segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Outras Navegações - Os mais belos lugres bacalhoeiros do mundo


Lugre Gazela Primeiro actualmente pertença do Philadelphia Ship Preservation Guild                

             Ainda a navegar…


A nossa 


«««    White Fleet   »»»

 


A frota de lugres bacalhoeiros era conhecida em todo o mundo como a “White Fleet” porque todos eles tinham os cascos pintados de branco, com velas também brancas. Uma necessidade surgida durante a Segunda Grande Guerra em que Portugal não participou por se ter declarado pais neutro no conflito.



Lugre Argus fundeado em Belém para a cerimónia de Bênção
Originalmente cada armador pintava os seus navios com a cor de que mais gostava e muitos bacalhoeiros tinham o casco pintado de cor de sangue de boi com uma risca amarela na amurada.

Na 1ª Grande Guerra foram vários navios nossos afundados pelos Alemães, incluindo um lugre que fazia a viagem inaugural e cujos tripulantes foram obrigados a tentar atingir terra em escaleres a remos, em alto mar, ao largo da Galiza. E conseguiram...






Durante a 2ª Grande Guerra os lugres Delães e Maria da Glória foram afundados em 1942 por submarinos alemães. Do Delães todos se salvaram, mas do Maria da Glória apenas sobreviveram sete tripulantes que com fome e em desespero até comeram o cão do navio...

O comandante do lugre, capitão Sílvio Ramalheira foi um dos sobreviventes e demorou muitos meses a recompor-se.



Lugre Hortense
Depois destes naufrágios, tomou-se a decisão de pintar os navios de branco com o nome e a nacionalidade bem pintados no costado e a bandeira portuguesa nas amuras e nas alhetas.


Foi assim que, a partir de 1943, a nossa frota bacalhoeira ficou mundialmente conhecida por "White Fleet".

Esta decisão foi tomada de acordo com os Aliados e comunicada a todas as partes em conflito.

A frota de pesca portuguesa passou a navegar em grandes comboios de lugres brancos, com velas brancas e sem contactos rádio durante a travessia, proibidos pelos nazis Alemães.

Os bacalhoeiros distinguiam-se bem de qualquer outro navio em alto mar…

Só os nossos barcos tinham esse aspecto e eram belíssimos. Os mais bonitos de todas as frotas de pesca em qualquer parte do mundo.



Aqui se mostram e se conta uma resumida história dos 4 mais conhecidos veleiros portugueses da pesca do bacalhau, alguns com mais de 70 anos, 3 deles em perfeito estado de conservação, um nos Estados Unidos, outro na Marinha Portuguesa e o terceiro propriedade da firma Pascoal & Filhos.

Um quarto está ainda a aguardar restauro e foi também adquirido pela Pascoal & Filhos.



Lugre Gazela Primeiro anos sessenta. Fotos Bensaúde


São eles o “Gazela Primeiro” construído em madeira na viragem para o século XX, o “Creoula” e o “Santa Maria Manuela”, gémeos e o “Argus”.

Estes três últimos construídos em aço e com características muito semelhantes.

Os gémeos foram construídos lado a lado nos estaleiros navais da CUF na Rocha Conde de Óbidos em Lisboa em 1937 para a Parceria Geral de Pescarias e Empresa de Pesca de Viana e o “Argus” na Holanda em 1938.







Os “gémeos” foram lançados à água no mesmo dia, 10 de Maio de 1937.

Primeiro o Santa Maria Manuela e um minuto depois, o Creoula.

Momento solene este que contou com a presença do  Presidente da República, Gen. Óscar Carmona, e de muitas personalidades do Estado Novo.

Cerimónia abrilhantada pela da Banda da Armada, tendo na ocasião sido prestadas honras militares por uma companhia de Marinha proveniente do N. E. Sagres.

Portugal fica agora com uma frota única no mundo. Três veleiros de quatro mastros!

Vamos visitar estas belezas, exemplo dos muitos lugres que protagonizaram centenas de campanhas de pesca na Terra Nova e Groenlândia durante mais de 90 anos e com 2 a 3 milhares de pescadores por época..

Mas o tempo do bacalhau pescado à linha e em dóris de um só homem, acabou.

E no entanto esse tempo ficou para sempre entranhado nas redes daqueles que o viveram.

Talvez mais de um quarto de milhão de portugueses tenha participado.

Vamos à visita! Todos a bordo!

Comecemos pelo lugre mais antigo.




O mais antigo veleiro do mundo ainda a navegar!




«« O Gazela Primeiro »»

 

 

Características:


Comprimento: 41.7 m
Comprimento incluindo gurupés (ver nota) e retranca: 54 m
Boca máxima: 8.22 m
Pontal 5.12 m
Arq. Líquida 309.21 t
Número oficial: LX 6N

Pertencia à mesma empresa armadora do Creoula, a Parceria Geral de Pescarias

Nota: Gurupés é um mastro que se projecta, quase na horizontal, para vante da proa dos veleiros




 

Era conhecido como o "Naviozinho





 
O Gazela Primeiro, foi provavelmente construído entre 1899 e 1901 no estaleiro de J. M. Mendes, em Setúbal. O Pinho português foi a principal madeira usada no casco e na coberta. Os 3 mastros e as vergas são de Pinheiro-do-Oregon.

Na primeira viagem para a Terra Nova foi seu Capitão Paulo Bagão.



Em cada Primavera o Gazela Primeiro deixava o porto de Lisboa com 35 dóris empilhadas na coberta em montinhos separados e uma tripulação de 50 pessoas onde se incluíam 35 pescadores/marinheiros e 2 cozinheiros. Transportava sal que era depois usado para conservar o peixe capturado (bacalhau, solha, palmeta, eglefim).

Só há registos a partir de 1903 e 1904 por isso pouco se sabe dos primeiros anos do navio.

Em 1903 o Capitão Paulo Fernandes Bagão iniciou o registo a 18 de Maio desse ano.



Nesse dia levantou ferro às 5 da manhã, foi rebocado rio Tejo abaixo e rumou a oeste ao longo do paralelo 38 até atingir águas fundas. A uma média de 100 milhas por dia atingiu os Grandes Bancos a 7 de Junho, depois de ter percorrido 1.900 milhas.

Os 126 dias seguintes foram passados naquela zona, colocando diariamente (desde que o tempo o permitisse) os dóris na água, fazendo deslocações ocasionais a St. John´s para reabastecimento.




A capacidade do navio era de 350 toneladas, mas o como o peixe perde 20 por cento do seu peso por desidratação ao ser salgado, carregava-se normalmnte mais do que aquele peso. O peixe também encolhia no tamanho e o balanço das ondas tendia a acamá-lo.

Com ventos favoráveis de oeste, chegava a Portugal em 13 dias, descarregava o peixe e pagava à tripulação. Durante o Inverno procedia-se a trabalhos de manutenção.



Estas viagens à Terra Nova continuaram até aos anos 30, quando os bancos começaram a dar sinais de esgotamento devido à sobre pesca provocada pelo surgimento dos barcos motorizados e com sistemas de pesca com redes, a pesca de arrasto.

A frota começou então a demandar águas mais a norte, até ao estreito de Davis, entre a ilha de Baffin e a Gronelândia, acima do Círculo Polar Ártico.

Ver (brevemente neste Blogue) a história “Bacalhau com Dóris” onde este episódio e muitos outros sobre a pesca do bacalhau com dóris estão documentados.

Por volta de 1938 tornou-se evidente que o Gazela Primeiro tinha de ser equipado com um motor devido às difíceis condições de tempo e navegabilidade daqueles mares.

O barco foi então acrescido de mais 2 metros e levou um motor diesel de 180 cavalos. Podia fazer 7 nós com o motor, mas as velas continuaram a ser a principal fonte de propulsão, por motivos de poupança.

Recebeu igualmente um rádio e um gerador que fornecia iluminação e refrigeração. Uma cabine foi também colocada para proteger a bússola e a roda de leme. Outro melhoramento foi um outro motor diesel para içar a âncora.

Em Fevereiro de 1960 estava o "Gazela" a completar de aparelhar, no cais da Gafanha da Nazaré, próximo dos estaleiros onde tinha concluído a grande reparação de 1959/60.

Pintado de fresco e com os cabos dos mastros e das velas a brilhar de novos, estava com um óptimo aspecto e por isso era muito observado e visitado. Já nessa época era o único navio de arte redonda, que continuava a trabalhar na marinha mercante portuguesa, pescando nos Grandes Bancos da Terra Nova e no mar da Groenlândia.



Foto de Luís Miguel Correia


As velas das primeiras caravelas eram triangulares, vela latina, do Mediterrâneo. Foi Bartolomeu Dias quem recomendou outro tipo de velas. As que usou para dobrar o Cabo Bojador, não triangulares, para conseguir mais velocidade. É esta a origem do termo arte redonda.
 

A última viagem do Gazela Primeiro como pesqueiro teve lugar em 1969. O capitão, Aníbal Carlos da Rocha Parracho abriu o diário de bordo a 25 de Maio, e 15 dias depois chegavam aos bancos.

Nos 123 dias seguintes, apenas em 76 foi possível pescar.

Devido ao mau tempo, nevoeiros, ventos, tempestades e um guincho partido a pesca pouco rendeu e o navio deslocou-se para os bancos de Virgin Rocks. Mas o tempo continuou a causar problemas, procurando o Gazela refúgio em S. João da Terra Nova para escapar a seis sucessivas tempestades tropicais, desde a Ana à Eva. Só a Debbie obrigou o navio a permanecer oito dias no cais.

Em Setembro teve de voltar novamente a S. João com avaria no motor. Ainda ancorado, a tempestade tropical Ingra abate-se sobre o navio e na noite de 1 de Outubro o Gazela colide com o bacalhoeiro a motor "Vila do Conde" sofrendo danos consideráveis na proa. Foram necessários mais 13 dias de reparações.

Finalmente, a 14 de Outubro, iniciou a viagem de regresso a Lisboa que durou 11 dias. Continuava em boas condições para navegar mas já não podia concorrer economicamente com os arrastões mais modernos e eficientes.

Por esta altura o Museu Marítimo de Filadélfia andava à procura de um veleiro de madeira, antigo.

E foi assim que o Gazela Primeiro emigrou para os Estados Unidos, adquirido pelo filantropo William Wikoff Smith para aquele Museu de Filadélfia.

 
O Gazela americano. Foto Philadelphia Ship Preservation Guild


Em 24 de Maio de 1971, com uma tripulação americana e um antigo engenheiro do Gazela Primeiro, o navio partiu para a sua nova casa pela rota de Colombo via Canárias e S. João. Chega finalmente a Philadelphia  no dia 8 de Julho.

Aqui foram-lhe feitas algumas adaptações para receber visitantes. Foi-lhe igualmente adicionado um pequeno barco motorizado português da pesca à baleia, de nome Gazelita.

Mas no dia 2 de Janeiro de 1972 um fogo posto, enquanto permanecia acostado ao Cais 15 de Philadelphia, ia dando cabo do navio, não tivesse sido o fogo contido antes de atingir o depósito de combustível.

A partir de 1974 o Gazela submete-se a um extensivo programa de treino com os US Naval Sea Cadets com vista ás comemorações do Bicentenário da Independência Americana. Sofre também profunda manutenção com trabalhos de recuperação e renovação em todo o navio. Foi até instalado um radar novo com mais alcance.

E finalmente no dia 4 de Julho de 1976 (Dia Nacional dos Estados Unidos) o Gazela participou orgulhosamente no desfile de Tall Ships em Nova Iorque, nas grandes comemorações do Bicentenário os USA.

Foto Philadelphia Ship Preservation Guild


Em 1990 passou para a posse de um grupo de amigos, uma organização sem fins lucrativos, a Philadelphia Ship Preservation Guild.




Desde então tem ocupado o seu tempo num cais de Filadélfia como atracção turística, ou velejando com fins didácticos e honoríficos ou ainda participando em diversos filmes, nomeadamente o "Entrevista com o Vampiro" de Neil Jordan com Brad Pitt, Tom Cruise e António Banderas, de 1994.



Foto Philadeiphia Ship Preservation Guild


Este navio histórico tem sido assim preservado graças à mão de obra de voluntários que dedicam horas de trabalho à sua manutenção e conservação.



Foto Philadeiphia Ship Preservation Guild


Retirado e adaptado de:

ANC-Associação Nacional de Cruzeiros
Roda do Leme
Philadelphia Ship Preservation Guild

Vídeo do desfile dos grandes veleiros em Nova Iorque 2012:
Parade of tall ships


Vídeo  dos grandes veleiros em Lisboa 2012:

Para saber onde está o Gazela neste momento, vá a:
Where is Gazela Now?




«« Lugre Santa Maria Manuela »»

 

 





O “Santa Maria Manuela”, encomendado pela Empresa de Pesca de Viana, foi construído lado a lado com seu gémeo “Creoula” nos estaleiros da CUF em Lisboa na Rocha Conde de Óbidos em 1937 no tempo recorde de 62 dias úteis.



Com os seus 68,64m de comprimento fora-a-fora, enverga regularmente 11 velas latinas com uma área total de 1.130m2 dispondo ainda de propulsão a motor com uma potência de 746kW (1.010Cv).

O aço utilizado na construção é de elevada qualidade, uma vez que se destinava à construção de 2 navios de guerra, acabando por ser utilizado nos cascos do “Santa Maria Manuela” e do seu gémeo “Creoula”.

É um navio histórico que participou nas famosas campanhas de pesca do bacalhau à linha até ao início dos anos 1990s.

Os “gémeos” foram lançados à água no mesmo dia, 10 de Maio de 1937.

Primeiro o Santa Maria Manuela e um minuto depois, o Creoula.

Momento solene este que contou com a presença do  Presidente da República, Gen. Óscar Carmona, e de muitas personalidades do Estado Novo.

A festiva cerimónia foi abrilhantada pela da Banda da Armada, tendo na ocasião sido prestadas honras militares por uma companhia de Marinha proveniente do N. E. SAGRES.

Inicialmente pertencente à Empresa de Pesca de Viana, esta manteve o “Santa Maria Manuela” em actividade até 1963, ano em que o vendeu à Empresa de Pesca Ribau, da praça de Aveiro.



O navio ainda operou na sua forma original durante alguns anos, tendo, no final da década de 1960 sofrido importantes transformações, consequência das inovações tecnológicas introduzidas na pesca do bacalhau.

Em 1993, apesar das benfeitorias efectuadas, o navio foi considerado obsoleto e abatido para demolição! Apenas o casco foi preservado e a partir daí iniciou-se um longo processo que veio a culminar na sua recuperação e na restituição do património identitário nacional que é o “Santa Maria Manuela” ao seu mar e às suas gentes.

O Santa Maria Manuela foi, em boa hora,  adquirido pela firma Pascoal & Filhos que entre 2007 e 2010 levou a cabo um longo e bem documentado processo de reconstituição do navio cujo casco se encontrava a aguardar melhores dias no Porto de Aveiro...



    O Santa Maria Manuela em 2007 no início do restauro / Foto do Blogue "Caxinas a Freguesia"



Foto do Blogue do Santa Maria Manuela






Foi nos estaleiros da Navalria, em Aveiro que o Santa Maria Manuela cumpriu a fase inicial da sua recuperação, até finais de 2008.

Seguiu depois para um estaleiro em Marin, na Galiza, onde completou o restante restauro.

Voltou a casa na tarde do dia 2 de Maio de 2010 e à vida activa, após a inauguração uma semana depois, no Cais dos Bacalhoeiros da Gafanha da Nazaré, Aveiro.









Já restaurado e novamente apto a navegar e em excelentes condições, tornou-se num navio magnífico agora como navio de cruzeiros de “Treino de Mar” ou como base de apoio à investigação científica, o “Santa Maria Manuela” não voltará a levar pescadores para os Bancos da Terra Nova e Gronelândia, representando uma aposta no mercado do turismo e não só, onde se destaca pela inovação e exclusividade da oferta.






Com capacidade para 50 participantes activos na vida de bordo, o “Santa Maria Manuela” dispõe de todas as comodidades e não tem restrições na área de navegação.

«Recente aquisição (2007) na equipa de trabalho do SMM é o director da Fábrica Ciência Viva, Paulo Trincão, cuja experiência nas áreas da ciência e cultura em consonância com a Universidade de Aveiro é da maior valia. Segundo afirma, o projecto é de enorme dificuldade e necessita de apoios, mas mesmo que os mesmos não surjam, o trabalho será feito. O seguinte excerto de Paulo Trincão exprime a grandeza do que representa o SMM e demonstra que a vontade comanda a vida:

“É um navio transatlântico, que pode ir a qualquer parte do mundo. Pode ir às Galápagos ou à Antártida, e há-de ir. Não é apenas um navio para estar parado e ser visitado, é para navegar, para andar no mar e ter outro tipo de vivências. A sua reconstrução não é de faz-de-conta, é para funcionar”.»
Do Blogue Caxina-a-freguesia.blogs.sapo.pt/2007/09/

O lugre Santa Maria Manuela na sua primeira prestação turística fez parte das cerimónias oficiais de recepção ao Papa Bento XVI



Foto de Francisco Bernardo no site da Pascoal


A meritória iniciativa da firma Pascoal & Filhos, que já adquiriu também o casco do Argus e, curiosamente foi fundada também em 1937, significou já um investimento de oito milhões de euros.

É uma acção de registar e louvar, pois  permitiu salvar da sucata um testemunho vivo da nossa cultura e da gesta marítima portuguesa do 2º quartel do século XX.




Retirado e adaptado de:

Revista de Marinha

Site Santa Maria Manuela 

Diário de Aveiro online





  «« Lugre Creoula »»

 

 

 









Tipo:    Lugre de 4 mastros
Comprimento de fora a fora    67,365 m
Comprimento entre perpendiculares    52,765 m
Boca    9,9 m
Pontal    5,94 m
Altura dos mastros    36,0 m
Deslocamento leve    894 ton.
Deslocamento máximo    1300 ton.
Calado    4,7 m
Aguada    146 ton.
Combustível (gasóleo)    60 ton.
Motor principal    MTU / 8 cilindros
Potência    500 cv
    
Lotação
    6 Oficiais
    6 Sargentos
  26 Praças
    
Capacidade de embarque
   51 Instruendos
     1 Director de treino










HÁ 77 ANOS...

 






Segunda-feira, 10 de Maio de 1937, foi dia de festa na Rocha do Conde de Óbidos, mais precisamente nas instalações do estaleiro naval da Administração-Geral do Porto de Lisboa, então concessionado à Companhia União Fabril.

Aproveitando a preia-mar, pouco depois das 16 horas, nesse dia foi lançado ao Tejo o lugre Creoula, acabado de construir para a Parceria Geral de Pescarias e destinado à pesca do bacalhau, tendo feito a sua primeira campanha de pesca nesse mesmo ano



Em 1937


Quando foi construído em 1937 para a Parceria Geral de Pescarias, o Creoula  apresentava o casco pintado de cor sangue de boi com uma risca amarela, como se pode ver na fotografia tirada por ocasião da festa de bênção da frota bacalhoeira de Abril de 1938.


Em 1938



O Capitão A. Marques da Silva comandou o Creoula nas campanhas de 1968 a 1972 (e supervisionou anos depois a recuperação do navio e sua adaptação a UTM).

Em 1973 fez a última campanha como bacalhoeiro.

Em 1979 o Creoula foi adquirido por compra à Parceria Geral de Pescarias pela Secretaria de Estado das Pescas, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura, com a finalidade de nele ser instalado um museu de pesca.



Foto António Pina





Na primeira docagem levada a efeito, verificou-se que o seu casco se encontrava em óptimas condições, tendo então sido deliberado que o navio se manteria a navegar e seria transformado em Navio de Treino de Mar (NTM) para apoio na formação de pescadores e possibilitar a vivência de jovens com o mar.




Para tal, a zona de meio navio, onde ficava o porão de peixe, foi redimensionada e aproveitada para as cobertas de instruendos, camarotes e câmara de sargentos, refeitório das praças e instruendos, casas de banho e estação tratadora de esgotos.

Em 1 de Junho de 1987 e de acordo com um despacho, o "Creoula" foi formalmente entregue ao Ministério da Defesa Nacional, passando a ser designado como Unidade Auxiliar de Marinha (UAM 201) e classificado como "Navio de Treino de Mar (NTM)".





Em 1992 o navio sofreu algumas alterações na zona de meio navio, de que se destaca o aproveitamento duma das cobertas de instruendos em benefício de um espaço que funciona como biblioteca e sala de aulas.



Foto de António Pina







Todo o interior do navio era inicialmente revestido a madeira de boa qualidade, e o porão calafetado para evitar o contacto da salmoura com o ferro.

É um dos poucos navios europeus que conta com uma guarnição mista, militar e civil.






Foto da pág oficial da Marinha Portuguesa no FaceBook com  o Navio de Treino de Mar Creoula saído do Cais da Ribeira, Porto, a navegar com a Universidade Itinerante do Mar (UIM) até às Berlengas. Fazem parte da UIM, as Universidades do Porto, de Oviedo e a Escola Naval.           10 Ago 2014




Foto da pág oficial da Marinha Portuguesa no FaceBook



Actualmente é comandado pelo Comandante Cruz Martins.










Vídeos a não perder com viagens no Creoula:

Bee NTM Creoula 2014 - Barcelona
Reportagem RTP Bee NTM Creoula 2013 - Chegada à Madeira


Adaptado de:

NTM Creoula
     Portal da Marinha

Confraria Marítima

Lugre Creoula de 1937
    de Luis Manuel Correia

Revista de Marinha
    Santa Maria Manuela e Creoula: 75 anos de história

Facebook da Marinha Portuguesa

Numenclatura sobre Velas e Mastros
    numa edição do próprio NTM "Creoula"

Site NTM "Creoula"



«« Lugre Argus »»

 

 

 


O Argus, o novo Argus, porque houve outro que fez a sua última campanha de pesca em 1938, foi construído na Holanda em 1939, era o irmão mais novo dos “gémeos” Creoula e Santa Maria Manuela.



Em 1939 na Holanda


Era em tudo semelhante a eles.

Pertencia à Parceria Geral de Pescarias com sede no Barreiro, uma empresa da família Bensaúde, açorianos, de origem judia.


 O Argus andou na pesca do bacalhau até 1970.



Em 1974, finda a pesca do bacalhau à linha por não ser de todo rentável face aos grandes arrastões que dizimaram por completo milhões de cardumes, o "Argus" acabou por ser vendido á firma canadiana White Fleet Cruse Ships.













Que depois o revendeu a uma empresa americana de “Navios Históricos” em Miami.
 




Foto Luis Miguel Correia









Foi então reconstruído e transformado num veleiro para cruzeiros turísticos nas Caraíbas com o nome Polynesia, o que lhe permitiu resistir aos anos e continuar a navegar até ter sido resgatado na ilha de Aruba.








Em 2008 o "Polynesia" foi comprado, novamente pela empresa Pascoal & Filhos e aguarda agora a sua reconstrução e regresso ao registo português.

O Argus, como o Santa Maria Manuela, foram salvos de uma destruição muito provável, pelos empresários Aníbal Paião e João Vieira donos da empresa Pascoal &Filhos desde sempre ligados à pesca e ao comércio do Bacalhau.




Retirado e adaptado de:

Site oficial do NTM CREOULA
Blogue Caxinas...de "Lugar" a Freguesia





Últimos veleiros construídos para a pesca do bacalhau:


1938 - "NOVOS MARES" - Lugre-motor de 4 mastros. Devido à segunda guerra mundial, fez as campanhas de 38 e 39 só à vela e sem máquina. Esta só foi instalada para a campanha de 1940.   
1939 - "AVIZ" - o primeiro lugre-motor de 4 mastros (mastros mochos, sem mastareus e sem pau da bujarrona) a ser construido nos estaleiros do Mestre Mónica, na Gafanha da Nazaré sob a vigilância do Lloyd's Register of Shipping.
1940 - "DOM DENIZ" - Lugre-motor de três mastros, bem guindados (altura) e de pouca palha (diâmetro) e sem pau da bujarrona. (Ver fotos no Blue Moon I)
1945 - "MARIA DAS FLORES" e "MARIA FREDERICO".
Lugre-motor "VIRIATO" construido na Gafanha da Nazaré   
1948 - "ADÉLIA MARIA", "COIMBRA" e "CONDESTÁVEL".   
1953 - "LUIZA RIBAU". Último veleiro construído.












Outras Navegações - Yacht Amélia - O lado B de El Rei D. Carlos

 Logo "Yacht Amélia" desenhado por El Rei D. Carlos. Montagem minha        














D. Carlos é reconhecido como
o fundador da Oceanografia Portuguesa.




«O monarca sábio»
 como lhe chamou o Príncipe do Mónaco.







D. Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael
Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão
de Bragança Sabóia Bourbon Saxe-Coburgo-Gotha
 



Foi um dos pioneiros a nível mundial.




Aguarela desenho do Rei D. Carlos - 1885      

Apaixonado pelo mar, levou a cabo 12 campanhas oceanográficas entre 1889 e 1908, ano do regicídio.

O naturalista Alberto Alexandre Artur Girard, falecido em 1914, conservador do Museu de História Natural da Escola Politécnica foi quem lhe serviu de mestre na orientação científica de tão relevante projecto.

O interesse maior de El Rei era o conhecimento detalhado da fauna marítima da costa portuguesa, orientado para a vertente económica das nossas pescas.





El Rei D. Carlos era um homem sensível, humano, muito inteligente mas também artista. Pintor de talento deixou-nos inúmeras aguarelas.






















Ilustrou primorosamente um catálogo das aves de Portugal.


Assina como Carlos de Bragança







Aguarela do Rei D. Carlos de um peixe capturado em Sesimbra -1904    


Diversos estudos nas nossas águas anteriormente feitos por cientistas estrangeiros e a sua admiração e amizade para com o Príncipe Alberto de Mónaco, um dos maiores oceanógrafos de então, levaram-no a ir mais longe e a abrir Portugal à sua própria Oceanografia começando ele mesmo por estudar as correntes marítimas e a topografia da baia de Cascais em Agosto de 1896.

Segundo o próprio Rei, "em 1 de Setembro de 1896 tivemos o prazer de começar o primeiro cruzeiro oceanográfico nacional nos mares de Portugal"





Todo aquele acervo científico estudado e recolhido nas 12 campanhas oceanográficas, colocaram Portugal na vanguarda daquela ciência. Poucos países então se dedicavam a estes estudos.

Foram várias as exposições nacionais e internacionais promovidas para divulgação do precioso conhecimento adquirido.

Para levar a cabo todas aquelas missões em alto mar El Rei D. Carlos equipou-se com embarcações que espelhavam o contínuo desenvolvimento e progresso das suas investigações.

Com uma característica comum.






















Todos os seus barcos se chamaram “Amélia” em homenagem à Rainha D. Amélia de Orleães, sua mulher.







O "Yacht Amélia I" protagonista da primeira expedição científica foi utilizado pela primeira vez em 1896.











Era um Yacht de casco de ferro com 117 toneladas de deslocamento e 35m de comprimento e três mastros, desenhado pelo próprio Rei, para trabalhos costeiros.

Estava apetrechado com três embarcações pequenas e alguns apetrechos de investigação.





Aguarela de El Rei D. Carlos










 Tinha o senão de baloiçar imenso mesmo com mar bonançoso. Além disso era desprovido de laboratório o que no entanto rapidamente se veio a tornar imprescindível desde as primeiras excursões nas nossas costas.







Baia de Cascais 1885 - Aguarela de El Rei D. Carlos                   



D. Carlos viu-se obrigado a trocá-lo já em 1897.


Aguarela de El Rei D. Carlos







Originalmente baptizado “Geraldine” o Amélia II, principalmente destinado à oceanografia, estava equipado com quatro pequenas embarcações, uma das quais a vapor para além de vários instrumentos adequados à recolha preparação e conservação de peixes e outras espécies marítimas.


O Amélia II permitia também alojar diversos investigadores.


Para exposição permanente das suas investigações, D. Carlos inaugura em 1898 o Aquário Vasco da Gama e promoveu exposições no Rio de Janeiro e em Milão, bastante admiradas pela comunidade científica mundial.

No entanto em 1899 D. Carlos ainda não satisfeito e com o avançar dos progressos nas suas investigações decide substituí-lo.



Compra o Yacht “Yacona” e rebaptiza-o como Amélia III.










Com dois mastros, tinha 55m de comprimento, equipamento científico específico para a oceanografia e um laboratório.



Mas não era ainda o ideal.

Ainda não era o seu navio oceanográfico.



Razão pela qual El Rei D. Carlos o trocou em 1901 pelo quarto Yacht Amélia.



O Amélia IV. O último que viria a utilizar, até 1907.




Era um navio a vapor com 70 metros de comprimento.

Foi adquirido como Yacht real, navio oceanográfico e vaso de guerra.

Tinha excelentes condições para a oceanografia e estava também bastante bem equipado.

O “Banshee”, seu nome de origem e agora Amélia IV, chegou a Cascais no dia 2 de Novembro de 1901.

Como vaso de guerra era um Cruzador de 2ª classe com casco de aço.






Equipado com seis pequenas embarcações, uma delas era movida a electricidade e outra a vapor.












Era um autêntico navio oceanográfico que elevou El Rei D, Carlos ao mais alto nível internacional nesta ciência de que Portugal foi um dos poucos pioneiros.







Como resultado das expedições oceanográficas são também publicadas obras de divulgação científica como:


Yacht Amélia: campanha oceanográfica de 1896. Em Lisboa pela Imprensa Nacional,1897.

Pescas Marítimas. Em Lisboa pela Imprensa Nacional, entre 1899 e 1904, 2 vols.

    Vol. I: “A pesca do atum no Algarve em 1898 (Ichthyologia)”.

    Vol. II: “Esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as Campanhas de 1896 – 1903”.

D. Carlos de Bragança - bulletin des campagnes cientifiques accomplies sur le yacht “Amélia”. Lisbonne: Imprimerie Nationele, 1902, 112 p.





Novembro de 1901

D. Carlos, a Casa Real, tinha outros três Yachts:


Yacht Palhabote "Lia"





















 


Yacht "Sado"



Yacht "Viking"















D. Carlos não conseguiu levar a cabo a inauguração de um Museu Oceanográfico que pretendia montar no Palácio das Necessidades por ter sido barbaramente assassinado no dia 1 de Fevereiro de 1908.



Regicídio - Quadro de Paula Rego




Foi o filho El Rei D. Manuel quem legou todo o espólio à Liga Naval Portuguesa exposto então numa secção oceanográfica do Museu de Marinha na altura existente no Palácio dos Duques de Palmela, no Calhariz.

Em 1929, extinta aquela Liga Naval, o acervo da exposição passa para o Museu Condes de Castro Guimarães em Cascais, sendo mais tarde doada, em 11 de Junho de 1935 e por escritura pública notarial, ao Aquário Vasco da Gama.

A Biblioteca Científica do Rei, incluindo verdadeiras preciosidades bibliográficas e constituindo um espólio de valor inimaginável, foi também oferecida nessa mesma altura.

Actualmente todo o seu enorme e fantástico património, contributo da nossa valiosíssima e pioneira Oceanografia de então, continua patente no Aquário Vasco da Gama, desde 20 de Maio de 1943.










Foi no Amélia IV que D. Manuel II, último Rei de Portugal e a Rainha D. Amélia sua mãe embarcaram ao largo da Ericeira em direcção a Gibraltar, a caminho do exílio na Inglaterra, no dia 5 de Outubro de 1910, depois do golpe militar que derrubou a Monarquia.












Alguns dos sítios por onde naveguei para colher elementos para esta história:







segunda-feira, 7 de julho de 2014

Outras Navegações - A enviada “Bom Sucesso”





















7 de Julho de 1808.

Foi neste dia que o Caíque “Bom Sucesso”, a que os Olhanenses chamam “a enviada”, partiu do então lugar de Olhão para o Brasil.


Réplica actual do Caíque. Foto de António Neves  


Foi enviada em demanda de D. João, Sua Alteza o Príncipe Regente Nosso Senhor.

A bordo seguia uma tripulação de 17 marinheiros, pescadores de Olhão.

O Caíque foi oferecido pelo Olhanense Miguel do Ó com o fito de entregar ao Príncipe Regente no Rio de Janeiro notícias sobre os factos havidos dias antes no Reino dos Algarves. Era mesmo assim que se chamava oficialmente.

                                                                                                                         

Estava inaugurado o Correio Marítimo entre Portugal e o Brasil.


O governo regente do Algarve entregou ao Mestre da embarcação, Mestre Garrocho, uma série de documentos dando notícia da Restauração do Algarve, bem assim como uma carta datada de 2 de Julho, do Compromisso Marítimo de Olhão em que se contavam todos os factos então acontecidos. A carta fora redigida por João da Rosa.










Os franceses de Junot, comandante da 1ª invasão francesa ocorrida menos de oito meses antes, tinham abandonado o litoral Algarvio escorraçados pelo povo na sublevação do lugar de Olhão, ocorrida no dia 16 de Junho de 1808.




Depois de Olhão, também Loulé e Lagos se revoltaram. E três dias depois de Olhão, foi a vez de Faro se revoltar.










E mais tarde foi criada a Junta Suprema do Reino dos Algarves, presidida por D. Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses, que em nome do príncipe D. João assumiria a regência do Reino dos Algarves, até ao seu regresso do Brasil.

Por decreto de 19 de Agosto de 1823 o rei D. João VI de Portugal criou o título de Conde de Castro Marim a favor de D. Francisco José da Cunha de Mendonça e Menezes, 1º marquês de Olhão.







O lugar de Olhão, conhecido então como um “lugar sem mando”, devido ao espírito independente e orgulhoso das suas gentes, tinha sido invadido pelas tropas de Junot no dia 14 de Abril desse ano de 1808.

E imediatamente publicaram editais em que sobrecarregavam os pescadores com impostos de toda a ordem, tanto para a pesca na costa como em África. Os contrabandistas eram condenados à morte. Havia mesmo impostos para sair do Algarve.



(O que isto me faz lembrar, nos dias de hoje…)                      


Até as pratas da Igreja de Olhão foram roubadas.



Foto João Xavier no Blogue "Marafado"


A Igreja, mandada construir pelos pescadores em 1698 e inaugurada em 1715, tem uma placa com estes dizeres:


À custa dos homens do mar deste povo se fez este templo novo
no tempo em que só havia umas palhotas em que viviam.”






Inflamados pelo mau viver, faziam a vida negra aos franceses. Eram considerados “má gente”.

A revolta começa a tomar forma, especialmente depois dos espanhóis se rebelarem com as atrocidades cometidas pelos franceses do outro lado da fronteira.

No Porto aquela nobre gente também se começa a fartar dos franceses. No início do mês de Junho de 1808 prendem até um General de Junot.

As notícias chegam rapidamente ao Algarve, lavadas por um barco de pesca.






 





Os Olhanenses passam então à acção e na missa do dia de Sto. António desrespeitando as ordens dos militares ocupantes destapam as armas reais que encimavam o altar da Igreja.

















No dia seguinte todas as embarcações de Olhão ostentam em desafio a proibida bandeira de Portugal perante a estupefacção da reduzida guarnição militar invasora.




16 de Junho de 1808, quinta-feira de Corpo de Deus, dez e meia da manhã...


...ao chegarem à Igreja para a missa dão de caras com mais um edital desta vez a convidar os Olhanenses a juntarem-se aos franceses contra a Espanha sublevada.



José Lopes de Sousa que recentemente abandonara em protesto o cargo de governador de Vila Real de Santo António rasga espontaneamente o edital e brada contra a falta de coragem dos homens de então que nada faziam contra os franceses.



O início da revolta olhanense, segundo cópia de azulejos originais de Jorge Colaço


                                                                                 Foi o rastilho que faltava…


Por terra e por mar organiza-se rapidamente uma milícia e recolhem-se armas para o combate que se adivinhava.

Com a recusa do fornecimento de armas de uma armada inglesa fundeada na foz do Guadiana, barcos de pesca de Olhão conseguem obter das autoridades de Ayamonte mais de cem espingardas que rapidamente chegam a Olhão por mar na noite de 17 de Junho de 1808.

A frota de pesca de Olhão, transformada em Armada de Guerra prepara-se para uma grande batalha naval no dia seguinte.

Uma pequena flotilha francesa a navegar na ria de Olhão depara-se com uma verdadeira esquadra de barcos de pesca olhanense que aparentemente se dirigia para a barra em faina de pesca.

Mas os olhanenses estavam armados.

E comandados por Sebastião Martins Mestre surpreendem o incauto inimigo.

Dá-se uma feroz abordagem generalizada e 81 militares franceses são capturados e todo o material que transportavam é apreendido.



Entretanto em terra, no dia 18 de Junho, chegam notícias de um movimento de tropas francesas que avançam sobre Olhão, a partir de Moncarapacho.



Ponte Romana de Quelfes, onde se deu a batalha   





Uma milícia olhanense, precariamente armada e espontaneamente constituída resolve ir esperar aquele exército profissional no lugar de Quelfes (onde viveu a Poetisa Florbela Espanca) junto à ponte Romana.









 Aquela autentica tropa fandanga contrariando as ordens que tinha, ou não fossem eles Olhanenses, “má gente” daquele “lugar sem mando”, resolvem atirar-se a eles mal os viram, cada um por si, homem a homem "com muito menos número de paisanos, e só socorridos com seis cartuxos cada um, por não haver mais" em correrias desenfreadas, que provocam uma debandada geral nos franceses, surpreendidos pela completa anarquia na organização do ataque, espavoridos com tanta sanha, com tanta coragem.



E no dia 23 de Julho de 1808 todo o Algarve voltou a ser Livre!



Os franceses incapazes de susterem aquela furibunda gente recuam para lá da serra Algarvia e rumam, Alentejo acima, para sempre,


Foi tudo isto que a “enviada” quis ir contar ao Brasil.



Dar notícias destes acontecimentos a Sua Alteza o Príncipe Regente Nosso Senhor.

Tripulavam-na o piloto Manuel de Oliveira Nobre, o mestre Manuel Martins Garrocho, (o mestre era vulgarmente conhecido pela alcunha de Drago) e outros quinze tripulantes, a saber: António Pereira Gémio, António da Cruz Charrão, António dos Santos Palma, Domingos do Ó Borrego, Domingos de Sousa, Francisco Lourenço, João Domingues Lopes, João do Munho, Joaquim do Ó, Joaquim Ribeiro, José Pires, José da Cruz, José da Cruz Charrão, Manuel de Oliveira e Pedro Ninil.

Partiram de Olhão no caíque “Bom Sucesso”, assim lhe chamaram, no dia 7 de Julho de 1808 em direcção à Madeira.


Mestre Garrocho era também portador dos seguintes documentos para o Regente de Portugal:

1.Carta do Governo de Faro, redigida por um dos seus membros, Cónego António Luís de Macedo e Brito, datada de 5 de Junho, participação oficial da restauração do Algarve;


2.Cópia do auto da eleição do Governo de Faro, datada de 22 de Junho, a fim de ser aprovada pelo monarca, documento acompanhado do auto de posse e termo de juramento dos membros da Regência;


3.Duas cartas do Bispo D. Francisco Gomes do Avelar, nas quais o prelado felicitava o Regente em seu nome pessoal e no do clero algarvio, datadas de 2 e 3 de Julho;

4.Carta do Compromisso Marítimo de Olhão, datada de 2 de Julho, em que também se apresentavam felicitações ao Monarca e se fazia a descrição sumária da situação daquele lugar durante o domínio francês.



O Caíque Bom Sucesso chega ao Funchal no dia 14 para aguada.

Aqui contratam um piloto aprendiz, Francisco Domingues Machado, que não tinha ali consigo cartas náuticas (nem ninguém naquela embarcação as tinha!).

O piloto Machado, embora simples praticante, já tinha feito uma carreira ao Oriente, de Lisboa a Macau, a bordo da galera Voadora, do comerciante lisbonense José Nunes de Oliveira.

A ideia deste reforço da tripulação da enviada partiu do piloto Manuel de Oliveira Nobre para o caso de ele ficar incapaz e poder ter substituto, já que a restante tripulação nunca tinha saído das águas da Ria de Olhão…

Partem finalmente da Madeira no dia 16, sem mais demoras.

Numa viagem de mais de 7500km!

Naquela embarcação convencida que era uma nau das Índias tripulada por gente sem a mínima preparação e desprovida de qualquer auxílio técnico, sem cartas, impulsionada por velas que eram sopradas certamente por um certo Divino Vento que os levaria, estavam completamente seguros, à baia de Guanabara, que ainda teriam de descobrir o paradeiro.

Mas aquele espírito de “má gente” daqueles homens de “um lugar sem mando” haveria de vencer.

Muitos, muitos dias depois vão dar a Caiena, departamento ultramarino francês no norte da América do Sul.
Daqui rumando a sul buscam Pernambuco onde aportam também.

E partem, ao longo da costa do Brasil para sul em demanda do Rio de Janeiro.


E finalmente chegam.



À Baia de Guanabara no dia 22 de Setembro de 1808.







 

Aquela pequena embarcação, bandeira de Portugal ornada com as Reais Quinas orgulhosamente desfraldada, depois de navegar 77 dias todo o grande Oceano Atlântico na sua maior extensão, comandada por um homem sem conhecimentos de navegação e sem nenhumas cartas marítimas, sem nenhum instrumento náutico, provoca uma enorme admiração naquelas paragens.

Seguiu-se um desembarque autenticamente Imperial em que todos aqueles bravos Olhanenses ostentavam agora ali - facto novo e digno de realçar - «uma fita e laço encarnado no braço esquerdo publicando a restauração do Reino do Algarve pela expulsão dos Franceses que o guarnecião»

Até a comunidade estrangeira se apressa a fazer cópia em papel da embarcação para memória futura.


Gravura da época com Photoshop meu actual...  
 

Sua Alteza o Príncipe Regente Nosso Senhor D.João recebe prontamente o piloto Manuel de Oliveira Nobre e todos os outros tripulantes, com muita satisfação, por entre vivas e admiração da Corte, a quem apresentarão «os Papeis de que vinhão encarregados ...».

D. João ouve e lê as notícias que trazia e logo ali o condecora com a insígnia da Ordem Militar de Cristo e com a patente de 1º Tenente da Armada Real.

 “E seus companheiros são igualmente condecorados com uma medalha de honra ganhada numa acção que assombra a presente idade, e assombrará a futura”


Esta de “assombrará a futura”... viria a revelar-se afirmação menos sólida sabida que é a pouca apetência dos portugueses pela sua história, pela valorização dos seus maiores.

Refiro-me aos grandes festejos que haviam de ter lugar em Olhão nos dias de hoje para celebrar todos estes factos e que afinal se resumem aos costumados actos oficiais e pouco mais.


«Sua Alteza comprou com liberalidade o caíque, em que vieram os algarvios e os mandou ao depois regressar para a pátria em outra embarcação mais cómoda, e segura.»


No dia 15 de Novembro de 1808 um alvará régio eleva o lugar de Olhão a Vila.

Igualando-a às "vilas mais notáveis do Reino".


A orgulhosa

Vila de Olhão da Restauração.

 

Alvará Régio de 15 de Novembro de 1808

ALVARÁ COM FORÇA DE LEI, PELO QUAL VOSSA ALTEZA REAL É SERVIDO ERIGIR EM VILA O LUGAR DO OLHÃO NO REINO DO ALGARVE, COM O NOME DE VILA DO OLHÃO DA RESTAURAÇÃO; E PERMITIR AOS SEUS HABITANTES O PODER USAR DE UMA MEDALHA

Eu O Príncipe Regente faço saber aos que o presente Alvará com força de Lei virem, que merecendo a Minha Real Consideração e Estima os Meus fiéis Vassalos habitadores do Lugar de Olhão no Reino do Algarve pelo patriotismo, amor e lealdade com que, no dia dezasseis de Junho do corrente ano, se deliberaram com heróico valor e intrepidez muito própria da valorosa e sempre leal Nação Portuguesa, a sacudir o pesado e intolerável jugo Francês...

...Hei por bem, e Me Praz Erigi-lo em Vila; e Ordenar, que da publicação deste em diante se denomine Vila do Olhão da Restauração; e que tenha e goze de todos os Privilégios, Liberdades, Franquezas, Honras e Isenções de que gozam as Vilas mais Notáveis do Reino; e Permito outrossim, que os Habitadores dela usem de uma Medalha, na qual esteja gravada a letra – O – com a legenda – Viva a Restauração e o PRÍNCIPE REGENTE NOSSO SENHOR. 


Dado no Palácio do Rio de Janeiro em quinze de Novembro de mil oitocentos e oito.

PRINCÍPE
D. Fernando José de Portugal



Que o será para sempre e que para sempre ostentará nas suas armas o símbolo da enviada, o caíque “Bom Sucesso”.




Reprodução da raríssima Medalha de Olhão, em cujo verso nada consta




Uma terra que estará também para sempre no meu coração.


Exactamente pela sua “má gente” e por ser realmente um “lugar sem mando”


Há 27 anos que me orgulho de ser Olhanense.


Hoje é dia de homenagem àqueles bravos pescadores da Ria de Olhão que intrepidamente alheados da sua aparentemente pequena realidade se transformaram em Verdadeiros Argonautas.




E como é nosso hábito passaram para o nimbo dos que

valorizando a sua pátria com feitos maiores,

se vão da nossa memória

vergonhosamente

libertando… 

 

 







NOTAS:

O Caíque Bom Sucesso é uma embarcação construída em madeira e tem uma lotação de 35 pessoas.


Réplica provável do original mandada construir em 2002:



    Foto Gabriel Cavaleiro




    Foto Rui Costa



Tem as seguintes características:

Comprimento: 18 m
Boca: 5,55 m
Pontal: 1,90 m
Lotação de «duas mil arrobas» aproximadamente (o original)
Tonelagem: 26,06 t

Como meio de propulsão, apresenta duas velas latinas com 150m2 de área vélica.

Dispõe ainda de um motor auxiliar de 160H.P.




Alguns dos sítios por onde naveguei à procura de informação:

http://www.arqnet.pt/portal/portugal/invasoes/inv1808.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Viagem_do_Ca%C3%ADque_Bom_Sucesso
https://archive.org/details/decretotendodivi00port
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alvar%C3%A1_R%C3%A9gio_de_15_de_Novembro_de_1808
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mesa_da_Consci%C3%AAncia_e_Ordens
http://www.olhao.web.pt/patrimonio/CompromissoMaritimo.htm
http://www.olhao.web.pt/Textos/DoAlgarveAoBrasil.pdf
http://www.olhao.web.pt/Textos/DocumentoEsquecido.pdf
http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_de_Olh%C3%A3o
http://www.olhao.web.pt/index.html
http://caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt/18588.html




(Actualizada em 30 de Agosto de 2015)