-se na USAF em 12 de Setembro de 1941 sendo depois aceite como sargento piloto. Na 2ª Grande Guerra tornou-se “Ás num só dia” ao abater 5 aviões inimigos sobre a Europa numa só missão.







Jacqueline e Yeager











5 anos depois, no dia 18 de Maio de 1953, Jacqueline Cochran tornou-se a primeira mulher a bater a barreira do som num F-86 Sabre Mk 3, Canadiano.
















Chuck Yeager, de seu nome Charles Elwood Yeager, nascido em Myra, Virginia Ocidental em 13 de Fevereiro de 1923 (cuja história é magistralmente contada no filme “Os Eleitos”, com o actor Sam Shepard, "The Right Stuff"- 1983) voltou a quebrar a barreira do som, aos 89 anos, exactamente no mesmo dia e à mesma hora 65 anos depois, a 14 de Outubro de 2012. Desta vez num F-15D pilotado pelo muito honrado com o passageiro, capitão David Vincent, ver foto abaixo.





“O que sou devo-o à Força Aérea. Eles agarraram num garoto de 18 anos da Virginia Ocidental e transformaram-no naquilo que eu sou hoje”. Chuck Yeager


<< Essa barreira era de tal forma mítica, que havia um clube dos que tinham ultrapassado essa velocidade – o Mach Buster’s Club.

No F-86F, para se conseguir efetuar a manobra, era necessário utilizar um avião limpo (sem depósitos externos), subir para os 40.000 pés ou perto, motor a 100 %, com a máxima velocidade possível em linha de voo, inverter o avião e iniciar uma picada bem acentuada.

Sentia-se um endurecimento dos comandos, com alguma perda de eficácia dos mesmos. Lia-se o indicador de Mach para confirmar a velocidade. Após a passagem (pelo menos Mach 1.02) voltava a verificar-se um aumento de eficácia dos comandos.

Consoante se ia descendo, com o aumento da densidade do ar, mesmo mantendo o motor, a velocidade decrescia. Normalmente, reduzíamos o motor para regressar rapidamente às velocidades e atitudes normais.

Esta manobra era executada em voos de experiência e na fase da Adaptação para o piloto fazer uma ideia do fenómeno e... satisfação da vaidade. Era um "penacho" para o respectivo "chapéu" >>. 
 


Publicado em “Pássaro de Ferro” pelo
Cap. (Ref) Fernando Moutinho: A Barreira do Som


(Voei em Monte Real com este ilustre Falcão)



Para a história não vai ficar...

...mas eu também sou um Mach Buster !








Bati a barreira do som no F-86F 5329 no dia 18 de Setembro de 1964. Sob os céus de Monte Real, embora o diploma diga que foi no dia 21…



Ver esta história aqui: Sou um Mach Buster!
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Continuando com o desenvolvimento do F-86...


O terceiro F-86A-1 de produção equipado com o novo motor J47-GE-13, estabeleceu um novo recorde mundial de velocidade de 670,98 mph (1.018 km/h), no dia 1 de Setembro de 1948.

O F-86 “F” foi o mais representativo de todas as séries (da “A” á “L”) e o que mais envolvimento e sucesso teve durante o conflito na península Coreana, (a Guerra da Coreia, que legalmente ainda hoje não terminou!) constituindo-se como o oponente mais capaz do MIG-15 e ultrapassando-o largamente.

Foi ainda usado como caça-bombardeiro com sucesso, embora não fosse essa a sua vocação.

Introduziu uma asa optimizada que, com a utilização de Slats e da “cauda voadora”, permitiu uma maior estabilidade tanto a alta como a baixa altitude e velocidades, necessárias tanto para o combate ar-ar como para o bombardeamento e ou o ataque ao solo.


O MIG-15 e o Fury



Vamos agora espreitar os aviões que ajudaram na sua concepção:

O Mikoyan-Gurevich MiG-15 e o North American FJ-1 Fury


   MIG-15




 A Mikoyan é uma indústria russa fabricante de aviões militares. Começou as suas actividades na extinta União Soviética desenvolvendo projectos militares para o governo.

Foi fundada pelo arménio Artem Mikoyan (5 de Agosto de 1905/9 de Dezembro de 1970) e o Russo Mikhail Iosifovich Gurevich (12 de Janeiro de 1893/12 de Novembro de 1976) daí o nome: "Mikoyan-Gurevich".



Após a morte de Mikoyan, a palavra "Gurevich" foi eliminada do nome da empresa. A empresa é mundialmente conhecida pelo prefixo "MIG".


O Mig 15 (código NATO "Fagot") foi um dos primeiros aviões a jacto de asas em flecha bem sucedido. Alcançou a fama nos céus da península Coreana onde o seu desempenho ultrapassava todos os caças inimigos.




Até ao aparecimento do F-86 Sabre

O Mig-15 foi concebido em 1946 para concretizar um pedido soviético. Necessitavam de um interceptor para grande altitude e de alta capacidade para abater alvos estratégicos. O projecto concebido foi um avião de asas em flecha num angulo de 35º, incorporando uma grande quantidade de ideias alemãs. Nessa altura não havia um motor adequado para o Mig-15, até que o governo inglês, com o beneplácito do pro-Sovietico Ministro do comércio britânico, Sir Stafford Cripps,  vendeu 25 motores Rolls Royce Nene para a Rússia. Os russos de imediato começaram a criar um motor semelhante, o Klimov RD-45. Mais tarde a Rolls Royce tentou reclamar direitos no valor de 207 milhões de Libras.





Voou pela primeira vez no dia 30 de Dezembro de 1947, uns dois meses depois do F-86 Sabre.

Pensa-se que o MiG-15 foi o avião a jacto fabricado em maior número, com cerca de 12.000 unidades construídas, não contando com as unidades construídas sob licença fora da União Soviética, as quais poderão elevar os valores para 18.000 unidades. O Mig-15 continuou em serviço até meados dos anos 1990 nos países aliados à Rússia. Foi inclusivamente usado em Angola, pilotado por cubanos.


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FJ-1 Fury






Quanto ao North American FJ-1 Fury foi o primeiro avião a jacto operacional ao serviço da United States Navy, sob o nome NA-135.



 








Avião a jacto de transição, com um sucesso limitado, encomendado nos finais de 1944 como XFJ-1 em concorrência com a Douglas e a Vought, era uma espécie de evolução do P-51D Mustang, com asas em linha recta, perpendiculares à fuselagem.




 
A evolução do conceito, agora incorporando asas em flexa, levou ao protótipo XP-86 da United States Air Force que por sua vez daria origem ao enormemente influente F-86 Sabre mas também ao North American FJ-2/-3 Fury da Navy, para operar em porta-aviões.

O primeiro voo do protótipo XFJ-1 deu-se no dia 11 de Setembro de 1946.

As primeiras entregas do modelo final, o FJ-1 Fury, realizaram-se no início de Outubro de 1947 e a primeira aterragem de um Fury num porta-aviões, o USS Boxer, foi feita com sucesso no dia 10 de Março de 1948. O avião podia descolar de um porta-aviões sem recurso a catapulta!



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Voltando ao desenvolvimento do F-86



O Sabre representou muitas estreias na tecnologia e no design.

As asas em flexa tornaram-se um standard nos aviões a jacto, de alta velocidade.

A então revolucionária “cauda voadora” permitia-lhe uma grande manobrabilidade a alta altitude. Em vez de um estabilizador horizontal fixo e um leme de profundidade, tinha um estabilizador horizontal móvel ao qual se ligava o leme de profundidade.

Dotado também de um sistema hidráulico para a actuação das superfícies de controlo do voo em vez dos tradicionais cabos metálicos, tornava a pilotagem um prazer por eliminar a força excessiva necessária anteriormente para actuar mecanicamente essas mesmas superfícies a grande velocidade.

As superfícies de controlo do voo do F-86E dependiam também de um sistema de controlo de sensação artificial.

Com o aparecimento da versão F86-F em 1952 foram introduzidos os slats no bordo de ataque, ao longo de toda a asa. Eram mecanicamente actuados pela carga aerodinâmica gerada pela velocidade do avião, de forma automática. Começavam a estender-se  a partir dos 180 kts e ficavam completamente de fora por volta dos 150 kts e velocidades inferiores.

A observação visual desta actuação era um auxiliar precioso no voo em formação. Por exemplo no looping os slats só deviam estar completamente estendidos durante a breve parte da manobra em voo invertido.

A actuação dos slats permitia uma maior estabilidade a baixa altitude e baixa velocidade, necessárias para o bombardeamento e ou o ataque ao solo, aumentava o raio de acção, aumentava a manobrabilidade também a altitudes elevadas e reduzia a velocidade de descolagem e aterragem.

Uma segunda actualização técnica do F-86F permitiu tanques de combustível maiores (200 galões) que lhe aumentaram o raio de acção. Os tanques eram ejectáveis.

Resumindo, o F-86 reunia, entre outras, algumas características únicas, na altura:

  • Asas e cauda em flexa.
  • Flaps operados electricamente.
  • Speed brakes (travões aerodinâmicos) actuados hidraulicamente, montados nos lados da fuselagem, logo atrás das asas.
  • Leading-edge slats automáticos
  • Ailerons e cauda (toda movível) operados hidraulicamente, com controlo irreversível e sistema artificial de sensibilidade.





Outra característica inconfundível do design do Sabre é o nariz que encima a entrada de ar para o reactor.


 




Originalmente concebido como um caça diurno de alta altitude, foi posteriormente redesenhado para se tornar num interceptor “all-weather”, F-86D e num caça-bombardeiro, F-86H.



Algumas versões de F-86 interceptores all-weather tinham reactores equipados com afterburners para permitir grandes razões de subida e as manobras necessárias para executar as missões de intercepção.






































Uma versão de treino do F-86F, o TF86F, com dois assentos (um à frente do outro) foi construída para substituir o T-33. O primeiro destes aviões fez a sua estreia em voo no dia 14 de Dezembro de 1953 e perdeu-se num acidente pouco depois. Um segundo TF86F ficou pronto a voar no verão de 1954 mas a Força Aérea Americana cancelou o programa poucos meses depois.




Armamento



Como armamento, as versões de caça tinham o seguinte equipamento:

  • 6 metralhadoras M-3 Browning de 12,5mm, 3  de cada lado do nariz. Disparavam 1200 balas/minuto
  • Podia também transportar 2 bombas de 500kg ou
  • 16 rockets de .50 polegadas nas asas que convergiam 300m à frente do avião
  • As versões de intercepção carregavam 24 rockets de 2,75 polegadas montados numa bandeja retráctil alojada no fundo da fuselagem. A bandeja saía só o suficiente para lançar os rockets e voltava a recolher-se.
  •  Posteriormente foram habilitados a transportar e disparar o míssil AIM-9 Sidewinder, um míssil ar-ar orientado por radiação infravermelha, de curto alcance, utilizado por vários caças. Deve o seu nome à cobra Sidewinder, com quem partilha o seu padrão de movimento. O Sidewinder foi o primeiro míssil ar-ar realmente eficaz, largamente imitado e copiado. As variantes mais modernas continuam ao serviço. Foi disparado pela primeira vez em Setembro de 1953 e entrou ao serviço em 1956. Atingia a velocidade de Mach2.5 com um alcance de 18km. Custava 84.000 Dolares.
  •  Uma única bomba atómica de 545kg (1200lbs), Mark 12 atomic bomb. Foram construídos 264 F-86F-35s tornando-se nuclearmente operacionais em Janeiro de 1954. Foram enviados para as bases da NATO para combater a ameaça Soviética à Europa. Para a largada desta bomba o avião estava equipado com um "Low Altitude Bombing System (LABS)" que permitia ao avião escapar à explosão.


B.A.5, um F-86 equipado com Sidwinder





Conforto e segurança



Como conforto para o piloto, o F-86 estava equipado com:

  • ar condicionado
  • aquecimento
  • e pressurização.



 

 

 

 

 

 

 

Um importante item de segurança era 

 

- A cadeira de ejecção.







 Fim da 1ª Parte

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