quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Na Guerra do Ultramar 1967/1969 - Encontros e desencontros


A Guerra no Ultramar foi palco de inúmeros encontros e desencontros havidos entre naturais da mesma Província Ultramarina.


Houve amigos de longa data que subitamente se encontraram em “trincheiras” diferentes embora nem sempre em confronto aberto de ideias ou mesmo no campo de batalha.


Estes desencontros, muitas vezes aligeirados pela forte amizade de anos atrás, puderam, num ou noutro caso, permitir que cada um mantivesse as suas opções sem violentar o outro nem interferir no decurso dos acontecimentos, num hino á amizade e lealdade mútuos.


Em 1968 o Director do Aeroporto de Vila Cabral, era um colega e amigo meu dos tempos do Colégio do Sagrado Coração de Maria em Quelimane, anos 50. Depois da independência foi Director da Aviação Civil de Moçambique.


Acabado o Colégio em Quelimane, que só leccionava até ao antigo 5º ano, voltámos a encontrar-nos mais tarde em Lourenço Marques. Deu-me guarida em sua casa, na Av. 24 de Julho, nos meses que mediaram entre o meu abandono do Liceu Salazar e o início do meu curso de Topógrafo nos Serviços Geográficos e Cadastrais, antes de tentar a Força Aérea. Nessa altura ele trabalhou numa espécie de sucursal do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, antes de se meter na Aviação Civil, como Controlador de Tráfego Aéreo.

Inesperadamene os nossos percursos de vida passaram pela Aviação, já que eu fui para a Força Aérea.

E cinco anos depois de começar a minha carreira militar ofereci-me como voluntário para combater em Moçambique. Mais uma vez como voluntário, ofereci-me também para o destacamento em Vila Cabral, o tempo que conseguisse ali permanecer.


Pois foi este amigo que me deu novamente guarida, agora em Vila Cabral, em sua casa, a 100m da “Base Aérea”, desta vez extensível á minha mulher e filha de um mês e meio. Na residência oficial do Director do Aeroporto de Vila Cabral.

Aeroporto de Vila Cabral (Lichinga, hoje)
 

Rapidamente a “minha casa” se tornou um refúgio dos pilotos do destacamento, com alguns momentos bem passados. Era a única família de pilotos daquele destacamento.

Houve muito piloto que acabou por tirar ali uma espécie de “curso de Pai”. Levavam-me a miúda e iam fazer corridas na placa com o carrinho dela. E ela em pé agarrada aos ferros a rir… como castigo ela teve uma filha no género…

Torre de controle de Vila Cabral - Foto do Blogue Voa Portugal

Estive destacado, voluntariamente, 8 meses seguidos em Vila Cabral.

Variadíssimos episódios se passaram, claro, mas posso começar pela minha relação com o “dono” da casa em que eu vivia.

Ele é filho de um Goês e de uma Moçambicana, pessoas que conheci em Quelimane, onde o meu Pai era Administrador de Circunscrição.

A nossa velha amizade e a sua educação e civilidade fizeram da estadia da minha jovem família em sua casa uma agradável vivência que se estendia aos demais pilotos que muitas vezes se juntavam a nós.

No entanto, algures durante o meu destacamento na capital do Niassa comecei a ter a sensação que algo havia no ar.

Passou-me pela cabeça e só isso, que ele poderia ser simpatizante da Frelimo, mas nunca lhe falei nisso.

No plano profissional, nunca tive com ele qualquer conversa de interesse operacional nem relativa a operações a realizar ou realizadas. Nem sobre o pessoal ou o estado dos aviões, nada de interesse.

Nem ele nunca me fez a mais pequena pergunta, nem no chão nem nas suas funções de controlador. Afinal nós operávamos numa pista civil, sujeita ao seu controle civil.

E quando havia mau tempo e queria saber como fazer a melhor aproximação possível, eu só dizia uma única palavra através do rádio do meu avião, sem destinatário nem indicativo:

- “Chichio!”

E ele sabia que era eu e que queria informações sobre o estado do tempo. E a resposta era: “Entra por Norte”, ou Oeste, por exemplo. Nem ele sabia de onde eu vinha…


Fotografia da época dos acontecimentos, neste caso o meu voo de regresso a Nova Freixo no fim do meu destacamento. O meu avião é o da direita

Acabada a minha comissão em 1969 entro na TAP e deixo de ter contacto com ele.

Encontrei uma ou duas vezes o irmão em Lisboa, Seleccionador Nacional (de Portugal) de Basquetebol que me ia dando notícias, não muito animadoras, sobre o seu destino.

Um vinte anos mais tarde reencontrei-me com ele num café de Lisboa, na Av. da Igreja. Estava há meses sem dinheiro, depois de ter abandonado Moçambique à pressa, por razões de segurança. O dinheiro que tinha só lhe dava para cafés… Ainda estava abalado pela reviravolta que a vida levara.

Arranjei-lhe um emprego através de um colega TAP.

Não tinha aceitado ser integrado, com um excelente ordenado, na Aviação Civil portuguesa que o convidara, por ter feito parte de todos os Acordos em vigor entre os estados de Moçambique e Portugal.

Ele há pessoas assim…

Passou a ser contabilista numa empresa de construção civil.


Claro que mudou de emprego, mais tarde, mas já são estórias que não têm aqui interesse.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Guerra do Ultramar - O Grandalhão e o Elegante


Os autênticos, originais e gloriosos malucos das máquinas voadoras!


Eram dois pilotos que sabíamos terem uma relação muito descontraída com os aviões. Cumpriam, claro, mas tinham dias…

E naquele dia… foram incumbidos de ir do AB6, Nova Freixo, a Nampula num T6. Os dois no mesmo avião.

Estamos em 1968.


O AB 6, em Nova Freixo, Norte de Moçambique



A pilotar no lugar da frente, por acordo entre ambos, foi o mais elegante e mais baixo. Atrás, instalou-se o mais alto e mais desengonçado.

O intercomunicador entre estes dois ilustres aviadores não funcionava. Os aviões eram normalmente operados por um só piloto de modo que não era um item muito importante.
 

O grandalhão meteu-se no lugar de trás, confortavelmente instalado, de romance na mão.
 

Á frente, muito compenetrado, o elegante descolou rumo a Nampula, numa tarde soalheira.
 

Ao grandalhão por ser alto, desengonçado, efusivo e muito falador, deram-lhe a alcunha de “o Pateta”, dos desenhos animados da Disney. De pateta mesmo não tinha absolutamente nada. Era só a figura…
 

Ao elegante chamo-lhe eu assim por ter aparecido na guerra, figura esguia, vestido de branco dos pés à cabeça e a fumar uma longa boquilha em marfim. Um autêntico Peter O'Toole.
 

Um Lawrence de todas as Arábias…
 

A primeira vez que foi a minha casa (eu era o único piloto em Vila Cabral que vivia com a família numa casa civil, a do Director do Aeroporto) vestido naqueles propósitos, um autêntico manequim, num lanche que era comum haver com todos nós virou-se para a minha mulher muito sério e perguntou-lhe, finamente:
 

- Que bolos horríveis! Foi a senhora que os fez?
 

Era só uma maneira diferente de agradecer a iguaria.
 

Voltemos à história daqueles dois magníficos personagens descolados de Nova Freixo rumo a Nampula...

Uma meia hora depois o grandalhão, incomodado naquele espaço lá atrás que era mesmo à justa para ele, teve necessidade de mudar de posição.

E o pé que estava esticado foi encolhido e a outra perna pode finalmente distender-se. Porém, porém… a manobra foi feita com alguma largueza e ele não conseguiu evitar mandar uma sapatada no pedal do leme de direcção do avião, que estremeceu um pouco.
 

Aquela súbita manobra “acordou” o elegante que se voltou para trás para tentar perceber o que se passava.

O grandalhão, com um gesto de mão aberta no ar, pediu-lhe desculpa, entre dentes, claro.

Lembrem-se que não havia interfonia e o barulho aerodinâmico do voo não permitia conversas de viva voz.

Afinal não fora nada.
 

O elegante, satisfeito com o que viu, virou-se para a frente e tudo voltou à normalidade. 

Agora muito mais descontraído.
 

Um olhava em frente, tranquilo e o outro voltou á leitura empolgante do livro.


T6 em voo

Como já devem estar a perceber, a coisa não podia acabar bem.

Aliás a coisa, coisa, encaminhava-se sub-repticiamente para a asneira, para a tragédia mesmo…

O que o elegante percebeu quando olhou para trás foi uma mão aberta a querer dizer: “Olha, o avião é meu!” Um termo que os aviadores usam para dizer que, agora, sou eu quem pilota. Irrevogável!
 

Afinal o dono daquela mão era mais antigo e mais graduado e portanto não deixava de fazer sentido. Embora o combinado não estipulasse nenhuma mudança de piloto a meio do voo.
 

E assim temos um T6 em voo em que um piloto, lá atrás, lia muito concentrado um belo romance e o outro, lá à frente,  observava, deliciado, a paisagem com as mãos gentilmente pousadas no regaço… 

Em descanso, como a Inês do soneto.
 

Simplesmente idílico...
 

Iriam a uns 3.000 pés de altitude, calmamente.
 

O primeiro, ou talvez não, Drone da Força Aérea Portuguesa…
 

Pouco a pouco o T6 em auto gestão mas deficientemente equipado para tal, achou que também podia fazer umas graças e resolveu começar a descer.
 

E a dar uma pequena voltinha.
 

E a ganhar velocidade.
 

E por aí fora.
 

Coisa que não preocupou minimamente nenhum dos dois, já que tinham acabado de entrar de folga havia breves minutos. O da frente, porque o de trás nem ainda tinha feito nada. A cultivar-se, devorando página atrás de página do empolgante livro.
 

Quando a manobra se revelou francamente fora do combinado em terra, o grandalhão olhou para o lado e viu que o avião executava uma volta larga a descer, entre dois morros, com centro numa aldeola, em zona livre de terrorismo. E pensou que o elegante estaria interessado em observar melhor aquela aldeia.

Normal… e voltou ao romance, alheado novamente.
 

Já o elegante não pensava nada. Deixa-o lá fazer o que ele quiser. Ele é que sabe. Ele é que é o verdadeiro chefe desta missão.
 

À segunda volta consecutiva, sempre entre os morros, o grandalhão incomodado tira os olhos do livro, avaliou melhor a situação e achou que aquilo talvez fosse muita velocidade a mais, muita mesmo!
 

Além disso a canopy tremia a bom tremer.

Mas…
 

Não deram a terceira volta porque finalmente alguém tinha de tomar uma atitude e a canopy, assustadíssima, achou por bem evadir-se, desertar mesmo, avião fora… Antes que fosse tarde. Um verdadeiro suicídio!
 

Saiu e nunca mais ninguém a viu! Até hoje!
 

O voo picado a grande velocidade passou a ser feito em descapotável...

E o susto levou a que ambos resolvessem fazer um duplo comando, se calhar a quatro mãos e evitaram o pior.
 

Mesmo à beirinha da tragédia!
 

A canopy era o menos…
 

Boa gente estes dois, de quem eu era e sou, amigo…



(Actualizada em 8 de Janeiro de 2016) 



terça-feira, 2 de agosto de 2011

A minha Força Aérea - O avião é meu. Vou fazer um chouriço!


Saiu chamuscado, o marafado chouriço...


T-33 matrícula 1909


 
T-33 no Museu do Ar na Base Aérea de Sintra


O meu curso de piloto na Força Aérea levou a várias novidades. Foi o P1/62, o tal curso que levou 2 anos a ser brevetado ( os VCCs...) por congestionamento da Base Aérea de Sintra, um curso de T6 feito em Espanha, Salamanca e pilotos largados em T33 antes de serem brevetados... e no posto de soldados rasos!

Foi  esse  o  meu  caso... 

Só que o meu último voo antes do brevetamento foi exactamente o voo de largada em T-33. E fiz dois voos nesse dia 27 de Abril de 1964. O de largada, no avião matriculado 1905, de manhã. 13 gloriosas aterragens, sozinho no avião!. E à tarde, no mesmo avião, para não esquecer, sozinho de novo, fiz mais 8 aterragens.

Começava a realizar-me como piloto...

E logo a seguir os 3 VCCs que estavam na Ota, dois Soldados Alunos Pilotos, o Jeremias Leite da Silva e eu mais um Cabo Miliciano Aluno Piloto, o Ary, rumam à Base Aérea de Sintra para a grande cerimónia da imposição das asas aos novos e orgulhosos pilotos.



Eu à esq. o Ary ao centro e o Leite da Silva


A coisa não foi fácil, em Sintra. Ora não havia "asas" para por ao peito, ora não havia General para as entregar, ora outra coisa qualquer, mas o certo é que a cerimónia levou bastante tempo a concretizar-se. Mais de 15 dias em Sintra.


Mas finalmente lá nos tornámos oficialmente pilotos da Força Aérea!

A sério! Com Asa e tudo!


Em cima, a foto original de 1964 e em baixo alguns dos mesmos, 48 anos depois!

O Brevet, bordado, na farda

No meio de alguns dos septuagenários do meu curso, estou de camisa azul aos quadrados

O meu brevet tem o Nº 953 do dia 1 de Maio de 1964.

Fui incorporado na Força Aérea no dia 4 de Maio de 1962, exactamente 2 anos antes do brevetamento...

E lá voltamos à Ota mas já como Cabos Milicianos Pilotos. E o Ary como Furriel

Os meus Instrutores (eram gémeos - comecei com o irmão mais "velho" e acabei com o mais novo, mas por vezes trocavam) acharam  que um mês sem voar não seria muito saudável para um recém-largado fazer o primeiro voo a solo. E vai daí, fomos fazer mais umas voltas de pista.

Estava-mos no dia 18 de Maio, de 1964. Avião T-33, matriculado 1912.


O meu local de trabalho
Voltas de pista... uma espécie de voltas de pista, porque o meu instrutor, depois do toca e anda que eu executava fazia uma quase chandelle, uma volta bem apertada a subir que termina em voo mais ou menos invertido, altura em que numa manobra rápida se endireitam as asas e se fica a voar normalmente. Parece terrível mas dá muito gozo...

Implica "meter" uns 2 Gs, ou seja na manobra aumentamos cerca de duas vezes de peso com a volta muito apertada. E nós aparecíamos assim no início da perna base, a 90º com a pista, sem eu saber ler nem escrever e prontos para a aproximação final e aterragem

- Vá, o avião é teu! Aterra.

E lá me aprimorava eu cada vez mais e aterrava o melhor possível.

E ele borregava e fazia outra chandelle.

E fazia mais outra chandelle.

E eu aterrava.

E mais outra chandelle...

Isto 8 vezes seguidas.

T-33 1914

Há um mês sem voar, a minha cabeça já fazia chandelles autonomamente.
 

O cansaço começava a apertar e no entanto as aterragens saíam cada vez melhores.
 

- Agora estás bem, é mesmo isso que eu quero!
 

- OK, o avião é meu, vou fazer um chouriço!

  
E... uma última chandelle!
A coisa saiu a muito baixa altitude e aquele tip tank vermelho na ponta da asa, do lado direito, a rapar as árvores, era uma imagem extraordinária de se ver… especialmente com o cansaço de 8 toca e anda, seguidos daquela meia manobra mais ou menos acrobática.

Estamos na final para a última aterragem e eu de mãos a abanar a apreciar a paisagem porque era o Instrutor a aterrar e eu não tinha nada que fazer.

Lembro-me de ouvir, lá muuuuito ao loooonge na final curta, mesmo antes da aterragem, uma espécie de buzina tocar.

Muito baixinho, muito a medo...

Tão baixinho que ninguém ligou…

Quando poucos segundos depois ouvi o meu instrutor aos berros olhei em frente e vi o nariz do avião quase a tocar no chão, na pista e pensei que a roda de nariz não tinha saído! Mas depois percebi que nada do trem de aterragem tinha saído!

O trem de aterragem não tinha sido baixado, por esquecimento nosso.

Estávamos em plena "papada" (aterragem sem trem) já sem velocidade para abortar a manobra! O avião estava a deslizar na pista. Sem trem!

1500’ de pista depois (uns 500m), a arrastar o alumínio por ali fora, sem controlo, faíscas por todo o lado, muita fumarada a entrar pelo cockpit dentro, o avião parou!

Sem sinais de fogo mas com muito fumo ainda à volta.

Desligo tudo, inclusive a bateria que só se podia desligar no lugar da frente (o lugar do aluno piloto já que o instrutor vai atrás) levanto-me e ponho logo o pé no chão, coisa estranha para quem estava habituado a usar a escada com vários degraus para descer do cockpit…


Sãos e salvos, incluindo o avião sem estragos de maior.






Verdade ou mentira?
Está ou não perfeito?


Se querem imaginar como deve ter sido, vejam este vídeo
que o meu Amigo Mário Sérgio Felizardo me sugeriu:


(Foi mais ou menos assim, mas sem espuma na pista nem bombeiros...) 

Na aviação costuma dizer-se que existem dois tipos de pilotos:

Os que já fizeram uma "papada" e os que dizem que não hão-de fazer uma...

No dia seguinte começou logo a investigação do acidente.


Mas antes tenho que dizer que o avião não chegou a tocar no chão, ou melhor, a fuselagem.

Foi a mais perfeita das aterragens!

"Gastaram-se" os speed-brakes, por debaixo da fuselagem e os flaps. Afinal, a origem das faíscas e do fumo, que era pó de alumínio moído pela fricção. O Pitot, sonda que mede a velocidade, debaixo do nariz do avião, não tocou no chão. Os tip-tanks nas pontas das asas, ficaram intactos. Querem melhor?

O Comandante da Esquadra, Tenente Vasquez, na manhã seguinte, ouviu-me em privado. Contei-lhe tudo que sabia e me lembrava.

- E a buzina?

- Ouvi mas muito baixinho na parte final da aterragem.

- E depois de cortar a bateria?

- Não ouvi buzina nenhuma!

- Ó Cavaleiro, disse-me ele, você está a julgar que queremos entalar o seu Instrutor, mas isto é uma Investigação de Acidente. Queremos saber TUDO o que aconteceu e ninguém vai ser penalizado por nada.

Após uma pausa para eu respirar, voltou à carga.

- Então, a buzina?

- Não tocou!

- Ok. Amanhã continuamos…

No dia seguinte o diálogo foi exactamente o mesmo e acabava sempre do mesmo modo: 

- Não ouvi buzina nenhuma depois de cortar a bateria.

O que se passava era que a buzina estava directamente ligada à bateria e portanto, cortando-se ou não a bateria, tinha de tocar e devia ser audível no meio do silêncio do reactor parado. E ela tinha tocado ainda em voo. Baixinho, mas eu ouvi-a. Mas depois de cortar a bateria...

- A buzina não tocou!

- Ok, Cavaleiro, você vai passar pela vergonha de termos de colocar o avião em cima de cavaletes, simularmos a situação e você vai ouvir a buzina tocar! Então?

Pensei duas vezes e respondi-lhe, finalmente, mas muito enfiado:

- A buzina não tocou!

- Muito bem, até amanhã!

T-33 1913

E no dia seguinte apareci no hangar à hora indicada, avião já nos cavaletes, toda a Manutenção a olhar para mim e a pensar, certamente, umas coisas simpáticas, o meu Comandante de Esquadra a controlar tudo, um ambiente de cortar à faca, para mim.

Tudo a postos! 


- Ok! Desliguem a bateria!


Silêncio… só silêncio, para espanto de todos.


Afinal a cablagem tinha sido mal montada naquele avião e o esquema eléctrico não estava de acordo com o Manual. A buzina devia tocar, estava OK, mas, para grande alívio meu, não tocou! Ali, à vista de tanta gente.

Alguém se tinha enganado ao montar a buzina.

A minha palavra passou a valer ainda mais e ganhei uma confiança  ainda mais forte com o Tenente Vasquez que nunca me pressionou com ameaças e também com os meus instrutores porque me bati pela verdade e não cedi ao medo de me entalar, contribuindo assim para a Segurança de Voo, razão última daquela investigação.


E tudo isto por causa de um chouriço…

O autor, em 1964, com o traje de gala


Desenhado por mim em 1964

Nota:

Algumas imagens pertencem

a ilustres desconhecidos

a quem peço desculpa

por não os nomear.




(Actualizada em 26 de Abril de 2014)







segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Minha Força Aérea - O atribulado início do meu curso em T-33 na Ota

Um T-33 na Base Aérea da Ota


O nosso começo como alunos da EICPAC na Ota, 1964,
não foi brilhante...

Logo da Esquadra de Instrução Complementar
de Pilotos de Aviação de Caça. "Os Caracóis"



Num belo dia de 1964 os quatro alunos do P1/62 que, a convite da Força Aérea, se tinham oferecido para os jactos, saem de Sintra rumo a Vila Franca de Xira onde chegam de comboio.

Á espera destes quatro brilhantes aspirantes a Alunos Pilotos da Aviação de Caça, em vez de uma qualquer viatura normal que nos levasse para a Base, fomos presenteados com o camião das compras para a messe.

E foi lá atrás no meio de batatas, cebolas, peixe, carne e laranjas, sentados em cima de tudo isto, cobertos por uma capota de lona verde, que entrámos triunfalmente na Ota. 


As armas da Base Aérea da Ota


A condizer com esta finura de trato esperava-nos um quarto para os 4 em que o espaço entre as camas não dava para andar. Tínhamos que passar por cima das camas.


A alimentação estava também de acordo. Numa determinada altura comemos 3 refeições seguidas de feijoada. A dieta indicada para pegadores de touros e não para se voar aviões pressurizados.


Simultaneamente a nossa saúde, inexplicavelmente, deu para nos sentirmos mal, com palpitações e pulsações elevadas. Uma visita ao médico, duas visitas, e a coisa não melhorava.


Nada disto, para nós, era compatível com o voo, que já tinha começado.


O ambiente tornou-se explosivo e os 4 aviadores deram por mal empregue o dia em que se ofereceram para os jactos, com o consequente acréscimo de 3 anos de tropa.


E foi um passo até á decisão unânime:


- Nós queremos desistir do curso!

- Não queremos voar mais o T-33!



Informado o Comandante da Esquadra, Tenente Vasquez, a quem já nos ligava uma certa amizade pelo bom trato que nos dava e após várias diligências dos instrutores aos 4 desiludidos pilotos ainda não brevetados (estávamos a começar a ser os VCCs…) chegou-se a um impasse.


Solução?


Coronel Diogo Neto, comandante da Base.


Na manhã seguinte os 4 irredutíveis aviadores foram civilizadamente levados ao gabinete do Comandante da Unidade.


Assim que entrei percebi imediatamente onde é que realmente estava.


 
Atrás da grande secretária, de pé, as mãos postas á frente do corpo, alinhados, as medalhas ao peito, estavam o nosso Comandante de Esquadra, o Médico da Unidade, o 2º Comandante da Base e o Comandante, Coronel Diogo Neto, que sabíamos ter sido promovido a Tenente Coronel e a Coronel por distinção por feitos em combate no Ultramar

Por detrás destas egrégias figuras, as bandeiras militares e da República Portuguesa impecavelmente colocadas. E os austeros retratos de Salazar e Américo Tomás.
 

A lembrar-nos a delicadeza do momento.
 

Os nossos chefes olhavam-nos com alguma gravidade, pareceu-me. Porém sem hostilidade.

Era só um assunto muito sério.

Pela primeira vez nas nossas vidas estávamos perante a nossa maioridade, em pleno, entregues a nós próprios e aos princípios que a família e a escola nos tinham ensinado.




Era mesmo um assunto muito sério...





E foi a partir desse dia que aprendi a ser maior, mais responsável. Foi a partir daí que a Força Aérea passou a fazer parte de mim.


Foi também nesse dia que "conheci" o Coronel Diogo Neto.


Feitas as apresentações e sabido o que nos levava aí, o Comandante da Unidade explicou-nos o que éramos, onde estavamos e o que de nós era esperado.


Com civilidade, sem ameaças mas com a autoridade que legitimamente representava.


Finalmente fez-nos ver que, como militares, não havia espaço para desistências. Ou chumbávamos no curso, ou não chumbávamos.


Qualquer outra alternativa deixaria as nossas chefias sem alternativa.


E todos nós trazíamos uma boa classificação do T6 feito em Salamanca, na Base Aérea de Matacán.

Não houve pressão alguma. Esperava-se só uma resposta da nossa parte mas também um sinal de que aquilo de que legitimamente nos queixávamos seria pelo menos avaliado



T-33



Postas as coisas neste pé, decidimos anular o pedido de renúncia ao curso. Sabíamos que havia um irredutível entre nós mas decidiu obedecer temporariamente às regras.

Reconhecidas também as nossas necessidades, fomos finalmente realojados em dois quartos contíguos, e com dieta melhorada.

Quem “desistiu”, mesmo, sentiu-se mal no voo que fez a seguir e foi dispensado, voltando a Sintra, sem quaisquer problemas.


Os outros 3 acharam que “desistir” ou até chumbar seria uma derrota pessoal.


Todos os nossos Instrutores nos receberam de novo de braços abertos e fomos presenteados com “voos para meninas” só para descontrair.

Duvido que outra Força Aérea ou ramo militar tivesse trato mais civilizado para com pilotos rebeldes.


O meu instrutor era o Tenente António Quintanilha. Mais tarde o gémeo Luís, também.


A ambos devo o muito que aprendi.


De trato difícil, mas ensinaram-me muito.


O nosso local de trabalho

Acabámos o curso, bem classificados, respeitados pelas nossas atitudes e pelo modo como, em conjunto, resolvemos os nossos problemas.


Eu, o Ary e o Leite da Silva

O que desistiu "acabou" num looping demasiado baixo em Angola, com outro VCC. Num T6.


Um abraço para vocês dois, amigos. Lá onde estiverem.


Algumas imagens pertencem a ilustres desconhecidos a quem peço desculpa por não os nomear.



 (Actualizada em 16 de Julho de 2018)