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domingo, 17 de junho de 2018

A Minha Força Aérea - A minha não-largada em Piper Super Cub


       O Super Cub do Museu do Ar





Isto ocorreu nos idos do final da década de 60 do século passado.


Estava eu colocado na Esquadra 51 em Monte Real, Leiria, na Base Aérea Nº5.




E já tinha voado mais rápido que o som num F-86 daquela Esquadra.
















Sou um Falcão! 








Ver essa história aqui.








Recuando uns bons 10 anos no tempo, eu tinha sido largado, com 16 anos, num
Piper Cub, igual a este aqui em baixo, do Aero Clube da Zambézia em Quelimane, Moçambique.










logótipo do Aero Clube da Zambézia









Fui o piloto mais novo a voar sozinho num avião em Moçambique.


E pouco mais voei porque achei que o meu Pai não devia continuar a sacrificar-se.

Deixou pois de haver dinheiro para mais horas de voo, mesmo com o abençoado subsídio da Mocidade Portuguesa.

Fascista, fascista, mas muitos jovens puderam assim fazer todo o tipo de actividade desportiva com o seu precioso subsídio. E hoje, como é? Adiante...












Pois bem, voltando a Monte Real, refiro que a Força Aérea também estava equipada com aviões Piper Cub mas do modelo Super Cub que diferia do Cub normal, entre outras coisas, por ter um motor mais potente.

Servia para voos de ligação e treino.

E como o mexilhão é sempre quem sofre mais... os pilotos menos graduados eram os que, na Base Aérea Nº5, normalmente voavam nele.




Em Monte Real até dei instrução num desses aviões a um digníssimo Oficial da Academia Militar que em 1974 foi escolhido para Conselheiro da Revolução.

Daqui lhe mando um grande abraço, lembrando-lhe aquele voo em que sendo eu o responsável pela segurança a bordo, como instrutor, conseguimos mesmo à justinha, os dois em simultâneo sem termos tido sequer tempo de comunicar um com o outro, com grande mérito, evitar um grave acidente!


É desta raça que se fazem os grandes aviadores…















Aconteceu que sobrevoando nós um braço do rio Mondego perto de Montemor, mas na margem Sul, com uma manobra rápida, própria de aviadores competentes, conseguimos evitar embater em arames esticados no meio do canal.

No meio do canal! Quem diria...




Imaginem arames esticados a uns míseros 50 centímetros da superfície daquele calmo braço de rio…

Ladeado de frondosas árvores.

Lindo...


Os dito cujos arames serviam para os pescadores os usarem como tracção manual de deslocamento de pequenos barcos de pesca entre as duas margens do estreito canal.

Foi ou não foi bonito?


No comments…


Pertencendo eu aos tais mexilhões, tinha de voar simultaneamente os aviões da Esquadra de Ligação e treino a pouco mais de 150km/h e os supersónicos F-86 que faziam 9 minutos de Monte Real a Lisboa contra os 45 minutos dos aviõezinhos que no entanto também davam gozo voar.















Voltei a ser largado, em Monte Real, no Chipmunk onde poucos anos antes aprendera a voar em Aveiro, na Base Aérea de S. Jacinto, hoje extinta.







A Base Aérea Nº7 nos seus bons tempos




  Placa de estacionamento dos Chipmunks em S. Jacinto, Aveiro, 1962











E por causa da monotonia a que eu estava obrigado naqueles penosos 45 minutos, mexilhão é mexilhão… fazia os voos, normalmente para Alverca, a uma considerável altitude.

Simples bom-senso…

É que eu sabia que ia adormecer inevitavelmente, com o sol de frente. E ás tantas o avião começava também a adormecer por falta da  minha companhia...

O coitado acabava afinal por relaxar, a querer ir por ali a baixo, sonolentamente...





Quando a aerodinâmica iniciava o processo de aumentar a velocidade, na queda inevitável, aquele barulho acrescentado fazia-me acordar, sem sobressaltos.

Afinal ainda havia muita altitude para perder…

Segurança acima de tudo!















A minha largada no Super Cub na Base Aérea de Monte Real foi sendo sucessivamente adiada sempre por razões fortuitas. Tinha que haver, por norma, um senão à última da hora.

Até que…




O Comandante da Esquadra daqueles aviões ligeiros recebe um telefonema no seu gabinete com um pedido para se ir buscar com urgência uma peça de motor a Alverca, ás Oficinas Gerais de Material Aeronáutico.

Sai logo do gabinete á procura do primeiro aviador capaz e dá de caras comigo no corredor. 

E diz-me.

- Ó Cavaleiro você tem de ir já, já, a Alverca no Cub buscar uma peça.

E eu nada…

- Você já foi largado, não foi?

Salta-lhe a dúvida. Era a minha grande oportunidade!

- Já sim senhor.

- Ok, então vá lá...



Ordens são para se cumprir.



Tinha já um Cabo Mecânico à minha espera para fazer o meu primeiro voo naquele avião e ir buscar a peça.



Antes de entrar no Cub disse-lhe:









- Camarada, eu nunca voei nesta coisa. Você arrisca ir comigo?

- Se você acha que é capaz…

- Bora!






E pronto, foi assim que fui largado no Super Cub da Força Aérea Portuguesa.




(Como se diz nos filmes, não tentem fazer estas coisas lá em casa, nem deixem os putos fazer…)















quarta-feira, 16 de maio de 2018

A minha Força Aérea - ÍCAROS




ÍCAROS





Logótipo do P1/62


(1º Curso de Pilotos da Força Aérea de 1962)


VCCs


(Velhos Como o Car****)


(Esta expressão deve-se ao facto de o nosso curso ter sido obrigado a permanecer em S. Jacinto, Aveiro, após o fim do curso geral em aviões Chipmunk em vez de rumar a Sintra para voar o T-6, rumo â Guerra do Ultramar. A Base Aérea N1 em Sintra estava atafulhada de pilotos e não havia lugar para mais nenhum. Só 8 meses mais tarde foi possível a transferência, sendo a cerimónia de brevetamento efectuada 2 anos após o início do curso. Quase um anos mais do que o normal...)





O texto que se segue é da autoria do meu colega de armas e amigo Luís Pacheco.



Divirtam-se 




      E ainda faltam uns 10 na fotografia...







Texto do Luís Pacheco:





Base Aérea nº 7 -  São Jacinto -  Aveiro






Princípio de mil novecentos e sessenta e dois.



Um amontoado de 60 putos apresenta-se na BA7 para iniciar o curso de pilotos P1/62 de nome oficial “Ícaros” mas de apelido mundialmente conhecido: os “ VCC’s”.




      Alguns dos artistas...






Éramos 60 jovens oriundos das mais diversas regiões de Portugal. Do Minho ao Algarve, dos Açores, da Madeira, Cabo Verde, Angola, Moçambique e até Macau. Brancos, pretos, meio pretos, meio brancos e até um chinês.











Logo no primeiro dia, depois de nos pormos muito bem ataviados com aquelas miseráveis fardas e muito parecidos uns com os outros, a meio da manhã apareceu um sargento velhote (velhote para aí com quarenta anos…), que nos mandou entrar para um anfiteatro do edifício escolar, porque o “nosso capitão” ia fazer um briefing.























O “nosso capitão” era o Capitão Alves Pereira
carinhosamente conhecido por “Féfe”. 





 


















Foi das pessoas que conheci na FAP mais afáveis, receptivas e compreensivas.

Esta opinião parece-me ser unânime.

Outra característica do Féfe era ser um grande gozão e que tinha prazer em sê-lo.






A rapaziada entrou para a sala, ficamos uns minutos à espera e então entrou um sujeito barrigudo com um belo bigodaço, ar bonacheirão e toda a gente se pôs de pé.


E o capitão pôs-se a olhar para a plateia, muito sério e mandou toda a gente sentar-se.

Começou por nos dar as boas vindas à Força Aérea, que íamos ter um futuro bonito, etc., etc., blá, blá, blá.

Falou no dever patriótico que estávamos a enfrentar, blá, blá, blá.



Às tantas, após ligeira pausa, fitou a assistência e perguntou a um de nós que era dos mais novo, com cara de miúdo.






















Você de que terra é?


Resposta do Alcino Mesquita:


- Sou de Angola, meu Capitão.

























 Muito bem e você donde é?


A pergunta era dirigida ao mais branquinho de todos e o Tocha Sequeira respondeu:

- Sou de Moçambique, meu capitão.







O capitão Alves Pereira começou a bater o pé, aparente sintoma de incerteza e fez uma vez mais a mesma pergunta:

























- Você donde é?

Resposta do Cavaleiro:

- Eu nasci na Guiné, meu capitão.










Aí o capitão ficou meio aparvalhado, hesitou e pareceu ir tomar uma decisão para acertar e disse apontando para o “preto” Gil Pinto de Sousa:

















- Então meu rapaz, você donde é que é?


E o Gil, pôs-se em sentido e com o sotaque mais transmontano que pode haver responde:


- Ó meu capitão, eu “xou” do “pêjo da réugua.






O bigode do Féfe revirou, os óculos embaciaram, ficou corado e murmurou:


- Ora porra… então agora os brancos são africanos e o sacana do preto é de cá!! O mundo está às avessas...



Após uns segundos de silêncio, a gargalhada foi geral e o velho capitão também se riu de si próprio.



E já passaram 55 anos…







      O Luís Pacheco, autor desta história, é o segundo a contar da direita






      A torre móvel para controlo dos aviões em instrução




      Chipmunks em formação 







Foto relativamente recente do "Notícias de Aveiro"