quinta-feira, 7 de abril de 2011

Linha Aérea e outros voos - A PONTE AÉREA de 1975


Os dramáticos dias do início da descolonização portuguesa




Foi o maior êxodo da História de Portugal



Começou em 17 de Julho de 1975 e acabou a 3 de Novembro, desse mesmo ano



Um episódio.


    Boeing B 747



Nota: 
…Em 1974, uma revolução em Lisboa apanha de surpresa centenas de milhares de portugueses que vivem em Angola. A partir desse dia inicia-se a derrocada imparável de uma sociedade inteira que, tal como um navio a afundar-se, está condenada à destruição e à ruína. Em escassos meses, trezentos mil portugueses são obrigados a largar tudo e a fugir, embarcando numa ponte aérea e marítima que marca o maior êxodo da história deste povo. Para trás ficam as suas casas, os carros e até os animais de estimação. Empresas, fábricas, comércio e fazendas são abandonados enquanto Luanda, a capital da jóia da coroa do império português, é abalada por uma guerra civil que alastra ao resto do território angolano. 

Excerto do livro de Tiago Rebelo: “O Último Ano em Luanda”



Nota:
Terão saído de Angola para Portugal cerca de 305 mil pessoas entre Maio de 74 e Novembro de 75.
 “Durante a ponte aérea, não havia programação de voos os aviões chegavam, abasteciam-se e partiam, foram períodos de uma tensão a raiar os limites de ser suportada”.
Gonçalves Ribeiro, Alto-Comissário para os Refugiados.
Eduarda Ferreira in: Jornal de Notícias.


_____________________________________ 
 


28 de Agosto de 1975

 


Nessa noite apresentei-me, como Co-Piloto de Boeing 747, nas Operações da TAP em Lisboa para fazer mais um voo da Ponte Aérea.


Neste caso seria Lisboa / Luanda / Nova Lisboa / Luanda / Lisboa


Já à saída de Lisboa se notava um ambiente estranho entre a tripulação (reforçada). Havia um grupo que parecia saber de coisas que viriam a acontecer e mais ninguém sabia.

Os outros interrogavam-se, suspeitando de uma pretensa ligação ao Partido Comunista daquele grupo sabedor de coisas...

De coisas que não sabíamos. Nem sonhávamos...

A pouco e pouco, até Luanda, percebeu-se do que se tratava, sem que os 2 Comandantes tivessem sido avisados da alteração “programada“, à sua revelia, do propósito inicial do voo a Nova Lisboa : recolher civis Portugueses e trazê-los para Lisboa.


E o que se tramava era nem mais nem menos isto:


- Deixar em terra, em Nova Lisboa, os Portugueses, ao abandono.

- Levar dali para Luanda os militares do MPLA, em perigo dado o apertar do cerco à cidade pela UNITA.

Regressar a Lisboa num voo comercial normal e não de Refugiados...



Cockpit do B747  
                                                               


Quando finalmente, ainda em voo para Luanda, toda a tripulação ficou a saber do que se tramava algures em Lisboa, Luanda e no próprio avião, fizeram-se mini-plenários (plenários a bordo, em pleno voo, dá para acreditar?...) ficando então decidido por maioria que o voo se faria integralmente como programado:

- Em Nova Lisboa só embarcariam Portugueses que viriam até Lisboa connosco!





    Luanda anos 60




Já aterrados em Luanda, durante o reabastecimento a caminho de Nova Lisboa, o chefe de escala, conotado com o PC segundo se dizia, tentou alterar as coisas tendo no entanto sido avisado das intenções da maioria da tripulação.

À chegada a Nova Lisboa, ainda do ar, podia ver-se uma longa fila de cerca de 400 pessoas fora da Aerogare prontas a embarcar, já há 3 dias a viver ali, mais ou menos na rua.
 
Quando a porta do avião se abriu e uma brisa húmida e muito quente se sentiu, entrou uma delegação TAP, ad-hoc, local (manutenção e handling) a informar que se os MPLA’s embarcassem em vez dos Portugueses, (o próprio MPLA estaria avisado que o voo seria para os recolher…) todos os funcionários TAP embarcariam também, quanto mais não fosse pelo receio de represálias pela UNITA.

 
Embarcaram, evidentemente, os portugueses… em estado miserável, há três dias sem comida.

 
Crianças e bebés comiam latas de atum e pão seco.
 
Os adultos só pão seco molhado em água.
 
 
Todos exibiam um tom de pele doentio cor de folha de tabaco.
  

Nota: 
…Em Nova Lisboa a situação era tremenda. Havia uma espécie de grande hangar e as pessoas chegavam das mais variadas formas, carregadas de malas. Como não as podiam levar — havia um limite de 30 kg por passageiro — havia uma montanha incrível de bagagem deixada para trás. Não havia condições nenhumas, a sanita era um antigo avião de campanha completamente recuperado que um oficial qualquer tinha resolvido pôr ali como monumento. Imagine-se, um avião que tinha andado na guerra!
"Quem controlava eram os guerrilheiros da Unita, que tinham um aspecto inacreditável. A tropa já se tinha vindo embora. Assim tínhamos de discutir horas com os UNITAS que queriam entrar nos nossos aviões para ir lá buscar pessoas, e assegurar que eles não inutilizassem o avião. Era essa a minha maior preocupação quando estava no solo.”
 “Chegou a uma altura em que a tropa portuguesa já se tinha vindo quase toda embora e mesmo em Luanda as pessoas só se sentiam seguras no aeroporto. Chegámos a ter lá 5000, numa caserna para 500 homens.”
 
Gonçalves Ribeiro, mais tarde Alto-Comissário para os Refugiados, o nome que todos apontam como coordenador da ponte aérea que em três meses e meio transportou quase meio milhão de pessoas de Nova Lisboa e Luanda para o aeroporto da Portela.  
por Fernanda Câncio
Do Blogue: “No tempo dos Araújos
 

de volta a Luanda, agora em transito para Lisboa, pelo grande empenho do chefe de escala da TAP que reclamava a essência Comercial do próximo troço, ficou decidido que o voo para Lisboa seria com os passageiros normais, pagantes.


Os de Nova Lisboa seriam simplesmente adicionados à enorme desumanidade que era naqueles dias o caos naquele Aeroporto de Luanda!
 


 


Nota: 
No aeroporto de Luanda, milhares de pessoas aguardavam, nas piores condições de salubridade, um lugar nos aviões Jumbo da TAP, que transportavam a um ritmo de mais de mil pessoas por dia as cerca de 250 mil que queriam regressar.
Rui Ochôa, Expresso, 26 de Julho de 2009 




    Foto da autoria de Alfredo Cunha 



E enquanto o avião era reabastecido e limpo, os espoliados embarcados em Nova Lisboa foram desembarcados, com o falso pretexto de que o avião tinha de ser reabastecido sem passageiros.

 
Essas 400 pessoas foram despejadas na aerogare, ao abandono, após 3 dias atrozes de desespero em Nova Lisboa. Iam começar nova odisseia.

Desta vez a um passo da liberdade prometida mas agora integrados numa luta maior de acrescida competição por um lugar a bordo de um qualquer avião.

 
 

E, claro, na hora do embarque lá entraram outras gentes, com muito melhor ar, os passageiros pagantes do voo regular para Lisboa.

 

Uma meia hora depois e já com o avião praticamente cheio, os nossos amigos de Nova Lisboa, desembarcados à força naquele Inferno, eles que já vinham de outra muito amarga experiência, deram-se conta de que tinham sido enganados e agiram rapidamente num misto de medo e fúria.


Em pânico, invadiram espontâneamente a placa a correr por ali fora direitos ao avião, atabalhoadamente, acossados pelo medo de tendo já escapado ao terror de que se tinham livrado, estarem agora irremediavelmente condenados a no mínimo… apodrecer na Aerogare de Luanda sem comida, água, cuidados de saúde e completamente indefesos.


Os pára-quedistas Portugueses de serviço junto ao avião, de G3 apontadas a eles, limitaram-se a ficar extáticos, virados para a Aerogare, e a ser ultrapassados por todos os desgraçados que quisessem.

 

Num instante um mar de gente em fúria, filhos e bagagens nas mãos, subindo por todas as escadas possíveis, entrou pelo avião dentro, sem controlo. Em segurança, de novo!
 
 

E os que não iam conseguindo entrar porque todas as escadas estavam a abarrotar de gente desesperada, ficaram a toda a volta do avião, perdidos, em pânico, com muita raiva.
 

Vários firmemente agarrados ao trem de aterragem para não serem recambiados, alguns com filhos muito pequenos seguros pelo outro braço, muitos a tentar subir as escadas atafulhadas de gente, todos aos gritos, todos em lágrimas e a tripulação dentro do avião, junto às portas, a lutar com a impossibilidade de gerir aquele inesperado drama para o qual ninguém estava preparado, por muito que se julgasse capaz.
 

Entretanto, no upper-deck do Boeing 747 CS-TJB (aquele espaço normalmente reservado a passageiros da 1ª Classe mas agora a servir de camarata aos tripulantes em descanso em colces de espuma atirados para o chão ao acaso) no dia 29 de Agosto de 1975, a meio da tarde, a situação era calma… “ foram vocês que arranjaram isto, agora desenrasquem-se “.

E a confusão a bordo era total. E desenrolava-se como um monstro que a pouco e pouco se apodera de todo um espaço e não há mais lugar para a dignidade. Era-mos todos, passageiros e tripulantes, vitimas indefesas de algo superior que nos dominava.

 

Para mim foi demais…
 
 

Fui lá para baixo tentar fazer qualquer coisa. A tripulação de cabine da frente, mais experiente, já tinha conseguido fechar a porta a seu cargo.


Agora a grande confusão era na porta do meio.
 
 

Com intenso dramatismo, todos aos gritos, todos fora de controlo (a tripulação já tinha uma noite de serviço e 12 a 14 horas de trabalho) íamos puxando para dentro os que estavam meio cá meio lá, tentando manter os outros de fora para se conseguir fechar também esta porta.
 

Um velho no topo da escada socorre-se de mim (eu era o que tinha ali, no momento, mais galões nos ombros) e grita-me repetidas vezes:
 

- Os meus filhos!!! Os meus filhos!!!
 

- Aonde é que eles estão?
 

Perguntei-lhe tentando gritar mais alto do que todos os outros 50 ou 60 que nos rodeavam dentro e fora...
 

- Aí dentro !!!
 

Eram 3. Entre pequenos e mais velhos. E estavam mesmo ao meu lado…
 

Consigo sair a custo do avião e já na escada, começo a puxá-lo para dentro por um braço enquanto todos os outros aproveitam a boleia e forçam a entrada, escada acima, contrariando a tripulação de cabina que, atrás de mim, tenta impedir aquele caos, empurrando toda a gente para fora.
 

E no meio do mais fantástico puxa-empurra, desesperado, tudo aos gritos, tudo em lágrimas, todos com os mais dramáticos e irrecusáveis argumentos a pedir para entrar, não sei quando, às tantas, consegui ouvir alguém do chão gritar:

 

- A escada vai cair!!!

 


O excesso de peso e as grandes oscilações faziam com que os apoios hidráulicos que elevavam a escada à grande altura da porta do Boeing 747 estivessem já curvos e bamboleantes.
 

O topo da escada, junto à porta do avião, já estava um bom palmo abaixo do nível da porta.
 

Deu-se então uma luta final realmente titânica para conseguir fechar aquela porta, ela que ainda por cima fecha de fora para dentro... tentando convencer as pessoas no topo da escada do perigo que todos nós corríamos.
 

Fechada a porta conseguimos reduzir o nosso drama só ao interior daquela autentica nave de loucos.

 

Isolado o avião, restava avaliar a situação e arranjar uma solução.

 

 

No chão, à volta do avião, haveria 100 a 200 homens mulheres e crianças e a bordo do nosso Boeing B 747 havia cerca de 600… entre os originários de Nova Lisboa e passageiros embarcados em Luanda.



O que se passava no exterior com tantas pessoas desesperadas, com tantas crianças violentamente expostas a este drama, deixou de nos preocupar.
 

O drama e a insegurança estabelecida dentro do avião eram-nos prioritários agora. 







Todos se achavam no direito de seguir viagem para Lisboa.
 

Os argumentos eram os mais variados.
 

Havia quem, bem trajado e com ar saudável, acabado de sair de sua casa em Luanda, mostrasse um Rx para uma operação urgente. Havia famílias subitamente separadas, dentro e fora do avião, pais e filhos separados por uma simples porta, impenetrável.
 

Havia enfim um sem número de problemas reais ou fictícios e nenhum critério ou orientação para começar, sequer, a solucionar aquilo: o avião só podia transportar legalmente 400 passageiros e mais os cerca de 36 tripulantes, (tripulação reforçada) além dos dois ou três representantes do IARN, organismo Estatal de Apoio aos Refugiados Nacionais que seguiam em todos os voos da Ponte Aérea.
 

Não me lembro de nenhuma acção de apoio, nesta situação, destes mesmos elementos, supostamente de apoio. Estavam sentados no lugar certo e por ali ficaram… Se fizeram alguma coisa, não me lembro. As minhas desculpas.
 

Havia também um garrido grupo de 25 bem arranjadas prostitutas de Luanda.

 

Nesta tremenda confusão, uma passageira, muito bem vestida, obviamente originária de Luanda e também desesperada por se ver ameaçada de ser devolvida ao Inferno se fosse desembarcada, agarrou a mão de uma muito jovem assistente de bordo da TAP que passava, abriu a carteira, tirou de dentro dela uma pequena pistola de cano cromado, punho em madrepérola, apontou-a à sua própria cabeça e disse calmamente à apavorada assistente:
 

- Olhe menina, se eu não for para Lisboa, mato-me aqui mesmo!
 
 

Talvez a melhor imagem do desespero das pessoas, melhor ou pior vestidas, naqueles dias...
 

É claro que a jovem Assistente apareceu no upper-deck em perfeito estado de histerismo.
 

Convém lembrar que entretanto já se tinham passado mais de 14 horas desde a apresentação da tripulação em Lisboa, por volta da meia-noite anterior…

 

E perante a inoperância da escala de Luanda, propositada ou não e da falta de soluções dos mais altos responsáveis a bordo, dois elementos da tripulação resolveram, por sua alta recreação, meter mãos à obra e começaram intermináveis viagens entre o avião e a Aerogare dialogando passageiro a passageiro para avaliar das verdadeiras e inadiáveis razões que cada um teria para seguir mesmo naquele voo.

 

Foram um Técnico de Voo e um Comissário de Bordo:

 
 

Não me lembro do nome do Técnico de Voo, mas sei que era o pai de uma funcionária jovem e bonita da Operações de Voo da TAP. O Comissário era o C/B Duarte André.

 

  Imagem meramente ilustrativa
   


Umas 5 horas depois... com cerca de 8 horas totais nesta segunda escala no Aeroporto de Luanda, lá conseguimos descolar.

440 pessoas a bordo.

À saída de Luanda a tripulação já levava, talvez, 17 horas de trabalho. Naquelas condições.





Dezassete horas de trabalho.

                 


O voo decorreu sem mais incidente algum.

 
Aterrámos em Lisboa ao fim de 26 longas, atribuladas e inacreditáveis horas de trabalho, seguido. 


Alguns de nós com a consciência tranquila.

Muito tranquila...





"Retornados" no Aeroporto de Lisboa, 1975

Todas as fotos que se seguem são da autoria de Alfredo Cunha 




E para os nossos passageiros de Nova Lisboa, de retorno à Pátria, como aconteceu a tantos outros, foram estas as melhores condições que se lhe ofereceram:




 



"Retornados" e as suas bagagens em Belém, 1975













Quanto a mim, quando cheguei a casa, sentei-me na sala, exausto, contei a história e desatei a chorar. Descontrolado.

Muito provavelmente de cansaço. E outras coisas…



Depois de 26 horas de trabalho contínuo.
Um total de 15h40 de voo.
Sendo 9h30 de voo nocturno, durante duas noites consecutivas.

Duas escalas em Luanda com um total de cerca de 10 horas no chão
Sempre em serviço, embora com tripulação reforçada.
Fizémos 4 aterragens.

 
 




O voo foi efectuado no Boeing B 747 matriculado CS-TJB.

Diários de Navegação nºs 9/31 a 9/34.






A TVI passou nos dias 6 e 7 de Novembro de 2016  uma reportagem, «O lugar onde eu fiquei», da Jornalista Catarina Canelas onde se conta como foi o êxodo de centenas de milhares de portugueses.

Para que não esqueça.








Veja aqui a 1ª parte do Documentário
e aqui a 2ª parte do Documentário





Na 21ª Hora, programa transmitido logo a seguir ao segundo Documentário, foram entrevistados pela Pivot Judite de Sousa os Jornalistas Fernando Dacosta, Diamantino Pereira Monteiro e o autor deste Blogue.











 
Podem ver toda a entrevista aqui.






















No final do programa o Jornalista Fernando Dacosta teve a amabilidade de me oferecer, autografado, o seu livro "Os Retornados mudaram Portugal".
























No dia 20 de Abril de 2017 a Jornalista Catarina Canelas



lançou o  seu livro

"A Hora da Partida"


no Auditório da FNAC Colombo.


















O livro reflecte a temática desta sua reportagem


"O lugar onde eu fiquei"











Apresentaram o livro Sérgio Figueiredo, José Alberto Carvalho, Judite de Sousa e a Editora Verso de Kapa




















A Catarina autografando o exemplar que teve a amabilidade de nos oferecer






































(Actualizada em 13 de Maio de 2018)








 






quinta-feira, 31 de março de 2011

A minha Força Aérea - Falha de motor à descolagem. F86



Uma emergência e três sobreviventes.
Eu, o avião e a Escola de Carvide.
Mas levei uma "porrada".
E um abraço também...








Corria o ano de 1965 (65/66) quando a Força Aérea, condicionada pela impossibilidade de colocar os F86, que a NATO nos tinha entregado, no Ultramar, resolveu tentar a compra de excedentes destes aviões, agora de origem Canadiana, na Alemanha.

Posto isto, Portugal enviou para uma base Alemã a nata dos Pilotos que voavam e Mecânicos de avião que  mantinham os F86 em Monte Real, para uma avaliação daqueles aparelhos montados no Canadá.


A Base, claro, continuou a funcionar como se nada fosse.

Mais ou menos…

Dos pilotos que ficaram, os "mais competentes e habilitados", como eu, tinham umas 100 horas de voo, no máximo!…




Eu e o meu F-86

Competente... habilitado...


A maior parte dos mecânicos tinham também acabado a sua formação.

O comandante da Esquadra passou a ser o mais antigo dos que não foram.

E tudo corria de feição.

Mais ou menos…

Os voos de experiência, programados ou não, continuaram a ser feitos pelos mais experientes dos Top Gun de Monte Real, aqueles com 100 horas de voo!

A troca de um depósito de óleo do reactor, por exemplo, implicava uma subida aos 40.000’, num voo de teste.

Fui escalado para test pilot duma ocorrência destas.

Na placa, lá estava o meu F86 reparado e preparado pelos mais experientes dos mecânicos, aqueles que não foram para a Alemanha.



               Nos bons velhos tempos em que havia verba para tanto F-86 F. Na B.A. 5, Monte Real



Subi a escada de acesso ao meu avião, com ele totalmente reabastecido, incluindo 200 galões americanos de JP4 em cada drop tank.

  • Drop tanks são os tanques fixados debaixo das asas.
  • JP4 é o combustível (querosene) para os reactores.
  • Os dois tanques levam 1.512 Litros ao todo, aproximadamente.

Por acaso… num voo de teste só se deviam abastecer os drop tanks com 50 galões em cada um, para verificar se o sistema de combustível funcionava e nunca com mais.

Ninguém estava avisado e Deus Nosso Senhor arriscou uma lição a todos. Ele sabe o que faz…

Este Top Gun Test Pilot, lá põe o motor a trabalhar, faz todas as verificações, obtém autorização para se dirigir para a pista e arranca.

Muito feliz, como sempre, naquelas máquinas fabulosas.

Antes de entrar na pista há um último teste obrigatório: o sistema de emergência, alternativo, de controlo de combustível. Funciona? Funcionou a 100%.

- Posso descolar?

- Autorizado!


Aqui vou eu. Manete a fundo, as costas empurradas contra o assento, vamos embora!

A meio da descolagem reparei que a potência do reactor não estava no máximo. Andava pelos 93% e a diminuir.




Cockpit de um F-86














Manete forçada toda à frente. Se calhar não estava.

O avião não acelerou coisa nenhuma…

Não vai? Já está toda à frente!

E o avião vai para o ar e a pista está quase a acabar e a potência já está 10% abaixo do recomendado e a velocidade não aumenta muito e não posso recolher os flaps…


- Falha de motor à descolagem!
- Estou com uma falha de motor à descolagem!
- Sistema de emergência de controlo de combustível:

- ligar, já!

- ON!


O problema é que a manete estava toda à frente para tentar os 100% de potência mas as rotações do motor iam pelos 91%, sempre a descer.

O desgraçado do avião deu pois um estrondo e um salto em frente. E aí percebi que o sistema de emergência queria 100% de potência, que era a posição da manete. Mas o motor estava a 90% e num instante ficou com a potência máxima com todo aquele súbito excesso de combustível que o sistema avaliou ser necessário!

A velocidade andava pelo mínimo sustentável mas eu reduzi a manete porque não queria usar toda a potência com aquele sofrível sistema alternativo de controlo de combustível.

Mas há outra coisa a fazer.

 

Obrigatória!

Por checklist!


 

- Ejectar ambos os drop tanks!


400 galões de querosene à vida mas que iriam tornar muito mais leve o avião! E provavelmente fariam a diferença entre a vida e o acidente, já iminente.
 


Num relâmpago veio-me à memória aquele colega que anos antes, também numa emergência e para evitar que o avião caísse sobre a Vila de Carvide, que fica paredes meias com a Base Aérea, a Norte, exactamente onde eu estava, se ejectou... tarde de mais.








Veio a cair, para-quedas meio aberto, sobre uma grande cruz de ferro de uma das campas do cemitério de Carvide, onde morreu, obviamente.






Foi nesse momento, Bang do motor acabado de ouvir, manete a reduzir, velocidade no limite, flaps de fora, dedo no botão de ejecção dos tanques, que eu vi a Escola Primária de Carvide


Tive a certeza de que os 400 galões de querosene iam entrar pela Escola dentro!


- Tens de te aguentar e sair daqui!


Volta muito suave pela esquerda, emergência declarada, a velocidade baixa mas a manter-se bem.


 

- Vou fazer um circuito largo e aterrar assim mesmo!

 

- Esquece a ejecção dos tanques!…










Manobra executada com toda a delicadeza que sabia ser capaz, desde que a velocidade não caísse para além dos limites inferiores.
 

Pista em frente!

- Autorizado a aterrar…

Aterrei como mandam os livros e fui, aliviado e confortado com a Escola de Carvide intacta, para o estacionamento, onde me esperava o Comandante da Esquadra.

Capitão Pinho Freire, anos depois o General do 25 de Novembro que comandou a Força Aérea do seu quarto de prisão em Monsanto, através do telefone que aqueles estúpidos lhe deixaram no quarto…

Ainda junto ao meu avião, eu acabado de descer, perguntou-me o que tinha sucedido.

Contei-lhe todos os pormenores, sem falar na Escola, evidentemente.

- Ó Cavaleiro, porque é que não ejectou os drop tanks? Perguntou-me

Aí… tive de lhe contar a razão… Ainda estava a ver a Escola...


- Vou-lhe dar uma porrada por não ter executado os procedimentos obrigatórios e dou-lhe um abraço porque eu teria feito o mesmo!


É por estas e por outras que tal que a Força Aérea é algo a que nunca se deixa de pertencer… 







(As "porradas" por estes erros técnicos ou outros eram sempre em dinheiro que se tinha de depositar num mealheiro que era aberto no fim do mês para os memoráveis jantares da Esquadra 51!)






(Actualizada em 16 de Julho de 2018)