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quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Minha Força Aérea - Para grandes males, grandes remédios!



 Aviador que se prese tem sempre uma solução...


Como piloto de F-86 na Base Aérea de Monte Real, actual casa dos F-16, entre 1964/66, as minhas obrigações levavam-me a voar todos os tipos de aviões existentes na Base. Além do F-86 voei o Chipmunk, o Beechcraft Model 18 e o Super Cub, sendo os mais ligeiros pertencentes à Esquadra de Ligação e Treino.

E é nesta vertente de "Ligação" que cabe esta história.

Melhor dizendo de "Frete".

Duplo frete.

a) Porque o voo era uma espécie de frete, desempenhar uma incumbência, fazer um recado e…

b) Porque era cada vez mais um frete o frete que fazia



Vamos à história.



Eu no meu F-86
Em F-86 eu cronometrei o tempo que me levava a voar entre Monte Real e Lisboa. Uns 9 minutos, mais coisa menos coisa.



Em Chipmunk, o avião onde aprendera a voar em Aveiro 3 anos antes, o voo tinha mais minutos. 

Cinco vezes mais minutos.

45 minutos ao todo, que tive que aprender a gerir.













Chipmunk

A partir de determinada altura passei a voar sempre alto, entre 500 e mil metros de altitude, 1500 a 3000 pés.

Porque era sempre vencido pelo sono… 

E a altitude a mais era perdida pela descida desenfreada que me acordava ainda a tempo de evitar estragar a pintura ao avião. O barulho que aquilo fazia ao passar para uma velocidade bastante maior que a de voo em cruzeiro era um óptimo despertador. Coisa muito segura, como se vê.

Era pois um frete voar cinco vezes mais lentamente do que o fazia normalmente.





Mas tinha o seu encanto. Dava para apreciar melhor a paisagem. Felizmente não tinha nenhuma namorada no caminho o que às vezes dava para o voo acabar em cima do telhado da casa dos pais delas, ou no laranjal do quintal, como um que eu conheci, o fez.

No meu caso teve o aliciante de ir controlando o andamento dos trabalhos da ampliação da EN 1, no troço entre Leiria e Rio Maior, ao longo da Serra dos Candeeiros.

E já perto da inauguração da obra, o Almirante Américo Tomás a afiar a tesoura e o Ministro das Obras Públicas Arantes e Oliveira a mandar passar a fita a ferro, a ligação ao novo troço já estava devidamente preparada.

Pude aperceber-me que para evitar que os aceleras do costume fossem por ali fora antes do Tomás aparecer de tesoura em punho, tinham protegido o acesso fácil àquela nova estrada que muito beneficiou o trânsito.

Puseram uns bidons a tapar a entrada, exactamente no cruzamento com a estrada que vinha das Caldas da Rainha para Rio Maior.



O facto de ser um dos pilotos mais novos daquela Esquadra de aviões ligeiros da Base Aérea de Monte Real implicava ter de transportar toda e qualquer pessoa que precisasse de se deslocar para qualquer unidade da Força Aérea.

E por vezes a vontade era nenhuma e então quando os “clientes” eram personalidades menos recomendáveis…

Por um mero acaso descobri um dia como amenizar algumas viagens mais aborrecidas pela deficiente qualidade do passageiro.

Funcionava sempre. Manobra baseada na Fisiologia de Voo que como ciência que é faz parte da Natureza Humana. Experimente quem possa.


É mesmo infalível.





Não ensinem isto a ninguém, ou pelo menos não digam que fui eu que vos disse..


É assim:


A meio de um trajecto, ao fim de uns bons e serenos minutos de voo, procura-se uma nuvem do tipo Cumulus, base larga e plana em dia de bom tempo, entra-se na nuvem afoitamente (quem não tem formação em Voo por Instrumentos por favor não tente) e ao fim de uns segundos inicia-se mas muito lentamente uma volta para um dos lados, mantendo a altitude.



 

A manobra tem de ser feita com muita precisão: a volta tem se ser muito bem coordenada de pés e mãos e iniciada muito lentamente.

O avião inicia então uma volta com um pranchamento de pelo menos 20º (inclinação das asas em relação à horizontal)

E é só isto. Mais nada.

Quando a nuvem acaba, isto é, quando o avião sai da nuvem com as asas inclinadas e o horizonte enviesado o que é que acontece ao cérebro do incauto pendura?



Ciência pura...

Como estava anteriormente a voar direitinho e entrou suavemente numa volta, sem dar por isso, os neurónios ainda a voar paralelos ao horizonte da Terra, de repente a Terra entorna-se.

E o estomago do sujeito também.

E o almoço também se entorna e o cheiro a vomitado cheira mas é a já dei cabo de mais um

E assim eliminava a hipótese de voltar a ser “contratado” por aquele camarada.

E isto sem fazer nenhuma manobra súbita ou acrobática.



Mas havia um sujeito que não podia “eliminar” porque desempenhava funções importantes de logística.

Até ao dia em que percebi que, voando sempre para Alverca, para as OGMA, onde o homem se demorava horas infinitas e nunca cumpria os horários que ele mesmo estabelecia, me pareceu que ele me usava para ir a Lisboa de passeio e fazia de mim o seu piloto particular tratando dos seus assuntos pessoais.


E foi assim que naquele dia…


- Ó amigo, disse-lhe eu à chegada a Alverca, isto sai às 5 da tarde em ponto e se você não aparece fica cá.

- Sim senhora, estou cá às 5!


E foi mesmo a essa hora que o avião saiu da placa.

Sem o sujeito.


Não tinha ainda rolado 10 metros aparece-me o homem a correr pela placa fora a gesticular freneticamente.

Lá parei ele entrou e descolei para Monte Real, no Chipmunk.

E em vez de subir em direcção a Norte, subi, subi, subi às voltas sobre Alverca até aos 3.000’ (pés) 1km de altitude.

E aí, sim. Aí iniciei o voo.

Mas um bocadinho para a direita do Norte... Um bocadinho para Este…

Em direcção a Rio Maior, à Serra dos Candeeiros, àquele cruzamento que eu tão bem conhecia. Em linha recta e sempre a descer!

São uns bons 10 a 15 minutos. Direitinhos que nem um fuso a velocidade sempre a aumentar até ao limite máximo. Aí fui reduzindo o motor para cumprir os limites estruturais do avião quanto à velocidade.

O meu passageiro devia ir deliciado a ver a Terra a aproximar-se cada vez mais. Começam-se a ver as casas maiorzitas e todas as coisas aparecem com mais definição.

Os meus olhos iam fixos naquele cruzamento que ainda não tinha expressão mas eu sabia onde ele estava.

E quando comecei a ver ainda lá ao longe os bidons de pé no meio da estrada, o alcatrão era novinho, comecei a tirar medidas.

A estrada era uma via rápida de duas faixas com árvores altas de um lado e do outro. Mesmo por cima dos bidons uns fios de Alta Tensão atravessavam-na na perpendicular.

Ou seja, havia uma espécie de rectângulo cujo lado superior eram os fios, o lado inferior eram os bidons e as laterais aquelas bonitas árvores.


Era aqui, mas agora é um viaduto que passa por cima da estrada das Caldas. E os fios eram mais baixos.

Rectângulo um pouco maior do que o tamanho do Chipmunk. Mas não muito…

              
 - Mas o avião cabe! Concluí eu.
 








Quando me apercebi disso, agarrei o manche com ambas as mãos, fortemente, não fosse haver uma tentação de alguém desviar aquele avião um milímetro que fosse.

O desgraçado passageiro lá atrás apercebe-se do que ia suceder e grita:


- Cuidado com os fios!!!

- Quais fios!? Grito eu…


Nunca mais nos vimos no mesmo avião, está claro.


Os aviadores têm sempre maneira de tornar aliciante qualquer voo, por mais aborrecido que seja.


É da Arte…





segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A minha Força Aérea - As cadernetas de voo militares



As cadernetas de voo militares são documentos oficiais onde se regista toda a actividade aérea dos pilotos.

Essas cadernetas são autenticadas periodicamente pela autoridade competente em cada unidade mas são pertença do piloto. Acompanham-no sempre para qualquer Esquadra em que vá prestar serviço.

E quando se passa à disponibilidade, no fim do serviço militar cumprido, continuam a pertencer ao ex-militar. As horas de voo registadas nestas cadernetas podem transitar para as cadernetas civis. Um piloto civil, ex-militar, tem na sua caderneta o total das horas que fez em todo e qualquer avião, civil ou militar.

Esses registos permitem, em qualquer momento, reviver episódios com relevo vividos, às vezes, muitos anos antes.

E foi assim que um dia destes, depois de ter começado a vasculhar as minhas cadernetas de voo, descobri que desde o dia 24 de Julho de 1964, meu primeiro dia de voo na Base Aérea Nº 5, em Monte Real, Leiria, até ao dia 16 de Setembro, 55 dias ao todo, voei, várias vezes, com funções a bordo de piloto ou 2º piloto e não como passageiro, os seguintes aviões, com as respectivas matrículas:

·         JU-52 / Nº 6311 no dia 24 de Julho, M.Real-Tancos-M.Real

·         Chipmunk / Nº 1356 e Nº 1357

·         Piper Cub / Nº 3204 e Nº 3215

·         Beechcraft BC-D-18S / Nº 2508

·         F86 F / Nº 5357 no meu 1º voo, no dia 16 de Setembro.

Este aviador é realmente muito versátil, carago!

Características principais destes aviões. Texto normalmente da Wikipédia:

Junkers Ju 52

Um JU português


A recepção dos 1ºs aviões portugueses foi feita em Dezembro de 1936 na Granja do Marquês, em Sintra.

A sua característica principal é o facto de tanto as asas como a fuselagem serem feitas em metal canelado, como as folhas de zinco dos telhados

JU Alemão

Cockpit do JU

É um avião alemão com motor a pistão fabricado entre 1932 e 1945 pela empresa Junkers, com capacidade de 17 passageiros. Também é conhecido como "Tante Ju" (Tia Ju) ou Auntie Ju, e apelidado pelas tropas aliadas durante a Segunda Guerra Mundial como "Iron Annie". Foram produzidas mais de 4.000 unidades para utilização civil e militar. É um dos aviões mais bem sucedidos na história da aviação européia.


Chipmunk

Chipmunk

O protótipo do DHC-1 Chipmunk, CF-DIO-X, voou pela primeira vez em 22 May 1946 em Downsview, Toronto, no Canadá.


O Chipmunk é um monomotor bi-lugar em tandem, de treino básico que serviu a Royal Canadian Air Force, a Royal Air Force  e muitas outras Forças Aéreas no pós Segunda Grande Guerra.

Hoje, mais de 500 DHC-1 Chipmunks (conhecidos poor "Chippie") continuam a voar ou a ser reconstruídos.



Piper Cub

 

Super Cub da FAP

O Piper PA-18 é um avião monomotor, com trem de aterragem fixo, roda de cauda, asa alta, bilugar, que possui dois assentos na maioria das configurações.

Construiram-se mais de 2 unidades deste modelo. Ideal para recreio, muitos aeroclubes são possuidores deste tipo de aparelho. Militarmente, foi utilizado pelos Forças Armadas dos Estados Unidos, a partir de 1943, no Norte de África e na Europa como avião de ligação e na correcção de tiro da artilharia.

Em 1949 foi construída uma nova versão, o PA-18-90 Super Cub com um motor de 105 Hp.

Em 1952 entraram ao serviço do Exército Português 27 aviões Piper Super Cub, utilizados por este ramo essencialmente para observação, controlo e regulação de tiro de artilharia. Previa-se, nessa altura a criação de uma unidade de aviação ligeira no Exército mas, como essa ideia foi abandonada, as aeronaves passaram para a Força Aérea Portuguesa.

Na Força Aérea as aeronaves cumpriram missões de treino de pilotos e de observadores aéreos e missões de ligação. Alguns aviões também serviram nas Formações Aéreas Voluntárias. Foram retirados do serviço em 1976 e cedidos a aeroclubes.


Beechcraft


Bechcraft D-18 da FAP

Bechcraft D-18

O Beechcraft Modelo 18 é um avião norte-americano bimotor monoplano de asa baixa, de construção metálica semi-monocoque, para seis passageiros e dois pilotos. O projeto da aeronave era bem convencional, exceto pela deriva dupla. Foi fabricado por mais de trinta anos, entre 1937 e 1970, atingindo mais de 9.000 unidades


         F-86 Sabre

F-86 F da FAP

O F-86 Sabre, foi um caça de combate diurno a jacto, subsónico (embora capaz de ultrapassar a Barreira do Som em voo picado, tal como fiz no dia 21 de Setembro de 1965) desenvolvido pela North American a partir do final de 1944.

Veio a ser um dos caças mais produzidos no mundo Ocidental, no tempo da Guerra fria. Ficou famoso pelo seu envolvimento na Guerra da Coreia, onde defrontou com sucesso o seu principal oponente o MiG-15.

Apesar de no final de 1950 já não ser um avião de primeira linha, manteve-se no activo durante mais de quatro décadas até 1994, quando finalmente a Força Aérea da Bolívia o retirou do activo.

Foi o mais proeminente avião de combate de segunda geração, que incorporou tudo o que de mais desenvolvido tinha sido assimilado pelos projectistas Norte-Americanos na concepção de aviões a jacto e que beneficiou ainda dos avançados conceitos aerodinâmicos desenvolvidos pelos cientistas Alemães no decorrer da Segunda Guerra Mundial.