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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Álbum de Photographias - O meu Museu do Ar Militar

Alguns aviões militares que voei (e outros que gostaria de ter voado...)

As imagens estão um pouco distorcidas porque são aviões já com muita idade, alguns concebidos nos anos 30 do Séc XX.

Outros, mais recentes, têm aquele aspecto de alguns dos sonhos demasiado irreais que ás vezes temos. Coisas impossíveis de acontecer, como eu poder voá-los...

(Click na primeira fotografia para ver depois todas numa apresentação melhorada)
Chipmunk:



F-16:(estou a sonhar...)




F-86F:






Alouette III:(não voei)



T-6:



T-33:








quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Aviões que voei > Chipmunk


Chipmunk Suíço com as cores da Força Aérea Portuguesa 

Modelo voado

De Havilland DHC-1 Chipmunk Mk.20

Voos relevantes que fiz

14 de Mai 1962: 1º Voo no avião e na Força Aérea Portuguesa, na BA 7, Base Aérea de S. Jacinto, Aveiro. Matrícula do avião: 1330.
14 de Jun 1962: Largado em voo solo, na BA 7 com 07h54m de voo. Matrícula do avião: 1332.
17 de Jan 1967: Último voo neste avião, na BA 5, Base Aérea de Monte Real, Leiria. Matrícula do avião: 1357.

Desenho esquemático de um Chipmunk

Características e história

O CHIPMUNK MK20 é um avião bilugar em tandem (o aluno à frente e o instrutor atrás) metálico, com trem fixo e travões hidráulicos de disco, dotados de duplo comando. Foi utilizado pela FAP para instrução elementar de pilotagem podendo, pelas suas características de voo fazer toda a acrobacia e, em boas condições meteorológicas, voo nocturno e por instrumentos.

Foi também o principal avião de treino da força aérea Britânica e várias outras forças aéreas, durante muitos dos anos pós-guerra.

Desenhado para suceder ao de Havilland Tiger Moth , o Chipmunk voou pela primeira vez em Downsview, Toronto a 22 de Maio de 1946. Embora o design tenha sido desenvolvido pela de Havilland Aircraft of Canada Ltd; o principal designer foi um polaco, Wsiewolod Jakimiuk. O protótipo tinha um motor de 108 kW (145 hp) de Havilland Gipsy Major 1C.

Entrou ao serviço na Força Aérea Portuguesa em 1951, com 76 unidades.
Em 1952, as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico obtiveram licença dos construtores para a montagem deste avião em Portugal. Foram construídas 66 unidades.

Foi utilizado na instrução de pilotagem básica.

Das cerca de 30 unidades que a Força Aérea dispunha e devido ao seu efectivo, foram seleccionadas 7 unidades que, com vista à execução de missões de reboque de planadores da AFA, foram submetidas a várias modificações.

As modificações introduzidas constam de remotorização mais potente (145 HP para 180 HP); novo bloco de travões; novo rádio; transponder; derivas anti-vrille e pintura original da instrução na Força Aérea, com inscrição e emblema da Academia da Força Aérea.

Vários Chipmunks


Chipmunk da Academia da Força Aérea


Especificações:

Fabricante:                De Havilland of Canadá /Canadá
Missão:                      Instrução
Tripulação:                2

Dimensões
Comprimento:             7,75 m
Envergadura              10,46 m
Altura                        2,13 m
Área (asas)               15,87 m²

Peso
Peso total                   647 kg
Peso bruto máximo       990 kg

Propulsão
Motor                          De Havilland Gipsy Major de 4 cilindros em linha, invertido, arrefecidos a ar
Potência                     145 HP, actualmente 180 HP, Chipmunk MK 20 (modif.)

Performance
Velocidade máxima     287 Km/h
Velocidade cruzeiro     204 Km/h
initial climb rate         800 ft (244 m)per minute;
Alcance máximo         445 Km
Autonomia máxima      2,3 h
Tecto máximo           4.820 m
Peso vazio                 647 Kg
Peso máx.     
       à descolagem      990 Kg

Pormenor




Vídeos:

Descolagem:


Acrobacia:
Vista geral:

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Na Guerra do Ultramar - O meu inimigo vestido de branco


         Elegâncias que a Guerra tem...

 


 Uma belíssima ilustração do meu Amigo António Six.     
O mesmo avião desta história. Um T6 Harvard.     





A deslumbrante paisagem a Norte de Vila Cabral (Lichinga, hoje) servia muitas vezes para suavizar o espírito de quem tinha nas mãos um avião de combate municiado e pronto para a luta.
 

O grande ronronar do motor do T- 6 ajudava também ao sentimento de segurança que se sentia dada a grande fiabilidade daqueles aviões, muito bem tratados pela nossa Manutenção.
 

Mas o meu objectivo, naquele dia, não era filosofar ou apreciar a paisagem, por muito bela que fosse. As metralhadoras debaixo das asas iam carregadas de balas com um destino definido. Procurar e eliminar inimigos em aldeolas que serviam de refúgio ao terrorismo, naquele ano de 1968.
 

O destino não ficava longe do destacamento de onde descolara, a grande pista civil do Aeroporto de Vila Cabral.
 

E contrariamente ao costume ia sozinho. Estes voos de reconhecimento faziam-se sempre em parelha com outro avião. Mas como a zona que era preciso observar ficava a uns escassos 10 minutos de voo, achou-se por bem que eu fosse sem companhia.
 

Na base da serra mais próxima estava o alvo da minha missão. Foi para ali que me dirigi.
 

Desci para a altitude de reconhecimento visual do terreno e comecei à procura de sinais de vida, em zona de guerra. Neste local, tudo o que tivesse vida era fruto do terrorismo ou apoio ao mesmo, estando portanto legitimada qualquer acção bélica da minha parte.
 

Era a minha missão e eu estava na zona que me fora destinada.
 

No chão só a mata era visível, exuberante de vida. Podia ver a floresta, as grandes formações rochosas e os riachos a correr entre enormes árvores que faziam muitas zonas de sombra que podiam ocultar palhotas bem dissimuladas.
 

Era preciso ver muito bem. E tentar esquecer a paisagem.
 

Afinal não estava a fazer turismo e a zona era de guerra. Eu podia inclusive servir de alvo a um qualquer terrorista bem camuflado.

 

Numa volta para a esquerda a grande aldeia apareceu-me de súbito!






Como era possível tão grande aglomerado de palhotas, umas dez ou mais, sem grandes preocupações de camuflagem evidente, ali mesmo debaixo de mim!
 

E tão perto da nossa base.
 

Subi um pouco para avaliar melhor e o que vi fez-me perceber que aquela era uma aldeia com vida actual, ou seja habitada permanentemente, de onde as pessoas tinham saído, provavelmente à pressa, não há muito tempo. 


   Foto de Nuara


 
Quando bombardeava aldeias em zonas de guerra tinha sempre o mesmo sentimento: com o barulho que estes aviões fazem, a gente desta aldeia deve tê-la abandonado há pelo menos 15 minutos.
 

As bombas caíam a grande maioria das vezes exactamente sobre a palhota a eliminar. A técnica era apurada e os alvos eram abatidos com grande eficácia. Tanta que várias vezes ao sair do passe de tiro a explosão era enorme. Demasiada mesmo para tão pouca carga de explosivo que se descarregara.
 

Aquela palhota era, afinal, um paiol! E os gritos de regozijo, pela rádio, podiam ouvir-se por todo o Norte de Moçambique.
 

Mas naquele dia eu não estava armado com bombas. Tinha dois ninhos de metralhadoras de cada lado das asas. O meu alvo não podiam ser as palhotas. De nada servia. As metralhadoras tinham outros destinatários.
 

Mais uma volta de reconhecimento, agora em voo bastante baixo.
 

Mas o que é isto!? Até galinhas a correrem espavoridas no meio da aldeia, caminhos perfeitamente varridos e limpos, cada uma para seu lado!
 

Alguém sabia de existência deste objectivo. Daí a razão de eu estar ali.
 

Bem, vou reportar e nada posso agora fazer. Não tenho armamento adequado para o necessário.

 

E foi então que o vi.
 
 

Um homem alto, esguio, asseadamente vestido. De calças compridas e camisa dentro das calças. Cinto, sapatos e tudo. Uma elegância!

 

Todo vestido de branco!

 
 

Num instante até pareceu que as metralhadoras se viraram por si só, para este legítimo alvo a abater e começaram a disparar mesmo ao lado do homem que fugia entre as palhotas.
 

Nem teve tempo para reagir.
 

Como nos filmes, as balas levantavam tracinhos de poeira á distancia que eu queria do homem, sem o atingir, por agora…
 

E aquele inimigo, todo de branco vestido, perfeitamente á mercê do meu olhar, com os segundos de vida em contagem decrescente, corria descontrolado entre as palhotas, sem se afastar da aldeia.
 

E os tracinhos de pó faziam carreirinhos ao lado dele, sempre que corria.
 

Ora de um lado ora de outro, por toda a aldeia.
 

Aquele jogo de guerra era alimentado por uma enorme adrenalina que servia a raiva de tanta coisa passada.
 

Aquele homem tinha, não sei porquê, de pagar por tudo o que eu já passara. Por tanto que camaradas meus tinham passado. Mas antes disso havia umas contas a ajustar…
 

Não sei quanto tempo ali estive. Mas parece-me, hoje, que foi menos do que leva isto a ler.
 

O que sei é que às tantas, no meu espírito, uma dúvida se instalou.

 

Não és capaz, pois não…?

 
 

Mas o dever de cumprir era muito forte. Eu era um militar e o facto de estar sozinho não me livrava de deixar de executar a missão que me fora indicada.
 

Este drama instalou-se entre dois passes de tiro.

Os tracinhos de pó adiavam a decisão e ao mesmo tempo afinavam a pontaria.

 

As balas caminhavam propositadamente mesmo ao lado dele sem o molestar. 


Muito lentamente...


No meu espírito tudo se passava muito lentamente. Não podia errar. Não era ainda a hora. Não queria abater ainda aquele homem.

E os montinhos de pó elevavam-se do chão vagarosamente, descontentes.

 

O Tempo caminhava agora desgostoso...
 
 

Aquele tracejado das balas tornara-se afinal um diálogo. Pesado.

 

Entre a consciência e o dever.
 
 

Cada bala que batia no chão era o dever a chamar-me.
 

Nos intervalos das balas a minha consciência punha-me a mão no ombro e pedia-me que parasse.

 

E mostrava-me depois o pó e o que poderia significar.
 
 

Num último passe, o homem perfeitamente apavorado, abriga-se debaixo de uma palhota e abraça-a, braços esticados, todo encostado a ela de costas para mim.

Um verdadeiro Cristo já crucificado mas todo vestido de branco.


As metralhadoras engoliram em seco...


E  foi a última vez que te vi...

 


Gostava de te ver numa próxima visita a Moçambique, com os teus 70 e tal anos, rodeado de netos a contares-me o que te passou pela cabeça para não teres fugido da aldeia como todos os outros, quando me ouviste descolar, afinal era tão perto…


E andares assim vestido de branco, ali?

Francamente… 


Gostava que me contasses o que sentiste ao ver o avião desistir e fazer um pacto com todos os homens que sofrem numa guerra.



No relatório da missão, que tinha de fazer, mencionei a aldeia e tudo o que me pareceu de relevo para uma futura operação, conjunta ou não entre a Força Aérea e Exército.

 

O homem de branco não estava na aldeia.

 

Vestido assim...


 
 

Ou era um Anjo, quem sabe...

Que quis avaliar até onde a sanha, a maldade, a crueza da guerra desumaniza um homem.

Solitário, indefeso, exposto como eu estava ali.











Perante Ele…

 

 

 




(Actualizada em 24 de Outubro de 2016)




quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Guerra do Ultramar - O Grandalhão e o Elegante


Os autênticos, originais e gloriosos malucos das máquinas voadoras!


Eram dois pilotos que sabíamos terem uma relação muito descontraída com os aviões. Cumpriam, claro, mas tinham dias…

E naquele dia… foram incumbidos de ir do AB6, Nova Freixo, a Nampula num T6. Os dois no mesmo avião.

Estamos em 1968.


O AB 6, em Nova Freixo, Norte de Moçambique



A pilotar no lugar da frente, por acordo entre ambos, foi o mais elegante e mais baixo. Atrás, instalou-se o mais alto e mais desengonçado.

O intercomunicador entre estes dois ilustres aviadores não funcionava. Os aviões eram normalmente operados por um só piloto de modo que não era um item muito importante.
 

O grandalhão meteu-se no lugar de trás, confortavelmente instalado, de romance na mão.
 

Á frente, muito compenetrado, o elegante descolou rumo a Nampula, numa tarde soalheira.
 

Ao grandalhão por ser alto, desengonçado, efusivo e muito falador, deram-lhe a alcunha de “o Pateta”, dos desenhos animados da Disney. De pateta mesmo não tinha absolutamente nada. Era só a figura…
 

Ao elegante chamo-lhe eu assim por ter aparecido na guerra, figura esguia, vestido de branco dos pés à cabeça e a fumar uma longa boquilha em marfim. Um autêntico Peter O'Toole.
 

Um Lawrence de todas as Arábias…
 

A primeira vez que foi a minha casa (eu era o único piloto em Vila Cabral que vivia com a família numa casa civil, a do Director do Aeroporto) vestido naqueles propósitos, um autêntico manequim, num lanche que era comum haver com todos nós virou-se para a minha mulher muito sério e perguntou-lhe, finamente:
 

- Que bolos horríveis! Foi a senhora que os fez?
 

Era só uma maneira diferente de agradecer a iguaria.
 

Voltemos à história daqueles dois magníficos personagens descolados de Nova Freixo rumo a Nampula...

Uma meia hora depois o grandalhão, incomodado naquele espaço lá atrás que era mesmo à justa para ele, teve necessidade de mudar de posição.

E o pé que estava esticado foi encolhido e a outra perna pode finalmente distender-se. Porém, porém… a manobra foi feita com alguma largueza e ele não conseguiu evitar mandar uma sapatada no pedal do leme de direcção do avião, que estremeceu um pouco.
 

Aquela súbita manobra “acordou” o elegante que se voltou para trás para tentar perceber o que se passava.

O grandalhão, com um gesto de mão aberta no ar, pediu-lhe desculpa, entre dentes, claro.

Lembrem-se que não havia interfonia e o barulho aerodinâmico do voo não permitia conversas de viva voz.

Afinal não fora nada.
 

O elegante, satisfeito com o que viu, virou-se para a frente e tudo voltou à normalidade. 

Agora muito mais descontraído.
 

Um olhava em frente, tranquilo e o outro voltou á leitura empolgante do livro.


T6 em voo

Como já devem estar a perceber, a coisa não podia acabar bem.

Aliás a coisa, coisa, encaminhava-se sub-repticiamente para a asneira, para a tragédia mesmo…

O que o elegante percebeu quando olhou para trás foi uma mão aberta a querer dizer: “Olha, o avião é meu!” Um termo que os aviadores usam para dizer que, agora, sou eu quem pilota. Irrevogável!
 

Afinal o dono daquela mão era mais antigo e mais graduado e portanto não deixava de fazer sentido. Embora o combinado não estipulasse nenhuma mudança de piloto a meio do voo.
 

E assim temos um T6 em voo em que um piloto, lá atrás, lia muito concentrado um belo romance e o outro, lá à frente,  observava, deliciado, a paisagem com as mãos gentilmente pousadas no regaço… 

Em descanso, como a Inês do soneto.
 

Simplesmente idílico...
 

Iriam a uns 3.000 pés de altitude, calmamente.
 

O primeiro, ou talvez não, Drone da Força Aérea Portuguesa…
 

Pouco a pouco o T6 em auto gestão mas deficientemente equipado para tal, achou que também podia fazer umas graças e resolveu começar a descer.
 

E a dar uma pequena voltinha.
 

E a ganhar velocidade.
 

E por aí fora.
 

Coisa que não preocupou minimamente nenhum dos dois, já que tinham acabado de entrar de folga havia breves minutos. O da frente, porque o de trás nem ainda tinha feito nada. A cultivar-se, devorando página atrás de página do empolgante livro.
 

Quando a manobra se revelou francamente fora do combinado em terra, o grandalhão olhou para o lado e viu que o avião executava uma volta larga a descer, entre dois morros, com centro numa aldeola, em zona livre de terrorismo. E pensou que o elegante estaria interessado em observar melhor aquela aldeia.

Normal… e voltou ao romance, alheado novamente.
 

Já o elegante não pensava nada. Deixa-o lá fazer o que ele quiser. Ele é que sabe. Ele é que é o verdadeiro chefe desta missão.
 

À segunda volta consecutiva, sempre entre os morros, o grandalhão incomodado tira os olhos do livro, avaliou melhor a situação e achou que aquilo talvez fosse muita velocidade a mais, muita mesmo!
 

Além disso a canopy tremia a bom tremer.

Mas…
 

Não deram a terceira volta porque finalmente alguém tinha de tomar uma atitude e a canopy, assustadíssima, achou por bem evadir-se, desertar mesmo, avião fora… Antes que fosse tarde. Um verdadeiro suicídio!
 

Saiu e nunca mais ninguém a viu! Até hoje!
 

O voo picado a grande velocidade passou a ser feito em descapotável...

E o susto levou a que ambos resolvessem fazer um duplo comando, se calhar a quatro mãos e evitaram o pior.
 

Mesmo à beirinha da tragédia!
 

A canopy era o menos…
 

Boa gente estes dois, de quem eu era e sou, amigo…



(Actualizada em 8 de Janeiro de 2016) 



segunda-feira, 25 de abril de 2011

Na Guerra do Ultramar 1967/1969 - O melhor piloto ao Norte de Moçambique


Em 1968, era eu!


Sem a mínima dúvida!

Eu explico, antes que comecem a pensar coisas menos decentes a meu respeito.

_________________________________________




Era Domingo em Vila Cabral, a cidade do planalto do Niassa que fica a 1.500m de altitude.

Manhã de nuvens muito, muito baixas.

Estava eu de serviço na Base.



A cidade de Vila Cabral (hoje "Lichinga")         




Um Tenente Coronel do exército vem direito a mim e pede-me que o leve, num T-6, a Tenente Valadim.










Tenente Valadim, em 1968, era um aquartelamento a Nordeste de Vila Cabral, a cerca de 45 minutos de voo. Era uma excelente pista em terra batida, larga e comprida, que servia um muito bem arranjado aquartelamento do nosso Exército.




O aquartelamento de Tenente Valadim

Olhei bem para o Tenente Coronel e percebi que não era “uma ordem”. Ordens operacionais só me podiam ser dadas pela cadeia de comando da Força Aérea e não por nenhuma patente do Exército. E como eu era Sargento seria fácil a um distraído Oficial do Exército tentar, tentar, passar por cima desta organização.

Mas não era, de todo, o caso.

O senhor, um Senhor, estava a pedir-me por tudo que o levasse para junto das suas tropas. Sabendo que eu podia, naturalmente, dizer-lhe que não. Porque não tinha ordens para tal mas principalmente porque a situação meteorológica não aconselhava. Disse-lhe que não havia hipóteses por causa das nuvens muito, muito baixas.

Era impossível...

Mas ele achou que para mim "o nevoeiro" não era assim um grande impedimento e insistiu.

Voltei a explicar-lhe que toda a zona do Niassa era povoada de montes e vales e que com aquelas nuvens não era fácil nem ajuizado tentar sequer voar. Mas ele insistiu de novo e só me dizia que eu era capaz e que tinha de ir ter com os seus homens.


Eu era capaz, eu era capaz!


Ao fim de largos minutos de uma muito afável “discussão”, aquele homem deu-me a volta.
Se bem que eu já estivesse, mentalmente, a fazer o voo e a pensar como o fazer, desde o início da conversa…

Eu conhecia muito bem a zona, como todos os meus camaradas conheciam, e se nos levassem de olhos fechados a qualquer sítio dessa área e perguntassem onde é que se estava, já sem a venda, segundos depois sabíamos que estávamos, por exemplo, a Oeste da Serra Jessi depois de ter olhado a toda a roda.

E foi assim que decidi levar o senhor Tenente Coronel, num T-6 ao seu Quartel, em Tenente Valadim num dia de "nevoeiro", ou melhor, de nuvens muito, muito baixas.







Descolados, lá fomos nós a rapar, montes e vales fora, com a base das nuvens a metros da cabeça e as copas das árvores a metros das asas do avião...



A paisagem a Norte de Vila Cabral. Ligeiramente para a direita vai-se para Tenente Valadim


Metia-me por um vale e sabia que lá à frente, numa zona que ainda não se conseguia ver, havia um acesso a outro vale à direita que depois de uma volta apertada para a esquerda metia por outro corredor com um monte, perto, de cada lado. Mas às vezes as nuvens eram tão baixas que o tal vale lá à frente estava tapado e tinha de voltar para trás e procurar outro caminho.

Na minha vida sempre tive um grande lema (além do “FIEL PERO DESDICHADO” frase que encimava o meu capacete de voo, um lema de Sir Winston Churchill) que reza assim:

 - Nunca te metas por onde depois não possas sair!

Este lema serviu-me para toda e qualquer situação. Profissional ou pessoal. Mais uma vez se provou que estava certo.

Nunca me meti por nenhum vale sem dimensão para uma volta atrás, caso fosse preciso. Mas meti-me por todos os vales estreitos, sem perigo de não ter saída, que me apareceram.

E sempre a saber por onde andava, debaixo de uma grande tensão mas com o meu GPS mental a funcionar a todo o gás!

Eu sabia que conseguisse ou não chegar a Tenente Valadim podia sempre voltar para Vila Cabral. Bastava-me subir para cima das nuvens e fazer uma descida em voo por instrumentos (por ADF…)

No meu currículo aeronáutico eu tinha três excelentes cursos de Voo por Instrumentos. O primeiro em T-6 em Espanha e os outros dois nos jactos, em T-33, na Ota. Estes últimos feitos com instrutores acabados de chegar dos USA. Mas isso é outra história que fica para depois.

Além disso tinha a "Carta Verde" de voo por Instrumentos da Força Aérea que me habilitava a voar em condições meteorológicas marginais em F-86, o avião de elite da Força Aérea, na altura.

Sentia-me, pois perfeitamente à vontade...




T-33








T-33





F-86F





Mas agora continuávamos a brincar ao gato e ao rato entre montes vales e nuvens a caminho de Tenente Valadim...



E quase uma hora depois da descolagem, sempre sob grande tensão, estava finalmente a aterrar, com toda a segurança naquela excelente pista.



Tenente Valadim



Fui recebido como um herói e tratado como um príncipe por toda aquela gente agradecida. Depois de um excelente almoço, o senhor Tenente Coronel mostrou-me todas as instalações da Unidade, inclusive os quadros pintados pela sua mulher que ali residia com ele.

Feitas as despedidas, lá voltei para casa tal como tinha planeado. Por cima das nuvens e com a tal descida em voo por instrumentos em Vila Cabral.

A única preocupação era não bater na antena do ADF que era muito alta e estava mesmo no enfiamento da Pista...



Aeroporto e Base Aérea de Vila Cabral em 1973 foto de uma amigo do Facebook "Contos do Ultramar"




 Mas o problema maior não foi este voo.



Passados tempos...



Andava eu de passeio em Nampula em dia de folga, junto à grande esplanada do Hotel Portugal (o Hotel cujo proprietário se dizia que tinha sido deportado da Metrópole por andar a roubar Igrejas).

A grande esplanada estava como sempre a abarrotar de militares embrenhados em intermináveis diálogos.





O edifício do Hotel Portugal nos dias de hoje. Já não é Hotel



A beber Laurentinas (a grande cerveja Moçambicana) e a comer camarões

No meio daquele bruaá, estando eu a passar mesmo a meio da esplanada, ouvi um grande berro que calou todas as conversas.


Instantaneamente!


- O MELHOR PILOTO AO NORTE DE MOÇAMBIQUE!!!



E um Tenente Coronel fardado, de pé e de dedo em riste, a apontar para mim…


E toda a esplanada de militares fardados, as conversas suspensas, virou a cabeça para ver quem era o tal "melhor piloto ao Norte de Moçambique". 


E o Tenente Coronel abraçado a mim.


E um buraquito que não me aparecia…


Daí para a frente tornou-se-me um pouco preocupante aparecer isolado na esplanada. Felizmente havia uma grande rotação de militares que iam e vinham de zonas de guerra.

Mas foi exactamente da mesma maneira que isto me aconteceu, naquele sítio, por duas vezes!

É por isso que eu sei que fui, sem dúvida nenhuma, em 1968:


- “O MELHOR PILOTO AO NORTE DE MOÇAMBIQUE”!!!


Alguém tem dúvidas?


- Cheguem-se à frente!
- Cheguem-se à frente!






T-6






(Actualizada em 18 de Julho de 2018)