quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Pedaços de vida - O meu 26-de-Abril-de-1974


O Povo Unido... OK...









Eis um bom exemplo do que tantas vezes acontece nas Revoluções. 
Uma Revolução também é o que vou contar. Autobiográfico.





No dia 25 de Abril, por volta das 8 horas da manhã, estudava eu a matéria dada durante o meu curso teórico de Boeing 747, no Centro de Instrução da TAP, em vésperas de partir para Seattle, USA, (sede da Boeing) para fazer o Simulador de Voo.

Abri o rádio e a música era revitalizante: marchas militares. Simpático.


Mas pouco depois ouvi um estranho e histórico comunicado:







Comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA)- Vídeo RTP.








Grande espanto!


Mas já esperava. Acordei toda a família aos berros:


- Ganhámos, ganhámos!


E os miúdos sem perceberem nada…

O Comunicado, entre a Liberdade prometida e o receio de tudo poder voltar para trás, também pedia para nos mantermos em casa. E como eu precisava muito de saber tudo, tudo, sobre o B-747, fiquei em casa a estudar e a ouvir as notícias.

Mas no dia 26 de Abril não resisti. Fiz gazeta ao meu estudo caseiro e fui até à Baixa.








Nos Restauradores apercebi-me de que algo de muito importante se estaria a passar lá mais para baixo, algures, talvez no Rossio.

E ao passar pela Estação do Rossio vi, à esquerda, junto à Pastelaria Suíça algo que me chamou a atenção. Muita gente, muito agitada. Uma grande confusão.


- É ali! Vou ver!


Afinal era para aquilo que eu estava ali. Estar no meio da acção. No meio do 25 de Abril.
E “a coisa” passava-se, realmente, nas traseiras da Pastelaria Suíça. Na Praça da Figueira.
Havia lá imensa gente, muito agitada, punhos no ar, todos muito nervosos.

Um soldado, de G3 aperrada, calmíssimo, tentava impedir o acesso à porta traseira da Pastelaria.






Dificilmente conseguiria durante muito mais tempo evitar que a turba entrasse, enraivecida, por ali adentro.

E quando a pressão ultrapassou, finalmente, a paciência do militar, mais habituado a outras guerras, mais a sério, não foi de intrigas:


Rajada de G3 para o ar!



A 2 metros de mim!


Não é muito simpático…

Mas eficaz, convenhamos.

A confiança nos militares (eram todos heróis naqueles dias, todos ao lado do Povo) só deu, no entanto, para se ter aberto um corredor de uns 3 metros de largura. Ninguém se assustou muito. Mas também ninguém sossegou por aí além.

O que é que se passava?

O gerente da Pastelaria Suíça “era fascista”, diziam e toda a gente queria molhar a sopa no miserável, cabrão de merda, do fascista que se teria refugiado, aflito, prédio acima, até às águas furtadas.







E era pelo prédio acima que todos queriam ir. Trazer o fascista para o meio da Praça da Figueira, aquele grande malandro.



- Fascista! Fascista! Fascista!








Às tantas todos os olhares se levantaram para o topo da Pastelaria, tudo sempre aos gritos.

- Grândola Vila Morena…
- O Povo Unido Jamais Será Vencido!
- Morte aos fascistas, etc., etc….

Numa janela das águas furtadas da Pastelaria, um militar fardado, mais graduado, tentava comunicar com a multidão que cá em baixo já quase enchia a Praça da Figueira. E tinha algo na mão que agitava.

E nós todos mesmo ali no centro da acção, eu já muito entusiasmado com a cena, todos prontos a fazer justiça com as próprias mãos, o que queríamos era agir, ir ao focinho ao gajo, sei lá, fazer qualquer coisa própria de uma turba descontrolada.


- Calem-se!
- Calem-se porra!
- É pá, calem-se f...!!! Deixem lá ouvir o gajo, pá!.


Tudo sempre aos gritos, punhos todos bem no ar e a G3 agitada acima das cabeças não fosse alguém mais afoito tentar alguma asneira maior.








O militar, que parecia estar a uns 500 metros de altura, gritou várias vezes a mesma frase que, a pouco e pouco, começou a ser ouvida, de tanto repetida, pelos que estavam mesmo por baixo, como eu:



- O GAJO É ALEMÃO!!!



E na mão exibia uma coisa que me pareceu vagamente um passaporte que abanava freneticamente, como que a ilibar o gerente da Pastelaria…

E eu, imbuído daquele fervor revolucionário de Teatro de Revista, pensei, pensei só, mas em voz alta, demasiado alta:


- Bem então o gajo é Nazi!!!.

 É pá! O homem tinha de ser alguma coisa…carago!


E toda a Praça da Figueira desatou a gritar, compassadamente:



 - Nazi! Nazi! Nazi!



Pus-me logo a milhas…

E fiquei a perceber o que também pode ser uma Revolução.



Mas ainda hoje me apetece pedir desculpa ao Gerente da Pastelaria Suíça de então. 


Nunca é tarde…



(Actualizada em 4 de Setembro de 2018)



Vídeos do You Tube a não perder:

- Zeca Afonso > "Grândola Vila Morena":


"Grândola, Vila Morena" é a canção composta e cantada por Zeca Afonso que foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução dos Cravos. A canção refere-se à fraternidade entre as pessoas de Grândola, no Alentejo, e teria sido banida pelo regime salazarista como uma música associada ao Comunismo. Às zero horas e vinte minutos do dia 25 de abril de 1974, a canção era transmitida na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar as operações da revolução. Por esse motivo, a ela ficou associada, bem como ao início da Democracia em Portugal.
Da Wikipédia








A canção-senha da Revolução de Abril nasceu da primeira passagem do poeta-cantor pela Vila de Grândola, em 1964, foi escrita dias depois desse concerto histórico para os grandolenses.

A afirmação é do anfitrião da primeira visita de José Afonso à Vila de Grândola, Zé da Conceição, à época membro da direcção da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense.

"Na versão original, a última estrofe dizia o seguinte: 'Capital da cortesia, não se tem de oferecer, quem for a Grândola um dia, muita coisa há-de trazer' mas quando foi musicado, em 1971, o poema acabou por ser alterado", esclareceu.

"Esta última estrofe foi substituída por aquela que, hoje, todos conhecem: à sombra de uma azinheira, que já não sabia a idade, jurei ter por companheira, Grândola a tua vontade", rematou Zé da Conceição.

GR/Expresso,  31 de Julho de 2009



- Vitorino > "Trás outro Amigo Também":
Um vídeo da Televisão da Galisa com uma pequena
reportagem antes da actuação do Vitorino.
No início do vídeo vê-se um Chaimite com 3 militares. O da direita é um primo meu, de bigode, o António João, cuja missão era a de indicar o caminho para o Largo do Carmo, que nenhum dos colegas, naquele dia, sabia onde era... Uma Revolução também pode ser isto!





- Zeca Afonso > "Vampiros":

Este tema apareceu pela primeira vez num LP intitulado "Dr. José Afonso em Baladas de Coimbra", de 1963. Uma das canções mais emblemáticas de Zeca Afonso.








 



Publicações - História da Cidade de Quelimane


Quelimane é a capital do Distrito da Zambézia, Moçambique, onde
algumas das histórias deste blogue se passaram.

O maior palmar plantado do Mundo fica nos arredores.



Autora do texto que se segue: Dra. Eugénia Rodrigues



Dissertação de Doutoramento em História
Universidade Nova de Lisboa, 2002.

Topónimo: Quelimane


Povoação, depois vila, localizada na margem esquerda do rio Bons Sinais (Qua Qua), a cerca de 18 km da costa, na actual província da Zambézia, em Moçambique (17º 52’ S; 36º 53’ E). O topónimo reportava-se também à área abrangida pela capitania-mor aí sediada (o distrito de Quelimane), que fazia parte do governo dos Rios de Cuama, depois Rios de Sena, dependente da capitania de Moçambique.


Paisagem típica da Província da Zambézia 

  

Situada em território do povo macua, Quelimane integrava, no século XV, a rede comercial muçulmana dominada por Quíloa, que se estendia por vários pontos da costa oriental africana. A sua fundação relacionou-se com o alargamento dos centros de exploração aurífera para o norte do planalto karanga, acompanhando a expansão do Estado do Monomotapa. Tal conduziu à emergência de uma rota comercial muçulmana através do Zambeze, que terminava em vários portos entre o delta e Angoche, em concorrência com o itinerário mais antigo que ligava o planalto a Sofala.





Na origem da povoação esteve, provavelmente, a dispersão de famílias islâmicas de Angoche, as quais fundaram várias chefias na região do delta. Foi um desses chefes que Vasco da Gama encontrou quando estacionou no rio Bons Sinais, em 1498, no decurso da primeira viagem à Índia.

A presença continuada de portugueses em Quelimane está registada desde 1544, quando o capitão de Moçambique estabeleceu aí uma feitoria para negociar marfim. Com a progressiva expansão para o interior, os portugueses passaram a usar a rota do rio Zambeze, a que acediam pelas barras de Quelimane e do Luabo. No final da centúria, residia aí um capitão dos Rios, em cujas casas se acolhiam os mercadores que se dirigiam ao sertão. A povoação portuguesa, erguida numa zona plana e alagadiça, surgiu perto da localidade muçulmana, que fornecia mantimentos e serviços aos mercadores.

Nos primeiros anos de Seiscentos, os portugueses aumentaram o controlo da região. Após a cedência das minas do Monomotapa, pelo tratado de 1607, a coroa portuguesa organizou planos de colonização do vale do Zambeze, que tornaram premente o domínio do delta. A concorrência europeia, patente nos cercos holandeses à Ilha de Moçambique em 1607 e 1608, constituía uma ameaça à hegemonia portuguesa na região, suscitando ordens recorrentes da coroa para fortificar as bocas do Zambeze. Neste contexto, o governo do general D. Estêvão de Ataíde (1610-1613) resultou no avanço decisivo do domínio territorial na zona do delta, com a submissão de alguns chefes macuas, cujas terras foram concedidas a portugueses. No primeiro ano do seu governo, o general ordenou a construção do forte de Santa Cruz, certamente em materiais precários, na ponta sul da barra, a dos Cavalos Marinhos.

Subsequente ao tratado de 1629, em que o mutapa Mavhura Mhande se reconheceu vassalo da coroa portuguesa, foi gizado um novo programa régio de colonização. A região do delta, antes sujeita ao capitão de Sena, foi dividida, em 1633, em duas capitanias-mores, a do Luabo e a de S. Martinho de Quelimane. Em ambas as barras, começaram a ser edificados fortes de madeira, segundo a traça desenhada pelo engenheiro Bartolomeu Cotton, enviado da Índia. Após a desistência da exploração das minas pela coroa, em 1637, foi também abandonada a construção dos fortes que nasciam na baía do Linde e na ponta dos Cavalos Marinhos. A área do delta foi reintegrada na capitania de Sena, mas, logo depois, a capitania-mor de Quelimane foi autonomizada.

Na década de 1630, a zona abrangida pela capitania, dividida em prazos da coroa, estendia-se ao longo da costa desde o rio Maindo até próximo do rio Licungo. Penetrava cerca de 60 km para norte da povoação, enquanto pelo rio Bons Sinais se alongava 30 km até às terras do xeque muçulmano de Mirambone. Esse território foi alargado em finais de Seiscentos, seguindo a linha do litoral, até à margem direita do rio Raraga. Mas, a principal aquisição deste período foi o vasto território interior do Bororo (1693), que se estendia pelas margens do rio Licuar. Este movimento de expansão territorial traduziu-se no aparecimento da expressão “Quelimane, o velho”, que designava, no século XVIII, a área inicial dos prazos.

Durante Seiscentos, Quelimane afirmou-se como o porto de entrada no Zambeze, em detrimento do Luabo. Dava acesso à vasta área servida pelo rio, a qual constituía objecto do monopólio régio do comércio, arrendado ao capitão de Moçambique ou gerido por instituições da coroa (Junta do Comércio e Conselho da Fazenda da Índia). O seu agente no porto era o feitor do comércio, um dos principais funcionários da povoação a par do capitão-mor e juiz. Ele estava incumbido de encaminhar as fazendas para a feitoria de Sena e embarcar para a Ilha de Moçambique as remetidas daí. As ligações com a ilha ocorriam duas vezes por ano, na monção grande de Abril/Julho, quando se fazia a maior parte das trocas, e na monção pequena de Outubro/Novembro. No porto, as mercadorias eram transferidas para canoas que percorriam o rio. A entrada na sua difícil barra, com restingas de pedra e bancos de areia, exigia marinheiros experientes, os pilotos muçulmanos idos de Moçambique.

As descrições da povoação reportam a existência de um diminuto número de moradores. Os que buscavam a região preferiam os elevados lucros do comércio do ouro e do marfim obtidos em Sena e Tete. O território do delta era muito fértil, mas as ocasiões para escoar a sua produção agrícola eram limitadas, dado o escasso número de navios que a transportava para a Ilha de Moçambique. Para além dos módicos réditos da venda de víveres, os moradores de Quelimane faziam um reduzido negócio de marfim e prestavam serviços aos que frequentavam a rota fluvial, como o aluguer de casas, embarcações e escravos.

O centro urbano reflectia os moderados rendimentos dos seus moradores, poucos reinóis e uma maioria de goeses. Cerca de 1634, notava-se uma dúzia de casas ao longo do rio e no final da centúria elas eram 14 ou 15. Os edifícios, cobertos de colmo e raramente de telha, eram fabricados mormente em taipa, porque faltava a pedra e a humidade ameaçava os tijolos de adobe. As habitações eram rodeadas de hortas e cercadas por fortes paliçadas. Em volta, distribuíam-se vastos palmares e pomares e as casas dos escravos.

Na povoação, existia uma igreja, a de Nª Sª do Livramento, paroquiada pelos jesuítas, o hospício dos dominicanos e a casa dos padres da Companhia de Jesus.

No espaço urbano, destacava-se, em Seiscentos, o chuambo, um forte de madeira, sem guarnição militar, o qual abrigava os moradores das investidas dos chefes africanos. A pressão dos povos maraves, que, vindos do norte, acometeram nessa altura a região, contribuiu para que os macuas procurassem a protecção do forte português.

Desenvolvendo uma identidade distinta, os macuas do litoral tornaram-se conhecidos por chuabos (“gente do forte”).

Depois de meados de Setecentos, no contexto das reformas subsequentes à autonomia de Moçambique em relação à Índia (1752), ocorreu uma notória dinamização do porto e da povoação. A coroa recuperou as ordens para fortificar da barra, após terem encalhado aí dois navios holandeses. A construção do forte de Nª Sª da Conceição, em Tangalane, na ponta norte da barra, foi conduzida pelo engenheiro António José de Melo. Obrigou ao transporte de pedra da Ilha de Moçambique e da serra Morrumbala e prolongou-se de 1753 a 1757. Devido às cheias do Zambeze, no ano seguinte, o forte já estava arruinado e em 1770 ainda foi tentada a sua reconstrução em madeira. Mas, prevaleceu a tese dos que advogavam que as dificuldades oferecidas pela barra constituíam um meio suficiente de defesa. Ainda na década de 1750, foi criado o lugar de patrão-mor do porto para conduzir as embarcações desde o litoral, tal como o de condestável, incumbido de manter um farol e um pau de bandeira em Tangalane, para sinalizar a entrada na barra, e de anunciar a chegada dos barcos com tiros de pólvora.

A liberdade de comércio, instaurada em 1757, propiciou o aumento do fluxo comercial e do número de barcos que frequentavam o porto, registando-se mesmo alguma actividade de construção naval. A partir da década de 1770, grande parte da produção de cereais dos prazos e das terras vizinhas passou a ser canalizada para a Ilha de Moçambique. Tratava-se de alimentar não só a população da ilha, como também os navios negreiros. Com efeito, verificou-se um notório incremento do tráfico de escravos para as ilhas francesas do Índico, nos anos de 1770, e para o Brasil, a partir da década de 1790. Os escravos eram encaminhados para a alfândega da Ilha de Moçambique, donde seguiam para os portos de destino. Mas, desde a década de 1790, algumas embarcações recebiam autorização para sair directamente de Quelimane para as rotas transoceânicas, até que, em 1812, foi aberta uma alfândega.

Na sequência de ordens régias de 1761, em 6 de Julho 1763, foi instituída a câmara municipal e a povoação foi elevada a vila, conservando o nome de S. Martinho de Quelimane. O capitão-mor e juiz foi substituído por um comandante, por vezes, também designado governador, o qual podia acumular as funções de feitor da Fazenda.

As oportunidades do negócio esclavagista traduziram-se num assinalável aumento do número de moradores proeminentes: 20 em 1780, 30 em 1790 e 65 em 1822. Apesar do enriquecimento dos seus moradores e do interior das suas casas, a vila manteve-se como um conjunto de quintas dispersas por dois ou três arruamentos irregulares, frequentemente alagados.

As novas edificações municipais, a casa da câmara e o pelourinho, surgiram nos anos de 1770. A igreja de Nª Sª do Livramento foi mandada reconstruir pelo governador e capitão-general Baltazar Pereira do Lago em 1776, mas só foi concluída em 1786 por António de Melo e Castro.




Igreja de Nossa Senhora do Livramento, em muito mau estado depois da construção da nova Igreja




A feitoria, instalada entretanto nas antigas casas dos jesuítas, foi reerguida em pedra na década de 1780. Nos seus armazéns, estacionava um destacamento militar e funcionava a única prisão existente na vila.

Devido à precariedade dos materiais utilizados nas construções antigas, a actual cidade de Quelimane conserva poucos vestígios - um dos quais é a sua igreja - de um passado anterior ao século XIX






Bibliografia:
ANDRADE, António Alberto Banha de (ed.), Relações de Moçambique Setecentista, Lisboa, AGU, 1955. NEWITT, Malyn, A history of Mozambique, London, Hurst & Company, 1995. RODRIGUES, Eugénia, “O porto de Quelimane e a Carreira dos Rios de Sena na Segunda Metade do Século XVIII”, in MENESES, Avelino de Freitas (coord.), Portos, Escalas e Ilhéus no Relacionamento entre o Ocidente e o Oriente, s/l, Universidade dos Açores / CNCDP, 2001. RODRIGUES, Eugénia, Portugueses e Africanos nos Rios de Sena. Os Prazos da Coroa nos Séculos XVII e XVIII, Dissertação de Doutoramento em História, Universidade Nova de Lisboa, 2002.



(Actualizada em 21 de Abril de 2017)









Aviões que voei > Chipmunk


Chipmunk Suíço com as cores da Força Aérea Portuguesa 

Modelo voado

De Havilland DHC-1 Chipmunk Mk.20

Voos relevantes que fiz

14 de Mai 1962: 1º Voo no avião e na Força Aérea Portuguesa, na BA 7, Base Aérea de S. Jacinto, Aveiro. Matrícula do avião: 1330.
14 de Jun 1962: Largado em voo solo, na BA 7 com 07h54m de voo. Matrícula do avião: 1332.
17 de Jan 1967: Último voo neste avião, na BA 5, Base Aérea de Monte Real, Leiria. Matrícula do avião: 1357.

Desenho esquemático de um Chipmunk

Características e história

O CHIPMUNK MK20 é um avião bilugar em tandem (o aluno à frente e o instrutor atrás) metálico, com trem fixo e travões hidráulicos de disco, dotados de duplo comando. Foi utilizado pela FAP para instrução elementar de pilotagem podendo, pelas suas características de voo fazer toda a acrobacia e, em boas condições meteorológicas, voo nocturno e por instrumentos.

Foi também o principal avião de treino da força aérea Britânica e várias outras forças aéreas, durante muitos dos anos pós-guerra.

Desenhado para suceder ao de Havilland Tiger Moth , o Chipmunk voou pela primeira vez em Downsview, Toronto a 22 de Maio de 1946. Embora o design tenha sido desenvolvido pela de Havilland Aircraft of Canada Ltd; o principal designer foi um polaco, Wsiewolod Jakimiuk. O protótipo tinha um motor de 108 kW (145 hp) de Havilland Gipsy Major 1C.

Entrou ao serviço na Força Aérea Portuguesa em 1951, com 76 unidades.
Em 1952, as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico obtiveram licença dos construtores para a montagem deste avião em Portugal. Foram construídas 66 unidades.

Foi utilizado na instrução de pilotagem básica.

Das cerca de 30 unidades que a Força Aérea dispunha e devido ao seu efectivo, foram seleccionadas 7 unidades que, com vista à execução de missões de reboque de planadores da AFA, foram submetidas a várias modificações.

As modificações introduzidas constam de remotorização mais potente (145 HP para 180 HP); novo bloco de travões; novo rádio; transponder; derivas anti-vrille e pintura original da instrução na Força Aérea, com inscrição e emblema da Academia da Força Aérea.

Vários Chipmunks


Chipmunk da Academia da Força Aérea


Especificações:

Fabricante:                De Havilland of Canadá /Canadá
Missão:                      Instrução
Tripulação:                2

Dimensões
Comprimento:             7,75 m
Envergadura              10,46 m
Altura                        2,13 m
Área (asas)               15,87 m²

Peso
Peso total                   647 kg
Peso bruto máximo       990 kg

Propulsão
Motor                          De Havilland Gipsy Major de 4 cilindros em linha, invertido, arrefecidos a ar
Potência                     145 HP, actualmente 180 HP, Chipmunk MK 20 (modif.)

Performance
Velocidade máxima     287 Km/h
Velocidade cruzeiro     204 Km/h
initial climb rate         800 ft (244 m)per minute;
Alcance máximo         445 Km
Autonomia máxima      2,3 h
Tecto máximo           4.820 m
Peso vazio                 647 Kg
Peso máx.     
       à descolagem      990 Kg

Pormenor




Vídeos:

Descolagem:


Acrobacia:
Vista geral:

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Linha Aérea e outros voos - Descolagem de Londres na PIA, no ex-B 747 da TAP


Deus é Grande. Neste caso chamemos-lhe… Alá.

Em 1976, um ano após a descolonização e a Ponte Aérea, a frota da TAP continuava a ter 4 Boeings B747. Ultrapassavam em muito a nossa capacidade de os utilizar rentavelmente. Tanto avião para tão poucos passageiros… Não conseguíamos tráfego para tantos lugares oferecidos. A solução passou pela venda de dois aviões.
 

E foi assim que de Maio desse ano e até ao fim de Agosto, várias tripulações TAP deram assistência técnica em voo aos Pilotos e Mecânicos de Voo da Pakistan International Airlines, PIA, os felizardos que nos compraram os 2 mais modernos aviões da nossa frota de B 747. Eu fiz o último de todos esses voos e com uma história rocambolesca, que conto noutra história aqui.



É claro que os Pilotos paquistaneses a voar esses aviões eram os mais antigos e mais experientes. 

Mas nem sempre humildes, no sentido de aceitarem alguns simples conselhos que os experientes Pilotos e Mecânicos de Voo da nossa companhia lhes davam. Com aquele espírito que nos caracteriza de tudo dar quando se trata de transmitir conhecimento.
 

Hoje a classe de Mecânicos de Voo, depois chamados Técnicos de voo ou simplesmente TVs, desapareceu com a informatização dos cockpits.
 

Grandes senhores, estes profissionais com quem eu privei nessa altura!
 

Os paquistaneses tinham feito o curso na Boeing e agora, a voar já largados e com passageiros pagantes, precisavam da nossa experiência para tornar mais eficiente e segura a complicada tarefa de executar os muitos procedimento que o avião exigia. Especialmente quando uma revolucionária tecnologia tinha sido implementada há pouco na Aviação Comercial. De seu nome a “Nova Tecnologia”.
 

Consistia na execução de todo e qualquer procedimento, normal ou de emergência, seguindo um checklist que era lido pelo Piloto que de momento não estava aos comandos e executado por ambos.
 

Contrariamente ao que antes se fazia e que levava a alguns acidentes: todos os procedimentos tinham de ser executados de cor, em voz alta, volta e meia aos berros, no meio do stress de uma emergência, com alguns itens vitais a ficarem, às vezes, para trás por esquecimento no meio de todo aquele nervosismo…
 

Era muita novidade junta e o nosso papel ali era orientá-los, ajudá-los.
 

E foi assim que numa bela manhã de Maio de 1976, logo num dos primeiros voos, ainda na Placa do Aeroporto de Londres, o nosso Comandante TAP quis explicar ao camarada paquistanês como devia utilizar correctamente o novo sistema electrónico de navegação que equipava aqueles magníficos aviões: o INS, Inertial Navigation System. Equipamento que eles nunca tinham utilizado.
 

O INS funcionava à base de acelerómetros. Na partida de um Aeroporto só tínhamos de lhe colocar as coordenadas do sítio exacto onde estávamos para ele conseguir navegar sem mais ajudas electrónicas externas. E tinha uma grande precisão. Ao fim de dez horas de voo o erro de posição era mínimo. Um equipamento que dispensava qualquer ajuda ou contacto via rádio ou por satélite. 100% autónomo, o que era uma enorme mais-valia.
 

Muito basicamente, para que tudo corresse bem, o que havia a fazer era introduzir no painel do instrumento, além das coordenadas da posição actual, as primeiras 9 coordenadas dos pontos que se iriam sobrevoar e que constavam do plano de voo entregue e aceite pelas autoridades aeroportuárias. 

Nada mais simples e óbvio. O piloto automático encarregava-se de nos levar ao longo desses pontos introduzidos e assim sucessivamente ao longo do voo, por mais longo que fosse.
 

O que o nosso jovem Comandante TAP tentou explicar ao senhor Comandante paquistanês foi que numa descolagem, em que se sobrevoam várias posições espaçadas poucas milhas umas das outras, em curtos minutos, não era boa política colocar no INS todas essas primeiras posições porque rapidamente se esgotava a capacidade do aparelho: tendo só 9 posições de armazenamento de coordenadas, obrigava a estar permanentemente a “abastecê-lo” de novos pontos de modo a permitir que o piloto automático prosseguisse o seu voo ao longo do sinuoso caminho que é, normalmente, preciso percorrer depois de uma descolagem.
 

E com o muito trabalho que se tem, em voo, na saída de um grande Aeroporto, o correcto é colocar o primeiro ponto, no INS, numa posição do mapa já um pouco afastado do aeroporto, quando as distâncias entre os vários pontos a sobrevoar a seguir, já sejam de molde a manter o “abastecimento” do INS sem grande stress. Uma questão de bom senso e até de segurança.
 

Mas naquele dia o homem não estava para aturar aquele jovem Comandante português e com a experiência que tinha disse que sabia muito bem o que devia fazer.
 

A primeira classe do B747 era magnífica e foi para aí que o nosso Comandante e o seu Co-piloto TAP, este que escreve estas linhas, se dirigiram rapidamente, uma vez que os colegas aos comandos sabiam tão bem o que fazer…
 

O nosso Mecânico de Voo ficou no cockpit a ajudar o colega da PIA que manifestou o interesse nisso.
 

E lá foram aquelas centenas de pessoas para o ar em direcção a Frankfurt, Teerão e finalmente, Carachi.



Breves minutos após a descolagem, escassos minutos, muito poucos, num momento do voo em volta acentuada pela esquerda, o nosso Mecânico de Voo desce apressadamente as escadas do upper-deck do B747, que desembocam à entrada da 1ª classe e num riso perdido, entre palavras, gargalhadas e lágrimas soltas lá conseguiu explicar que o Comandante paquistanês estava em pânico com o avião a voltar inexplicavelmente para a esquerda, sendo que a rota era em frente e ele não percebia porquê nem sabia o que fazer…
 
O riso era justificado porque o nosso competente Mecânico sabia perfeitamente o que se estava a passar. O Comandante paquistanês é que não…
 

Quando o INS esgotava as 9 posições que o avião já tinha sobrevoado, indicava ao piloto automático que devia ir agora para a posição Nº1 que entretanto já tinha sido preenchida com as coordenadas da posição geográfica logo a seguir e assim sucessivamente até ao destino.
 

Nesta primeira descolagem dos experientes Pilotos da PIA, aquelas almas colocaram todos os pontos da saída de Londres no INS, a começar pelo ponto onde, no fim da pista, teriam de voltar à esquerda para o 2º ponto e assim sucessivamente. Eram 9 pontos que cobriam umas míseras 10 milhas no mapa. Voadas num ápice.
 

Com a sobrecarga de trabalho normal da descolagem, ninguém se lembrou de “abastecer” o INS de novos pontos para a frente em substituição dos já utilizados tão repentinamente e entretanto o avião estava a voltar, naturalmente, para voar da posição Nº 9, entretanto alcançada, para a posição Nº 1, praticamente o final da pista de onde se descolara breves minutos antes. Era para aí que o avião se dirigia, obediente e previsivelmente, sem nenhuma falha… e sem que aquelas almas conseguissem atinar porquê! Mas a rota era em frente…
 

É o que acontece quando se sabe tudo…
 

Esclarecido o Comandante paquistanês, lá prosseguiu o voo sem mais problemas de maior, com o Controlador de Tráfego Aéreo, em terra, sem perceber muito bem o que tinha sido aquilo.


(Actualizada em 1 de Maio de 2014)



Linha Aérea e outros voos - A minha largada em B 747 pelo Comandante Maya


1974. 25 de Abril. Foi a altura escolhida pelo destino para eu estar a meio das teóricas do curso de Boeing B 747, na TAP.

B 747

Logo a seguir fiz o Simulador, em Seattle. 9 fusos horários para trás. E como havia que poupar (porque é que me há-de calhar sempre a mim…) o Simulador começava sempre entre a meia-noite e as 4 da manhã, de Seattle. Só acertei as agulhas em pleno Atlântico, no voo de regresso.


O Simulador em que fiz o curso do B 747


Seatle, sede da Boeing. Abril de 1974

Seguem-se os voos base (onde tive a sorte de fazer o 1º borrego automático da TAP, CS-TJC) e imediatamente os voos de linha. E foi logo no voo de largada que me havia de calhar pela primeira vez, na TAP, o Comandante Maya!


Comandantes Maya, Mano e Marcelino. Tive a honra de ter sido Co-Piloto dos Capts Maya e Marcelino, no B 747

É preciso ter azar…
A minha pequenez cabia num dedal mas eu tinha de ser largado dentro do tempo regulamentar, custasse o que custasse.
Não correu mal… Mal foi haver quem massacrasse o “velho” Maya com a política. Quem estivesse constantemente a atirar-lhe à cara coisas que não tinham cabimento nenhum, não só por ser no local de trabalho, em voo, mas principalmente porque se misturava a ditadura que havia fanecido com atitudes que os mais velhos tinham forçosamente que tomar para poder sobreviver, naqueles conturbados tempos e sem que se lhes conhecesse qualquer acto que tivesse prejudicado alguém por motivos políticos ou a coberto daquela mesquinha política.
Fez-me pena ver e ouvir um homem que eu respeitava, que era uma lenda, com peso técnico mas de carácter também, em desespero dizer que já não podia mais e tinha de tomar um comprimido para acalmar! Num voo Lisboa, Luanda, Joanesburgo, Luanda, Lisboa…
E foi precisamente na aterragem em Lisboa, que me calhou fazer, num estado semelhante ao de um cantor de Festival da Canção frente ao Pavaroti, que eu vi a minha vida a andar para trás…
O senhor Comandante Maya resolveu fazer uma das dele e brifou toda a gente para o que se ia seguir.
- Tu continuas a aproximação e aterras normalmente e não ligues aos avisos. Tu fazes isto, tu fazes aquilo e eu tomo notas, a ver se a gente percebe como isto funciona.
E vai daí toda a gente se entreteve a dar-me cabo da vida, sem me ligarem nenhuma: ora falhava isto ora aquilo, soltavam-se bandeiras de cores variadas, apitava tudo quanto era corneta, guizos e sininhos, eu sei lá!... e a pista mesmo ali, caraças!
Mas a aterragem foi boa e eu fui largado!
E vi-me livre do “Fantasma” que era para mim o Comandante Maya que passou então a ser um Senhor, desligado das brumas da lenda que era até aí e que passei a ver com outros olhos, ainda com mais respeito e admiração.
Tive a sorte de ter um colega de curso, na TAP, em 1969, chamado Pedro e mais tarde um Co-Piloto, de seu nome Henrique, hoje Comandante de barba rija, que fez o mais espantoso e crítico borrego que já fiz, depois de estarem as rodas no chão, em Bogotá, num A310 das Aerolíneas Argentinas, de que éramos, os três, tripulantes em 1994.
As minhas lides de Linha Aérea estão, bem, cheias de Mayas.
Um abraço a todos os Mayas.

domingo, 2 de outubro de 2011

Na Guerra do Ultramar - Peso e centragem


Não é bom chatear certos aviadores!



Das várias actividades que os pilotos da Força Aérea tinham de executar no Ultramar, entre muitas outras, constava o transporte de correio ou de personalidades, por exemplo.
 

Algumas destas personalidades, felizmente poucas, eram pessoas com um grande ego e tinham dos pilotos a imagem de um condutor, que os conduziria, a ordens suas, para onde eles bem entendessem.
 

Mas quando se confrontavam com alguns pilotos, assim a modos que… mais peludos ou menos permeáveis a estas investidas, as coisas nem sempre lhes saiam bem…
 

Metangula, na Província do Niassa, Moçambique, deve ser, nos dias de hoje, um paraíso, em pleno Lago Niassa, virada ao Sol poente, aos magníficos pôr-do-sol Africanos.




Foto de José Augusto Martins. 
Metangula nos dias de hoje. A pista está na ponta direita do istmo


Metangula era, durante a Guerra do Ultramar, um aquartelamento dos Fuzileiros, com uma pequena pista construída mesmo ao rasar da água.

Foi aqui que me deparei com um dos mais caricatos episódios aeronáuticos da minha carreira. Mas este fica para outra história.
 

Havia aqui um funcionário administrativo dos de ego bem desenvolvido, ou talvez distraído, que por vezes se punha em bicos dos pés para mostrar a sua autoridade a todos (que ele achava serem seus subordinados).
 

Um dia de 1968, quando o DO-27 pilotado pelo Sargento Brochado chegou á “placa”, o funcionário esperou que o aviador saísse e disse-lhe:
 

- Eu depois vou consigo!
 

As instruções que o Brochado trazia de Vila Cabral não contemplavam tal passageiro. Mas este episódio não o beliscou minimamente.
 

Depois do almoço fizeram-se os preparativos para a viagem de regresso a Vila Cabral. 

Carregou-se o DO com o pessoal e material previsto mais… o tal excedentário senhor que sem dar cavaco a ninguém se instalara lá atrás, impante de autoridade.
 



Dornier DO-27 em voo


E o Brochado agia como se nada de especial se passasse.

Porta fechada, adeus a todos, capacete na cabeça, cintos apertados, checklist executado, o nosso aviador, antes de pôr o motor do avião em marcha, volta-se pela direita, para trás, curioso e indaga o sujeito:
 

- Desculpe lá, o senhor aí atrás pesa... para aí, quanto?
 

- 75 quilos.
 

- Temos 5 quilos a mais para a descolagem. O senhor tem de desembarcar!
 

Desembarcado o fulano, o Brochado põe o motor do DO em marcha, faz-se à pista, com o peso dentro da legalidade e descola calmamente rumo a Vila Cabral, hoje Lichinga.
 

Este meu amigo Brochado sempre foi um aviador muito certinho.

Muito competente...



(Actualizada em 28 de Agosto de 2016)