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| Um T-33 na Base Aérea da Ota |
O nosso começo como alunos da EICPAC na Ota, 1964,
não foi brilhante...
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| Logo da Esquadra de Instrução Complementar de Pilotos de Aviação de Caça. "Os Caracóis" |
Num belo dia de 1964 os quatro alunos do P1/62 que, a convite da Força Aérea, se tinham oferecido para os jactos, saem de Sintra rumo a Vila Franca de Xira onde chegam de comboio.
Á espera destes quatro brilhantes aspirantes a Alunos Pilotos da Aviação de Caça, em vez de uma qualquer viatura normal que nos levasse para a Base, fomos presenteados com o camião das compras para a messe.
E foi lá atrás no meio de batatas, cebolas, peixe, carne e laranjas, sentados em cima de tudo isto, cobertos por uma capota de lona verde, que entrámos triunfalmente na Ota.
As armas da Base Aérea da Ota
A condizer com esta finura de trato esperava-nos um quarto para os 4 em que o espaço entre as camas não dava para andar. Tínhamos que passar por cima das camas.
A alimentação estava também de acordo. Numa determinada altura comemos 3 refeições seguidas de feijoada. A dieta indicada para pegadores de touros e não para se voar aviões pressurizados.
Simultaneamente a nossa saúde, inexplicavelmente, deu para nos sentirmos mal, com palpitações e pulsações elevadas. Uma visita ao médico, duas visitas, e a coisa não melhorava.
Nada disto, para nós, era compatível com o voo, que já tinha começado.
O ambiente tornou-se explosivo e os 4 aviadores deram por mal empregue o dia em que se ofereceram para os jactos, com o consequente acréscimo de 3 anos de tropa.
E foi um passo até á decisão unânime:
- Nós queremos desistir do curso!
- Não queremos voar mais o T-33!
- Não queremos voar mais o T-33!
Informado o Comandante da Esquadra, Tenente Vasquez, a quem já nos ligava uma certa amizade pelo bom trato que nos dava e após várias diligências dos instrutores aos 4 desiludidos pilotos ainda não brevetados (estávamos a começar a ser os VCCs…) chegou-se a um impasse.
Solução?
Coronel Diogo Neto, comandante da Base.
Na manhã seguinte os 4 irredutíveis aviadores foram civilizadamente levados ao gabinete do Comandante da Unidade.
Assim que entrei percebi imediatamente onde é que realmente estava.
Atrás da grande secretária, de pé, as mãos postas á frente do corpo, alinhados, as medalhas ao peito, estavam o nosso Comandante de Esquadra, o Médico da Unidade, o 2º Comandante da Base e o Comandante, Coronel Diogo Neto, que sabíamos ter sido promovido a Tenente Coronel e a Coronel por distinção por feitos em combate no Ultramar
Por detrás destas egrégias figuras, as bandeiras militares e da República Portuguesa impecavelmente colocadas. E os austeros retratos de Salazar e Américo Tomás.
A lembrar-nos a delicadeza do momento.
Os nossos chefes olhavam-nos com alguma gravidade, pareceu-me. Porém sem hostilidade.
A lembrar-nos a delicadeza do momento.
Os nossos chefes olhavam-nos com alguma gravidade, pareceu-me. Porém sem hostilidade.
Era só um assunto muito sério.
Pela primeira vez nas nossas vidas estávamos perante a nossa maioridade, em pleno, entregues a nós próprios e aos princípios que a família e a escola nos tinham ensinado.
Pela primeira vez nas nossas vidas estávamos perante a nossa maioridade, em pleno, entregues a nós próprios e aos princípios que a família e a escola nos tinham ensinado.
Era mesmo um assunto muito sério...
E foi a partir desse dia que aprendi a ser maior, mais responsável. Foi a partir daí que a Força Aérea passou a fazer parte de mim.
Foi também nesse dia que "conheci" o Coronel Diogo Neto.
Feitas as apresentações e sabido o que nos levava aí, o Comandante da Unidade explicou-nos o que éramos, onde estavamos e o que de nós era esperado.
Com civilidade, sem ameaças mas com a autoridade que legitimamente representava.
Finalmente fez-nos ver que, como militares, não havia espaço para desistências. Ou chumbávamos no curso, ou não chumbávamos.
Qualquer outra alternativa deixaria as nossas chefias sem alternativa.
E todos nós trazíamos uma boa classificação do T6 feito em Salamanca, na Base Aérea de Matacán.
Não houve pressão alguma. Esperava-se só uma resposta da nossa parte mas também um sinal de que aquilo de que legitimamente nos queixávamos seria pelo menos avaliado
T-33
Postas as coisas neste pé, decidimos anular o pedido de renúncia ao curso. Sabíamos que havia um irredutível entre nós mas decidiu obedecer temporariamente às regras.
Reconhecidas também as nossas necessidades, fomos finalmente realojados em dois quartos contíguos, e com dieta melhorada.
Quem “desistiu”, mesmo, sentiu-se mal no voo que fez a seguir e foi dispensado, voltando a Sintra, sem quaisquer problemas.
Os outros 3 acharam que “desistir” ou até chumbar seria uma derrota pessoal.
Todos os nossos Instrutores nos receberam de novo de braços abertos e fomos presenteados com “voos para meninas” só para descontrair.
Duvido que outra Força Aérea ou ramo militar tivesse trato mais civilizado para com pilotos rebeldes.
O meu instrutor era o Tenente António Quintanilha. Mais tarde o gémeo Luís, também.
A ambos devo o muito que aprendi.
De trato difícil, mas ensinaram-me muito.
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| O nosso local de trabalho |
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| Eu, o Ary e o Leite da Silva |
Um abraço para vocês dois, amigos. Lá onde estiverem.
Algumas imagens pertencem a ilustres desconhecidos a quem peço desculpa por não os nomear.
(Actualizada em 16 de Julho de 2018)
(Actualizada em 16 de Julho de 2018)






