
CHAPTER IV
A viagem de Sevilha a Sanlucar, iniciada no dia 10 de Agosto de 1519, foi feita em dois dias.
Em Sanlucar a frota ancorou mesmo em frente ao Palácio do Duque de Medina Sidónia no dia 12 de Agosto de 1519
Os meus dias passavam-se a inspeccionar constantemente as naus antes da partida ao mesmo tempo que andava entre Sevilha e Sanlucar providenciando no embarque das vitualhas que nos faltavam, enchendo os porões das naus, principalmente os da San Antonio, que era a maior.
Da minha parte havia um assunto que á muito me ocupava o pensamento.
A Sua Altesa El Rei D. Carlos queria mostrar a minha lealdade e respeito por tudo o que me permitiu fazer, entregando-lhe, quando e se fosse caso disso, um bem precioso que só a Ele poderia entregar.
Era um documento que permitia a S.A. saber a localização exacta, com as latitudes e longitudes, de todas as ilhas das especiarias.
E principalmente dar-lhe com isso a prova de que as costas, cabos e promontórios ali existentes, estavam, todos, fora das possessões e territórios sob soberania de D. Manuel I seu tio e Rei de Portugal.
Era um documento com informação de extrema confidencialidade que só ao meu sogro podia entregar.
Para que o entregasse em mão, ele mesmo, a S. A. no caso de a minha morte acontecer durante a viagem.
E só se dúvidas aparecerem, depois, sobre a justeza dos actos cometidos pela Coroa de Castela, por intermédio da minha acção, que pudessem ser erradamente vistos como lesivos para D. Manuel, coisa que eu, por minha honra nunca faria, nem S. A. mo permitiria fazer.
Decidi, entretanto, também, fazer o meu testamento.
No caso de a minha morte ocorrer durante esta viagem, queria deixar escritas e registadas as minhas últimas vontades.
Preocupava-me, naqueles tempos, a situação de alguns conventos, hospitais, hospícios, o auxílio das cruzadas e os pobres. Esses preocupavam-me muito e quis deixar um exemplo para que outros o seguissem.
Finalmente a minha família a quem eu tanto queria e sempre me apoiou
No dia 24 de Agosto, uma quarta feira, na presença do meu sogro D. Diego Barbosa e da sua filha Beatriz, minha mulher, juntámo-nos no cartório de Bernal González de Vallecillo em Sevilha (que também fora notário de fé nas cartas de pagamento do dote e arras do meu casamento com Beatriz) sito na Rua das Gradas e as minhas vontades foram passadas a papel.
Já podia partir sossegado, o meu testamento estava feito.
Nele deixei isto escrito:
<<Quando a minha vida terrena terminar e começar a vida eterna, quero ser sepultado em Sevilha no Mosteiro de Santa Maria de la Victória, em tumba própria.
Mas no caso de morrer em viagem e o meu corpo não poder voltar a Sevilha, quero que o meu cadáver encontre o descanso eterno na igreja mais próxima consagrada à Virgem Maria.
Quero deixar um décimo daquela quinta parte que me cabe por contrato, distribuída em partes iguais pelos Mosteiros de Santa Maria de la Victória, de Santa Maria de Monserrat e de S. Domingos, do Porto. E também mil maravedis à capela de Sevilha onde recebi a Santa Comunhão no dia da minha partida de lá.
Quero doar um real de prata à santa cruzada e mais um para o resgate de prisioneiros cristãos das mãos dos pagãos e mais um terceiro para o hospício de inválidos de São Lázaro.
Um quarto e um quinto para o Hospital de las Bubas e à Casa de S. Sebastián, para que os beneficiários desta esmola aí rezem a Deus nosso Senhor pela salvação da minha alma.
Em Santa Maria de la Victória deverão ser celebradas trinta missas sobre o meu cadáver e outras trinta um mês depois das minhas exéquias.
Quero que no dia do meu funeral sejam vestidos três pobres, recebendo cada um deles um casaco de tecido cinzento, um barrete, uma camisa e um par de sapatos, para que orem a Deus pela minha alma.
Nesse dia devem ser alimentados outros doze pobres para que também eles implorem a Deus pela minha alma.
Quero também que um ducado de ouro seja distribuído, como esmola, pela salvação das almas do purgatório.
E para Enrique, o meu fiel escravo de 26 anos, nascido na cidade de Malaca e baptizado pela Santa Madre Igreja, desejo que após a minha morte lhe seja dada a liberdade para que possa fazer o que lhe aprouver. E para que possa refazer a sua vida doo-lhe dez mil maravedis
E para a minha mulher e o meu filho, deixo tudo o mais, sabendo que o amor que nos uniu é a mais forte herança que a todos nós nos coube e que nos vai manter, para todo o sempre, unidos. Deus Nosso Senhor nos abençoe>>.
Entretanto em Sanlucar, muitos jornadas depois, de intenso labor, chegámos finalmente ao dia
20 de Setembro de 1519
data aprazada da partida da Armada para Tenerife, na Gran Canária.
Era uma Terça Feira e logo pela manhã temprana, recebemos todos a Sagrada Comunhão
na Igreja de San Lucar, que foi pequena para tanta gente.
Com um grande aperto no coração despedi-me, já no areal, mesmo antes de embarcar no batel e no meio de uma grande multidão alvoroçada, da minha amada mulher que tinha o nosso filho ao colo.
Não tínhamos, de todo, consciência de que era a última vez na Terra que estávamos juntos, uma felicidade suprema mesmo naquela amarga condição de despedida.
Felizmente para nós, não sabíamos o que estava para nos acontecer.
Infinitamente tristes pela separação, que ali começava entre lágrimas, o que queriamos no fundo era ter o convencimento de que nos voltaríamos a ver.
E isso era, mesmo assim, um grande consolo, apesar de tudo.
Foi daqui que partimos, há já 500 anos...
Uma multidão juntou-se naquele areal um pouco abaixo do Palácio do Duque de Medina Sidónia para nos ver partir.
Metemo-nos nos bateis, assomámo-nos aos navios subindo as escadas do portaló, levantaram-se as ancoras, as velas abriram-se ao vento sudoeste que fazia, também chamado Labeiche e os canhões ribombaram por toda a vasta planície num adeus sentido, com aquela sensação de perda em que todos nos encontrávamos, os que partiam e os que em terra nos viam afastar para a que seria, sei-o hoje:
- a mais fantástica aventura da História da Humanidade.
No areal todos acenavam lentamente com os chapéus e barretes murmurando desejos de boa viagem, temendo ao mesmo tempo que o pior pudesse vir a acontecer aos familiares e amigos que partiam e que receavam estar a ver pela última vez.
Já no meu posto, na nau capitânea Trinidad, levava comigo os olhos chorosos de Beatriz com o nosso filho ao colo.
Aqueles a quem amava acima de tudo e que esperava, com toda a vontade, poder voltar a abraçar e beijar no meu regresso triunfal de tão arriscada e temerária empresa.
Mas Deus Nosso Senhor tinha outros desígnios para nós os três...
Não me quero alongar mais, agora, nesta terrível lembrança e retomo a história que vos estou a contar.
Começo hoje, no dia 20 de Setembro de 1519, esta grande viagem
que ficou na História para todo o sempre.
que ficou na História para todo o sempre.
Que o Senhor, na sua infinita misericórdia, nos proteja a todos e nos faça chegar aonde nos propomos fazê-lo.
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| Ilustração da BBC |
Para todos os que em terra ficaram, pedi a bênção de Deus...
Fiquem bem.
Na Paz do Senhor.
Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum
O vosso,
Fernão de Magalhães
Vejam aqui os Episódios já publicados:
notas autobiográficas para que me conheçam melhor.
8 de Agosto - (1519) > 2019 - "O Meu Projecto" O Sonho, o Acreditar e a luta para o Concretizar 8 de Agosto - (1519) > 2019 - "Preparativos para a Viagem" Um Imperador jovem e sábio acreditou na minha mensagem 9 de Agosto - (1519) > 2019 - A véspera da partida", uma noite angustiante... 10 de Agosto - (1519) > 2019 - Partida de Sevilha, que dia glorioso! 20 de Setembro a 2 de Outubro 1519 (1519) > 2019 - De Sanlucar até à partida das Canárias - Aguada em Tenerife
2 de Outubro de 1519 > 2019 - Partida da Montaña Roja, finalmente em alto mar, a caminho das Molucas!
3 de Outubro a meados de Novembro de 1519 > 2019 - Cabo Verde, Guiné e Serra Leoa - começam os problemas com o Capitão Juan de Cartagena
- Fernão de Magalhães - Visconde de Lagoa - Edição da "Seara Nova", 1938 - Magalhães o homem e o seu feito – Stefan Zweig – Assírio e Alvim - Nos Passos de Magalhães - Gonçalo Cadilhe - A viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses – José Manuel Garcia – Editorial Presença - Diário de Fernão de Magalhães o homem que tudo viu e andou – José Manuel Nuñez de la Fuente – Circ de Leitores (Este antropólogo e historiador foi o organizador da "Rede Mundial das Cidades Magalhânicas", de que é Secretário Geral) - Magellan’s Voyage – a Narrative Account of the First Circumnavigation - Antonio Pigafetta – Kindle edition – Amazon - O Elucidario Nobiliarchico Vol 2 N07 Jul 1929 - História de Portugal – coordenação de José Hermano Saraiva - Reis de Portugal – Circulo de Leitores - Revista da Armada |






