segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um Vídeo - Voo nocturno


Um vídeo para sonhar...





Com uma boa banda sonora









segunda-feira, 2 de maio de 2011

Um vídeo - Natalia Juskiewicz


Um Violino no Fado


 Natalia Juskiewicz é uma violinista polaca que reside em Portugal há vários anos.






Titular de um diploma superior em estudos clássicos de violino pela Academia de Poznan, uma das escolas mais conceituadas do mundo, muito cedo iniciou a sua carreira musical como intérprete solista ou integrando orquestras e formações polacas de prestígio internacional.

Durante umas férias, apaixonou-se por Portugal e decidiu ficar. Adaptou-se facilmente à língua e à cultura portuguesas e foi desenvolvendo, a solo ou fazendo parte de inúmeras orquestras e grupos musicais, um novo e variado percurso profissional que a levou a percorrer inúmeras vezes o país onde hoje se sente em casa.






Durante o ano de 2010, Natalia Juskiewicz decidiu concretizar um pessoalíssimo projecto artístico: a gravação de um disco de Fado clássico onde, pela primeira vez, a tradicional voz é substituída pelo seu violino.


Da pág oficial da Natalia Juskiewicz - http://nataliajuskiewicz.com/index.html


Vídeo com o fado de Amália Rodrigues “Com Que Voz”:
 








domingo, 1 de maio de 2011

Pedaços de vida - Memória Colonial


Em Homenagem ao meu Pai,
que soube ser um Ser Humano no meio do Portugal Colonial.

Em 1945 o meu Pai foi colocado em Moçambique, como Secretário de Circunscrição. Um posto abaixo da autoridade máxima regional colonial: o Administrador era a autoridade suprema em qualquer localidade importante. Era autoridade civil e policial. O Administrador só estava abaixo do Governador do Distrito, que vivia nas capitais dos Distritos.

A primeira terra onde fomos parar em Moçambique tinha, tem ainda, um nome bastante original:

Maganja da Costa.

Uma terra pequena do Distrito da Zambézia, rica no cultivo do arroz.
A Zambézia, capital Quelimane (banhada pelo Rio dos Bons Sinais) era considerada o celeiro de Portugal. Arroz, cana-de-açúcar, algodão, copra (o maior palmar do Mundo) chá, com as grandes caixas em madeira a dizerem “Made in England” ao embarcarem nos navios de carga em Quelimane. Eu vi...

Estrada para a praia da Zalala, Quelimane, hoje (alcatroada...) no meio do maior palmar do Mundo.

Tínhamos embarcado em Lisboa em Setembro no navio Moçambique, A minha irmã mais nova com 15 dias de idade. Eu com 4 anos. A minha irmã Lourdes tinha 12 anos.

Lembro-me perfeitamente de haver muitas fagulhas já apagadas de carvão que saiam pela chaminé daquele grande navio.

Foi no "Moçambique" que viajámos para o Índico

A casa do Secretário (o meu Pai) tinha, como todas as casas em África naqueles tempos, um grande quintal. Mais ou menos do tamanho da Praça de Londres em Lisboa…

E por simples observação cheguei à conclusão que tudo quanto havia neste mundo ou vinha do chão ou vivia em cima dele. Logo, o chão é bom! Vai daí, qualquer ferida que eu tivesse era curada esfregando a parte ensanguentada no chão, ao pé dos patos e galinhas, cães e gatos, porcos e perus que por ali viviam e se aliviavam… Sempre fui muito saudável, graças a esta mesinha caseira.
E tenho pena dos putos que não podem por o pé no chão porque é uma porcaria…

Casa do Administrador, com a sua típica varanda, anos 30.

Com 5 anos feitos, era evidente a minha vontade de saber ler as revistas de Banda Desenhada que o meu Pai me dava e que a Lourdes me lia na varanda, como o “Diabrete” ou o “Cavaleiro Andante”.



A revista Diabrete deliciou os mais jovens portugueses no período da 2ª Guerra Mundial, tendo o seu início em 4 de Janeiro de 1941, terminando a sua publicação 887 números depois em 29 de Dezembro de 1951. Começou por ser semanal (até ao #261), terminando como publicação bissemanal. Além da banda desenhada, o Diabrete publicou contos, organizou concursos e espectáculos, além de várias separatas de construções.

Por: José Vitor Silva
Como tal e depois de o meu Pai pedir ao Professor Primário (porque ainda não tinha idade para frequentar a escola) lá fui para as aulas, o mais novo de todos, com um daqueles mini garrafões empalhados de vinho da Madeira cheio de água.

Só assistia. Nem estava matriculado. O único aluno de uma espécie de jardim infantil que nem existia.

E assim aprendi mesmo a ler… com 5 anos.

Esqueci-me de dizer que o único branco dentro da sala de aulas era eu. O Professor que me ensinou a ler era um Moçambicano negro. Um grande Professor que nunca esqueci!

Mas a minha infância não é a razão desta história sobre o Colonialismo.

A descolonização era inevitável e deveria ter sido feita muito mais cedo. Mas na altura em que foi feita, com muitos exemplos como os que eu presenciei, era já difícil não ser em termos incondicionais.

É claro que nem todos os brancos se portaram de modo a deverem ser julgados num tribunal internacional dos Direitos do Homem. Se fosse hoje, eram certamente.

A família Cavaleiro foi parar à vila da Maganja da Costa em 1945. O meu Pai já vinha de 20 e tal anos de Guiné (onde eu nasci) e já era funcionário Administrativo: Chefe de posto.
Em 1920, com 18 anos, o meu Pai, por não querer passar do 9º ano, foi mandado para a Guiné para aprender a viver… o meu Avô era Médico do Exército, Major.

Na Guiné o meu Pai perfilhou uma filha de uma relação com uma mulher nativa da Ponte do Corubal.
 
A minha irmã Lourdes veio com ele já depois de casado com a minha Mãe. E foi ela quem ajudou a criar os outros 3 filhos que os meus pais tiveram. Éramos 4 irmãos. Sempre vivemos juntos até a vida nos separar.

Na Guiné o meu Pai vivia no mato, em muito pequenas povoações por razões que se prendiam com o cargo que ocupava. E desde sempre soube viver em harmonia com a população local, sem ter problemas raciais ou de qualquer outro tipo.

Mas quando chegou à Maganja da Costa as coisas começaram a mudar. 1945.

Por exemplo, eu lembro-me de ver, no meio da vila e ao pé da Escola, uma espécie de carril de caminho-de-ferro, com uns 4 ou 5 metros de comprido que servia para expiação de penas disciplinares dos naturais da terra. Uma pena ordenada pelo Administrador, chefe do meu Pai.

Maganja da Costa, anos 30.

De manhã, dois homens que chegavam da prisão acorrentados um ao outro agarravam no carril, um em cada ponta, assentavam-no cada um num dos ombros e lá se “entretinham” o resto do dia, de pé, carril num ombro ou no outro, até ao entardecer. Depois recolhiam novamente acorrentados à prisão para passar a noite. E esta cena repetia-se até ao fim da pena.
Quando alguma individualidade importante ia visitar a terra, o carril era enterrado superficialmente de modo a não ferir susceptibilidades…

A Maganja da Costa era e ainda deve ser, uma terra fértil para o cultivo do arroz. Essas artes requerem muita mão-de-obra na altura da sementeira mas especialmente durante a colheita.
O Administrador encarregava-se pessoalmente de conseguir a mão-de-obra necessária. É claro que o “voluntariado”, a maior parte das vezes, era conseguido com longas filas de gente amarrada uns aos outros, em longas filas indianas, a caminho do trabalho.

E o Administrador, no fim da colheita, no 1º ano que lá passámos, foi presenteado com um automóvel novo, que toda a gente da terra viu (e era mesmo para ser visto) porque vinha em cima de um camião e porque foi devolvido por ter uma amolgadela. Venha outro!

Esqueci-me de dizer que a mão-de-obra também compreendia mulheres grávidas que passavam o dia a apanhar o arroz, curvadas, dentro de água.



Não me lembro de ouvir comentários, tinha 4, 5 anos, mas acho que o meu Pai devia sentir-se mal naquele ambiente.
Até que um dia…

No gabinete que compartilhava com o Administrador, viu chegar um embrulho dirigido ao chefe. Outra oferta dum arrozeiro. Já depois do automóvel.

Era um cavalo-marinho.

Uma espécie de chicote feito com pele de hipopótamo, outrora usado como castigo. Consiste basicamente numa espécie de punho em madeira, forrado a pele e que na ponta tem três tiras de pele, cada uma com uma bola rija na ponta.

Há-os muito bonitos, como este era. Muito trabalhados, com altos e baixos-relevos feitos à mão. Mas quando batem na carne nua, com força, é muito pior que um chicote!

Pois o senhor Administrador desembrulhou deliciado o belíssimo cavalo-marinho e disse entusiasmado:
- Vou já experimentar!

E saiu porta fora.
Com o meu Pai atrás dele, pronto para o pior.

O senhor Administrador deu a volta ao edifício, na grande varanda colonial, coberta.

E nas traseiras encontrou um velho sentado à sombra.
Um alvo óptimo para a experiência…

Levantou o braço e à 2ª ou 3ª investida tinha o meu Pai a esmurrar-lhe a cara.
Ali à frente dos negros todos…

8 anos depois do devido, o meu Pai conseguiu ser promovido a Administrador, cargo que foi exercendo interinamente durante uns anos, mas sem a promoção efectiva nem o ordenado correspondente.

Mas no dia em que foi transferido daquela terra (ocorrência muito frequente e normal na sua profissão) tivemos uma grande surpresa.

O camião carregado com os pertences pessoais da família (não havia mobília porque todas as casas do Estado estavam apetrechadas com tudo) já pronto a partir, com a gaiola do gato no cimo de tudo, o meu Betinho, de seu nome… não conseguiu arrancar dali.

Uma multidão de gente agradecida apareceu de repente, do nada, de todos os lados, com muitas ofertas (galinhas, ovos, etc) a despedir-se daquela família que nunca mais se esqueceu deste momento muito pouco habitual.

E foi assim que saímos da Maganja da Costa.

Em grande! Mas com muita emoção.


Ainda não consegui lá voltar.

Tinha 5 anos mas lembro-me de tudo isto, quase 70 anos depois...



(Actualizada em 18 de Abril de 2014)








quarta-feira, 27 de abril de 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pedaços de vida – O meu vulcão


Há 62 anos que choro a minha incapacidade para lidar com vulcões.

Em 1949 tinha 8 anos quando perguntei ao meu Pai o que era um Vulcão.

"Como é que eu hei-de explicar isto ao miúdo", terá pensado.

Se fosse hoje eu teria ido à net e via logo o que era:


Podia não saber como funcionavam, mas pelas imagens tinha logo uma ideia bastante aproximada. E poderia ter corrigido os erros que ainda hoje lamento ter cometido…

Mas em 1949 em Pebane, na Zambézia, Moçambique, no meio do mato, não havia assim tantos recursos técnicos…

Nesse tempo não havia as coisas rotineiras de hoje.

Não havia Magalhães.

Nem Internet.

Nem TV. Juro que é verdade!

Nem telemóveis.

Nem FM, sequer.

Nem iPhones iPodes iPades, acreditem!...

Como é que era possível?!

O meu pai andava sempre de uma terra para a outra. Tinha sempre o mesmo emprego mas mandavam-no constantemente mudar de sítio.

Era Administrador de Circunscrição. O Boss lá da terra. Chefe civil, administrativo, policial e tudo o mais. Havia também padres, professores primários, cantineiros (donos de mercearias) e outras profissões menores. Mas o mau pai é que era o Chefe daquilo tudo!

O meu pai era constantemente transferido. Não dava para andar com Enciclopédias atrás, claro…
 

Não fora isso e eu teria ficado a saber, exactamente, o que era um vulcão.
 

Ia à Wikipédia e:
 

«Vulcão é uma estrutura geológica criada quando o magma, gases e partículas quentes (como cinzas) escapam para a superfície terrestre. Eles ejectam altas quantidades de poeira, gases e aerossóis na atmosfera, podendo causar resfriamento climático temporário».



Ou, mais abreviadamente, que é o que nos interessa para esta história, ia à Suapesquisa.com:
 

«Vulcão é uma abertura na crosta terrestre, de formato montanhoso, por onde saem magma, cinzas, gases e poeira».




Magma…? Que raio…
Crostas? OK, tinha muitas. Andava sempre a esfolar-me!
Gases?! O vulcão também faz isso?...

Mas o meu Pai, para eu não continuar por ali fora com mais perguntas, disse-me:

- "Vulcão? Olha, um Vulcão é um buraco com fogo de onde saem muitas pedras".

Muito mais simples, tão a ver?!

Os pais sabem sempre até onde devem ir nestas explicações complicadas. Especialmente quando não percebem bem do assunto. Mas não era, de todo, o caso do meu pai.

Olhou-me nos olhos e viu logo que podia continuar descansado o seu trabalho. Aquilo tinha encerrado a questão. Simples, conciso, completo.

Ou melhor: se é tão simples vamos lá a ver se funciona…

Vai daí, resolvi logo fazer, eu, um Vulcão.

Afinal, um buraco, fundo, cheio de pedras e palhas…e uns fósforos ...e já está.

É canja! Que era muito boa a da minha Mãe.

E pequenos ramos de uma goiabeira, que por ali havia muitas com goiabas muito boas.

Também havia muitas papaeiras mas a lenha devia arder muito devagar e se calhar as pedras não conseguiam sair do vulcão e lá se ia o efeito.

É que um vulcão tem as suas manias, como se sabe.

Ná…

Tudo previsto…

A trabalheira que me deu calcular a profundidade do buraco de modo a que as pedras saíssem na vertical, num belo efeito misto de explosões, fumo e fogo, com algumas parecenças com fogo de artifício, coisa que eu nem sabia que existia. Mas que, no íntimo, já sabia como era e o efeito que fazia.

Eu era mesmo muito precoce.

Tudo deve ter começado mal aqui: o meu pai disse-me que era um buraco, etc, etc, e a Wikipédia diz que é uma estrutura geológica, que não deve ser bem um buraco, acho eu.

E o Suapesquisa.com diz que é uma coisa na crosta terrestre, de formato montanhoso.

Tudo muito científico!

E o que é que eu, amador, uma criança, não esqueçamos, fui fazer? Um buraco! Um buraco… Nada mais que um buraco.

Não havia nenhuma estrutura geológica, nem crosta terrestre nem nada montanhoso. Um buraco…um simples buraco no meio de um terreiro, longe de tudo, não fossem as pedras dar cabo de uma série de coisas.

E vamos lá a ver se isto funciona. O meu pai disse-me que era assim, portanto…

A palha e os tronquinhos da minha amada goiabeira lá no fundo a taparem as pedras, a altura certa, livre, até ao topo para as pedras poderem ir na estilha, na vertical.

Tudo pronto, tudo calculado, vamos a isto!

Mas foi preciso coragem, podem crer…muita coragem. Sempre era um vulcão, não é?

Fósforo aceso... atirei-o, meio agachado, para dentro do vulcão, com muito cuidado, não fosse aquela coisa começar logo a trabalhar, Baaang! como um vulcão deveria fazer …e fugi!

Não estava á espera, mas tive de tentar mais que uma vez. O fósforo apagava-se na queda sobre os troncos da goiabeira. E não pegava fogo às palhas e o vulcão não podia funcionar, claro.
 

Se calhar o buraco era demasiado fundo.
 

Mas era preciso espaço para o calor que as chamas haviam de dar e que fizessem as pedras subir com muita força…
 

Mas às tantas, Olha! Olha! Fumo dentro do vulcão! Está a sair fumo! Fujam! Fujam!
 

E fugi de novo.
 

Por causa da saraivada de pedras que aí vinha. 

Atão… não é que as… pedr...as ficaram …lá no fundo?

Nem se mexeram...

É que nem se mexeram!

Enquanto as palhas ardiam... E os troncos da goiabeira a crepitar...

...E a minha cara! Haviam de ter visto... 

O meu vulcão só tinha “gases e partículas quentes (como cinzas)” a escaparem-se. As pedras, todas negras, malcheirosas, coitadas, recusaram-se a sair e aquilo não funcionou de todo!


Durante muito tempo não percebi o que aconteceu.

É que não percebi mesmo!

E foi aí que comecei a desconfiar de que aquela história do Pai Natal, se calhar... também não funcionava lá muito bem…




(Actualizada em 18 de Julho de 2018)





segunda-feira, 25 de abril de 2011

Na Guerra do Ultramar 1967/1969 - O melhor piloto ao Norte de Moçambique


Em 1968, era eu!


Sem a mínima dúvida!

Eu explico, antes que comecem a pensar coisas menos decentes a meu respeito.

_________________________________________




Era Domingo em Vila Cabral, a cidade do planalto do Niassa que fica a 1.500m de altitude.

Manhã de nuvens muito, muito baixas.

Estava eu de serviço na Base.



A cidade de Vila Cabral (hoje "Lichinga")         




Um Tenente Coronel do exército vem direito a mim e pede-me que o leve, num T-6, a Tenente Valadim.










Tenente Valadim, em 1968, era um aquartelamento a Nordeste de Vila Cabral, a cerca de 45 minutos de voo. Era uma excelente pista em terra batida, larga e comprida, que servia um muito bem arranjado aquartelamento do nosso Exército.




O aquartelamento de Tenente Valadim

Olhei bem para o Tenente Coronel e percebi que não era “uma ordem”. Ordens operacionais só me podiam ser dadas pela cadeia de comando da Força Aérea e não por nenhuma patente do Exército. E como eu era Sargento seria fácil a um distraído Oficial do Exército tentar, tentar, passar por cima desta organização.

Mas não era, de todo, o caso.

O senhor, um Senhor, estava a pedir-me por tudo que o levasse para junto das suas tropas. Sabendo que eu podia, naturalmente, dizer-lhe que não. Porque não tinha ordens para tal mas principalmente porque a situação meteorológica não aconselhava. Disse-lhe que não havia hipóteses por causa das nuvens muito, muito baixas.

Era impossível...

Mas ele achou que para mim "o nevoeiro" não era assim um grande impedimento e insistiu.

Voltei a explicar-lhe que toda a zona do Niassa era povoada de montes e vales e que com aquelas nuvens não era fácil nem ajuizado tentar sequer voar. Mas ele insistiu de novo e só me dizia que eu era capaz e que tinha de ir ter com os seus homens.


Eu era capaz, eu era capaz!


Ao fim de largos minutos de uma muito afável “discussão”, aquele homem deu-me a volta.
Se bem que eu já estivesse, mentalmente, a fazer o voo e a pensar como o fazer, desde o início da conversa…

Eu conhecia muito bem a zona, como todos os meus camaradas conheciam, e se nos levassem de olhos fechados a qualquer sítio dessa área e perguntassem onde é que se estava, já sem a venda, segundos depois sabíamos que estávamos, por exemplo, a Oeste da Serra Jessi depois de ter olhado a toda a roda.

E foi assim que decidi levar o senhor Tenente Coronel, num T-6 ao seu Quartel, em Tenente Valadim num dia de "nevoeiro", ou melhor, de nuvens muito, muito baixas.







Descolados, lá fomos nós a rapar, montes e vales fora, com a base das nuvens a metros da cabeça e as copas das árvores a metros das asas do avião...



A paisagem a Norte de Vila Cabral. Ligeiramente para a direita vai-se para Tenente Valadim


Metia-me por um vale e sabia que lá à frente, numa zona que ainda não se conseguia ver, havia um acesso a outro vale à direita que depois de uma volta apertada para a esquerda metia por outro corredor com um monte, perto, de cada lado. Mas às vezes as nuvens eram tão baixas que o tal vale lá à frente estava tapado e tinha de voltar para trás e procurar outro caminho.

Na minha vida sempre tive um grande lema (além do “FIEL PERO DESDICHADO” frase que encimava o meu capacete de voo, um lema de Sir Winston Churchill) que reza assim:

 - Nunca te metas por onde depois não possas sair!

Este lema serviu-me para toda e qualquer situação. Profissional ou pessoal. Mais uma vez se provou que estava certo.

Nunca me meti por nenhum vale sem dimensão para uma volta atrás, caso fosse preciso. Mas meti-me por todos os vales estreitos, sem perigo de não ter saída, que me apareceram.

E sempre a saber por onde andava, debaixo de uma grande tensão mas com o meu GPS mental a funcionar a todo o gás!

Eu sabia que conseguisse ou não chegar a Tenente Valadim podia sempre voltar para Vila Cabral. Bastava-me subir para cima das nuvens e fazer uma descida em voo por instrumentos (por ADF…)

No meu currículo aeronáutico eu tinha três excelentes cursos de Voo por Instrumentos. O primeiro em T-6 em Espanha e os outros dois nos jactos, em T-33, na Ota. Estes últimos feitos com instrutores acabados de chegar dos USA. Mas isso é outra história que fica para depois.

Além disso tinha a "Carta Verde" de voo por Instrumentos da Força Aérea que me habilitava a voar em condições meteorológicas marginais em F-86, o avião de elite da Força Aérea, na altura.

Sentia-me, pois perfeitamente à vontade...




T-33








T-33





F-86F





Mas agora continuávamos a brincar ao gato e ao rato entre montes vales e nuvens a caminho de Tenente Valadim...



E quase uma hora depois da descolagem, sempre sob grande tensão, estava finalmente a aterrar, com toda a segurança naquela excelente pista.



Tenente Valadim



Fui recebido como um herói e tratado como um príncipe por toda aquela gente agradecida. Depois de um excelente almoço, o senhor Tenente Coronel mostrou-me todas as instalações da Unidade, inclusive os quadros pintados pela sua mulher que ali residia com ele.

Feitas as despedidas, lá voltei para casa tal como tinha planeado. Por cima das nuvens e com a tal descida em voo por instrumentos em Vila Cabral.

A única preocupação era não bater na antena do ADF que era muito alta e estava mesmo no enfiamento da Pista...



Aeroporto e Base Aérea de Vila Cabral em 1973 foto de uma amigo do Facebook "Contos do Ultramar"




 Mas o problema maior não foi este voo.



Passados tempos...



Andava eu de passeio em Nampula em dia de folga, junto à grande esplanada do Hotel Portugal (o Hotel cujo proprietário se dizia que tinha sido deportado da Metrópole por andar a roubar Igrejas).

A grande esplanada estava como sempre a abarrotar de militares embrenhados em intermináveis diálogos.





O edifício do Hotel Portugal nos dias de hoje. Já não é Hotel



A beber Laurentinas (a grande cerveja Moçambicana) e a comer camarões

No meio daquele bruaá, estando eu a passar mesmo a meio da esplanada, ouvi um grande berro que calou todas as conversas.


Instantaneamente!


- O MELHOR PILOTO AO NORTE DE MOÇAMBIQUE!!!



E um Tenente Coronel fardado, de pé e de dedo em riste, a apontar para mim…


E toda a esplanada de militares fardados, as conversas suspensas, virou a cabeça para ver quem era o tal "melhor piloto ao Norte de Moçambique". 


E o Tenente Coronel abraçado a mim.


E um buraquito que não me aparecia…


Daí para a frente tornou-se-me um pouco preocupante aparecer isolado na esplanada. Felizmente havia uma grande rotação de militares que iam e vinham de zonas de guerra.

Mas foi exactamente da mesma maneira que isto me aconteceu, naquele sítio, por duas vezes!

É por isso que eu sei que fui, sem dúvida nenhuma, em 1968:


- “O MELHOR PILOTO AO NORTE DE MOÇAMBIQUE”!!!


Alguém tem dúvidas?


- Cheguem-se à frente!
- Cheguem-se à frente!






T-6






(Actualizada em 18 de Julho de 2018)








domingo, 24 de abril de 2011

Linha Aérea e outros voos - O vento de lado


Este desconhecido vento apareceu-me
num voo a solo em Piper Cub


Não foi neste, foi no CR-AFD



Isto passou-se pouco depois de Vasco da Gama ter saído de Quelimane pelo rio dos Bons Sinais fora, navegado umas 15 milhas até ao Oceano Índico, de novo, tendo depois rumado a Norte em direcção à Ilha de Moçambique a bolinar, a caminho da Índia


Na verdade, no dia 16 de Janeiro de 1498, as caravelas de Vasco da Gama chegam ao sítio onde hoje é Quelimane. O grande Navegador faz aí uma escala prolongada para recolher informações e recuperar a tripulação exausta e doente, com escorbuto. 


Devem ter comido poucas goiabas, devem…



E foi aí, fundeado num rio com margens muito lodosas, onde teve as primeiras informações de que estaria no bom caminho e que mais à frente iria encontrar pilotos capazes de o guiar até à Índia, que resolveu baptizar o rio com um nome digno, a condizer e chamou-lhe rio dos “Bons Sinais”. 



Os moçambicanos nunca lhe mudaram o nome…


460 anos mais tarde, em 1958, era eu aluno Piloto no Aero Clube da Zambézia, em Quelimane, sócio n.º 242.

Rio dos Bons Sinais…

Bons sinais, realmente, do que viria a ser toda a minha futura vida produtiva.



Talão de cota paga


Logo do Aero Clube da Zambézia, 1958
   



Recém largado com 8 horas de voo e 16 anos…(o mais novo em Moçambique) fui fazer mais um voo a solo em Piper Cub J3, manhã cedo porque depois tinha aulas às 8h no Colégio do Sagrado Coração de Maria.



Até dá gosto, só de ver...



(Os meninos e meninas que hoje se queixam de não ter tempo, bem podiam apagar as Play Station os tablets e smartphones mais cedo, dar folga aos dedos dos SMSs e não irem para a cama tão tarde! Já não adormeciam nas aulas e podiam assim fazer desporto antes de lá chegarem. Ou outras úteis coisas. Acreditem que desta maneira há tempo para tudo…)


O encontro com o Câmara, meu instrutor, era no meio da Cidade, junto à Piscina Municipal (inaugurada em 1937!), debaixo da árvore que, é da tradição, Vasco da Gama usava para se reunir com o Sultão. E onde eram sentenciados, na forca, os malfeitores.


Seria por isso que não dava frutos ou já não é a mesma Mangueira? Não sei...


E lá fomos Chuabo Dembo fora, para o Aeroporto. Ia voar sozinho outra vez!




 Quelimane hoje e o seu moderno Aeroporto



Depósito atestado, procedimentos feitos, motor em marcha, lá vou eu, com 16 anos, o maior!, no Piper Cub J3 para a cabeceira da Pista. Nessa altura essa pista ficava no meio de um pântano com as bermas cheias de capim com 2 ou 3 m de altura.



   Cockpit do Piper Cub











A outra pista, a principal, era utilizada pelos aviões da Deta (já havia linhas aéreas regulares em 1958 e desde há muitos anos!) Mas esta tinha boas bermas.



Motor a fundo! Aí vou eu!







Cockpit do Piper Cub













Mas o avião, aconteceu-me pela primeira vez, foge para a esquerda, quase a sair da pista. Imaginei logo que seria o vento cruzado (nunca tinha apanhado vento cruzado até àquele dia).







Solução imediata e espontânea da minha parte: apontar ao vento e sair a 45º com a Pista para a direita (linda manobra…)

Aqui o instrutor começou a suar:

- Como é que aquele gajo vai aterrar aquela merda? Tou fff...eito!"



Não havia rádio nem o aviador de 16 anos estava minimamente preocupado com o vento ou coisa alguma... a não ser voar e aspirar o bom cheiro a gasolina.


Sobrevoei o Chuabo Dembe, o bairro que se vê á direita, na foto do Google acima e passeei-me uns 15 minutos, mas sempre com atenção ao nível de combustível do depósito.


O indicador era um arame espetado numa rolha de cortiça a flutuar na gasolina, cuja ponta saía cá para fora. Mesmo em frente aos olhos, no motor. Quanto mais arame, melhor...

Cumprida a missão, fiz-me á Pista, seguindo os procedimentos habituais.


Canja para o experiente piloto que eu era...



Bonito de se ver...















Mas o Piper teimava novamente em fugir para a esquerda…

Que raio! Novamente!?






Corrigi p/ a Dta. Ficou certo!

Mas voltou a ficar outra vez desalinhado para a Esqda...


- Áh... deve ser o vento de há pouco, pensei. E bem.


Vai daí, apontei o avião ao vento como tinha feito na descolagem e aproximei-me da pista “torcido” para a direita. A olhar para a pista para a minha esquerda, em vez de ser em frente. As asas direitas, à bolina. Mas a progredir alinhado com o eixo da pista


Estava a fazer, sem o saber, um “Crab” para a direita. Nem eu conhecia ainda essa palavra nem o significado: voltar o avião na direcção do vento para compensar o arrastamento provocado pelo vento ao longo de um caminho.


Direitinho que nem um fuso com o alinhamento da pista. 



Mesmo apontado à direita…













"Atão é assim que se faz...”

Concluiu o jovem aviador.
 





Mas não era…não era assim que se ensinava…


Era, neste caso, com asa Direita em baixo (do lado de onde vinha o vento) pé esquerdo metido o necessário, avião sempre alinhado com a pista mas a sofrer forças antagónicas entre o aileron e o leme em posições opostas


Uma aberração!


Que ainda hoje se ensina em muito bom sítio... Ainda hoje.

O meu instrutor quando viu aquilo entrou em pânico:


- O gajo vai partir aquela merda toda!!! Agora é que estou mesmo fff...eito! e suava em bica.



Quando desapareci no capim alto de ambos os lados da pista, ainda todo torcido, no meio de um pântano, ficou tudo á espera da nuvem de fumo...


Mas o jovem aviador (um predestinado!) quase a tocar no chão, meteu pé esquerdo e aterrou como se nada fosse...


Na maior das calmas.

Inconsciente do “perigo” que tinha passado! Foi a minha primeira aterragem com vento de lado. E sem dar pelo que tinha feito realmente.


Nem eu sonhava com o Funchal ou Ponta Delgada…



Mais tarde, 4 anos mais tarde, na Força Aérea ensinaram-me a aterrar com vento de lado: exactamente como eu tinha feito, em Quelimane!  




E já agora, para que se saiba, uma hora de voo, em instrução, custava naquela altura 200$00, duzentos Escudos = 1.


1 a hora de voo. Uma bica e meio pastel de nata...

A Mocidade Portuguesa pagava uma parte, exactamente como hoje acontece aos jovens com menos posses para se iniciarem na Aviação.

(Diga...?!?!?).

E o meu Pai não era propriamente um descamisado...


Claro que eu era da Mocidade Portuguesa.



Obrigado a ser, mas com algum proveito, como se vê....






(Actualizada em 17 de Julho de 2018)