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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

FERNÃO DE MAGALHÃES 1 - Como se fosse um prólogo




Como se fosse um prólogo:




"We are such stuff as dreams are made on."

(Somos da mesma substância que os sonhos)

 William Shakespeare, em a "Tempestade"




«Cousa nunqua escripta, nem ouvida, nem vista,
pois sahindo do Occidente, dando volta pello
Globo do Universo, tornaram pello Oriente
ao mesmo porto donde haviam partido,
o que nenhum há feito desd’a
criação do mundo ate nossos dias».

Gaspar Frutuoso







Quem isto vir e mesmo ler,

guarde Deus do mal.

Fernão de Magalhães


























Fui eu que concebi, organizei e realizei,
há exactamente 500 anos,
a viagem que acabou por ser a primeira de circum-navegação da História.









Aqui, onde agora me encontro (e para toda a Eternidade) nos confins da última galáxia, 500 anos depois da minha morte terrena acontecida numa praia da Ilha Mactan, estou no lugar mais tranquilo, aprazível e luminoso do Universo e tenho por companhia todos os Grandes da Humanidade.







Adoro sentar-me em amena cavaqueira com o Shakespeare, o Camões e o Cervantes

Por vezes junta-se a nós, discretamente, aquele dandy do Chiado, agora sentado como heterónimo de liga metálica frente à Brasileira e diz-nos duas ou três coisas que nos deixa deliciados. Ainda por cima foi ele que escreveu o mais espantoso poema de todas as  nossas odisseias, a Ode Marítima. Uma excelente companhia o Fernando Pessoa.


Já perdoei ao Camões e demos um grande abraço, por ter escrito no Canto X de "Os Lusíadas":

"Irá buscando a parte mais remota
O Magalhães, no feito, com verdade,
Português, porém não na lealdade".


(Quando releio estas estrofes lembro-me sempre das teorias que também me dão como espião em Castela ao serviço de el-rei D.Manuel... Adiante.)

Muitas vezes ouvimos simultaneamente, acreditem, a música de Beethoven e a de Bach, por exemplo, (ouvimos tantos…) mas conseguimos ouvi-las como se fossem tocadas separadamente.

E discuto Matemática com o Einstein enquanto uma figurinha de chapéu de coco, bigodinho e bengala anda por ali aos pulinhos a divertir-se, o Charlot, claro.

Mas principalmente dá-me muito gozo falar com os amigos Neil Armstrong e John Glennagora que vocês comemoram os 50 anos da ida á Lua.

Lembro-me muito bem daquela noite... Daquele momento em que o Neil pisou o solo lunar!

Foi o primeiro homem a fazê-lo e ainda há quem não acredite nisso…



Ilustração da BBC      

“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade” 



(Vocês sabiam que foi uma portuguesa que coseu a bainha da bandeira americana que está na Lua desde 1969? Pois foi mesmo...)


Universalmente a primeira viagem de circum-navegação da História está reconhecida como o mais extraordinário feito da Humanidade.

Senhores meus compatriotas, não sou eu que o digo, entre outros disse-o o Stefan Zweig na minha biografia que publicou em 1937 e que também anda por aí, o Stefan.

Mesmo assim, o Neil, de cada vez que me encontra, dá-me uma palmadinha nas costas e com um sorriso sussurra-me ao ouvido:



- Hernan, olha que eu fui o primeiro a ir á Lua e voltar, OK?






Nasci em 1480 no Porto no seio de uma família nobre,
os Sousa de Arronches, com algumas posses.


Sou português, mas também sou cidadão espanhol. 



Devido à minha condição familiar fui Fidalgo da Casa Real de Portugal.



Sei que me dão como nascido em várias localidades, terras que muito prezo
e onde sou homenageado com muitas honrarias que me enchem de orgulho.

Mas sempre me disseram que tinha nascido no Porto...


Com dez anos fizeram-me Pajem da Corte da Rainha D. Leonor, mulher de D. João II e por volta dos meus 12 anos ouvi ali dizer que Cristóvão Colombo tinha descoberto a América!

Acabei por viver toda a minha juventude na Corte dos Reis D. João II e D. Manuel I, onde fui Escudeiro. Mais tarde fui funcionário da Casa das Índias. Por essa razão os meus estudos giraram sempre â volta das recentes Descobertas dos nossos primeiros grandes Navegadores e da Ciência Náutica que sempre me fascinou.

Obviamente que comecei a sonhar com as Índias e finalmente para lá fui a primeira vez com 25 anos no dia 25 de Março de 1505 na Armada de D. Francisco de Almeida.

Fiz parte de várias expedições onde aprimorei os meus conhecimentos de bem marear e a arte de bem combater.

Participei na grande Batalha Naval da conquista de Diu a 3 de Fevereiro de 1509.

Comandava a nossa Armada de 19 navios com 1900 homens, no galeão Flor de La MarD. Francisco de Almeida que quis vingar a morte do filho D. Lourenço ocorrida num combate, também naval, com uma esquadra árabe em que a sua nau foi afundada tendo morrido 80% da tripulação.

Quando a nossa Armada chegou a Chaul, que conquistámos de imediato, o nosso Vice-Rei mandou uma carta ao capitão de Diu com o seguinte aviso:



"Eu o visorei digo a ti honrado Meliqueaz, capitão de Diu, e te faço saber que vou com meus cavaleiros a essa tua cidade, lançar a gente que se aí acolheram, depois que em Chaul pelejaram com minha gente, e mataram um homem que se chamava meu filho; e venho com esperança em Deus do Céu tomar deles vingança e de quem os ajudar; e se a eles não achar não me fugirá essa tua cidade, que me tudo pagará, e tu, pela boa ajuda que foste fazer a Chaul; o que tudo te faço saber porque estejas bem apercebido para quando eu chegar, que vou de caminho, e fico nesta ilha de Bombaim, como te dirá este que te esta carta leva."



Esta batalha foi o início do domínio real e concreto de todo o Oceano Índico pelos portugueses.

“Era Vasco da Gama”, como hoje lhe chamam os historiadores indianos e que durou 500 anos.

Até à entrega de Macau à China em 20 de Dezembro de 1999.

Em 1509 andava pelas Molucas com o meu grande amigo Francisco Serrão, a quem salvei a vida num feroz combate durante a desastrada expedição de Diogo Lopes de Sequeira a Malaca.

Combati na conquista de Goa em 25 de Novembro de 1510



    Pormenor de um quadro de Ernesto Condeixa













Ambos ajudámos também, em 15 de Agosto de 1511, o Grande Afonso de Albuquerque a conquistar Malaca.


Foi a conquista de território mais longínqua até então da história da Humanidade.

(Pintura aqui ao lado)

Foi nesta altura que comprei o meu fiel escravo malaio Enrique




Eu e o Francisco ficámos grandes amigos para o resto das nossas vidas terrenas. 

Francisco Serrão foi um dos capitães dos três navios capitaneados por António Abreu numa expedição enviada de Malaca por Afonso de Albuquerque em 1511, com a missão de localizar as "Ilhas das Especiarias" de Banda, nas Molucas. Estas ilhas comercializavam com Veneza, via Egipto, cravo, noz moscada e macis.

Não havia no Mundo mais lugar algum onde colher tais especiarias.

Em 1512 o seu navio naufragou, mas Serrão e um grupo de outros tripulantes, conseguiram chegar à ilha de Luco-Pino (Hitu), ao norte de Amboino. Dias depois roubaram um barco pirata, voltam a Banda e por lá ficam cerca de um mês, seguindo depois num junco em direcção às Molucas.

Com uma tripulação mista de portugueses e de indonésios, o navio foi assolado por uma enorme tempestade que o mandou de encontro a um recife ao largo de uma pequena ilha, a ilha de Ternate.

Serrão gostou tanto das gentes e da ilha que decidiu tudo abandonar e por lá ficou...

Passou a viver aí e foi nomeado chefe do sultão Bayan Sirrullah, um dos dois poderosos senhores que controlavam o comércio de especiarias. Tornaram-se amigos íntimos, acabando o Sultão por nomeá-lo como seu conselheiro pessoal para todas as questões politicas, militares e até pessoais.

Constituiu família em Ternate (casa-se com uma princesa de Tidore) e decidiu permanecer por lá, tudo abandonando, não voltando a Malaca.

Era de Ternate que me enviava as cartas que, via Malaca, eu recebia de tempos a tempos, tanto em Lisboa como em Sevilha, mais tarde.


Eu só regressei a Portugal nos inícios de 1513.


Mas no dia 17 de Agosto desse mesmo ano voltei a partir, desta vez para Marrocos numa expedição comandada por D. Jaime, Duque de Bragança e sobrinho de D. Manuel, para a conquista de Azamor.

O que foi conseguido logo no dia 3 de Setembro.

Pouco depois, numa pequena escaramuça, mataram o meu cavalo às lançadas e uma delas feriu-me um joelho, deixando-me manco para o resto da minha vida.

Como fidalgo tinha direito a ser ressarcido da despesa com a morte do meu cavalo.

Vocês não sabem mas eu digo-vos que os Cavaleiros entravam nas batalhas montados nos seus próprios cavalos, envergando as suas próprias armaduras. Cavalos e demais atavio militar não eram fornecidos pela coroa. Eram pagos por nós!

O belo animal paguei-o com meu dinheiro a quem mo vendeu para que eu o usasse em combate para defender a Coroa.

Por estas razões cheguei à fala com o Fidalgo Francisco de Pedrosa que era o encarregado de conhecer a morte e perda de cavalos nos combates ou por doença.

Foi-me passada por ele uma certidão da morte do cavalo que entreguei na Casa Real com uma petição que rezava assim:










Aqui numa versão que, hoje, percebem melhor o que escrevi a El Rei:









A certidão do fidalgo Francisco de Pedrosa rezava assim:






Sua Alteza nunca me quis mandar pagar a demasia, tendo insistindo eu várias vezes.

Para grande enfado de El Rei...



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Mas hoje estou aqui para vos contar tudo
sobre a minha viagem de circum-navegação,
procurando encaixar os vários acontecimentos
com as datas em que as coisas ocorreram.





Foi tudo há tantos séculos que vou socorrer-me
do meu amigo Pigafetta para me avivar a memória.













O António Pigafetta era um gentil-homem italiano nascido em Vicenza no ano da Graça de Nosso Senhor de 1491, de boas famílias que estudou Astronomia, Geografia e Cartografia.
Chamava-se a si mesmo “Patrício de Vicenza e Cavaleiro de Rodes” por pertencer à Ordem de S. João de Jerusalém.



Apresentou-se-me em Sevilha com autorização de El Rei D. Carlos I para seguir viagem connosco e com várias cartas de recomendação, num dia de Junho de 1519, exactamente três meses antes da nossa partida.

Foi com alguma relutância que tive que o admitir na tripulação, mas bastava-me a autorização de El Rei para o fazer sem hesitar.

Embora pouco entusiasmado com tal companhia, coloquei-o na nau capitana da frota, a minha, a Trinidad.

E como cronista que pretendia ser, com a única função a bordo de registar tudo o que via, foi alistado como um dos “criados del Capitán y sobressalientes”, a única categoria possível, inscrito como Antonio Plegafetis ou, como em outra lista aparecia, Antonio Lombardo.

Era, no entanto, um homem culto, conversador, com quem acabei por ter uma boa relação.


Antonio Pigafetta numa imagem do CANAL HISTÓRIA (um actor)      








Achava muito engraçado vê-lo sempre muito bem ataviado no seu gibão que mais parecia a farda original dos Guardas Suíços do Vaticano desenhada por Miguel Ângelo em 1505, a cirandar pelo navio sempre com o seu caderninho de notas debaixo do braço, a pena e o tinteiro.


Volta e meia, com o adornar do barco e o desconchavo das velas nos dias de tormenta maior, lá se ia o atavio impecável do Pigafetta, todo cheio de tinta preta, gibão abaixo... e o tinteiro vazio.

Mas não deixava de andar sempre por ali a escrever, com muito empenho e às vezes enquanto as coisas aconteciam.

E assim se desenvolveu uma grande amizade entre nós.




Passámos longas noites à conversa no meu camarote, navegando calmamente no Grande Mar Oceano a que dei o nome de Pacífico, quando todos já dormiam, á luz de velas que pareciam querer adormecer também, tendo ao nosso lado deitado numa esteira o meu fiel escravo Enrique a dormir a sono solto.


O António foi sempre um bom companheiro...












Um dia confidenciou-me que gostaria de publicar em Itália, quando voltasse a casa, um relato da viagem a que chamaria “Relazione del Primo Viaggio Intorno Al Mondo”.

E na verdade, ao regressar a Itália, publicou o livro em Paris em 1525.


Escreveu-o a pedido de Filipe de Villers Lisle – Adam, ínclito Grão Mestre de Rhodes e seu Senhor Observantíssimo (43º Grão Mestre da ordem de São João de Jerusalem)


O relato integral da sua obra só no século XVIII seria publicado,






Este manuscrito  é  o  mais  importante  manuscrito
de carácter geográfico conhecido em todo o Mundo.



Das 3 ou 4 cópias que foram feitas, nomeadamente os manuscritos Ambrosiano e da Biblioteca de Paris (Nº 5650), uma existe que foi doada á Yale University em 1964 por Edwin J. Beinecke e está na "The Beinecke Rare Book and Manuscript Library".

O Visconde de Lagoa na sua magnífica biografia que escreveu sobre mim, “Fernão de Magalhães”, uma Edição Seara Nova de 1938, usa uma tradução do manuscrito da Biblioteca de Paris, profusamente anotada “segundo os roteiros” de vários cronistas portugueses, contemporâneos de Pigafetta e não só.


Com a ajuda destes notáveis documentos, vou então contar-vos tudo e como tudo aconteceu.



Fiquem bem.

Na Paz do Senhor.

Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum



O vosso, 


                               Fernão de Magalhães








Vejam aqui uma lista de

todos os Episódios já publicados






Bibliografia:

- Fernão de Magalhães - Visconde de Lagoa - Edição da "Seara Nova", 1938
- Magalhães o homem e o seu feito – Stefan Zweig – Assírio e Alvim
- Nos Passos de Magalhães - Gonçalo Cadilhe - Clube do Autor
- A viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses – José Manuel Garcia – Editorial Presença
- Diário de Fernão de Magalhães o homem que tudo viu e andou – José Manuel Nuñez de la Fuente – Circ de Leitores (Este antropólogo e historiador foi o organizador da "Rede Mundial das Cidades Magalhânicas", de que é Secretário Geral)
- Magellan’s Voyage – a Narrative Account of the First Circumnavigation - Antonio Pigafetta – Kindle edition – Amazon
- O Elucidario Nobiliarchico Vol 2 N07 Jul 1929
El paso del Sudoeste - Antonio Cavanillas de Blas - Editorial VERBUM - Madrid
- História de Portugal – coordenação de José Hermano Saraiva
- Reis de Portugal – Circulo de Leitores
- Revista da Armada
- Portugal no Mar - Arq. Telmo Gomes - Chiado Editora
















(Actualizada em 20 de Novembro de 2019)