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domingo, 6 de novembro de 2011

Linha Aérea e outros voos - Ponte Aérea Luanda - Ilha do Sal / 1975


Uma história trágico… cómica não! Patética.

Estes acontecidos passam-se durante a Ponte Aérea que tentou recolher as centenas de milhar de Portugueses e não só, completamente abandonados e sem nenhuma protecção do Estado a que julgavam pertencer. Agora já não eram Portugueses, agora era apátridas, incómodos, descartados.

E não foi Estado nenhum que os salvou. Foram alguns Portugueses, com a incómoda ajuda do Estado Português.

Esta história passa-se com uma pequeníssima parte desses ex-Portugueses, agora duplamente apátridas, terrivelmente abandonados, completamente desprotegidos.

Que naquele dia tiveram sorte. O que restava do Estado Português, alguns Portugueses, apiedaram-se e deram-lhes o conforto possível

Às oito da manhã daquele dia com muito Sol, em Luanda, em 1975, da janela do meu quarto do Hotel Trópico, vi um pequeno ajuntamento a formar-se em frente ao prédio em construção do outro lado da rua.

Eram os cabo-verdianos que iam ser "retornados" no meu voo e que estavam ali temporariamente alojados. Alojados? O prédio de vários andares só tinha de pé a estrutura e as paredes interiores. Nada mais. Nem água nem electricidade nem portas ou janelas.

Luanda vivia os dramáticos dias finais da soberania portuguesa de 500 anos e preparava-se afanosamente para uma sangrenta guerra civil que iria durar décadas.

Os sinais de desorientação, anarquia e decadência eram perceptíveis em todo o lado.

No próprio Hotel as condições ameaçavam degradar-se rapidamente. O Restaurante, no 6º Andar, com os elevadores avariados, proporcionava um excelente exercício físico que depois não era compensado. Quando cheguei a Luanda para fazer este voo, soube que a ementa da última semana tinha mudado. Depois de sete dias seguidos a feijoada, mudaram finalmente. Tive sorte...

A nossa apresentação para o voo Luanda - Ilha do Sal estava prevista para as duas da tarde. E aquela gente que já aguardava o transporte para o Aeroporto desde as 8 da manhã, tinha pernoitado naquele esqueleto de prédio.

Magnifico refúgio, em boa verdade. Ali pelo menos não voavam balas.

Antes das dez da manhã, já com o meu pequeno-almoço tomado no quarto, dava para ver que no meio da rua estavam já os cerca de 400 “retornados”, homens, mulheres e muitas crianças, que iríamos transportar para a Ilha do Sal por volta das 4 da tarde.

O telefone toca e então recebo o primeiro adiamento da partida.

E aquelas famílias na rua à espera dos camiões que nunca mais vinham, ajeitando as bagagens e com um olho nos miúdos que só lhes apetecia era correr de um lado para o outro.

As cabeças num permanente rodopio a ver quem via primeiro um qualquer camião.

Recebi mais um ou dois telefonemas com adiamentos.

Os outros, do outro lado da rua, continuavam à espera debaixo de um Sol abrasador. O transporte sempre quase a chegar e ninguém era informado de nada.

Tiveram que esperar até cerca das 8 da noite. Sem água ou comida.

A tripulação do Boeing B 747 da TAP, eu era o Co-Piloto do voo, saiu do Hotel às 21h30m.

Os “passageiros” daquele voo não comercial, da Ponte Aérea, sob a autoridade do IARN, Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, embarcaram já perto da meia-noite finalmente libertos daquele drama, finalmente em paz.

E o voo lá saiu, para a Ilha do Sal, nas primeiras horas do novo dia.

A bordo, para dar de comer a toda aquela gente que eu vira de pé, na rua, sem comida nem água, desde pelo menos 16 horas antes, nada havia para lhes dar.

Nada tinha embarcado!

Nada, é mesmo NADA. . .

Os nossos Tripulantes de Cabine, Assistentes e Comissários, sensíveis à situação, fizeram uma espécie de consomé, muito à base de água… para as crianças mais pequenas. Não dava para mais.

E foi assim que toda aquela gente retornou a casa.

Com a muito pouca dignidade que o agora ex-Estado a que ainda pertenciam as tratavam.

Felizmente para tantos, ainda tiveram o auxílio de muito poucos Portugueses.

Mas no meio dos maiores dramas há sempre episódios, embora muito pungentes, que no entanto nos fazem querer sorrir.

De tão absurdos que são.

Os dias de desespero e desnorte que se viviam em Luanda proporcionaram-me um dos mais dramáticos e ao mesmo tempo caricatos episódios a que assisti durante aqueles meses de Ponte Aérea.

Após o desembarque daqueles agora libertos cidadãos, o chefe de escala da TAP na Ilha do Sal, meio a rir meio atrapalhado, veio pedir ao Comandante os seus bons ofícios para um drama difícil de resolver.

Um homem já entrado na idade e provavelmente muito entrado no drama que era viver em Luanda naqueles tempos com a família, pedia desesperadamente que lhe dissessem o que era feito da sua mulher e dos seus filhos. 

- Mas ó homem!  Você perdeu a sua família... a bordo?! Perguntou-lhe o Comandante.

- Não senhor… dizia o homem muito choroso.

- Atão ?
 

- Eu trabalho no aeroporto de Luanda e ouvi dizer que todos os cabo-verdianos vinham neste voo.

Nesse dia houve 3 voos de Luanda para o Sal.

- Sim…
 

- Como vinham todos, a minha mulher e os meus filhos também vinham…
 

- Sim, e depois ?
 

- Depois, quando desembarquei, vi que não estavam a bordo…
 

- Então não embarcaram consigo ?
 

- Eu sou funcionário do Aeroporto de Luanda, estava a trabalhar no Aeroporto e corri para apanhar este voo.
 

- E a sua família, você não falou com eles, não os viu?
 

- Atão não era para virem TODOS os cabo-verdianos ???
 

- Ó homem de Deus … !!!

E lá regressámos com o avião vazio a Luanda sem saber muito bem como arrumar todas estas complicadas ideias na cabeça.


(Actualizada em 6 de Maio de 2014)



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Na Guerra do Ultramar - O meu inimigo vestido de branco


         Elegâncias que a Guerra tem...

 


 Uma belíssima ilustração do meu Amigo António Six.     
O mesmo avião desta história. Um T6 Harvard.     





A deslumbrante paisagem a Norte de Vila Cabral (Lichinga, hoje) servia muitas vezes para suavizar o espírito de quem tinha nas mãos um avião de combate municiado e pronto para a luta.
 

O grande ronronar do motor do T- 6 ajudava também ao sentimento de segurança que se sentia dada a grande fiabilidade daqueles aviões, muito bem tratados pela nossa Manutenção.
 

Mas o meu objectivo, naquele dia, não era filosofar ou apreciar a paisagem, por muito bela que fosse. As metralhadoras debaixo das asas iam carregadas de balas com um destino definido. Procurar e eliminar inimigos em aldeolas que serviam de refúgio ao terrorismo, naquele ano de 1968.
 

O destino não ficava longe do destacamento de onde descolara, a grande pista civil do Aeroporto de Vila Cabral.
 

E contrariamente ao costume ia sozinho. Estes voos de reconhecimento faziam-se sempre em parelha com outro avião. Mas como a zona que era preciso observar ficava a uns escassos 10 minutos de voo, achou-se por bem que eu fosse sem companhia.
 

Na base da serra mais próxima estava o alvo da minha missão. Foi para ali que me dirigi.
 

Desci para a altitude de reconhecimento visual do terreno e comecei à procura de sinais de vida, em zona de guerra. Neste local, tudo o que tivesse vida era fruto do terrorismo ou apoio ao mesmo, estando portanto legitimada qualquer acção bélica da minha parte.
 

Era a minha missão e eu estava na zona que me fora destinada.
 

No chão só a mata era visível, exuberante de vida. Podia ver a floresta, as grandes formações rochosas e os riachos a correr entre enormes árvores que faziam muitas zonas de sombra que podiam ocultar palhotas bem dissimuladas.
 

Era preciso ver muito bem. E tentar esquecer a paisagem.
 

Afinal não estava a fazer turismo e a zona era de guerra. Eu podia inclusive servir de alvo a um qualquer terrorista bem camuflado.

 

Numa volta para a esquerda a grande aldeia apareceu-me de súbito!






Como era possível tão grande aglomerado de palhotas, umas dez ou mais, sem grandes preocupações de camuflagem evidente, ali mesmo debaixo de mim!
 

E tão perto da nossa base.
 

Subi um pouco para avaliar melhor e o que vi fez-me perceber que aquela era uma aldeia com vida actual, ou seja habitada permanentemente, de onde as pessoas tinham saído, provavelmente à pressa, não há muito tempo. 


   Foto de Nuara


 
Quando bombardeava aldeias em zonas de guerra tinha sempre o mesmo sentimento: com o barulho que estes aviões fazem, a gente desta aldeia deve tê-la abandonado há pelo menos 15 minutos.
 

As bombas caíam a grande maioria das vezes exactamente sobre a palhota a eliminar. A técnica era apurada e os alvos eram abatidos com grande eficácia. Tanta que várias vezes ao sair do passe de tiro a explosão era enorme. Demasiada mesmo para tão pouca carga de explosivo que se descarregara.
 

Aquela palhota era, afinal, um paiol! E os gritos de regozijo, pela rádio, podiam ouvir-se por todo o Norte de Moçambique.
 

Mas naquele dia eu não estava armado com bombas. Tinha dois ninhos de metralhadoras de cada lado das asas. O meu alvo não podiam ser as palhotas. De nada servia. As metralhadoras tinham outros destinatários.
 

Mais uma volta de reconhecimento, agora em voo bastante baixo.
 

Mas o que é isto!? Até galinhas a correrem espavoridas no meio da aldeia, caminhos perfeitamente varridos e limpos, cada uma para seu lado!
 

Alguém sabia de existência deste objectivo. Daí a razão de eu estar ali.
 

Bem, vou reportar e nada posso agora fazer. Não tenho armamento adequado para o necessário.

 

E foi então que o vi.
 
 

Um homem alto, esguio, asseadamente vestido. De calças compridas e camisa dentro das calças. Cinto, sapatos e tudo. Uma elegância!

 

Todo vestido de branco!

 
 

Num instante até pareceu que as metralhadoras se viraram por si só, para este legítimo alvo a abater e começaram a disparar mesmo ao lado do homem que fugia entre as palhotas.
 

Nem teve tempo para reagir.
 

Como nos filmes, as balas levantavam tracinhos de poeira á distancia que eu queria do homem, sem o atingir, por agora…
 

E aquele inimigo, todo de branco vestido, perfeitamente á mercê do meu olhar, com os segundos de vida em contagem decrescente, corria descontrolado entre as palhotas, sem se afastar da aldeia.
 

E os tracinhos de pó faziam carreirinhos ao lado dele, sempre que corria.
 

Ora de um lado ora de outro, por toda a aldeia.
 

Aquele jogo de guerra era alimentado por uma enorme adrenalina que servia a raiva de tanta coisa passada.
 

Aquele homem tinha, não sei porquê, de pagar por tudo o que eu já passara. Por tanto que camaradas meus tinham passado. Mas antes disso havia umas contas a ajustar…
 

Não sei quanto tempo ali estive. Mas parece-me, hoje, que foi menos do que leva isto a ler.
 

O que sei é que às tantas, no meu espírito, uma dúvida se instalou.

 

Não és capaz, pois não…?

 
 

Mas o dever de cumprir era muito forte. Eu era um militar e o facto de estar sozinho não me livrava de deixar de executar a missão que me fora indicada.
 

Este drama instalou-se entre dois passes de tiro.

Os tracinhos de pó adiavam a decisão e ao mesmo tempo afinavam a pontaria.

 

As balas caminhavam propositadamente mesmo ao lado dele sem o molestar. 


Muito lentamente...


No meu espírito tudo se passava muito lentamente. Não podia errar. Não era ainda a hora. Não queria abater ainda aquele homem.

E os montinhos de pó elevavam-se do chão vagarosamente, descontentes.

 

O Tempo caminhava agora desgostoso...
 
 

Aquele tracejado das balas tornara-se afinal um diálogo. Pesado.

 

Entre a consciência e o dever.
 
 

Cada bala que batia no chão era o dever a chamar-me.
 

Nos intervalos das balas a minha consciência punha-me a mão no ombro e pedia-me que parasse.

 

E mostrava-me depois o pó e o que poderia significar.
 
 

Num último passe, o homem perfeitamente apavorado, abriga-se debaixo de uma palhota e abraça-a, braços esticados, todo encostado a ela de costas para mim.

Um verdadeiro Cristo já crucificado mas todo vestido de branco.


As metralhadoras engoliram em seco...


E  foi a última vez que te vi...

 


Gostava de te ver numa próxima visita a Moçambique, com os teus 70 e tal anos, rodeado de netos a contares-me o que te passou pela cabeça para não teres fugido da aldeia como todos os outros, quando me ouviste descolar, afinal era tão perto…


E andares assim vestido de branco, ali?

Francamente… 


Gostava que me contasses o que sentiste ao ver o avião desistir e fazer um pacto com todos os homens que sofrem numa guerra.



No relatório da missão, que tinha de fazer, mencionei a aldeia e tudo o que me pareceu de relevo para uma futura operação, conjunta ou não entre a Força Aérea e Exército.

 

O homem de branco não estava na aldeia.

 

Vestido assim...


 
 

Ou era um Anjo, quem sabe...

Que quis avaliar até onde a sanha, a maldade, a crueza da guerra desumaniza um homem.

Solitário, indefeso, exposto como eu estava ali.











Perante Ele…

 

 

 




(Actualizada em 24 de Outubro de 2016)




quinta-feira, 7 de abril de 2011

Linha Aérea e outros voos - A PONTE AÉREA de 1975


Os dramáticos dias do início da descolonização portuguesa




Foi o maior êxodo da História de Portugal



Começou em 17 de Julho de 1975 e acabou a 3 de Novembro, desse mesmo ano



Um episódio.


    Boeing B 747



Nota: 
…Em 1974, uma revolução em Lisboa apanha de surpresa centenas de milhares de portugueses que vivem em Angola. A partir desse dia inicia-se a derrocada imparável de uma sociedade inteira que, tal como um navio a afundar-se, está condenada à destruição e à ruína. Em escassos meses, trezentos mil portugueses são obrigados a largar tudo e a fugir, embarcando numa ponte aérea e marítima que marca o maior êxodo da história deste povo. Para trás ficam as suas casas, os carros e até os animais de estimação. Empresas, fábricas, comércio e fazendas são abandonados enquanto Luanda, a capital da jóia da coroa do império português, é abalada por uma guerra civil que alastra ao resto do território angolano. 

Excerto do livro de Tiago Rebelo: “O Último Ano em Luanda”



Nota:
Terão saído de Angola para Portugal cerca de 305 mil pessoas entre Maio de 74 e Novembro de 75.
 “Durante a ponte aérea, não havia programação de voos os aviões chegavam, abasteciam-se e partiam, foram períodos de uma tensão a raiar os limites de ser suportada”.
Gonçalves Ribeiro, Alto-Comissário para os Refugiados.
Eduarda Ferreira in: Jornal de Notícias.


_____________________________________ 
 


28 de Agosto de 1975

 


Nessa noite apresentei-me, como Co-Piloto de Boeing 747, nas Operações da TAP em Lisboa para fazer mais um voo da Ponte Aérea.


Neste caso seria Lisboa / Luanda / Nova Lisboa / Luanda / Lisboa


Já à saída de Lisboa se notava um ambiente estranho entre a tripulação (reforçada). Havia um grupo que parecia saber de coisas que viriam a acontecer e mais ninguém sabia.

Os outros interrogavam-se, suspeitando de uma pretensa ligação ao Partido Comunista daquele grupo sabedor de coisas...

De coisas que não sabíamos. Nem sonhávamos...

A pouco e pouco, até Luanda, percebeu-se do que se tratava, sem que os 2 Comandantes tivessem sido avisados da alteração “programada“, à sua revelia, do propósito inicial do voo a Nova Lisboa : recolher civis Portugueses e trazê-los para Lisboa.


E o que se tramava era nem mais nem menos isto:


- Deixar em terra, em Nova Lisboa, os Portugueses, ao abandono.

- Levar dali para Luanda os militares do MPLA, em perigo dado o apertar do cerco à cidade pela UNITA.

Regressar a Lisboa num voo comercial normal e não de Refugiados...



Cockpit do B747  
                                                               


Quando finalmente, ainda em voo para Luanda, toda a tripulação ficou a saber do que se tramava algures em Lisboa, Luanda e no próprio avião, fizeram-se mini-plenários (plenários a bordo, em pleno voo, dá para acreditar?...) ficando então decidido por maioria que o voo se faria integralmente como programado:

- Em Nova Lisboa só embarcariam Portugueses que viriam até Lisboa connosco!





    Luanda anos 60




Já aterrados em Luanda, durante o reabastecimento a caminho de Nova Lisboa, o chefe de escala, conotado com o PC segundo se dizia, tentou alterar as coisas tendo no entanto sido avisado das intenções da maioria da tripulação.

À chegada a Nova Lisboa, ainda do ar, podia ver-se uma longa fila de cerca de 400 pessoas fora da Aerogare prontas a embarcar, já há 3 dias a viver ali, mais ou menos na rua.
 
Quando a porta do avião se abriu e uma brisa húmida e muito quente se sentiu, entrou uma delegação TAP, ad-hoc, local (manutenção e handling) a informar que se os MPLA’s embarcassem em vez dos Portugueses, (o próprio MPLA estaria avisado que o voo seria para os recolher…) todos os funcionários TAP embarcariam também, quanto mais não fosse pelo receio de represálias pela UNITA.

 
Embarcaram, evidentemente, os portugueses… em estado miserável, há três dias sem comida.

 
Crianças e bebés comiam latas de atum e pão seco.
 
Os adultos só pão seco molhado em água.
 
 
Todos exibiam um tom de pele doentio cor de folha de tabaco.
  

Nota: 
…Em Nova Lisboa a situação era tremenda. Havia uma espécie de grande hangar e as pessoas chegavam das mais variadas formas, carregadas de malas. Como não as podiam levar — havia um limite de 30 kg por passageiro — havia uma montanha incrível de bagagem deixada para trás. Não havia condições nenhumas, a sanita era um antigo avião de campanha completamente recuperado que um oficial qualquer tinha resolvido pôr ali como monumento. Imagine-se, um avião que tinha andado na guerra!
"Quem controlava eram os guerrilheiros da Unita, que tinham um aspecto inacreditável. A tropa já se tinha vindo embora. Assim tínhamos de discutir horas com os UNITAS que queriam entrar nos nossos aviões para ir lá buscar pessoas, e assegurar que eles não inutilizassem o avião. Era essa a minha maior preocupação quando estava no solo.”
 “Chegou a uma altura em que a tropa portuguesa já se tinha vindo quase toda embora e mesmo em Luanda as pessoas só se sentiam seguras no aeroporto. Chegámos a ter lá 5000, numa caserna para 500 homens.”
 
Gonçalves Ribeiro, mais tarde Alto-Comissário para os Refugiados, o nome que todos apontam como coordenador da ponte aérea que em três meses e meio transportou quase meio milhão de pessoas de Nova Lisboa e Luanda para o aeroporto da Portela.  
por Fernanda Câncio
Do Blogue: “No tempo dos Araújos
 

de volta a Luanda, agora em transito para Lisboa, pelo grande empenho do chefe de escala da TAP que reclamava a essência Comercial do próximo troço, ficou decidido que o voo para Lisboa seria com os passageiros normais, pagantes.


Os de Nova Lisboa seriam simplesmente adicionados à enorme desumanidade que era naqueles dias o caos naquele Aeroporto de Luanda!
 


 


Nota: 
No aeroporto de Luanda, milhares de pessoas aguardavam, nas piores condições de salubridade, um lugar nos aviões Jumbo da TAP, que transportavam a um ritmo de mais de mil pessoas por dia as cerca de 250 mil que queriam regressar.
Rui Ochôa, Expresso, 26 de Julho de 2009 




    Foto da autoria de Alfredo Cunha 



E enquanto o avião era reabastecido e limpo, os espoliados embarcados em Nova Lisboa foram desembarcados, com o falso pretexto de que o avião tinha de ser reabastecido sem passageiros.

 
Essas 400 pessoas foram despejadas na aerogare, ao abandono, após 3 dias atrozes de desespero em Nova Lisboa. Iam começar nova odisseia.

Desta vez a um passo da liberdade prometida mas agora integrados numa luta maior de acrescida competição por um lugar a bordo de um qualquer avião.

 
 

E, claro, na hora do embarque lá entraram outras gentes, com muito melhor ar, os passageiros pagantes do voo regular para Lisboa.

 

Uma meia hora depois e já com o avião praticamente cheio, os nossos amigos de Nova Lisboa, desembarcados à força naquele Inferno, eles que já vinham de outra muito amarga experiência, deram-se conta de que tinham sido enganados e agiram rapidamente num misto de medo e fúria.


Em pânico, invadiram espontâneamente a placa a correr por ali fora direitos ao avião, atabalhoadamente, acossados pelo medo de tendo já escapado ao terror de que se tinham livrado, estarem agora irremediavelmente condenados a no mínimo… apodrecer na Aerogare de Luanda sem comida, água, cuidados de saúde e completamente indefesos.


Os pára-quedistas Portugueses de serviço junto ao avião, de G3 apontadas a eles, limitaram-se a ficar extáticos, virados para a Aerogare, e a ser ultrapassados por todos os desgraçados que quisessem.

 

Num instante um mar de gente em fúria, filhos e bagagens nas mãos, subindo por todas as escadas possíveis, entrou pelo avião dentro, sem controlo. Em segurança, de novo!
 
 

E os que não iam conseguindo entrar porque todas as escadas estavam a abarrotar de gente desesperada, ficaram a toda a volta do avião, perdidos, em pânico, com muita raiva.
 

Vários firmemente agarrados ao trem de aterragem para não serem recambiados, alguns com filhos muito pequenos seguros pelo outro braço, muitos a tentar subir as escadas atafulhadas de gente, todos aos gritos, todos em lágrimas e a tripulação dentro do avião, junto às portas, a lutar com a impossibilidade de gerir aquele inesperado drama para o qual ninguém estava preparado, por muito que se julgasse capaz.
 

Entretanto, no upper-deck do Boeing 747 CS-TJB (aquele espaço normalmente reservado a passageiros da 1ª Classe mas agora a servir de camarata aos tripulantes em descanso em colces de espuma atirados para o chão ao acaso) no dia 29 de Agosto de 1975, a meio da tarde, a situação era calma… “ foram vocês que arranjaram isto, agora desenrasquem-se “.

E a confusão a bordo era total. E desenrolava-se como um monstro que a pouco e pouco se apodera de todo um espaço e não há mais lugar para a dignidade. Era-mos todos, passageiros e tripulantes, vitimas indefesas de algo superior que nos dominava.

 

Para mim foi demais…
 
 

Fui lá para baixo tentar fazer qualquer coisa. A tripulação de cabine da frente, mais experiente, já tinha conseguido fechar a porta a seu cargo.


Agora a grande confusão era na porta do meio.
 
 

Com intenso dramatismo, todos aos gritos, todos fora de controlo (a tripulação já tinha uma noite de serviço e 12 a 14 horas de trabalho) íamos puxando para dentro os que estavam meio cá meio lá, tentando manter os outros de fora para se conseguir fechar também esta porta.
 

Um velho no topo da escada socorre-se de mim (eu era o que tinha ali, no momento, mais galões nos ombros) e grita-me repetidas vezes:
 

- Os meus filhos!!! Os meus filhos!!!
 

- Aonde é que eles estão?
 

Perguntei-lhe tentando gritar mais alto do que todos os outros 50 ou 60 que nos rodeavam dentro e fora...
 

- Aí dentro !!!
 

Eram 3. Entre pequenos e mais velhos. E estavam mesmo ao meu lado…
 

Consigo sair a custo do avião e já na escada, começo a puxá-lo para dentro por um braço enquanto todos os outros aproveitam a boleia e forçam a entrada, escada acima, contrariando a tripulação de cabina que, atrás de mim, tenta impedir aquele caos, empurrando toda a gente para fora.
 

E no meio do mais fantástico puxa-empurra, desesperado, tudo aos gritos, tudo em lágrimas, todos com os mais dramáticos e irrecusáveis argumentos a pedir para entrar, não sei quando, às tantas, consegui ouvir alguém do chão gritar:

 

- A escada vai cair!!!

 


O excesso de peso e as grandes oscilações faziam com que os apoios hidráulicos que elevavam a escada à grande altura da porta do Boeing 747 estivessem já curvos e bamboleantes.
 

O topo da escada, junto à porta do avião, já estava um bom palmo abaixo do nível da porta.
 

Deu-se então uma luta final realmente titânica para conseguir fechar aquela porta, ela que ainda por cima fecha de fora para dentro... tentando convencer as pessoas no topo da escada do perigo que todos nós corríamos.
 

Fechada a porta conseguimos reduzir o nosso drama só ao interior daquela autentica nave de loucos.

 

Isolado o avião, restava avaliar a situação e arranjar uma solução.

 

 

No chão, à volta do avião, haveria 100 a 200 homens mulheres e crianças e a bordo do nosso Boeing B 747 havia cerca de 600… entre os originários de Nova Lisboa e passageiros embarcados em Luanda.



O que se passava no exterior com tantas pessoas desesperadas, com tantas crianças violentamente expostas a este drama, deixou de nos preocupar.
 

O drama e a insegurança estabelecida dentro do avião eram-nos prioritários agora. 







Todos se achavam no direito de seguir viagem para Lisboa.
 

Os argumentos eram os mais variados.
 

Havia quem, bem trajado e com ar saudável, acabado de sair de sua casa em Luanda, mostrasse um Rx para uma operação urgente. Havia famílias subitamente separadas, dentro e fora do avião, pais e filhos separados por uma simples porta, impenetrável.
 

Havia enfim um sem número de problemas reais ou fictícios e nenhum critério ou orientação para começar, sequer, a solucionar aquilo: o avião só podia transportar legalmente 400 passageiros e mais os cerca de 36 tripulantes, (tripulação reforçada) além dos dois ou três representantes do IARN, organismo Estatal de Apoio aos Refugiados Nacionais que seguiam em todos os voos da Ponte Aérea.
 

Não me lembro de nenhuma acção de apoio, nesta situação, destes mesmos elementos, supostamente de apoio. Estavam sentados no lugar certo e por ali ficaram… Se fizeram alguma coisa, não me lembro. As minhas desculpas.
 

Havia também um garrido grupo de 25 bem arranjadas prostitutas de Luanda.

 

Nesta tremenda confusão, uma passageira, muito bem vestida, obviamente originária de Luanda e também desesperada por se ver ameaçada de ser devolvida ao Inferno se fosse desembarcada, agarrou a mão de uma muito jovem assistente de bordo da TAP que passava, abriu a carteira, tirou de dentro dela uma pequena pistola de cano cromado, punho em madrepérola, apontou-a à sua própria cabeça e disse calmamente à apavorada assistente:
 

- Olhe menina, se eu não for para Lisboa, mato-me aqui mesmo!
 
 

Talvez a melhor imagem do desespero das pessoas, melhor ou pior vestidas, naqueles dias...
 

É claro que a jovem Assistente apareceu no upper-deck em perfeito estado de histerismo.
 

Convém lembrar que entretanto já se tinham passado mais de 14 horas desde a apresentação da tripulação em Lisboa, por volta da meia-noite anterior…

 

E perante a inoperância da escala de Luanda, propositada ou não e da falta de soluções dos mais altos responsáveis a bordo, dois elementos da tripulação resolveram, por sua alta recreação, meter mãos à obra e começaram intermináveis viagens entre o avião e a Aerogare dialogando passageiro a passageiro para avaliar das verdadeiras e inadiáveis razões que cada um teria para seguir mesmo naquele voo.

 

Foram um Técnico de Voo e um Comissário de Bordo:

 
 

Não me lembro do nome do Técnico de Voo, mas sei que era o pai de uma funcionária jovem e bonita da Operações de Voo da TAP. O Comissário era o C/B Duarte André.

 

  Imagem meramente ilustrativa
   


Umas 5 horas depois... com cerca de 8 horas totais nesta segunda escala no Aeroporto de Luanda, lá conseguimos descolar.

440 pessoas a bordo.

À saída de Luanda a tripulação já levava, talvez, 17 horas de trabalho. Naquelas condições.





Dezassete horas de trabalho.

                 


O voo decorreu sem mais incidente algum.

 
Aterrámos em Lisboa ao fim de 26 longas, atribuladas e inacreditáveis horas de trabalho, seguido. 


Alguns de nós com a consciência tranquila.

Muito tranquila...





"Retornados" no Aeroporto de Lisboa, 1975

Todas as fotos que se seguem são da autoria de Alfredo Cunha 




E para os nossos passageiros de Nova Lisboa, de retorno à Pátria, como aconteceu a tantos outros, foram estas as melhores condições que se lhe ofereceram:




 



"Retornados" e as suas bagagens em Belém, 1975













Quanto a mim, quando cheguei a casa, sentei-me na sala, exausto, contei a história e desatei a chorar. Descontrolado.

Muito provavelmente de cansaço. E outras coisas…



Depois de 26 horas de trabalho contínuo.
Um total de 15h40 de voo.
Sendo 9h30 de voo nocturno, durante duas noites consecutivas.

Duas escalas em Luanda com um total de cerca de 10 horas no chão
Sempre em serviço, embora com tripulação reforçada.
Fizémos 4 aterragens.

 
 




O voo foi efectuado no Boeing B 747 matriculado CS-TJB.

Diários de Navegação nºs 9/31 a 9/34.






A TVI passou nos dias 6 e 7 de Novembro de 2016  uma reportagem, «O lugar onde eu fiquei», da Jornalista Catarina Canelas onde se conta como foi o êxodo de centenas de milhares de portugueses.

Para que não esqueça.








Veja aqui a 1ª parte do Documentário
e aqui a 2ª parte do Documentário





Na 21ª Hora, programa transmitido logo a seguir ao segundo Documentário, foram entrevistados pela Pivot Judite de Sousa os Jornalistas Fernando Dacosta, Diamantino Pereira Monteiro e o autor deste Blogue.











 
Podem ver toda a entrevista aqui.






















No final do programa o Jornalista Fernando Dacosta teve a amabilidade de me oferecer, autografado, o seu livro "Os Retornados mudaram Portugal".
























No dia 20 de Abril de 2017 a Jornalista Catarina Canelas



lançou o  seu livro

"A Hora da Partida"


no Auditório da FNAC Colombo.


















O livro reflecte a temática desta sua reportagem


"O lugar onde eu fiquei"











Apresentaram o livro Sérgio Figueiredo, José Alberto Carvalho, Judite de Sousa e a Editora Verso de Kapa




















A Catarina autografando o exemplar que teve a amabilidade de nos oferecer






































(Actualizada em 13 de Maio de 2018)