Mostrar mensagens com a etiqueta Chuabos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Chuabos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Publicações - OS CHUABOS - Índice




























A história que aqui se conta é uma monografia etnográfica original, dactilografada (numa máquina de escrever -  já devem haver poucas...) pelo meu Pai, Álvaro Cavaleiro, em Quelimane, Moçambique, em Dezembro de 1956.


Está aqui publicada em quatro blocos para mais fácil leitura.



No final de cada bloco há uma ligação para esta página e também para cada um dos outros 3 blocos.



Assim, neste rio, ninguém se vai perder...



Índice da monografia:




                                            Primeira parte
                                                    Para ler aqui

                                     Introdução                 1
                                    Tribo Chuabo            3



________________________________________




                                            Segunda parte
                                                    Para ler aqui


                                   Kalimani                      13
                                  Usos e costumes        16
                                  Vida familiar              17



________________________________________




                                            Terceira parte
                                                    Para ler aqui


                              Vida económica             27
                             Vida social e política   34



________________________________________




                                            Quarta parte
                                                    Para ler aqui

                                  Magia e religião        43
                                  Bibliografia               47







E para saber mais sobre este povo, consulte estes estudos mais recentes:




Blogue "Minhas aspirações" de Rajabo Malua:




Blogue de Nelson Patia:




A Biblioteca do Macua de IAN MICHLER:

















sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Publicações - Parabéns Quelimane


Hoje é o dia da Cidade de Quelimane. Há mais de 70 anos foi elevada a Cidade. No dia 20 de Setembro de 1942. Tinha eu 1 ano e pouco de vida.

Foto recente de Quelimane


Quelimane foi decisiva para a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia. Foi aqui que Vasco da Gama, em 1498, teve notícias do muito Comércio que já naquela altura por ali se fazia com a Índia.

Foi aqui que iniciou as diligências para contratar um Piloto que o guiasse até á Índia aproveitando as Monções.

A cidade no início do Sec XX

Foi aqui que me apaixonei pela primeira vez.

Exactamente no dia 5 de Julho de 1953. No dia em que fiz 12 anos. No dia em que desembarquei naquele cais do Rio a que Vasco da Gama chamou "dos Bons Sinais", que dá o nome a este Blogue.

Vinha de um colégio interno (Instituto Portugal) onde estava há dois anos. Fiz a viagem de barco desde Lourenço Marques num navio costeiro, sozinho, numa viagem de sete dias.

Lurio

Dois anos antes o meu Pai metera-me neste mesmo barco ou noutro semelhante não me lembro para iniciar a 5ª classe naquele Colégio por não haver mais que a 4ª classe em Pebane onde morávamos na altura e onde o meu irmão mais novo nasceu.

Tinha eu portanto 10 anos…

A cidade e o Rio dos Bons Sinais

Depois do almoço após o barco zarpar de Quelimane para Lourenço Marques, os seis passageiros que eu nunca tinha visto, já que não conhecia ninguém a bordo, reuniram-se no bar para o café e o bagaço da ordem.

Conversa puxa conversa eu a um canto muito calado ouvi um dos meus companheiros de viagem dizer bem alto:

- Logo vamos ao pacote ao puto.

Nos meus primeiros 10 anos de vida sempre a viver no mato sem miúdos brancos com quem brincar (os meninos pretos eram os meus únicos e melhores amigos) nunca tinha tido medo de nada a não ser de uma viagem de almadia (piroga feita de tronco de árvore escavado) com os meus pais numa travessia em dia de temporal e de uma cobra que às tantas apareceu do nada entre as cadeiras em que eu e a minha irmã mais velha, a Lourdes, nos sentava-mos ela a ler-me o Cavaleiro Andante.

Foto do porto de Quelimane muito antiga

Aquela frase dita num bar de um pequeno barco costeiro no meio do Oceano Índico entre gente desconhecida eu com 10 anos sozinho sem família nem ninguém a quem pedir ajuda, levou-me a lutar contra o que me pareceu vagamente uma ameaça.
Nem eu sabia o que em gíria “pacote” queria dizer.

Nem eu sabia que havia sexo e muito menos pedofilia.

Mas o instinto de sobrevivência levou-me a sair calmamente do bar e a desaparecer naquele pequeno barco ilha minúscula no grande Oceano Índico.

Resultou.

Era noite cerrada quando finalmente o Comandante do pequeno navio me encontrou escondido debaixo de um oleado dentro de uma baleeira.

Acalmaram-me e disseram-me que estavam a brincar comigo, brincadeiras parvas já se vê.

O resto da viagem decorreu sem mais incidentes.

Comecei por dizer que Quelimane foi onde me apaixonei pela primeira vez. Paixão que durou uns bons 8 anos. Pudera a Bela era a miúda mais gira de Quelimane por quem todos se apaixonavam quando lá chegavam e era minha vizinha e irmã de um dos meus3 ou 5 grandes amigos, até hoje.

Apaixonei-me depois variadíssimas vezes mas a última... é que foi fatal! Vivemos há 26 anos juntos.

Mas Quelimane foi muito mais que uma paixão.

Foi onde aprendi a conviver com gentes muito diferentes de mim sem isso causar conflito algum.

Perfeita analogia com o que aconteceu ao Vasco da Gama o que me enche o ego mas com pouca validade como se perceberá…

No Colégio de Freiras onde estudei, o Colégio do Sagrado Coração de Maria porque não havia Liceu, contrariamente ao que se passava em Portugal Continental, na Colónia de Moçambique (na altura ainda não era uma Província) todas as salas de aula tinham rapazes e raparigas, cristãos e nessa altura eu Comungava todos os dias, protestantes, muçulmanos com o seu Ramadão que respeitávamos muito por o cumprirem à risca e simultaneamente todas as obrigações académicas incluindo desporto, hindus, mestiços, goeses, pretos e brancos tudo à molhada e com fé em vários deuses..

O Colégio novo que eu já não conheci mas vi em obras


A Igreja de Nª Srª do Livramento, hoje em ruinas
O Mundo para mim ainda é assim. Uma grande panela onde cabe tudo e todos têm direito ao mesmo lume aos mesmos temperos e acabam cozinhados todos ao mesmo tempo.

Uns têm melhor sabor que outros.

Nem sempre se gosta de tudo.

Mas há sempre quem goste. É normal assim.

Em Quelimane aprendi a andar a sério de bicicleta

Pratiquei muito também o fascinante desporto de “roubar” almadias “perdidas” e então remar ao longo da marginal e pelos mocurros acima que são pequenos riachos, na maré enchente e depois descê-los a toda a velocidade na vazante. Mas depois deixava-as onde as tinha tirado.

Aprendi a desobedecer e a ser penalizado da maneira que mais dói.

Um fim-de-semana em que estava proibido de ir ao cinema se calhar por más notas pisguei-me a meio da tarde como se fosse dar uma voltinha de bicicleta.

Mas o meu Pai, Administrador de Quelimane e portanto Comandante da Polícia é que desconfiava onde é que eu me tinha metido entretido a desobedecer-lhe.

Era neste edifício, a Camara Municipal, que o meu Pai trabalhava

A meio do filme tudo às escuras e em silêncio profundo as pipocas eram ali desconhecidas ouve-se na coxia uma frase em voz bem alta e muito afirmativa:

- Minino! Sr Administrador está chamar!

Era mesmo um Cipaio impecavelmente fardado de cofió e tudo. (Polícia negro com o característico barrete castanho) de dedo em riste a apontar para o meio da fila exactamente onde eu estava sentado, já todo encolhido.

Felizmente o cinema só levava 200 pessoas e TODOS sabiam quem eu era…

Em Quelimane aprendi a nadar bem na Piscina Municipal construída em 1937 com o treinador do Campeão Nacional de bruços João Godinho meu colega no Colégio. O Treinador chamava-se Passeti.


A legenda desta foto diz: Clarinha Soares de Albergaria Ferreira Martins, tia da Clarinha Múrias, duas amigas e a sua mãe Petitinha Soares de Albergaria Brandão de Mello. Na piscina de Quelimane, 1949.

Em Quelimane comecei a tirar a carta de condução teria 16 anos com um Instrutor que às tantas adormecia e eu andava por ali fora sozinho no meio da cidade a embalá-lo docemente não fosse ele acordar e lá se ia o gozo.

Foi em Quelimane que a minha vida sem eu o saber tomou o rumo que me havia de levar até à Reforma:

- Aprendi a voar num Piper Cub do Aero Clube da Zambézia com o Instrutor Câmara e fui largado (voei sozinho) com 16 anos e 8 horas de voo. Com subsídio da Mocidade Portuguesa pois claro.

Era mais ou menos assim...

Foi em Quelimane que fiz outro dos 2 ou 3 ou 4 ou 5 grandes amigos para a vida. O Pedro era filho do Governador Civil, chefe do meu Pai.

Nós os dois aprendemos a hipnotizar com o curso do Sr C. H Ciernan que encontrámos na Biblioteca Municipal.

Comprei anos depois os livrinhos e ainda os tenho.

Era o Joel a nossa “vítima” um colega do Colégio. Com ele conseguimos ler o pensamento das pessoas e o meu amigo Pedro sabia sempre quando devia ir para casa porque o Joel o avisava dos passos do Pai não fosse o “velho” chegar primeiro e ele não estar lá como devia. Nunca falhou. Mas a Madre Albert soube das nossas actividades "paranormais" e fez-nos jurar que nunca mais o fazíamos e por ali nos ficámos.

O Palácio do Governador, a casa do Pai do Pedro




Reunião de Administradores em Quelimane. O Governador Dr. Gouveia e Melo está na frente de casaco branco e o meu Pai logo atrás dele no ombro esquerdo.

Também foi em Quelimane que aprendi que as diferenças entre as pessoas são para serem respeitadas até ao último grau.

Um fim de tarde apareceu um Cipaio aflito em nossa casa e pediu ajuda pessoal ao meu Pai, na qualidade de Comandante da Polícia:

- Sr. Administrador! Tem um branco bêbado na Mesquita sentado na cadeira do Profeta a dizer:

- Agora aaaadorem-me!

O meu Pai quis ir prendê-lo pessoalmente para dar o exemplo.

Foi em Quelimane que comecei a ver o que era política.

Nas eleições em que o Gen Humberto Delgado participou os comícios eleitorais eram em recintos fechados com a devida autorização obrigatória.

Ora a União Nacional do Estado Novo do Salazar resolveu fazer um comício em Quelimane e nem se preocupou com autorizações nenhumas.

Foi o Pai do Pedro, o Governador Civil, que convenceu o meu Pai a não "mandar prender aqueles gajos todos". Era o que lhe apetecia fazer…

Quando saí de Quelimane após o 5º ano porque não havia 6º no Colégio não sabia que nunca mais viveria naquela terra tão amada.

Mas não faz mal.

Eu nunca saí mesmo de Quelimane…

Parabéns Quelimane!!!
Parabéns Quelimanenses!
Parabéns Chuabos!



(Ultima actualização em 14 de Abril de 2014)




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Publicações - História da Cidade de Quelimane


Quelimane é a capital do Distrito da Zambézia, Moçambique, onde
algumas das histórias deste blogue se passaram.

O maior palmar plantado do Mundo fica nos arredores.



Autora do texto que se segue: Dra. Eugénia Rodrigues



Dissertação de Doutoramento em História
Universidade Nova de Lisboa, 2002.

Topónimo: Quelimane


Povoação, depois vila, localizada na margem esquerda do rio Bons Sinais (Qua Qua), a cerca de 18 km da costa, na actual província da Zambézia, em Moçambique (17º 52’ S; 36º 53’ E). O topónimo reportava-se também à área abrangida pela capitania-mor aí sediada (o distrito de Quelimane), que fazia parte do governo dos Rios de Cuama, depois Rios de Sena, dependente da capitania de Moçambique.


Paisagem típica da Província da Zambézia 

  

Situada em território do povo macua, Quelimane integrava, no século XV, a rede comercial muçulmana dominada por Quíloa, que se estendia por vários pontos da costa oriental africana. A sua fundação relacionou-se com o alargamento dos centros de exploração aurífera para o norte do planalto karanga, acompanhando a expansão do Estado do Monomotapa. Tal conduziu à emergência de uma rota comercial muçulmana através do Zambeze, que terminava em vários portos entre o delta e Angoche, em concorrência com o itinerário mais antigo que ligava o planalto a Sofala.





Na origem da povoação esteve, provavelmente, a dispersão de famílias islâmicas de Angoche, as quais fundaram várias chefias na região do delta. Foi um desses chefes que Vasco da Gama encontrou quando estacionou no rio Bons Sinais, em 1498, no decurso da primeira viagem à Índia.

A presença continuada de portugueses em Quelimane está registada desde 1544, quando o capitão de Moçambique estabeleceu aí uma feitoria para negociar marfim. Com a progressiva expansão para o interior, os portugueses passaram a usar a rota do rio Zambeze, a que acediam pelas barras de Quelimane e do Luabo. No final da centúria, residia aí um capitão dos Rios, em cujas casas se acolhiam os mercadores que se dirigiam ao sertão. A povoação portuguesa, erguida numa zona plana e alagadiça, surgiu perto da localidade muçulmana, que fornecia mantimentos e serviços aos mercadores.

Nos primeiros anos de Seiscentos, os portugueses aumentaram o controlo da região. Após a cedência das minas do Monomotapa, pelo tratado de 1607, a coroa portuguesa organizou planos de colonização do vale do Zambeze, que tornaram premente o domínio do delta. A concorrência europeia, patente nos cercos holandeses à Ilha de Moçambique em 1607 e 1608, constituía uma ameaça à hegemonia portuguesa na região, suscitando ordens recorrentes da coroa para fortificar as bocas do Zambeze. Neste contexto, o governo do general D. Estêvão de Ataíde (1610-1613) resultou no avanço decisivo do domínio territorial na zona do delta, com a submissão de alguns chefes macuas, cujas terras foram concedidas a portugueses. No primeiro ano do seu governo, o general ordenou a construção do forte de Santa Cruz, certamente em materiais precários, na ponta sul da barra, a dos Cavalos Marinhos.

Subsequente ao tratado de 1629, em que o mutapa Mavhura Mhande se reconheceu vassalo da coroa portuguesa, foi gizado um novo programa régio de colonização. A região do delta, antes sujeita ao capitão de Sena, foi dividida, em 1633, em duas capitanias-mores, a do Luabo e a de S. Martinho de Quelimane. Em ambas as barras, começaram a ser edificados fortes de madeira, segundo a traça desenhada pelo engenheiro Bartolomeu Cotton, enviado da Índia. Após a desistência da exploração das minas pela coroa, em 1637, foi também abandonada a construção dos fortes que nasciam na baía do Linde e na ponta dos Cavalos Marinhos. A área do delta foi reintegrada na capitania de Sena, mas, logo depois, a capitania-mor de Quelimane foi autonomizada.

Na década de 1630, a zona abrangida pela capitania, dividida em prazos da coroa, estendia-se ao longo da costa desde o rio Maindo até próximo do rio Licungo. Penetrava cerca de 60 km para norte da povoação, enquanto pelo rio Bons Sinais se alongava 30 km até às terras do xeque muçulmano de Mirambone. Esse território foi alargado em finais de Seiscentos, seguindo a linha do litoral, até à margem direita do rio Raraga. Mas, a principal aquisição deste período foi o vasto território interior do Bororo (1693), que se estendia pelas margens do rio Licuar. Este movimento de expansão territorial traduziu-se no aparecimento da expressão “Quelimane, o velho”, que designava, no século XVIII, a área inicial dos prazos.

Durante Seiscentos, Quelimane afirmou-se como o porto de entrada no Zambeze, em detrimento do Luabo. Dava acesso à vasta área servida pelo rio, a qual constituía objecto do monopólio régio do comércio, arrendado ao capitão de Moçambique ou gerido por instituições da coroa (Junta do Comércio e Conselho da Fazenda da Índia). O seu agente no porto era o feitor do comércio, um dos principais funcionários da povoação a par do capitão-mor e juiz. Ele estava incumbido de encaminhar as fazendas para a feitoria de Sena e embarcar para a Ilha de Moçambique as remetidas daí. As ligações com a ilha ocorriam duas vezes por ano, na monção grande de Abril/Julho, quando se fazia a maior parte das trocas, e na monção pequena de Outubro/Novembro. No porto, as mercadorias eram transferidas para canoas que percorriam o rio. A entrada na sua difícil barra, com restingas de pedra e bancos de areia, exigia marinheiros experientes, os pilotos muçulmanos idos de Moçambique.

As descrições da povoação reportam a existência de um diminuto número de moradores. Os que buscavam a região preferiam os elevados lucros do comércio do ouro e do marfim obtidos em Sena e Tete. O território do delta era muito fértil, mas as ocasiões para escoar a sua produção agrícola eram limitadas, dado o escasso número de navios que a transportava para a Ilha de Moçambique. Para além dos módicos réditos da venda de víveres, os moradores de Quelimane faziam um reduzido negócio de marfim e prestavam serviços aos que frequentavam a rota fluvial, como o aluguer de casas, embarcações e escravos.

O centro urbano reflectia os moderados rendimentos dos seus moradores, poucos reinóis e uma maioria de goeses. Cerca de 1634, notava-se uma dúzia de casas ao longo do rio e no final da centúria elas eram 14 ou 15. Os edifícios, cobertos de colmo e raramente de telha, eram fabricados mormente em taipa, porque faltava a pedra e a humidade ameaçava os tijolos de adobe. As habitações eram rodeadas de hortas e cercadas por fortes paliçadas. Em volta, distribuíam-se vastos palmares e pomares e as casas dos escravos.

Na povoação, existia uma igreja, a de Nª Sª do Livramento, paroquiada pelos jesuítas, o hospício dos dominicanos e a casa dos padres da Companhia de Jesus.

No espaço urbano, destacava-se, em Seiscentos, o chuambo, um forte de madeira, sem guarnição militar, o qual abrigava os moradores das investidas dos chefes africanos. A pressão dos povos maraves, que, vindos do norte, acometeram nessa altura a região, contribuiu para que os macuas procurassem a protecção do forte português.

Desenvolvendo uma identidade distinta, os macuas do litoral tornaram-se conhecidos por chuabos (“gente do forte”).

Depois de meados de Setecentos, no contexto das reformas subsequentes à autonomia de Moçambique em relação à Índia (1752), ocorreu uma notória dinamização do porto e da povoação. A coroa recuperou as ordens para fortificar da barra, após terem encalhado aí dois navios holandeses. A construção do forte de Nª Sª da Conceição, em Tangalane, na ponta norte da barra, foi conduzida pelo engenheiro António José de Melo. Obrigou ao transporte de pedra da Ilha de Moçambique e da serra Morrumbala e prolongou-se de 1753 a 1757. Devido às cheias do Zambeze, no ano seguinte, o forte já estava arruinado e em 1770 ainda foi tentada a sua reconstrução em madeira. Mas, prevaleceu a tese dos que advogavam que as dificuldades oferecidas pela barra constituíam um meio suficiente de defesa. Ainda na década de 1750, foi criado o lugar de patrão-mor do porto para conduzir as embarcações desde o litoral, tal como o de condestável, incumbido de manter um farol e um pau de bandeira em Tangalane, para sinalizar a entrada na barra, e de anunciar a chegada dos barcos com tiros de pólvora.

A liberdade de comércio, instaurada em 1757, propiciou o aumento do fluxo comercial e do número de barcos que frequentavam o porto, registando-se mesmo alguma actividade de construção naval. A partir da década de 1770, grande parte da produção de cereais dos prazos e das terras vizinhas passou a ser canalizada para a Ilha de Moçambique. Tratava-se de alimentar não só a população da ilha, como também os navios negreiros. Com efeito, verificou-se um notório incremento do tráfico de escravos para as ilhas francesas do Índico, nos anos de 1770, e para o Brasil, a partir da década de 1790. Os escravos eram encaminhados para a alfândega da Ilha de Moçambique, donde seguiam para os portos de destino. Mas, desde a década de 1790, algumas embarcações recebiam autorização para sair directamente de Quelimane para as rotas transoceânicas, até que, em 1812, foi aberta uma alfândega.

Na sequência de ordens régias de 1761, em 6 de Julho 1763, foi instituída a câmara municipal e a povoação foi elevada a vila, conservando o nome de S. Martinho de Quelimane. O capitão-mor e juiz foi substituído por um comandante, por vezes, também designado governador, o qual podia acumular as funções de feitor da Fazenda.

As oportunidades do negócio esclavagista traduziram-se num assinalável aumento do número de moradores proeminentes: 20 em 1780, 30 em 1790 e 65 em 1822. Apesar do enriquecimento dos seus moradores e do interior das suas casas, a vila manteve-se como um conjunto de quintas dispersas por dois ou três arruamentos irregulares, frequentemente alagados.

As novas edificações municipais, a casa da câmara e o pelourinho, surgiram nos anos de 1770. A igreja de Nª Sª do Livramento foi mandada reconstruir pelo governador e capitão-general Baltazar Pereira do Lago em 1776, mas só foi concluída em 1786 por António de Melo e Castro.




Igreja de Nossa Senhora do Livramento, em muito mau estado depois da construção da nova Igreja




A feitoria, instalada entretanto nas antigas casas dos jesuítas, foi reerguida em pedra na década de 1780. Nos seus armazéns, estacionava um destacamento militar e funcionava a única prisão existente na vila.

Devido à precariedade dos materiais utilizados nas construções antigas, a actual cidade de Quelimane conserva poucos vestígios - um dos quais é a sua igreja - de um passado anterior ao século XIX






Bibliografia:
ANDRADE, António Alberto Banha de (ed.), Relações de Moçambique Setecentista, Lisboa, AGU, 1955. NEWITT, Malyn, A history of Mozambique, London, Hurst & Company, 1995. RODRIGUES, Eugénia, “O porto de Quelimane e a Carreira dos Rios de Sena na Segunda Metade do Século XVIII”, in MENESES, Avelino de Freitas (coord.), Portos, Escalas e Ilhéus no Relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, s/l, Universidade dos Açores / CNCDP, 2001. RODRIGUES, Eugénia, Portugueses e Africanos nos Rios de Sena. Os Prazos da Coroa nos Séculos XVII e XVIII, Dissertação de Doutoramento em História, Universidade Nova de Lisboa, 2002.



(Actualizada em 21 de Abril de 2017)