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domingo, 14 de abril de 2013

Aviões que voei > Do27




 
O Dornier Do27 é um avião STOL (Short Take-off and Landing) monomotor de asa alta, trem de aterragem convencional, fixo, com a capacidade de transportar seis passageiros ou o equivalente em carga. Foi construído pela Dornier GmbH (mais tarde DASA Dornier, Fairchild-Dornier).

O conceito foi o mesmo do Fieseler Storch. O Do27 foi usado tanto na aviação civil como militar.


Em 1951 a Dornier iniciou estudos sobre a construção de um avião ligeiro de ligação observação e transporte, a pedido do Ministério Espanhol dos Transportes.


O líder deste grupo de Engenheiros foi o Professor Claude Dornier a pedido do Ministro da Defesa da RFA Franz Josef Strauss.


Ao protótipo de desenvolvimento deram o nome de Do25 P.




Dois protótipos acabaram por ser construídos, em Sevilha.

O voo inaugural do primeiro protótipo, o Do25-P1, foi no dia 25 de Junho de 1954 em Sevilha. O avião tinha um motor Enmasa Tigre G IV B de 150 hp.


O programa de testes, efectuado pela Força Aérea Espanhola (a Alemanha estava proibida de construir aviões militares como consequência da II Grande Guerra) durou até finais de 1954.





O conceito, desenvolvido pela oficina Técnica Dornier em colaboração com a CASA espanhola, deu origem a um novo modelo a que chamaram Do27.


O segundo protótipo, o Do27-P2, foi completado em 1954. O motor era um Continental O-470-J de 230 hp


O voo inaugural foi no dia 27 de Junho de 1955. O avião foi registado como EC-AKY.


Depois de a Alemanha ter readquirido a sua capacidade de desenvolver e construir aviões, este protótipo foi levado para a Alemanha e foi matriculado como D-EBUC.


A maior parte da produção deste avião foi então feita na Alemanha, voando o primeiro modelo industrial no dia 17 de Outubro de 1956.


50 aviões foram construídos em Espanha pela Construcciones Aeronáuticas SA com a denominação CASA-127.


O motor que equipava este modelo era um Lycoming GO480-B1A6.


Em 1957 o Do27 foi exibido no Salão Aeronáutico de Paris - Le Bourget.


No dia 5 de Novembro de 1957 o primeiro modelo civil do Do27 com o Nº 2001, deixa a fábrica Oberpfaffenhofen, registado como D-ENTE.





O avião foi entregue ao Professor Dr Bernhard Grzimek que o voa nas planícies do Serengeti, Tanzania, para a realização do filme "Serengeti não morrerá". O preço do avião rondou os 115.000 DM (Marcos).

Ao todo foram construídos 627 aviões, incluindo os dois protótipos e os 50 CASA C127. O último a ser construído, um Do27-B3 Nº2200, foi em 1976 para a Rheingau Airservice/Rüdesheim.



Cockpit de um modelo civil, melhor equipado

 A última revisão anual de um Do27 militar deu-se em 1980. Foi o fim do Do27 como avião militar. Nos anos 70 as Forças Armadas Alemãs começaram a reduzir os seus Do27. Foram vendidos a particulares, doados a aeroclubes e a diversas Forças Aéreas estrangeiras.

O Do27 foi o primeiro avião construído em larga escala na Alemanha após a II Grande Guerra. Era apreciado pelas suas generosas dimensões interiores, conforto e excelentes capacidades de operação em pistas curtas e não pavimentadas.




O Do27 na Força Aérea Portuguesa

Além do uso militar na Alemanha e em Espanha, Portugal também comprou 40 aviões novos e 106 ex-aviões da Força Aérea Alemã.

Entraram ao serviço na nossa Força Aérea em Dezembro de 1961.





Foram utilizados na Guerra do Ultramar, onde eram conhecidas por DO, nas três frentes, Guiné, Angola e Moçambique, com missões de transporte de passageiros, evacuação de feridos, reconhecimento aéreo e transporte de correio.



Cockpit do Do27

Esporadicamente foram utilizados em missões de apoio utilizando foguetes ofensivos montados sob as asas ou mesmo mini foguetes de sinalização de alvos a bombardear, como eu operei no Niassa, Moçambique.


Foram abatidos ao efectivo em 1979.






Variantes

Do27A - versão básica;
Do27B - versão com duplo comando;
C-127 - versão construída em Espanha pela CASA;
Do27Q-5 - versão com um trem de aterragem de maiores dimensões;
Do27S-1 - hidroavião com dois flutuadores;
Do27H-2 - versão com um motor Lycoming GSO-480-B1B6 de 340 CV 


Specifications (Do27Q-5)

General characteristics


Crew: 1
Capacity:                      4-6 passengers
Length:                       9,60 m
Wingspan:                      12 m
Height:                       2,80 m
Wing area:                 19,4 m²
Empty weight:           1073 kg
Max. takeoff weight:  1850 kg
Max. weight carried:    720 kg
Powerplant:     1 × Lycoming GO-480-B1A6 6-cylinder piston engine, 201 kW (270 hp)


Performance

 
Never exceed speed:      333 km/h (180 kn)
Maximum speed:            232 km/h (125 kn)
Cruise speed:                 211 km/h (114 kn)
Stall speed:                     74 km/h (40 kn)
Take off distance:          185 m
Landing distance:            80 m
Initial climb rate:         1082.68 ft/min    5.50 m/s
Range:                         1287 km (695 nm)
Service ceiling:            3290 m (10.800 ft)
Motor:                        AVCO Lycoming GO-480-B1A6
Power rating (max.):     270 hp




                          
O meu 1º voo em Do27:  
                       > na B.A. 2 - Ota em 7 de Maio de 1965 no avião 3463

O meu último voo em Do27 (no Ultramar): 
> no A.B. 6 - Nova Freixo (Moçambique) em 25 de Fevereiro de 1969 no avião 3450



O texto acima é uma compilação da diversa informação que recolhi em muitos sítios na Internet

Alguns sítios consultadost:

http://www.altertiger.de/40764.html
http://www.saairforce.co.za/the-airforce/aircraft/149/do-27a
http://en.wikipedia.org/wiki/Dornier_Do_27







domingo, 2 de outubro de 2011

Na Guerra do Ultramar - Peso e centragem


Não é bom chatear certos aviadores!



Das várias actividades que os pilotos da Força Aérea tinham de executar no Ultramar, entre muitas outras, constava o transporte de correio ou de personalidades, por exemplo.
 

Algumas destas personalidades, felizmente poucas, eram pessoas com um grande ego e tinham dos pilotos a imagem de um condutor, que os conduziria, a ordens suas, para onde eles bem entendessem.
 

Mas quando se confrontavam com alguns pilotos, assim a modos que… mais peludos ou menos permeáveis a estas investidas, as coisas nem sempre lhes saiam bem…
 

Metangula, na Província do Niassa, Moçambique, deve ser, nos dias de hoje, um paraíso, em pleno Lago Niassa, virada ao Sol poente, aos magníficos pôr-do-sol Africanos.




Foto de José Augusto Martins. 
Metangula nos dias de hoje. A pista está na ponta direita do istmo


Metangula era, durante a Guerra do Ultramar, um aquartelamento dos Fuzileiros, com uma pequena pista construída mesmo ao rasar da água.

Foi aqui que me deparei com um dos mais caricatos episódios aeronáuticos da minha carreira. Mas este fica para outra história.
 

Havia aqui um funcionário administrativo dos de ego bem desenvolvido, ou talvez distraído, que por vezes se punha em bicos dos pés para mostrar a sua autoridade a todos (que ele achava serem seus subordinados).
 

Um dia de 1968, quando o DO-27 pilotado pelo Sargento Brochado chegou á “placa”, o funcionário esperou que o aviador saísse e disse-lhe:
 

- Eu depois vou consigo!
 

As instruções que o Brochado trazia de Vila Cabral não contemplavam tal passageiro. Mas este episódio não o beliscou minimamente.
 

Depois do almoço fizeram-se os preparativos para a viagem de regresso a Vila Cabral. 

Carregou-se o DO com o pessoal e material previsto mais… o tal excedentário senhor que sem dar cavaco a ninguém se instalara lá atrás, impante de autoridade.
 



Dornier DO-27 em voo


E o Brochado agia como se nada de especial se passasse.

Porta fechada, adeus a todos, capacete na cabeça, cintos apertados, checklist executado, o nosso aviador, antes de pôr o motor do avião em marcha, volta-se pela direita, para trás, curioso e indaga o sujeito:
 

- Desculpe lá, o senhor aí atrás pesa... para aí, quanto?
 

- 75 quilos.
 

- Temos 5 quilos a mais para a descolagem. O senhor tem de desembarcar!
 

Desembarcado o fulano, o Brochado põe o motor do DO em marcha, faz-se à pista, com o peso dentro da legalidade e descola calmamente rumo a Vila Cabral, hoje Lichinga.
 

Este meu amigo Brochado sempre foi um aviador muito certinho.

Muito competente...



(Actualizada em 28 de Agosto de 2016)



 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Na Guerra do Ultramar - Olivença, Moçambique. 1968 (Lupilichi, nome actual)


Podia ter corrido mal, muito mal.

Mas houve 5 sobreviventes!




Do-27. Esta história passa-se num avião como este




Para o final da minha comissão em Moçambique (nos anos de 1967 e 1968) e durante 3 meses, fui incumbido da missão de obter imagens sensíveis, por fotografia aérea, com equipamento específico, de modo a um planeamento mais eficaz e cirurgico de determinadas operações da Força Aérea.




Voava um pequeno avião mono motor, um DO-27 matrícula 3497, auxiliado por um cabo especialista em fotografia aérea


Tinha como equipamento uma máquina fotográfica para fotografia vertical fixada ao avião, uma outra máquina fotográfica manual e uma guia de marcha que na rubrica "destino" tinha isto escrito:


Confidencial”. 


 

E o Norte de Moçambique era todo nosso… do Lago Niassa ao Oceano Índico, do paralelo de Nampula/Nacala ao Rio Rovuma!

Uma bela e vasta área para destinos confidenciais, num pequeno monomotor...



A minha zona de actuação: todo o Norte de Moçambique...


E as missões eram tão confidenciais que se o único motor daquele pequeno avião DO-27 falhasse ninguém, evidentemente, sabia onde me ir procurar…

Por causa destas minhas novas e secretas funções eu tinha que executar os voos sem o escrutínio de qualquer outra Unidade militar que não fosse o Comando Operacional da Força Aérea em Nampula. Como os Comandantes das Unidades não tinham nem podiam ter conhecimento das minhas movimentações, eu aterrava e descolava de qualquer Unidade sem que ninguém percebesse o que me levava ali.

Nas Bases operacionais nunca tive problemas. Mas o Comandante de Nacala não achava nada correcto este meu procedimento e mandou-me prender, sim, prender, por 3 vezes. 

Porque eu aterrava e descolava de Nacala sem dar cavaco a ninguém, obedecendo evidentemente às ordens superiores que tinha.
 

Na 3ª e última vez as ordens eram para voltar a Nampula o mais rápido possível depois de entregar o DO, fosse lá como fosse. Eu que me desenrascasse.
 

Após a aterragem e com o avião ainda a caminho do Hangar ouvi um avião Nord Atlas a pedir rolagem para descolar para Nampula. 

Pela rádio pedi boleia ao Comandante, estacionei o DO na Placa e saí a correr de um avião para o outro.

Estive em Nacala 30 metros de corrida…

O Comandante da Base se tivesse aviões de caça tinha-nos abatido. E lá me mandou prender pela terceira e última vez… 

Estas participações chegavam ao Estado-maior e eram enviadas para o cesto do lixo, sem nenhum comentário ou resposta ao autor dos autos...

Mas as coisas não eram sempre assim tão divertidas.


Num dia de Julho de 1968, como resultado de um RVIS (Reconhecimento visual feito num avião com armamento para utilizar caso o piloto achasse pertinente) um piloto do AB6, Nova Freixo, a voar T6, descobriu junto à fronteiro Norte no rio Rovuma não uma simples palhota mas aquilo que lhe pareceu ser um quartel inteiro!


No cumprimento da sua missão, bombardeia o objectivo. Mas sofre forte reacção antiaérea. Sem consequências graves.


Dias depois na ONU, naquela grande sala que 3 anos depois visitei armado em turista, “aqui discute-se a independência das Portuguese Colonies" disse a guia ao grupo, a Tanzânia queixa-se de ter sido atacada por Portugal na margem do rio Rovuma, a Nor-nordeste de Olivença, Província do Niassa.

E quando se prepara um linchamento ao piloto em causa, aparece um relatório da Pide sobre o sucedido.


Aquilo, o tal aquartelamento, nas margens do rio Rovuma, tinha sido palco, naquele mesmo dia, do II Congresso da Frelimo, com a presença do Eduardo Mondlane e com os jornalistas suecos levados a julgarem que estavam no interior de Moçambique!


Facto deveras extraordinário!




Local do ataque


Na fotografia mais abaixo poderão ver como o desenho da fronteira Norte de Moçambique naquele local não coincide exactamente com o serpentear pronunciado do rio Rovuma. O tal "quartel" ficava a Sul do rio, aparentemente já em Moçambique. Mas a fronteira é ainda um pouco mais para Sul...

O Estado-maior da nossa Força Aérea organiza então uma grande operação para a eliminação de tão grandioso objectivo.


Comanda a operação o malogrado Capitão Mantovani. Um homem afável, respeitado por todos pelas suas qualidades de carácter e humanas. (Este muito estimado piloto veio a ser abatido na Guiné, na comissão seguinte, por um míssil russo Strela.)


E era vê-los a entrar (4 ou 6 T-6) ao passe de tiro contra o "quartel" e as antiaéreas a contra atacar.


Uma guerra como deve ser…

De que eu não fiz parte porque andava naquelas secretas funções de “espionagem”.

Felizmente não houve baixas.


Agora vamos lá a ver como aquilo ficou… pensamento de um qualquer iluminado.


Sou chamado à ZAC (Zona do Ar Condicionado, vulgo Estado-maior) em Nampula e fico encarregue de ir lá fotografar tudo. Eles queriam ver tudo. Nunca percebi porquê. Mas a minha função não era fazer perguntas mas sim executar…


As fotografias com a câmara vertical montada no DO, tinham que ser feitas a 3000 pés de altitude e a 90kts de velocidade, fora-me ensinado no início.


Dada a complexidade da situação criada, a queixa da ONU, o Congresso da Frelimo, a dimensão das instalações, fui acompanhado do mais alto especialista em fotografia aérea na altura. Um Tenente que tinha sido abatido num Dacota (DC-3) pouco tempo antes na zona de Mueda.


E lá vamos os três, o tenente, o cabo e eu, guia de marcha com destino "Confidencial", no DO-27, a caminho de Vila Cabral, com destino a Olivença, onde eu nunca tinha ido.


Naquele quartel fomos recebidos pelo Alferes Oliveira, Comandante do destacamento e pelo médico, a quem contámos ao que íamos.



O médico tinha uma história interessante: estava um belo dia a fazer um estágio de Medicina em Nova Iorque, ou por ali, quando foi chamado para a Guerra.


E em 48 horas foi recambiado de Times Square para Olivença!


Apesar de saber que as duas últimas operações sobre aquele nosso objectivo tinham sido presenteadas com forte reacção antiaérea, o comandante de Olivença pediu-me para o levar no voo que iriamos fazer ao final do dia seguinte. Por mais que lhe explicasse que iria correr riscos desnecessários, não o consegui demover.


O pior foi depois o médico que também quis ir...


-Ó senhor doutor! 5 pessoas num DO mais o peso da máquina vertical e a falta de espaço, não dá… De todo!


Abreviando... no dia seguinte, 4 de Setembro de 1968, depois de um belo jantar na companhia daqueles simpáticos desterrados em Olivença, uma noite naturalmente mal dormida e um grande mata-bicho (pequeno almoço à moçambicana) lá descolo com a minha tripulação mais os dois inconscientes e "pegajosos observadores”…


A pista era grande embora parecesse mais um trilho do Dakar, ao longo de árvores altas.


Não conhecia o local mas pelo briefing que me foi feito em Nampula, não devia ser difícil.


Rumo ligeiramente a Nordeste à procura do grande rio que faz fronteira com a Tanzânia, num local onde ele é bastante largo e com algumas curvas.



Zona do objectivo, a Norte da Fronteira



E de repente!


-É ali! Só pode ser ali.


Reconheci imediatamente o meu objectivo, ainda a cinco minutos de voo.

E lá estão os aquartelamentos, que avistei de bem longe. Fiz uma volta a 90º para a direita para Este, a Sul do rio, afastado umas 2 a 3 milhas e segui em frente.


Para despistar. Achava eu.


 

Deve ter sido nesse momento que eles foram para as antiaéreas…


Umas 5 milhas depois fiz uma volta á esquerda, de 180º. Voltei assim para trás. Exactamente em direcção ao objectivo. A 3000 pés de altitude e a 90 kts, seguindo exactamente o procedimento recomendado.
 

Apontado ao pôr-do-sol que olhava para mim e abanava a cabeça como quem critica uma traquinice a uma criança:


- Gabriel, Gabriel…

 

O Tenente ao meu lado seguia atentamente a manobra para que fossem rigorosamente cumpridos os necessários parâmetros técnicos de funcionamento da máquina fotográfica fixada ao avião de modo a que se captassem com precisão as fiadas de mapeamento fotográfico daquele tão importante objectivo.
 

E eu tinha que apresentar aquelas provas do cumprimento do objectivo fixado.
 

Nessa altura eu era dos poucos pilotos que voava de capacete e cintos de peito no DO-27. Resquícios da disciplina da Esquadra 51 dos F-86…
 

No momento exacto e com a anuência do Tenente especializado ao meu lado, fiz sinal ao meu fiel companheiro cabo para accionar a máquina fotográfica vertical e começámos então a colher as imagens.
 

À medida que o "quartel" lá em baixo ia desaparecendo debaixo do nariz do avião, o silêncio entre nós foi-se tornando bastante pesado.

 Todos queríamos continuar a ouvir aquele silêncio por mais um minuto ou dois, pelo menos.


Mas…

 

Trás!

 

O tenente da fotografia, que ia ao meu lado, desata aos gritos:

 

-Já comemos! Já comemos! Já comemos!

 

Não esqueçam que este camarada tinha sido abatido pouco tempo antes num Dacota em Mueda exactamente numa sessão de fotografia aérea.
 

Eu bem ouvi o que pouco depois me pareceu ser o embate de um projéctil com um muito ligeiro estremecimento do avião, mas estava concentrado na manobra e tentei acalmá-lo, mantendo o avião em linha de voo, o mais estável possível e perguntei-lhe:

 

-Já comemos o quê?!
 


Nesse mesmo instante comecei a ouvir, apesar do uso do capacete e dos 3000 pés de altitude sobre o terreno, um forte “bang” contínuo e ritmado.

 

Bang! Bang! Bang! Bang!
 

-Pica! Pica! Pica! Gritava o tenente.

 

Meto a manete do motor a fundo, volto à esquerda para Sul, desço só ligeiramente para aumentar a velocidade e inicio então manobras de diversão com voltas à esquerda e á direita.
 

Pareceu-me que se picasse o avião, não alteraria grandemente a minha qualidade de alvo privilegiado.
 

4 ou 5 apertados “S”s depois, os “bang!” deixaram finalmente de se ouvir…
 


A tensão a bordo era enooorme...

 

Como estariam os meus “destemidos” companheiros lá atrás? Não tinha ouvido gritos, não deveria haver feridos...
 

Quando me volto pela direita vejo o pobre Cabo Especialista completamente manietado pelo médico, fortemente abraçado a ele, refugiado entre os seus braços, ambos de pé e sem fala, o cabo a tentar equilibrar-se, agarrado ao que podia.

O Alferes Oliveira parecia tranquilo, sentado, à espera que o médico e o cabo se desenvencilhassem mutuamente…
 

Depois de tudo acalmar pedi ao cabo que levantasse a lona do fundo do avião e no meio do escuro da fuselagem conseguimos ver alguns buracos lá no fundo da fuselagem, junto à cauda do avião, por onde entrava a luz exterior…
 

E lá fomos para Olivença, dever cumprido, sem feridos, a não ser a carcaça do nosso DO um tanto ou quanto esburacada.
 

Já no chão, encontrámos um projéctil de grosso calibre firmemente encastrado, exactamente no topo da asa direita. Os outros, os dos buracos, perdemo-los…




O Alferes Oliveira mostra alguns buracos na fuselagem do DO-27



Reabastecimento antes da partida de Olivença



Nunca mais vi ninguém desta “equipa” a não ser o meu camarada cabo especialista que me aturou até ao fim desta minha tarefa com o DO da fotografia. Felizmente foram só 3 meses ao todo. Mas que me pareceram uma eternidade.


Mas trinta anos depois...


No Clube Naval de Olhão, numa mesa com alguns amigos e outros ilustres desconhecidos da Cidade da Restauração que me acolhia nessa altura, um dos que não conhecia olha para mim e pergunta-me:


-Ouça lá, nós não nos conhecemos?

Ideia nenhuma…


Depois de alguns momentos as nossas caras eram-nos de algum modo familiares. É daqui, é dali, de onde será?

-Você esteve aqui, ali?


E de repente caímos nos braços um do outro!

O Alferes Oliveira, Comandante do destacamento de Olivença, estava ali! Á minha frente no Clube Naval de Olhão! Distinto Médico Veterinário em Faro.

Trinta anos depois!

Foi simplesmente emocionante…

Levei anos a lamentar-me por não ter nenhum documento do sucedido. Ainda por cima com tanta máquina fotográfica no avião.

O Alferes Oliveira tinha tirado uma série de fotografias depois da aterragem, a apontar para os buracos na fuselagem, agora já sorridente...

Fotografias que me deu e reproduzo aqui e que hoje fazem parte das minhas fotos de exposição permanente, na minha secretária.

Hoje em dia Olivença chama-se Lupilichi.

É uma vila na província do Niassa a Noroeste de Moçambique. 

Fica aproximadamente a 25 km a sul da Tanzânia.

Nesta área existem reservas de ouro que em 1955 se pensa que 13 toneladas de depósitos de aluvião de pepitas foram ilegalmente exploradas pelo Zaire, Tanzânia e Quénia.


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Já depois de ter publicado esta história li no livro " Os Anos da Guerra Colonial" dos Coronéis Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, pág 459/460, que o II Congresso da Frelimo se realizou realmente, entre os dias 20 e 25 de Julho de 1968, mas…

Em Matchedje, a cerca de 50km a Este do local dos acontecimentos bélicos desta história.



O II Congresso realizou-se em Matchedje, a seta castanha à direita
e não no círculo ao centro da imagem, onde
tiveram lugar as operações com os nossos aviões



De acordo com Joaquim Chissano, num discurso em Quelimane feito a 11 de Novembro de 2006 durante a cerimónia de homenagem aos heróis da luta de libertação que antecedeu o início do IX Congresso da Frelimo, "o II Congresso constitui a fonte de inspiração até à actualidade, sendo por isso que o considero um marco importante e ponto de reflexão para as gerações vindouras".
 




Mesa da presidência do II Congresso da Frelimo em Matchedje, Julho de 1968.




Monumento aos heróis, em Matchedje. 



Monumento aos heróis, em Matchedje, pormenor.

*3 fotografias publicada no livro Os Anos da Guerra Colonial" 




Se calhar… o “nosso” Congresso da Frelimo era afinal um posto avançado do Exército da Tanzânia.

Não demos cabo do Congresso mas pelo menos demos um aviso a quem ajudava abertamente o nosso inimigo de então.



Coisas das guerras e de espiões...





(Actualizada em 19 de Julho de 2018)