quarta-feira, 1 de abril de 2015

Pedaços de vida - A Odisseia do Alfa Pendular






A viagem que íamos iniciar era mais uma das rotineiras escapadelas a Lisboa...



Aproveitando o desconto de passageiro sénior, íamos à capital com o propósito de mais uma consulta de rotina do pós-operatório da minha catarata ao olho direito.

O Alfa Pendular, na Classe Conforto, passe a publicidade, é uma excelente alternativa ao automóvel e à caríssima Auto-Estrada e o seu complemento ainda mais caro, a Via do Infante.

E sai sempre ao horário.


Eram 15h05 em Faro.


Em menos de 3 horas estaríamos na Gare do Oriente.

Com uma catrefada de jornais e revistas e os nossos inseparáveis iPads (o WiFi do Alfa Pendular funciona bem) a minha cara-metade e eu acomodámo-nos nos razoavelmente confortáveis assentos e o Alfa partiu logo de seguida, de mansinho como sempre.

Duas horas depois, farnel já comido seguido daquele horrível café com que a CP nos castiga e uma boa soneca despachada, estamos onde?

Não sei se por ter acordado ligeiramente indisposto, não consegui identificar o lugar por onde passávamos e simultaneamente pareceu-me que algo me tinha caído mal no estômago. Só podia ser aquele maldito café…

No entanto a sensação era incómoda. Não era bem uma coisa física. Era bastante indefinida.

Parecia uma viagem como as outras, mas no ar pairava uma ténue e estranha sensação. Nada ainda muito perceptível.

Mas que alguma coisa de novo havia, havia…

O écran informativo dizia-nos que a temperatura exterior era de 19 graus e a velocidade a que circulávamos estava um pouco acima dos 230km/h.


Fantástico!


Nunca tinha andado tão depressa no Alfa Pendular…

Mas o meu estômago apertava.


E a velocidade ultrapassou os 240km/h.


Olhámos um para o outro e reparei que alguns passageiros também não tiravam os olhos do écran.











Uma estação… seria Alcácer do Sal? Nem deu para ver… foi galgada a grande velocidade e o pêndulo da carruagem inclinava-se cada vez mais nas curvas com aquela incómoda velocidade.






Sabíamos que a próxima estação seria, provavelmente, o Pinhal Novo.

Já tínhamos ultrapassado com muita pressa os arrozais de Alcácer.

O sistema sonoro de avisos nada dizia.

Ninguém nos informava qual era a próxima estação.

E não havia ninguém a quem perguntar.

Sempre a grande velocidade, passámos o Pragal e logo depois, muito pouco tempo depois, aquela maravilhosa travessia da ponte sobre o Tejo.








Todo aquele forte travejamento em aço alaranjado escuro a passar para trás como um filme antigo, a pelicula de celulóide solta e os 24 quadradinhos por segundo das imagens a sobreporem-se uns aos outros mas muito rapidamente da esquerda para a direita.

Lisboa e o Tejo viam-se bem… mas demasiado rápido. Demasiado rápido…

Sete-Rios e aquela muita gente na estação, estarrecida certamente, a ver o Alfa, que normalmente abranda ali, a passar mais rápido que o vento!






Entre Campos, já passou! Nem deu bem para perceber… O Alfa não parou ali...




Estação do Oriente!
















Finalmente!

 


Estamos a chegar ao fim desta viagem de final conturbado.














Que raio deu ao condutor para acelerar desta maneira até aqui…

E sem parar em lado nenhum desde há uma hora atrás!



Tudo de pé, malas na mão, casacos vestidos à pressa...

...e a Estação do Oriente a ficar para trás a mais de 245km/h!!!




Ficámos todos quietos.

Com tudo na mão…

Nas portas de saída. A olhar uns para os outros…




                                                    O que é que se estava a passar?...












As carruagens da Classe Conforto são as últimas do comboio e alguém sugeriu ir lá à frente à procura do revisor ou mesmo falar com o condutor, enquanto o Alfa, sempre em silêncio devorava a linha a 247km/h!






Os outros ficaram sentados prometendo tomar conta dos familiares dos expedicionários que se afastavam já.

Havia muitas pessoas de idade e crianças também.

Estávamos todos tão preocupados que solidariamente pensámos nos que precisariam de mais ajuda.

Era preciso acalmar toda a gente.

Aquilo não era nada...


- Uma pequena avaria, vai ver. Deixe-se estar sentadinho...

 


Em silêncio, amorfo mas hiperactivo, o Alfa galgava afanosamente quilómetros e quilómetros como se num súbito assomo de Alzheimer se tivesse esquecido do que era esperado fazer.



   Nem uma coisa nem outra.

Uns quantos passageiros deixaram-se estar sentados, incapazes de reagir como que aceitando aquela irracionalidade de um comboio que toma as rédeas de toda a tecnologia e estrutura de uma linha férrea inteira e resolve ser senhor do seu destino, levando-nos a reboque.


A maioria das pessoas, umas mais assustados e nervosas do que as outras, andava de um lado para o outro em busca de socorro ou explicações.






Vila Franca de Xira, Azambuja e o Setil já eram…



Não sabíamos, mas a Protecção Civil já estava alertada, evidentemente.

E a CP numa rapidíssima decisão de emergência, mesmo antes de tentar tomar quaisquer outras opções, andava “à frente” do Alfa e ia manobrando as linhas de modo a garantir uma circulação o mais segura possível, dadas as circunstâncias.

A bordo, no meio da confusão dos que queriam avançar e dos que pretendiam ir em sentido contrário, todos em busca de uma solução, o caos instalava-se como uma coisa pegajosa que se agarra a nós e não conseguimos deitar fora.

Nem havia como, pois o comboio parecia uma coisa blindada. Não havia saída possível. Nem uma fresta!



As estações eram passadas à velocidade de um TGV. As pessoas em terra, curiosas mas assustadas também, pareciam manequins ali esquecidos. A velocidade era tanta que não dava para perceber que realmente se mexiam, as que o faziam. Porque muita gente gesticulava para os familiares a bordo, com vontade de comunicar. Mas o que nós víamos eram bonecos imóveis, como numa instalação num qualquer Museu de Arte Moderna.



Pelo meu iPad consegui ler as notícias que já estavam a divulgar o sucedido.

E fiquei a saber que os GOE preparavam uma acção combinada com a CP para tomar o comboio e tentar imobilizar aquilo.

Seis e meia da tarde e já tínhamos deixado Santarém e o Entroncamento não devia demorar muito.

Ali sim. Naquele grande nó ferroviário poderiam tentar travar aquela besta de alguma maneira e toda a gente já dava palpites de como ia ser. Podiam tentar apertar as linhas ao longo de uns quilómetros e aquilo tinha de parar pela grande fricção.



- O meu amigo não está bom da cabeça…

- Atão porquê!? Não me diga que não conseguem!




Mas não. Não houve nenhuma tentativa de que nos apercebêssemos para parar o Alfa.

E o Entroncamento também ficou para trás.

E os GOE?

…os GOE… como é que havia tempo, antes de anoitecer, para eles se organizarem no sítio certo para assaltar aquilo?

O mais certo era a noite vir e, numa curva mais apertada, aquilo ir tudo borda fora.


O descarrilamento era certo.

 



E esta certeza teve o condão de acalmar ainda mais quem já não reagia e pôr os nervos em franja dos muitos que continuavam a sofrer com a irracionalidade da situação.

Todo o Mundo seguia agora a nossa Odisseia, dizia a aplicação da CNN no iPad.

Pelos telemóveis há muito que tentávamos saber o que fazer, mas o 112 estava de tal modo saturado, que as informações iam chegando aos soluços… que era o que mais se ouvia em todas as carruagens.

Eu tinha conseguido atravessar todas as composições do Alfa até ao local do condutor.

Ali uma multidão chegada antes tentava de todas as maneiras abrir aquela maldita porta. Em vão.

Parecia a porta de um avião comercial de acesso ao Cockpit. Aquilo, simplesmente, era também inviolável.

Ninguém a conseguira abrir até aquele momento.

Desisti e voltei á luta tremenda que era caminhar ao longo daquelas 5 ou 6 carruagens apinhadas de gente em pânico, até ao meu lugar.

Alfarelos e Coimbra B já tinham sido galgados, sempre a mais de 240km/h e a noite estava já ali.

Com muito medo começámos a ver passar as estações em flashes de luzes.

Não se via nada a não ser fogachos de luzes que nos assustavam ainda mais.

O 112 e a Protecção Civil garantiram-nos uma circulação segura, tão segura quanto aquela louca velocidade o permitisse.

O trânsito ferroviário e as estradas ao longo do nosso percurso estavam bloqueados por segurança.

E mais, pela manhã iriam então tentar o assalto ao comboio e tentar o reabastecimento por helicóptero de alimentos e água.

E aí pensei. De manhã?! Será daqui a quantas horas? E a essa hora a 240/250km/h será aonde?

Ultrapassámos a Pampilhosa em “marcha lenta”, a menos de 200km/h, vá-se lá saber porquê, e Mangualde aproxima-se.

As casas de banho começaram a não comportar mais dejectos e os jornais e revistas que havia tiveram que ter um uso diferente…

Já era bem noite quando a Guarda foi ultrapassada.

A Protecção Civil teve o condão de nos assustar ainda mais ao avisar um passageiro perto de mim que não largava o telemóvel, que as autoridades Espanholas estavam avisadas e já tinham tomado todas as acções necessárias.


Espanhóis metidos nisto!?


Foi aí que nos lembrámos que a linha não acaba ali em Vilar Formoso…

O Google Maps dizia-me que logo a seguir viria Fuentes de Oñoro e depois Salamanca

Um grande cansaço apoderou-se de mim. A minha cara-metade já dormia há muito embrulhada num casaco, evadida daquela assustadora realidade e eu resolvi descansar um pouco também.

Não era só o corpo que perdia as forças. A razão, incapaz de compreender o que estava a suceder e fortemente condicionada pela comoção geral que nos abalava a todos no Alfa Pendular, também estava a perder a capacidade de funcionar coerentemente e pedia para parar por uns tempos, à beira do colapso.

Soube-me bem desligar-me de tudo aquilo mas não consegui escapar a ainda ter um vislumbre de Salamanca, onde há mais de 50 anos atrás vivi naquela Base Aérea de Matacán, onde me fiz Piloto Militar. Do Ejército del Aire e da Força Aérea Portuguesa.


Mas voltei logo a adormecer, felizmente.


Os primeiros lampejos de luz mostraram-me uma imagem que conhecia dos filmes.

Uma carruagem totalmente desorganizada com gente a dormir no chão, roupa pendurada das bagageiras, um cheiro nauseabundo que parecia vir de todo o lado e um olhar assustado e resignado na maioria das pessoas.

A vontade de lavar a cara e as mãos a ficar por ali, sem solução…

Estávamos a passar Valladolid e há já bastante tempo que não tínhamos notícias de coisa alguma porque o WiFi há muito deixara de funcionar e ninguém conseguia ligar-se à Internet.


Assim que o Sol nasceu pudemos apreciar melhor toda a gente que como nós se entregara àquela vontade insana do Alfa que agora nos parecia uma entidade com vida própria, como se fosse um ser inteligente, mau mas inteligente, com o desígnio de nos levar à força para um local perdido, escolhido por ele.

Provavelmente iriamos ser feitos prisioneiros num qualquer túnel e nunca mais ninguém ia saber do nosso paradeiro, acorrentados uns aos outros numa caverna sem luz.

Eram também os primeiros sinais de falta de sanidade mental que se instalavam nos nossos cérebros…

Todos nós, quer pela falta de higiene pessoal, (não havia água para nos lavarmos, nem para beber) quer pela fadiga, o medo, a fome, o desespero, a impotência, éramos condenados a prazo que esperávamos pelo final certamente trágico que nos esperava. E os nossos rostos reflectiam bem tudo isso.

Deixáramos de ter medo.



O Alfa, de quem dependíamos e a quem nos ligávamos num aperto infernal, continuava a sua marcha louca.

Criatura demoníaca.

Um ser verdadeiramente extraterrestre com vontade férrea e determinação absoluta.



Tínhamos-lhe como que respeito. Muito respeito e um ódio visceral de que não queríamos que ele se apercebesse, não fossem as coisas complicarem-se ainda mais.

Sabíamos que isto era irracional mas não conseguíamos deixar de pensar assim, sempre com grande temor.



A Protecção Civil Espanhola e a RENFE deviam também ter tomado as medidas possíveis porque até ali tudo tinha corrido bem.

Até ali…

Depois de ultrapassarmos Segóvia, já com um Sol radioso, vimos um helicóptero militar aproximar-se. Identifiquei-o:


Era um SA.330 – Puma de Busca e Salvamento.





De portas abertas, soldados com os pés de fora, tentavam aparentemente com a ajuda de um guincho, colocar um deles no tejadilho do Alfa.

Não chegaram a usar o guincho...

As catenárias das linhas eléctricas não deixavam e o velho Super Puma também já nos limites da velocidade não conseguiu colocar ninguém naquele desvairado comboio e afastou-se. Mas manteve-se por perto durante algum tempo.

E logo a seguir começamos a subir para o planalto de Madrid.

Podia ser que o Alfa perdesse velocidade e se lhe acabassem as forças.

Mas não. Não tivemos sorte. A subida foi feita a 220km/h e já lá em cima voltou á loucura. 245km/h, a devorar quilómetros e quilómetros de carris.

Entramos nos arredores de Madrid e pudemos observar que toda a Espanha nos esperava ali. Todas as estradas e agora todas as ruas dos arrabaldes de Madrid estavam pejadas de carros parados em grandes e infindáveis filas e toda a gente de fora dos carros a saudarem-nos como que a dizerem que estavam solidários connosco.

Mas todos “freezados”, como bonecos ali propositadamente dispostos aleatoriamente.

Mesmo assim foi bom mas de pouco serviu…

Entretanto a vida a bordo piorava a olhos vistos.

Havia gente no chão que não sabíamos se estava a dormir um pouco ou para sempre.

Ajudávamo-nos no que se podia ajudar. Havia quem necessitasse mais de palavras amigas do que pão para a boca. Mas a maioria começava a sofrer de muita sede e pouca comida. Ou melhor, nenhuma.

Todo o que tinha sobrado dos mini lanches de cada um fora já dado, muito amiúde, às crianças mais chorosas.

Felizmente ainda não havia desacatos notórios.

E passámos pela tristemente famosa estação de Atocha sempre em velocidade desvairada. A estação estava pejada de gente que nos saudava. Mal deu para perceber…

Nesta direcção em que seguíamos houve quem informasse que o Alfa escolhera ir para Guadalajara que era a estação seguinte.

Ninguém comentou esta escolha do Alfa. Ele lá sabia…

O Helicóptero Puma voltou â carga para grande alegria nossa mas de novo teve de se resignar a acompanhar-nos a uma distância de segurança, para ele.

Sem comunicações, sem destino, sem as mínimas condições de salubridade (as necessidades eram feitas nos WC mas sem água nem esgotos) sem alimentação, entregues ao arbítrio do Alfa Pendular.

Já estávamos a entrar numa atitude de abandono, embora houvesse quem continuasse a tentar as coisas mais mirabolantes para tentar solucionar a situação. Mas como não se conseguia abrir nenhuma janela nem porta para o exterior, a muita gente pareceu que continuando as autoridades a controlar as vias e a circulação, o Alfa poderia continuar como até ali. Até onde ninguém sabia. Pelo menos a bordo.

E foi com estas conjecturas que passámos por Pamplona, quase sem darmos também por isso. Aliás, só por mera curiosidade nos interessava o caminho. A maior necessidade era tentar mantermo-nos o mais quietos possível e esperar que o pesadelo tivesse um fim.

Alguns já tinham desistido e queriam isso mesmo. O fim. Deles.

Entretanto uma dúvida começou a tomar forma entre os mais entendidos e curiosos nestas coisas de comboios e linhas férreas, Altas Velocidades e TGV’s.

O problema era a bitola.


A Bitola!

A Bitola!

 


A medida Internacional que rege o tamanho das vias. A distância da separação entre os carris.

Portugal e Espanha têm uma medida diferente do resto da Europa.

Mas ninguém tinha mesmo a certeza do que estava a dizer.

Sabíamos que havia uma bitola larga na Europa para lá dos Pirenéus e uma bitola estreita na Península Ibérica.

Ninguém sabia se a Espanha já tinha actualizado as suas linhas férreas para que o AVE (Alta velocidade Espanhola) fosse compatível com o TGV Francês.

Se já o tivesse feito, o que duvidávamos, como é que o Alfa, de bitola estreita, andava por ali a muito mais de 200km/h…

Mas no que todos concordávamos, sabe-se lá se com razão ou não, era que a nossa bitola estreita do Alfa não dava, de modo nenhum, para a bitola larga para lá de San Sebastian, que seria, naturalmente, a próxima estação.

E essa constatação deixou-nos com os nervos ainda mais em franja.

Parecia-nos que o fim da nossa viagem se aproximava. E o fim individual de cada um de nós era então inevitável.


Os que há muito o esperavam iam ser recompensados…


Depois de tudo o que já tínhamos passado a nossa capacidade de encaixar mais infortúnios tinha-se esgotado.

Ninguém duvidava da catástrofe eminente e isso foi interiorizado com diferentes matizes de sofrimento e manifestações de desespero.

Entre resignados em silêncio e outros em grandes gritos de aflição, o Alfa agora a 255m/h, 13º de temperatura exterior, passou velozmente e sem que nos apercebêssemos da sua aproximação, por uma grande estação pejada de gente, praticamente 24h depois de ter saído de Faro.

Só podia ser San Sebastian!

E era!

E o Alfa, aparentemente sem grande esforço naquela fúria de chegar a todo o lado sem destino, com muita, demasiada pressa, continuou a sua marcha em direcção a Bordéus.


- Não é aqui que a bitola muda!? Gritou alguém.

- É mais à frente, em Irún! Na fronteira! Responderam.


Tanto me faz, foi a reacção íntima geral, embora ninguém tivesse aberto a boca.

E logo a seguir, muito poucos minutos depois, naquele grande parque ferroviário, consegui ler “IRUN FICOBA”.


A ponte sobre o rio Bidassoa…

A França!

A estação de Hendaia!

Tudo passado a 245km/h!

Na maior das calmas…


Agora já não faltava nada!












O Alfa mantinha o misterioso fito de caminhar rapidamente sem destino para lado nenhum inclinando-se vertiginosamente nas curvas...





O problema da bitola estava resolvido.


O Alfa, afinal, “abitolou-se” aos carris. Só podia ser isso…



E foi ao passar na Gare de Guéthary muito perto daquele mar hoje cinzento batido pelo vento forte de Norte que sentimos pela primeira vez aquele cheiro acre.

Alguns passageiros das carruagens mais á frente começaram a aparecer e falaram-nos do cheiro que, aparentemente, era mais intenso na frente do Alfa. Segundo eles cheirava a algo que estivesse a ser submetido a calor, muito calor. Mas não havia fogo. Nem fumo.

E atiraram-se para ali, mais aliviados ou um pouco menos assustados. Como que a adiar um problema que previam mas eram impotentes para o enfrentar.

Ao passar por Baiona (“passei aqui há dias” disse um conhecedor do local) e a ponte sobre o Rio Adour, já bastantes pessoas se estavam a encaminhar para a retaguarda do comboio fantasma.

Alguns caminhavam com grande esforço de tão fracos que estavam para conseguir trepar por cima de tanta gente deitada no chão.

Mas todos mostravam um semblante de medo, olhando furtivamente para a frente da marcha.

E já respirávamos com panos na cara a proteger-nos daquele cheiro cada vez mais intenso, mas ainda suportável.

O que de todo não era suportável era o mar de gente que nos invadira o espaço que anteriormente já era ocupado por demasiada gente, crianças deitadas nos bancos, gente que dormitava em pé como eu…


Bastante assustados andámos assim, levados por aquele imparável monstro de mau génio,  absolutamente indomável, ainda durante bastante tempo.

 






E o cheiro acre, aquele cheiro sempre a insinuar-se…

Meio a dormir meio acordado vi uma grande gare com o nome parecido com St Paul qualquer coisa.

Não deu para ver… a tantos km/h a que nos deslocávamos.


Foi então que as coisas animaram...



Um helicóptero da Força Aérea Francesa, tal como os Espanhóis fizeram antes, tentou aproximar-se o mais possível, evitando as catenárias. O meu iPhone com 13% de pilha ainda deu para uma foto.




 

Havia militares de fora a gesticular mas ninguém percebia nada do que eles queriam.

Logo a seguir apareceram mais helicópteros do outro lado do Alfa, também com a grande porta aberta e muitos militares lá dentro, alguns completamente fardados de preto.


Devia ser uma força especial que tentaria “assaltar” o Alfa.





Este passou por cima de nós, da esquerda para a direta.

Mas era muito perigoso para eles.

No entanto aquela companhia reforçou-nos o moral.


Foi nesse momento que o fumo apareceu. A pouco-e-pouco, de mansinho, em crescendo, acre, irrespirável…

 


Pareceu-nos que o Alfa também tinha dificuldades em respirar com o próprio fumo que exalava porque por vezes a velocidade caía abaixo dos 200Km/h, para retomar logo de seguida aquela loucura dos 220/255km/h.

Os poucos, como eu, que seguiam o voo, ora perto, ora mais longe, dos helicópteros mas com grande dificuldade em respirar, tivemos por momentos uma certeza que nos veio certamente do desespero em que estávamos.


Eles vão atacar!...



Eles estão a preparar-se para atacar o Alfa...


Que agora dá nítidos sinais de estar a entrar em pânico, com aquela marcha errónea, rodeado de helicópteros ameaçadores mas também sufocado pelo fumo como que a tentar calcular o momento do que nos parecia vir a acontecer.

A marcha errónea também podia ser uma forma evasiva de evitar um ataque certeiro dos seus perseguidores no ar.

E foi logo a seguir a Labouheyre, com uma gare mesmo em frente a um descampado, onde passámos a 255km/h, que as coisas começaram a ser mais complicadas ainda.

Estávamos numa grande recta e os helicópteros voavam ao nosso lado, 3 de cada lado, ao lado uns dos outros, em formação cerrada.

Não fora o drama que vivia, dava gozo ver aquilo. Lembrava-me os meus velhos tempos na minha Força Aérea…

Mas aquilo não era um filme, era mesmo real e tinha um ar demasiado bélico para não ser tomado a sério.

Os helicópteros afastaram-se um pouco, o fumo já não deixava ver bem…


E de repente uma saraivada de pequenos roquetes rapidíssimos saíram daqueles justiceiros que pilotavam os helicópteros.

 


O impacto foi brutal!



Embora ferido de morte no maquiavélico centro de toda aquela loucura que o movia, o Alfa manteve-se estóica e desesperadamente nos carris. A velocidade a diminuir acentuadamente mas o fumo a tornar-se dramaticamente irrespirável.

De repente tudo se apagou com aquele fumo todo. Agora que começava a ficar mais escuro, ainda por cima sob um céu carregado de nuvens.

O Alfa continuava a abrandar mas ia ainda algo rápido, ofegante naquela infindável recta que parecia ter sido construída logo ali, para o que estimávamos e desejávamos, ainda a medo de o expressar, ser o seu fim breve.

Foi então que um grande helicóptero nos passou subitamente por cima e logo a seguir tudo ficou pintado de laranja.

O Alfa parecia esvair-se sob um pegajoso e viscoso sangue à medida que a velocidade, agora sim, se aproximava do fim.

Só víamos campos lavrados por entre os sulcos daquele alaranjado e pastoso líquido que escorria lentamente pelas janelas do moribundo Alfa e que milagrosamente fizera parar o fumo.

O Alfa teria sido atacado por um helicóptero contra incêndios, com um líquido laranja, retardante.

Agora que a velocidade estava a chegar a zero, inúmeros helicópteros pousavam nos campos, à nossa volta.

Já parados, fomos “assaltados” por militares franceses que com machados abriram as portas e janelas do Alfa de um e de outro lado.



E finalmente respirámos o ar fresco e puro da Gasconha.

 


O Alfa, moribundo, nos últimos momentos de vida, “abitolado” aos carris por onde espalhou o terror em centenas e centenas de quilómetros, acabou por morrer, não sem antes ter sentido o gozo, mórbido, é sabido...

 

...de se ter sentido um VERDADEIRO TGV!

 


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As fotografias desta história:

Algumas fotos do Alfa Pendular foram extraídas de excelentes vídeos no You Tube de Fábio Quintas e Paulo Caldeira Martins.
Outras são minhas, incluindo as da Estação do Oriente.
Algumas levaram um "banho" de Photoshop...
As fotos de helicópteros foram obtidas em diversas páginas da Wikipedia.

Com os meus agradecimentos a todos.





A culpa disto tudo é um gajo estar reformado, ter descontos na CP e pôr-se a imaginar coisas…
 

Prontus!



Actualizada em 11 de Abril de 2015







quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Album de Photographias - Chuva no meu jardim




            Num dia de chuva no meu jardim,

            olhei para o futuro e tive saudades daquele dia.









            Soube que um dia me lembraria da doçura daquele lugar.
            Que construí quase que com as minhas mãos.






                                 Aquela chuva estava ali para que me lembrasse,
                                 um dia, quão feliz fui aqui.








                       Aquela chuva não caia do céu.
                       Por vezes a chuva não cai.
                                                                                      Subitamente damos por ela.












Olha!   

Está a chover... 

















































E a pouco e pouco percebemos que estamos a ser transportados ao futuro.








Para nos lembrar docemente como foi bom o que já vivemos.






























E com atenção e sensibilidade conseguimos unir o tempo de agora ao tempo em que iremos olhar pra trás e saber que foi bom ter existido neste lugar.
















Num dia de chuva no meu jardim...














segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Linha Aérea e outros voos - No dia em que corrigi a Boeing



No dia em que corrigi a Boeing



Conto esta história sem nenhuma sensação de vitória, de ter ganho batalha alguma.

Conto-a porque naqule dia achei que devia contribuir para a Segurança de Voo com as armas com que podia lutar.


E não hesitei em fazê-lo.


Aparentemente arriscando muito. A minha vida e a de muitos tripulantes e passageiros inocentes.


Arriscando a minha carreira Aeronáutica.





Mas eu SABIA o que ia fazer ...




E não hesitei em fazê-lo.

 




...fim de tarde magnifico, aquele dia 16 de Março de 1980.




 




Ido de Lisboa estava prestes a aterrar em Ponta Delgada no Boeing 727 CS-TBM.

Faltava só meter o resto dos flaps para estar correctamente configurado para a aterragem. 

Aquela pequena pista exigia toda a capacidade de sustentação daquele avião que eu conhecia tão bem.

Na verdade eu até era Verificador e Instrutor de Simulador já há dois anos e meio.



Além do prazer de aterrar numa das pistas mais problemáticas que a TAP operava e que só os Comandantes estavam ali autorizados a fazê-lo, naquele dia radioso de muito Sol, visibilidade ilimitada e pouco vento para complicar a manobra, tinha ainda a responsabilidade e a honra de transportar no cockpit, na cadeira mesmo atrás da minha, o Senhor Comandante Marcelino. Um dos criadores e mentores da política de eficiência e segurança que é apanágio da TAP.

Naqueles tempos o Senhor Comandante Marcelino era Administrador da Sata, a transportadora aérea Açoreana.


- Flaps 40! Peço ao meu jovem Co-Piloto, já a antever uma fácil aterragem naquele dia tão bonito e calmo.

 
E logo a seguir peço:

- Landing checklist!


- Perda total do Sistema Hidráulico A!!!

Ouço subitamente dizer ao jeito de resposta e quase aos berros o meu Técnico de Voo, incapaz de parar uma rápida fuga do precioso líquido que era o braço musculado que actuava na maioria das coisas que se mexiam naquele avião.

De checklist na mão, o desgraçado bem tentava actuar em tudo o que eram botões e interruptores.

Mas nada. O precioso óleo Hidráulico já não constava nos indicadores. Tinha desaparecido.

Totalmente...

Tinha tantas vezes provocado aquela mesma situação no Simulador aos meus alunos e aos meus camaradas de voo, Comandantes e Co-Pilotos, a quem Verificava a capacidade de resolver uma das situações mais dramáticas que podia suceder num avião daquele tempo…


Era a minha vez de me sentar no banco dos réus, mas a sério!



Começava naquele momento o meu julgamento. Que podia acabar como no dia do Juízo Final.

Mas eu estava bem preparado…

E sabia que a partir daí estava impedido de aterrar em Ponta Delgada.

Só me restava borregar e subir para uma altitude em que pudesse pensar no que fazer.


Por duas razões muito simples, básicas e lapidares:
  1. Era proibido aterrar em Ponta Delgada com menos de que todos os Flaps estendidos. 40º de Flaps.
  2. Por outro lado era também proibido aterrar, com falha do Sistema Hidráulico A, com mais de 15º de Flaps.

Portanto…


Também sabia que com a falha daquele Sistema Hidráulico A já não podia recolher o trem, uma coisa muito útil para se poder aterrar, mas totalmente ineficiente para se voar com ele estendido pelo enorme acréscimo ao consumo de combustível que provoca.

Meto os motores a fundo e dou um rápido olhar aos instrumentos, enquanto borregava.

Verifiquei que acumulava uma outra situação complicada.

Como a fuga dos hidráulicos ocorrera no exacto momento de estender o resto dos Flaps para a última posição, o Sistema Hidráulico não teve capacidade de executar correctamente a manobra e acabei por ficar com posições díspares de flaps.

Os Flaps mais junto à fuselagem, os inboard flaps, desceram para cerca dos 15º. Mas os outros mais afastados, os outboard flaps, ficaram um pouco para além da posição dos 5º e por aí se quedaram…

Fiquei assim numa situação que conhecia tão bem e a que no nosso Simulador teimosa e incorrectamente se chamavaFlap Asymetry”.


E com a qual eu estava em total desacordo. Há já dois anos…



Mas não conseguia demover ninguém.


Um tabu da Boeing!


Difícil de justificar mas sagrado! Inalterável!

Era coisa grave, a “Flap Asymetry”…

Implicava altos riscos se o devido procedimento não fosse executado muito correctamente.

Mas agora tinha de subir um pouco e parar para pensar e coordenar toda a situação com os meus dois camaradas tripulantes técnicos.

Com os três reactores a funcionarem tranquilamente era só necessário manter os motores a fundo e subir à velocidade possível devido à enorme resistência ao avanço que trem e flaps estendidos provocavam na aerodinâmica.

A resistência ao avanço era enorme e era urgentemente necessário reduzir ao mínimo aquela situação que me consumia demasiado o precioso combustível que me seria necessário no caso de ter de ir aterrar a outra ilha.

Eu tinha que aterrar nalgum sítio!

Mas naquele momento não sabia qual o meu destino.

Literalmente.

Tantas horas tinha empregado a dissecar tal situação que naquele momento não hesitei.

O que os instrumentos me mostravam, tal como acontecia no Simulador quando se simulava aquela avaria, não era Flap Asymmetry como dizia o Manual que a Boeing distribuía a todas companhias do Mundo a operar aquele avião.

O Simulador só provocava a situação de Split Flaps (Os flaps interiores numa posição idêntica entre si e os exteriores noutra posição, diferente, mas também idêntica entre simas o procedimento obrigatório a executar era o de Flap Asimmetry... (quando as duas famílias de flaps ficam em posições diferentes nas duas asas). Coisa que me irritava solenemente mas nunca consegui convencer ninguém na TAP a procurar resolver o problema. 


O que eu via, ali sentado no meu lugar de Comandante  (e o que o Simulador sempre mostrava) era que os Flaps junto à fuselagem, em cada uma das asas, estavam numa posição perfeitamente idêntica um ao outro, por volta dos 30º para baixo e que os outros flaps, mais afastados, estavam numa posição diferente destes, embora coincidentes em cada uma das asas, também.


Situação de Split Flaps


Ou seja: não havia assimetria nenhuma entre uma asa e a outra.

Para isso ter acontecido tinha de ter nos instrumentos uma leitura semelhante à que ilustro aqui abaixo.



 Assimetria entre os flaps



E aquilo que eu via nos indicadores era uma outra situação diferente, a que se chama Split Flaps.

Ou seja: o que eu via era os flaps interiores simétricos um ao outro mas numa posição difefente dos flaps exteriores, mas também estes simétricos um ao outro.



Tudo isto que descrevo desde que ouvi a comunicação do Técnico de Voo até aqui passou-se em breves décimos de segundo.


Estava a 450 pés sobre a água, cerca de 140m de altitude e era mesmo preciso subir.






Atrás de mim o Senhor Comandante Marcelino deve ter passado um grande mau bocado.

Mas de consciência tranquila quanto às sementes que deixou nas gerações que formou. Era só preciso esperar e observar como o fruto do seu trabalho era compensador.


O senhor Comandante Marcelino foi meu Instrutor de Performances durante o meu Curso teórico na TAP.

Inicio o borrego (aborto da aterragem) com trem de aterragem bloqueado em baixo e a maior parte dos flaps saídos, causando enorme resistência ao avanço, consumindo grande volume do precioso combustível.

E aí decido finalmente contrariar a Boeing, os Manuais certificados pela Aeronáutica Civil e a estrita política oficial da Direcção Geral de Voo da TAP, da qual eu era afinal um dos responsáveis menores...

Aquela emergência estava mal avaliada por toda esta gente.

Não havia assimetria entre os Flaps.

O que havia era posições diferentes de flaps mas equilibradas entre as duas asas.

Não era nenhuma assimetria!


Podia pois actuar electricamente os flaps, coisa estritamente proibida se fosse realmente uma assimetria.

(Ao actuá-los, sendo assimetria, poderia causar uma fractura nos actuadores dos flaps e originar danos fatais na estrutura. Além disso, como os reactores estavam implantados junto à cauda do avião, os possíveis destroços poderiam ser ingeridos por eles e então…)

Assim que levanto o nariz do avião para iniciar o borrego digo ao meu Co-Piloto:

- Como não temos nenhuma assimetria vou recolher electricamente os inboard flaps para a mesma posição dos outboard flaps para equilibrar mais as asas e reduzir o consumo.

O meu atónito colaborador, sentado à minha direita e já tão atrapalhado como quando aquela mesma manobra lhe era simulada por mim nas Verificações, lembrou-se do procedimento obrigatório e reagiu, bastante agitado, como eu já esperava:


- Não se pode mexer nos flaps com assimetria!!!


O que ele estava a ver nos Instrumentos de voo, a posição relativa dos dois pares de flaps, era exactamente o que a Boing chamava “assimetria”. Era o que os Manuais diziam. E era mesmo o que eu era obrigado a ensinar ou verificar…

Eu tinha sido Co-Piloto dos Boeing B 707 e B 747 e sabia que nesses aviões se distinguia a assimetria de flaps entre uma asa e outra da posição divergente mas simétrica entre eles nas duas asas, a que chamavam Split Flaps. E o B 727 tinha sido concebido temporalmente, entre os dois aviões e exactamente com a mesma técnica quanto à movimentação daquelas superfícies das asas…

Enquanto iniciava a subida disse-lhe que reparasse na real posição dos ponteiros. Não era assimetria nenhuma, era Split Flaps. E accionei os interruptores “intocáveis” (para a política oficial) e recolhi calma e resolutamente em modo eléctrico os inboard flaps, completamente seguro do que estava a fazer.

Como esperava e tinha a certeza, os inboard flaps recolheram até ficarem na mesma posição relativa dos outboard flaps. E depois recolhi todos para 5º de modo a conseguir ter ainda mais controlo dos ailerons, porque me pareceu necessário dada a possibilidade dos spoilers, com a falha dos hidráulicos, poderem começar a actuar livre e espontaneamente, tal como dizia o Manual dos Sistemas do avião.

Subi em volta para a esquerda, afastando-me um pouco de S. Miguel.

Estabeleci a altitude por volta dos 3300 pés, 1000 metros e comecei a pensar em voz alta, discutindo a situação com os meus menos experientes Co-Piloto e Técnico de Voo. 



Painel do Técnico de Voo do B 727   










Comecei por pedir ao Técnico de Voo que fizesse as contas ao consumo que tínhamos para avaliar qual era a nossa autonomia de voo.

Sabia que não podia aterrar em Ponta Delgada e que muito provavelmente o combustível não dava para chegar à Base Aérea das Lages, a Norte, porque tínhamos bastante vento de frente.

Restava-me Santa Maria a Sul, com vento mais favorável.

Teria combustível para lá chegar com o trem de fora e aquele "cheirinho" de flaps, gastando todo aquele combustível em excesso?



- Com este consumo actual temos 40 minutos de voo até os tanques secarem!


Resultado do cálculo do Técnico de Voo.

Pareceu-me que o percurso seria feito em 30 minutos.

Tinha aproximadamente 10 minutos de margem até os reactores pararem.


Em pleno Oceano Atlântico!

Lembro que estávamos em 1980. A navegação naquele tipo de avião era feita com muito poucas ajudas electrónicas e ninguém tinha ainda ouvido falar em GPSs…

E não podia, evidentemente, deixar de avisar o meu Chefe de Cabina e os assustados passageiros do que se passava.

Primeiro a Segurança. Mas não podia esquecer todas aquelas pessoas que me estavam entregues, tripulantes e passageiros. E todos naturalmente inquietos…

Para quem julga que resolver uma emergência é só seguir o que está nos manuais perceberá que não é só isso…

E eu nem sequer estava a seguir o Manual Oficial, aprovado em todo o Mundo...

E lá rumámos a Santa Maria, com 5º de flaps de fora, o trem estendido, mas com três reactores a trabalhar como um relógio suíço, um Comandante tranquilo, um Co-Piloto abananado com a volta que lhe dei na resolução da emergência, ainda para mais com a autoridade de ser Verificador e Instrutor e portanto fiel depositário dos procedimentos oficiais e legais do Estado Português (certificação dos Manuais pela Aeronáutica Civil) e com um Técnico de Voo entregue à gestão do muito que nos restava a funcionar bem naquele avião.

Um pouco depois de ter rumado ao meu novo destino o Controlo de Tráfego Aéreo de Santa Maria perguntou-me se queria declarar emergência.

Pensei no assunto e perante uma ainda que remota hipótese de a situação se complicar e dado que estava a mais de 20 minutos do poder aterrar, mas sobre o mar, decidi que sim.


Enquanto se preparassem para actuar eu teria tempo de aterrar, se o conseguisse, e então tudo podia ser cancelado sem ter havido ainda grandes movimentações. Mas todos estariam preparados. Sentia assim mais segurança para todos aqueles que me estavam entregues naquele momento complicado.

No dia seguinte um jornalista do Correio da Manhã, na sua alta capacidade de avaliação do sucedido, achou por bem noticiar o facto opinando que tal pedido de declaração de emergência (que não foi de minha iniciativa) tinha sido completamente desnecessário. Ele lá sabia porquê…

O Senhor Comandante Marcelino continuava impávido e sereno sem pronunciar uma única palavra.


O progresso do voo desde a falha dos Hidráulicos até às imediações de Santa Maria:




 
Mantive-me a voar abaixo dos 4000 pés porque embora o consumo dos reactores diminua com a maior altitude, o que eu gastava a subir com trem e flaps de fora fazia-me “ver” a Ilha de Santa Maria cada vez mais longe… com o acréscimo de consumo.

E a situação meteorológica era perfeita, até com o vento a nosso favor.

Estava um final de dia magnífico, não fosse a migração do óleo hidráulico para os mares de S. Miguel…



Eu num voo que não era este... Nem o Co-Piloto que aqui era o Sá Dantas



20 minutos depois de ter iniciado este inesperado périplo pelos Açores em busca do Aeroporto de Santa Maria com a sua grande pista e só com cerca de 20 minutos mais de combustível para gastar até me pararem os reactores, a Ilha Mágica não se avistava!

Mas eu sabia que ela estava ali mais à frente.

Via-a no radar.

Mas faltava o principal.

Ver o terreno!

O sítio onde podia pousar aquela máquina ferida.


Finalmente a Ilha!

 


Agora sim, sentia que tudo estava sob controlo e ia conseguir pôr toda aquela gente que dependia de mim no chão, com segurança.

Para ganhar mais uns minutos de combustível, começo a descer muito lentamente reduzindo a potência dos reactores e claro, o consumo.

Preparo um circuito de aterragem largo de modo a não ter que accionar demasiado as superfícies de controlo e peço a leitura dos checklists apropriados.



O circuito de Aproximação e Aterragem em Santa Maria, tal como o fiz:




 

Mas sabia que havia outro problema…


Com falha do Sistema Hidráulico A, o avião não tinha controlo de direcção no chão. Após a aterragem não podia fazer mais nada a não ser travar em frente até parar. No meio da pista.

O mais possível…

O Manual impede qualquer manobra imaginativa para tentar solucionar este facto.

Santa Maria só tem uma pista. E não era escala habitual do B 727. Nada havia ali de peças sobressalentes para aquele tipo de avião.

O que significava que se o meu avião, por qualquer razão, não pudesse ser removido da pista, ficávamos impedidos de ser socorridos na resolução do problema. Nenhum avião podia ali aterrar com segurança.

Seria acrescentar mais lenha àquela fogueira.

Mas na carta aeronáutica que estava a consultar no Manual de Voo da TAP via uma antiga pista desactivada que “atravessava” mesmo a meio a pista de serviço.


Podia estar aí a solução...


Teria que fazer uma aterragem o mais curto possível o que não era difícil dado o tamanho da pista de Santa Maria e também porque o meu avião já só tinha combustível para mais 10 minutos. Estava muito leve.

Assim como nós todos… mas de alívio, quando percebemos que a aterragem estava garantida e que tudo iria acabar bem.

Consegui aterrar logo ao princípio da pista e desacelerar calmamente até à proximidade daquele troço de pista desactivada que me aparecia enviesado para a esquerda.

Comecei então a dar um pequeno aconchego ao pedal do travão do lado esquerdo o que coordenado com a baixa velocidade foi levando suavemente o nariz do avião para onde eu queria. Mais uma vez contrariando a política oficial dos Procedimentos de Emergência...

E lá saímos da pista.

Sem problema algum!



 


Foi só esperar pelas escadas para a saída dos passageiros porque a escada estrutural do Boeing B 727 só funciona com o tal Sistema Hidráulico A.

Avião, tripulantes e passageiros sãos e salvos, resolvidos os trâmites legais e funcionais do sucedido, lá nos dirigimos todos para o Hotel.

Com um aviso prévio bastante suspeito...

O Chefe de Escala da TAP disse-me:


- O Comandante está cheio de sorte.

- Sorte?! Sorte porquê?

- Porque vai chegar ao Hotel de noite. Amanhã vai perceber porquê…


Quando chegámos o Hotel, já noite, pareceu-me excessivamente modesto mas tranquilo e com pessoal simpático.

Não havia aquecimento porque o combustível era muito caro e não justificava para o número de hóspedes habituais.

Não tínhamos banheiras nos quartos. Mas havia um poliban em cimento cru, quase preto do bolor encastrado.

Comemos bem, passamos a noite à lareira no hall de entrada todos juntos embrulhados em mantas à conversa, dormimos bem, a água do banho era quase quente, o pequeno-almoço foi bom e quando saímos do Hotel para desenferrujar as pernas é que eu percebi o que o Chefe de Escala tinha querido dizer.

Olhei para trás e vi-o.

O Hotel de Santa Maria.

Em 1980.

Estava instalado nos grandes barracões abaulados, em zinco, que a Força Aérea Americana tinha construído durante a 2º Grande Guerra para dar guarida aos seus militares…

Uns 35 anos antes…Nada mau!

A avaria foi reparada após o desvio de dois aviões da TAP para a Ilha de Santa Maria com o material necessário.

Como remate desta situação digo-vos que preenchi o relatório do Comandante, como habitualmente e fiz também um outro para a Segurança de Voo da TAP onde contei todos os pormenores, com todo o detalhe das várias situações que se me depararam. Sem ocultar nada. Sem omitir nada. Tudo bastante pormenorizado.

Só assim se consegue que situações anormais sejam avaliadas e futuramente solucionadas.

Recebi uns dias depois um ofício da Segurança de Voo a agradecer o meu tão circunstanciado relatório.

Mas o melhor viria ainda a acontecer.

Mas só dois anos depois...

Numa revisão periódica habitual dos procedimentos de Emergência que a Boeing envia a todos os que operam os seus aviões, como as actualizações dos PCs, iOS ou Android e  como fazem todos os outros fabricantes de aviões.



O procedimento para resolver aquela avaria tinha sido modificado
exactamente nos moldes em que eu tinha actuado.


Não podia ser de outra maneira já que simplesmente me tinha baseado no que a própria Boeing fazia em outros modelos de avião em que eu tinha anteriormente voado.

Durmo desde sempre de consciência tranquila quanto a esta emergência que resolvi do modo que me pareceu mais correcto.

Ainda hoje me sinto muito bem quando me lembro das peripécias desta história…


Moral da história:


Não se deve nunca improvisar e achar que se está certo e todos os outros errados.

Mas quando se tem a certeza, fundamentadamente, que algo está errado e ninguém quer ver o êrro, parece-me criminoso não agir e deixar andar.

Ás vezes é preciso ter coragem para lutar contra o que está (mal) estabelecido.


Valeu a pena...


 
Um bom almoço para todos, como diz o Papa Francisco…





(Actualizada em 16 de Março de 2019)