VÉSPERA DA PARTIDA DE SEVILHA
9 Agosto de 1519
É amanhã o grande dia da partida de Sevilha da minha Armada rumo ao Sul neste grande Mar Oceano.
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| Sevilha cerca de 1660 |
Domingo, dia do Senhor, 9 de Agosto do Ano da Graça de 1519.
500 anos depois, neste longinquíssimo e infinitamente pequeno “lugar” onde me encontro, recordo aqueles momentos de extrema felicidade, enorme responsabilidade e muito orgulho e veem-me á memória os enormes trabalhos porque passámos, eu e o Ruy Faleiro durante os últimos dois difíceis anos (o que são dois anos aqui, agora…).
Depois de muito negociar com todas as autoridades competentes para financiar, construir e equipar as naus, recebi finalmente no dia 19 de Abril do Ano da Graça de Nosso Senhor de 1519 a Ordem de El Rei D. Carlos I para que eu e demais tripulantes fossemos às Molucas, as ilhas das especiarias.
Tinha já contratado quase toda a tripulação de que necessitava, capitães, marinheiros e artilheiros, carpinteiros e calafates, fornecedores de mantimentos e tudo o mais necessário à minha grande viagem por toda a Terra e Mares Oceanos conhecidos e desconhecidos.
Foi muito difícil porque havia poucos espanhóis industriados nos diversos misteres da navegação em grande Mar Oceano. Além dos espanhóis, contratei portugueses e bascos, havia genoveses, sicilianos, franceses, flamengos, alemães, gregos, napolitanos, corfiotes, negros e malaios.
Muitos sem experiência alguma, só movidos pelo bom soldo que lhes prometi.
Todos os artilheiros, dos quais cada navio carregava três, eram estrangeiros, geralmente franceses, mas às vezes alemães ou flamengos. O artilheiro mestre de Trinidad era o mestre Andrew, de Bristol, o único inglês, que se casara com uma mulher de Sevilha.
Não era fácil a empresa de tudo organizar. Para além do difícil acesso ao financiamento pelos grandes banqueiros, tive de lutar não só contra o mal-estar dos espanhóis por um português ser nomeado Comandante em Chefe de tão importante empresa, mas também pela falta de Navegadores e marinheiros experientes. Ainda por cima naquele tempo a construção naval em Espanha era de má qualidade.
Os senhores Capitães das outras naves da minha Armada não me amavam. Eu não sabia bem o motivo, mas parecia-me que também era por ser eu português, nomeado Capitão-Geral por El Rei D. Carlos I e eles espanhóis ou castelhanos a terem de me obedecer.
Portugueses e Espanhóis, dois povos que há muito suportávamos má vontade e maldade um em relação ao outro.
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A Giralda, Sevilha, quadro de David Roberts
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Em toda a cidade de Sevilha, até às mais altas instâncias e no seio da armada também, havia por esta altura um sentimento de despeito contra mim e quase todos se moviam no sentido de mais dia menos dia a revolta soltar-se nas naus e a minha autoridade ser posta em causa.
Sentia-se no ar e até o meu sogro me avisou do que se passava, sabendo ele até de um correio de D. Manuel Rei de Portugal a chegar a todo o momento com notícias de que me haveria de proteger, pois parecia ter a ver com um provável acordo de traição entre todos os que me rodeavam.
Mas enfim, não obstante estes pequenos incómodos a que eu ligava pouco, todos eles me deviam e tinham obediência.
Ao Ruy Faleiro e ao cartógrafo Diogo Ribeiro, de origem portuguesa a trabalhar na Casa de Contratación de Sevilha desde 1518, pedi que organizassem todas as derrotas (os Rumos) que iriamos seguir ponto após ponto nas cartas mais actualizadas e precisas do Mundo, as nossas.
Infelizmente o Ruy Faleiro, com aquele seu feitio marafado, acabou, entretanto, por se incompatibilizar connosco e abandonou o projecto.
A falta que ele me fez…
Ao meu soldo foi entretanto atribuído o valor de 50.000 maravedis.
A Armada que eu ia comandar era composta por cinco belos navios muito bem engalanados com o número de duzentos e trinta sete tripulantes ao todo, tendo eu mandado pagar a todos eles 4 meses de soldo adiantado
As naus eram:
A nau Capitana, a Trinidad, deslocava 110 tonéis, era comandada por mim como Capitão General e tinha como Piloto Estevão Gomes. Nela viajava também o António Pigafetta e o meu fiel escravo malaio Enrique.
Na San Antonio, que deslocava 12 tonéis, o Capitão era Juan de Cartagena e o Piloto era João Rodrigues de Mafra.
Na Concepcion, 90 tonéis, Capitão Gaspar de Quesada, Piloto João Gomes Carvalho
Na Santiago, 75 tonéis, Capitão João Serrão, primo ou irmão, já não me lembro, do meu amigo Francisco Serrão que vivia nas Molucas
E finalmente na Victoria, 85 tonéis, Capitão Luiz Mendoza, Piloto Vasco Gallego.
(Vocês já não sabem, mas uma das vossas toneladas de hoje é igual a 1 Tonel daquele tempo mais 1/5. Façam lá as contas).
O Enrique, o meu escravo malaio de 26 anos, natural de Malaca, pertencia á tripulação da frota como qualquer outro membro, tendo um soldo mensal de 1500 maravedis.
Contava com ele para ser meu tradutor quando aportássemos ás ilhas das especiarias.
E pela muita estima que lhe tinha, no meu testamento ele até tinha prioridade sobre a minha própria família, receberia pela minha morte 10.000 maravedis para continuar a sua vida e mais importante ainda, a liberdade plena.
O meu cunhado Duarte Barbosa, o que escreveu aquele livro sobre a costa este de África e o Malabar, um curioso e autêntico homem do mar como é, também nos acompanha.
Como era de prever, deu-me muito trabalho mas também nos auxiliou em diversas ocasiões.
Vou contar-vos tudo lá mais adiante, antes e depois da passagem para o outro grande Mar Oceano a que chamei "Pacífico".
Sabendo de que massa são feitos os homens, nunca declarei totalmente a ninguém o propósito da viagem nem a duração prevista, nem as esperadas grandes e violentas tempestades do Mar Oceano por onde iríamos, nem os inimagináveis acontecimentos que inevitavelmente sabia que nos esperavam, para evitar que as pessoas, de espanto e medo, se recusassem a acompanhar-me em uma tão longa viagem.
Mas os capitães tinham há algum tempo a rota para a viagem para eles cederem os regimentos aos pilotos das naves só no momento devido.
El Rei, a partir de Barcelona emitiu uma série de “cédulas”, (regulamentos) entre Março e Maio de 1519, finalizando-as com instruções detalhadas para a condução da viagem da seguinte forma: ” que nos perigos do mar (que muitas vezes ocorrem de noite e de dia) os navios não devem se desviar e separar um do outro”.
Quais regulamentações eu publiquei e emiti por escrito para o capitão de cada navio. E ordenei que elas fossem observadas e mantidas de forma inviolável, a menos que houvesse uma grande e legítima justificativa e evidência de ser incapaz de fazer o contrário.
Como tal, sendo eu o capitão-general disse que o navio em que eu estava deveria ir antes dos outros navios e que os outros deveriam segui-lo; e para esse fim acendia-se de noite, na popa do meu navio, uma tocha ou fogo de madeira, que eles chamavam de farol, para que seus navios não o perdessem de vista.
Às vezes colocava-se uma lanterna, outras vezes uma corda grossa de juncos acesos, chamada trenche, que era feita de juncos embebidos em água e espancados, depois secada ao sol ou por fumaça. E isso foi algo muito favorável para o propósito.
Quando fizesse um dos sinais para a Armada, todos eles me responderiam da mesma forma. Assim saberia se os navios nos seguiam ou não. E quando quisesse mudar de rumo porque o tempo mudava, ou o vento era contrário, ou quisesse reduzir o caminho, tinha duas luzes mostradas. E se desejasse que os outros carregassem uma touca (que é parte da vela presa à vela principal), mostrava-lhes três luzes.
Além disso, quando se descobria alguma terra ou recife (isto é, uma rocha no mar) mostrava várias luzes ou disparava um morteiro uma só vez.
Além dos regulamentos acima mencionados, para praticar a arte do mar (como é habitual) e para evitar os perigos que podem recair sobre aqueles que não definem quartos de vigia, o tenente especialista responsável em assuntos de navegação ordenou três quartos de vigia a serem postos à noite, o primeiro no início da noite, o segundo à meia-noite e o terceiro em direção ao amanhecer, comumente chamado de diane.
E todas as noites os ditos quartos eram trocados, isto é, aquele que fizera a primeira vigília, no dia seguinte fazia a segunda e o que fizera a segundo faria então, a terceira. E depois dessa maneira eles mudavam todas as noites.
Tecnicamente estávamos também muito bem preparados. A década de experiência nos mares das Índias que eu tinha, não me deixou negligenciar esse aspecto crucial para conseguir com êxito a empresa que me propunha levar a cabo.
Ao todo temos 24 cartas de marear desenhadas com mestria por Nuno Garcia e também pelos irmãos Faleiro.
Pedro Nunes tinha descoberto há pouco o conceito de loxodrómica, e a sua representação por uma linha recta na carta desenhada segundo a projecção de Mercator
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| (Este é muito mais moderno) |
Como auxílio levo 2 Globos Terrestres feitos por Pedro Reinel para o meu uso pessoal.
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| Um quadrante |
Também levamos quadrantes, astrolábios, agulhas de marear, compassos, doze ampulhetas e algumas balestilhas (um instrumento utilizado para medir a altura em graus que une o horizonte ao astro e dessa forma determinar os azimutes) (Wikip)
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| Astrolábio |
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| Uma balestilha |
Naquela noite da véspera da partida, foi a muito custo que adormeci, tal era o peso dos trabalhos em que me metera, arrastando comigo mais de duas centenas de homens a maioria sem preparação alguma para o manejo do estrafego de uma nau e que falavam diversas línguas transformando cada navio numa Torre de Babel flutuante.
Mas eu vou conseguir encontrar a passagem para o outro Grande Mar Oceano que sei que há para lá das terras a Ocidente. E vou chegar às ilhas das especiarias por um caminho mais calmo e seguro. Disso não me falta a certeza.
E nesta convicção adormeci, encomendando antes a minha alma e a de todos os que me acompanharão a partir de amanhã ao Senhor meu Deus para que nos guarde e auxilie.
Fiquem bem.
Na Paz do Senhor.
Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum
O vosso,
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| Fernão de Magalhães |
Vejam aqui os Episódios já publicados:
notas autobiográficas para que me conheçam melhor.
8 de Agosto - (1519) > 2019 - "O Meu Projecto" O Sonho, o Acreditar e a luta para o Concretizar
8 de Agosto - (1519) > 2019 - "Preparativos para a Viagem" Um Imperador jovem e sábio acreditou na minha mensagem
10 de Agosto - (1519) > 2019 - "Partida de Sevilha", que dia glorioso!
20 de Setembro- (1519) > 2019 - Partida de Sanlucar de Barrameda, adeus meu filho, adeus Beatriz...
20 de Setembro a 2 de Outubro 1519 (1519) > 2019 - De Sanlucar até à partida das Canárias - Aguada em Tenerife
20 de Setembro a 2 de Outubro 1519 (1519) > 2019 - De Sanlucar até à partida das Canárias - Aguada em Tenerife
2 de Outubro de 1519 > 2019 - Partida da Montaña Roja, finalmente em alto mar, a caminho das Molucas!
3 de Outubro a meados de Novembro de 1519 > 2019 - Cabo Verde, Guiné e Serra Leoa - começam os problemas com o Capitão Juan de Cartagena
Bibliografia:
- Fernão de Magalhães - Visconde de Lagoa - Edição da "Seara Nova", 1938
- Magalhães o homem e o seu feito – Stefan Zweig – Assírio e Alvim
- Nos Passos de Magalhães - Gonçalo Cadilhe
- A viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses – José Manuel Garcia – Editorial Presença
- Diário de Fernão de Magalhães o homem que tudo viu e andou – José Manuel Nuñez de la Fuente – Circ de Leitores (Este antropólogo e historiador foi o organizador da "Rede Mundial das Cidades Magalhânicas", de que é Secretário Geral)
- Magellan’s Voyage – a Narrative Account of the First Circumnavigation - Antonio Pigafetta – Kindle edition – Amazon
- O Elucidario Nobiliarchico Vol 2 N07 Jul 1929
- História de Portugal – coordenação de José Hermano Saraiva
- Reis de Portugal – Circulo de Leitores
- Revista da Armada
(Actualizada em 18 de Setembro de 2019)

















