quarta-feira, 22 de abril de 2015

Pedaços de vida - História da Photographia



      "Boulevard du Temple”,  3º Bairro,  em Paris




 



Um Daguerreótipo tirado por ele mesmo, Daguerre,  em 1838, inclui a mais antiga fotografia conhecida de uma pessoa.
A imagem mostra uma rua, mas por causa do tempo de exposição, mais de dez minutos, o tráfego em movimento não aparece.
No canto inferior esquerdo, no entanto, um homem aparentemente a engraxar as suas botas bem como o engraxador, estavam imóveis o suficiente para as suas imagens ficarem gravadas.

 





Só até ao advento da fotografia Digital



A fotossensibilidade do nitrato de prata é um fenómeno conhecido desde o séc XVII quando o reconhecimento fortuito das suas propriedades foi pela primeira vez observado pelo cientista italiano Angelo Sala ao deixar um frasco com pó de nitrato de prata acidentalmente ao Sol. A parte do frasco que ficou exposta à luz ficou “preta como tinta”. O lado que ficou à sombra manteve-se prateado.

A fotografia, a magia da reprodução perene de uma imagem numa superfície adequada, nasce da associação de várias circunstâncias.


Basicamente do encontro da camara obscura com placas heliográficas,  fotossensíveis, colocadas no seu interior.


Mas o que são camaras obscuras e placas heliográficas?...



Começa aqui a história da fotografia…

 


 






A camara obscura, provável invenção do filósofo chinês Mozi, um dos grandes críticos do Confucionismo, que viveu nos séculos V – IV antes de Cristo, é um instrumento óptico que permite obter uma projecção plana de uma imagem no seu interior.

Começou a ser mais divulgada no século XI pelo físico e matemático árabe Alhacén, nascido em Basra em 965.







 
Imagem a observar                A Imagem projectada na camara obscura






E só no século XV passou a ser usada como instrumento auxiliar do desenho ao permitir copiar num papel uma imagem projectada dentro dela.

Um espelho a 45º no fundo da caixa e um vidro no topo. Uma folha de papel sobre o vidro e a imagem podia ser copiada...



Foi Leonardo da Vinci que num tratado divulgou esta preciosa utilidade de reprodução de imagens.








Battista della Porta junta-lhe uma lente que aumenta a luminosidade da imagem projectada.

A camara obscura é basicamente uma caixa com um pequeno orifício, mais tarde uma lente, num dos lados por onde entra a luz, projectando a imagem na face oposta, ou num espelho.





Houve uma altura em que se achava que o orifício, para se conseguir tal magia, só deveria ser feito usando para o efeito um corno bem afiado de um Unicórnio.

Devido ao suposto uso intensivo deste apetrecho ficou-se na altura com a impressão que foi isto que levou á extinção deste mágico animal…

É verdade….



Ok… voltemos à história…



 
















     

 

 

 

     > Processo Heliográfico







Joseph Nicéphore Niépce (nasceu em Chalon-sur-Saône a 7 de Março de 1765 — Morreu em Saint-Loup-de-Varennes a 5 de Julho de 1833) um litógrafo conhecedor das propriedades fotossensíveis de um tipo de Betume da Judeia fez experiências com alguns químicos sobre uma placa de estanho e conseguiu reproduzir para uma folha de papel o desenho que fizera na placa, depois de esta ter sido exposta ao Sol.

A este novo processo que tanto o ajudou no seu trabalho de reprodução de imagens (ele que não era químico e que desenhava mal, um requisito essencial na litografia) chamou-lhe “Heliogravura”, do grego, Hellios – Sol.

  


O Heliógrafo de Niépce                               



“Niépce revestiu uma placa metálica com Betuma da Judeia dissolvida em essência de lavanda. A placa ficava sensível à luz. Uma vez seca era colocada numa camara obscura e depois exposta à luz durante cerca de 8 horas.

A imagem captada ficava latente na placa. 

Para a poder ver, para se revelar, era então mergulhada num banho que dissolvia as partes do Betume pouco expostas à luz. A parte do Betume que ficara fortemente exposto ao Sol endurecia e tornava-se insolúvel”.


(Tradução de um texto do site do Museu Niépce)



A mais antiga Heliografia recenseada data de 1826 e está hoje nas colecções da Universidade do Texas em Austin: 




“Le point de vue du Gras”


É uma imagem captada não muito longe de Chalon-sur-Saône, onde Niépce nasceu.


A mesma vista numa foto bastante posterior:






Niépce antes de morrer partilhou este processo com o seu sócio de há alguns anos Luis-Jacques-Mandé Daguerre (1787-1851).

As exposições eram ainda longas, pelo que objectos móveis não eram captados.
A 1ª fotografia de um ser humano, de Daguerre, numa movimentada rua de Paris, não mostra nenhum dos muitos veículos que ali circulavam. Só o estático homem…



> Daguerreótipos




 


Daguerre, um físico, desenvolveu o seu próprio processo, em 1837. Uma imagem positiva registada numa placa de cobre revestida a iodeto de prata.

As imagens produzidas dentro de uma camara obscura eram depois reveladas por exposição ao vapor de mercúrio e finalmente fixadas por uma solução salina.

Cada Daguerreótipo era único. Não podia ser reproduzido.
As 1ªs exposições com este processo demoravam 1 hora.



  










Em 1839 Daguerre conhece Samuel Morse (co-inventor  do telegrofo e do Código Morse) e juntos criaram a Morse Daguerreotype Camera para ser vendida nos Estados Unidos da América







1839 -  William Henry Fox Talbot produz o primeiro negativo, pelo:


      > Processo Calótipo


As imagens eram registadas em papel encerado, sensibilizado com cloreto de prata.
Múltiplas imagens podiam então produzidas por cópia directa.

Tanto Talbot como Daguerre desenvolveram a mesma técnica sem saberem um do outro.

Os Calótipos eram menos detalhados do que os Daguerreótipos mas tinham a vantagem de produzir um negativo reproduzível em imagens positivas, a fotografia tal como a conhecemos.

Este processo negativo-positivo foi a base da fotografia até ao advento do Digital, em finais do séc XX.

1840 – As exposições ficaram mais rápidas quando o químico Inglês John Frderick Goddard descobriu que juntar Bromo a uma placa Daguerreótipica a tornava mais fotossensível.



       Uma composição de vários Daguerreótipos mostrando Cincinnati, em 1848


   


1850 – A impressão Albuminada começou a divulgar-se. Usava o Albume de claras de ovo para ligar as substâncias fotossensíveis ao papel.





Era o:



      > Processo das Placas Húmidas


As placas tinham de ser revestidas com uma mistura de colódio (fluido viscoso e transparente, feito com piroxilina ou algodão pólvora e diluído em partes iguais com álcool e éter) e iodeto de potássio, mergulhadas em nitrato de prata e expostas ainda húmidas.

Após a exposição, o negativo de vidro tinha de ser revelado, fixado e lavado.
 
Fora do laboratório o fotógrafo tinha de usar uma camara escura portátil, com uma tenda de lona à prova de luz e trabalhar aí dentro.




1851 – Frederick Scott Archer, escultor e fotógrafo Inglês, apresentou o seu processo revolucionário de Placas Húmidas e colódio:

- Revestiu placas de vidro com substâncias fotossensíveis dissolvidas em colódio que aderia à superfície. Obtinham-se negativos nítidos e muito detalhados com uma exposição muito menor.

Em finais da década de 1850 havia substituído completamente tanto o processo Daguerreótipico como o Calótipico.


1851 – Richard Leach Maddox revolucionou a fotografia com o primeiro

     > Processo de Placas Secas


Maddox revestiu placas de vidro com nitrato de prata e brometo de cádmio em gelatina. Isto permitiu que as placas fossem revestidas guardadas e usadas quando necessário.

Este processo foi melhorado por Charles Bennett que descobriu uma forma de endurecer o revestimento, tornando-o mais durável.

Bennett descobriu ainda que a “fervura” melhorava a emulsão e aumentava a sua fotossensibilidade.

1878 – As placas de brometo de prata coloidal começaram a ser vendidas. Este processo permitiu emulsões de mais qualidade e fotossensibilidade, bem como o uso de camaras de mão mais pequenas.










1880 – George Eastman, fundador da Eastman Dry Plate Company e da Eastman Kodak Company inventou as suas próprias placas secas e uma máquina para as produzir em massa.

1884 – George Eastman patenteou o primeiro rolo de filme negativo bem sucedido, o “American Fim” e a firma passou a chamar-se Eastman Dry Plate and Film Company.




1887 – Neste ano um Pastor de New Jersey, Hannibal Goodwin pediu para registar uma patente de um filme fotográfico em celulóide. Por falta de fundos a patente acabou por ser registada somente 11 anos depois, em Setembro de 1898



 







1888 – Eastman apresenta a camara Kodak já carregada com um filme para 100 fotografias. Quando todas as fotos estavam tiradas a máquina com o rolo lá dentro voltava para a Companhia em Rochester. Era então revelado na fábrica e as fotos impressas. A mesma máquina, carregada com novo filme, era devolvida com a fotografias impressas. Foi um sucesso Internacional instantâneo.



















Desembarque de pessoas na praia. Baía da cidade do Funchal, anterior a 1889. Fotógrafo Joaquim Augusto de Sousa. Foto do Museu "Vicentes", Madeira.






1889 - George Eastman, em Abril, pede para registar uma patente para um filme semelhante.
A patente é concedida em Dezembro desse ano mas o Marketing começara já 4 meses antes. 





 










Este imbróglio foi parar aos tribunais após a morte de Goodwin em 1891. O caso andou enrolado 12 anos. A Companhia de Goldwin foi revendida várias vezes e finalmente o último nesta sequência, a Ansco Film Company acabou por ser indemnizada em $5 milhões de dolares.







A Eastman Co. passa a fabricar cameras fotográficas portáteis e, em 1902, é responsável por 85% da produção mundial.

















1903 – Os irmãos Lumiére, August e Louis (que já tinham patenteado o Cinematógrafo) patenteiam o:




> Processo Autochrome


Este processo foi lançado em 1907. Consistia em placas de vidro revestidas com um mosaico feito de grãos de amido de batata tingidos de vermelho, verde e azul (RGB…) misturados, que agiam como filtros de cor.

A adição de uma camada de emulsão de halogenato de prata a preto-e-branco criava então uma imagem a cores.

As exposições eram muito longas, devendo ser feitas só com um tripé.

Os Autochromos eram bastante escuros e viam-se melhor num projector retro iluminado por um “Diascópio”




1909 – Extraordinário Autochrome a cores de John Cimon Warburg (1867-1931):

 “The japanese parasol”


The Royal Photographic Society




















> O Processo Polaroid Land


1947 - Quando Edwin Land anunciou, a 21 de Fevereiro de 1947 a sua revolucionária máquina fotográfica equipada com o filme Polaroid poucos acreditaram no seu sucesso.


   Polaroid Land Camera 100








20 anos depois, 14 milhões de Americanos tinham uma máquina destas e a Polaroid Corporation era o maior produtor da indústria fotográfica nos USA..




Como funciona?

O “filme” da Polaroid consiste num pacote com um conjunto de folhas de filme negativo e papéis positivos.

A fotografia quando é tirada sensibiliza uma folha de filme negativo. Logo a seguir, automaticamente, o negativo rola e a face exposta encontra uma folha de papel positivo.

A compressão de um contra o outro a que são sujeitos dentro da máquina liberta os químicos do filme negativo que constitui o “miolo” daquela sandwiche, revelando a imagem no papel positivo, que é depois ejectado para o exterior: a nossa fotografia.

As fotos ficam prontas com rapidez, aparecem em 10 a 20 segundos e são muito nítidas.

Tenho fotos destas em perfeitas condições desde há muitos anos…



Conclusão…


No final do Século XX a fotografia era um processo químico mecânico que envolvia uma série de passos, mágicos mas bastante demorados, para se chegar à fixação em papel de qualquer imagem que se quisesse reproduzir.

Fotografava-se com aparelhos óptica e mecanicamente semelhantes às nossas normais máquinas fotográficas digitais.


Estas duas pertencem à minha colecção particular:


Máq FOCA, francesa


Máq EXACTA RTL 1000 fabricada na Alemanha de Leste, em Dresden


A diferença estava no modo como se fixava a imagem.
 
Hoje a imagem, exactamente como antes, atravessa a lente e vai “sensibilizar” uma superfície, o sensor de 5, 10, 20 ou mais Megapíxeis.

Só depois é fixada num cartão de memória.

Antes de 1989 a mesma imagem que se queria eternizar atravessava as lentes e ia sensibilizar um filme de plástico flexível recoberto de várias camadas de químicos, encapsulado num rolo metálico que se estendia antes, a pontinha, nas traseiras da nossa máquina.



 

Quando se esgotava a capacidade de armazenamento do nosso filme, entre 12 a 36 imagens e não mais…este tinha de ser entregue num laboratório fotográfico para ser “revelado”.


- Aonde vais?
- Vou à Kodak revelar este rolo...


Alguns faziam-no em casa, nas casas de banho às escuras, se tivessem os químicos, o material, a habilidade e o conhecimento para o fazer. E uma mulher compreensiva claro!

 Não era difícil, o processo e a mulher compreensiva, mas… não era para todos.

Os Laboratórios, através de químicos e em camaras escuras “revelavam” o que estava sensibilizado no filme, cortando-o depois em tirinhas com 4 a 6 imagens.








Essas tirinhas eram os negativos daquilo que tínhamos fotografado e que agora ainda era preciso passar a positivo, a foto impressa em papel fotográfico.

Os Laboratórios faziam-no, sempre em camaras escuras, com Ampliadores onde colocavam aquelas tiras e projectavam as imagens aí eternizadas, uma a uma, em papel fotográfico virgem que por sua vez era sensibilizado e tinha depois que ser “revelado” também. Mais químicos, mais água mais secagem…mais granel nas casas de banho, às escuras, de alguns mais habilidosos

Um processo demorado, muito elaborado, que dava emprego a muita gente.

Dias depois, as tirinhas de negativos eram-nos entregues num envelope com as poucas fotos que tinham ficado bem, para nosso desespero.

Das 36 fotografias que tínhamos tirado ao longo, às vezes, de meses, havia 2 ou 3 que tinham ficado bem. O resto…ia para o lixo.

Entretanto tudo isto passou também a ser feito automaticamente em grandes máquinas que o faziam bem e depressa. Em poucos minutos.

E com muito menos empregados…








Contei-vos esta história com a preciosa ajuda de textos compilados de inúmeras fontes, nomeadamente:


- tirados de um pequeno livro "A História da Fotografia" incluído na publicação de Abril da Revista "O Mundo da Fotografia", que assino com muito gosto

- mas também da Colectânea da Time Life Books "Life Library of Photography", volume "Light and Film"

- e, claro, de variadíssimos sítios na Internet, entre eles:



http://www.nationalmediamuseum.org.uk/

 


















quarta-feira, 1 de abril de 2015

Pedaços de vida - A Odisseia do Alfa Pendular






A viagem que íamos iniciar era mais uma das rotineiras escapadelas a Lisboa...



Aproveitando o desconto de passageiro sénior, íamos à capital com o propósito de mais uma consulta de rotina do pós-operatório da minha catarata ao olho direito.

O Alfa Pendular, na Classe Conforto, passe a publicidade, é uma excelente alternativa ao automóvel e à caríssima Auto-Estrada e o seu complemento ainda mais caro, a Via do Infante.

E sai sempre ao horário.


Eram 15h05 em Faro.


Em menos de 3 horas estaríamos na Gare do Oriente.

Com uma catrefada de jornais e revistas e os nossos inseparáveis iPads (o WiFi do Alfa Pendular funciona bem) a minha cara-metade e eu acomodámo-nos nos razoavelmente confortáveis assentos e o Alfa partiu logo de seguida, de mansinho como sempre.

Duas horas depois, farnel já comido seguido daquele horrível café com que a CP nos castiga e uma boa soneca despachada, estamos onde?

Não sei se por ter acordado ligeiramente indisposto, não consegui identificar o lugar por onde passávamos e simultaneamente pareceu-me que algo me tinha caído mal no estômago. Só podia ser aquele maldito café…

No entanto a sensação era incómoda. Não era bem uma coisa física. Era bastante indefinida.

Parecia uma viagem como as outras, mas no ar pairava uma ténue e estranha sensação. Nada ainda muito perceptível.

Mas que alguma coisa de novo havia, havia…

O écran informativo dizia-nos que a temperatura exterior era de 19 graus e a velocidade a que circulávamos estava um pouco acima dos 230km/h.


Fantástico!


Nunca tinha andado tão depressa no Alfa Pendular…

Mas o meu estômago apertava.


E a velocidade ultrapassou os 240km/h.


Olhámos um para o outro e reparei que alguns passageiros também não tiravam os olhos do écran.











Uma estação… seria Alcácer do Sal? Nem deu para ver… foi galgada a grande velocidade e o pêndulo da carruagem inclinava-se cada vez mais nas curvas com aquela incómoda velocidade.






Sabíamos que a próxima estação seria, provavelmente, o Pinhal Novo.

Já tínhamos ultrapassado com muita pressa os arrozais de Alcácer.

O sistema sonoro de avisos nada dizia.

Ninguém nos informava qual era a próxima estação.

E não havia ninguém a quem perguntar.

Sempre a grande velocidade, passámos o Pragal e logo depois, muito pouco tempo depois, aquela maravilhosa travessia da ponte sobre o Tejo.








Todo aquele forte travejamento em aço alaranjado escuro a passar para trás como um filme antigo, a pelicula de celulóide solta e os 24 quadradinhos por segundo das imagens a sobreporem-se uns aos outros mas muito rapidamente da esquerda para a direita.

Lisboa e o Tejo viam-se bem… mas demasiado rápido. Demasiado rápido…

Sete-Rios e aquela muita gente na estação, estarrecida certamente, a ver o Alfa, que normalmente abranda ali, a passar mais rápido que o vento!






Entre Campos, já passou! Nem deu bem para perceber… O Alfa não parou ali...




Estação do Oriente!
















Finalmente!

 


Estamos a chegar ao fim desta viagem de final conturbado.














Que raio deu ao condutor para acelerar desta maneira até aqui…

E sem parar em lado nenhum desde há uma hora atrás!



Tudo de pé, malas na mão, casacos vestidos à pressa...

...e a Estação do Oriente a ficar para trás a mais de 245km/h!!!




Ficámos todos quietos.

Com tudo na mão…

Nas portas de saída. A olhar uns para os outros…




                                                    O que é que se estava a passar?...












As carruagens da Classe Conforto são as últimas do comboio e alguém sugeriu ir lá à frente à procura do revisor ou mesmo falar com o condutor, enquanto o Alfa, sempre em silêncio devorava a linha a 247km/h!






Os outros ficaram sentados prometendo tomar conta dos familiares dos expedicionários que se afastavam já.

Havia muitas pessoas de idade e crianças também.

Estávamos todos tão preocupados que solidariamente pensámos nos que precisariam de mais ajuda.

Era preciso acalmar toda a gente.

Aquilo não era nada...


- Uma pequena avaria, vai ver. Deixe-se estar sentadinho...

 


Em silêncio, amorfo mas hiperactivo, o Alfa galgava afanosamente quilómetros e quilómetros como se num súbito assomo de Alzheimer se tivesse esquecido do que era esperado fazer.



   Nem uma coisa nem outra.

Uns quantos passageiros deixaram-se estar sentados, incapazes de reagir como que aceitando aquela irracionalidade de um comboio que toma as rédeas de toda a tecnologia e estrutura de uma linha férrea inteira e resolve ser senhor do seu destino, levando-nos a reboque.


A maioria das pessoas, umas mais assustados e nervosas do que as outras, andava de um lado para o outro em busca de socorro ou explicações.






Vila Franca de Xira, Azambuja e o Setil já eram…



Não sabíamos, mas a Protecção Civil já estava alertada, evidentemente.

E a CP numa rapidíssima decisão de emergência, mesmo antes de tentar tomar quaisquer outras opções, andava “à frente” do Alfa e ia manobrando as linhas de modo a garantir uma circulação o mais segura possível, dadas as circunstâncias.

A bordo, no meio da confusão dos que queriam avançar e dos que pretendiam ir em sentido contrário, todos em busca de uma solução, o caos instalava-se como uma coisa pegajosa que se agarra a nós e não conseguimos deitar fora.

Nem havia como, pois o comboio parecia uma coisa blindada. Não havia saída possível. Nem uma fresta!



As estações eram passadas à velocidade de um TGV. As pessoas em terra, curiosas mas assustadas também, pareciam manequins ali esquecidos. A velocidade era tanta que não dava para perceber que realmente se mexiam, as que o faziam. Porque muita gente gesticulava para os familiares a bordo, com vontade de comunicar. Mas o que nós víamos eram bonecos imóveis, como numa instalação num qualquer Museu de Arte Moderna.



Pelo meu iPad consegui ler as notícias que já estavam a divulgar o sucedido.

E fiquei a saber que os GOE preparavam uma acção combinada com a CP para tomar o comboio e tentar imobilizar aquilo.

Seis e meia da tarde e já tínhamos deixado Santarém e o Entroncamento não devia demorar muito.

Ali sim. Naquele grande nó ferroviário poderiam tentar travar aquela besta de alguma maneira e toda a gente já dava palpites de como ia ser. Podiam tentar apertar as linhas ao longo de uns quilómetros e aquilo tinha de parar pela grande fricção.



- O meu amigo não está bom da cabeça…

- Atão porquê!? Não me diga que não conseguem!




Mas não. Não houve nenhuma tentativa de que nos apercebêssemos para parar o Alfa.

E o Entroncamento também ficou para trás.

E os GOE?

…os GOE… como é que havia tempo, antes de anoitecer, para eles se organizarem no sítio certo para assaltar aquilo?

O mais certo era a noite vir e, numa curva mais apertada, aquilo ir tudo borda fora.


O descarrilamento era certo.

 



E esta certeza teve o condão de acalmar ainda mais quem já não reagia e pôr os nervos em franja dos muitos que continuavam a sofrer com a irracionalidade da situação.

Todo o Mundo seguia agora a nossa Odisseia, dizia a aplicação da CNN no iPad.

Pelos telemóveis há muito que tentávamos saber o que fazer, mas o 112 estava de tal modo saturado, que as informações iam chegando aos soluços… que era o que mais se ouvia em todas as carruagens.

Eu tinha conseguido atravessar todas as composições do Alfa até ao local do condutor.

Ali uma multidão chegada antes tentava de todas as maneiras abrir aquela maldita porta. Em vão.

Parecia a porta de um avião comercial de acesso ao Cockpit. Aquilo, simplesmente, era também inviolável.

Ninguém a conseguira abrir até aquele momento.

Desisti e voltei á luta tremenda que era caminhar ao longo daquelas 5 ou 6 carruagens apinhadas de gente em pânico, até ao meu lugar.

Alfarelos e Coimbra B já tinham sido galgados, sempre a mais de 240km/h e a noite estava já ali.

Com muito medo começámos a ver passar as estações em flashes de luzes.

Não se via nada a não ser fogachos de luzes que nos assustavam ainda mais.

O 112 e a Protecção Civil garantiram-nos uma circulação segura, tão segura quanto aquela louca velocidade o permitisse.

O trânsito ferroviário e as estradas ao longo do nosso percurso estavam bloqueados por segurança.

E mais, pela manhã iriam então tentar o assalto ao comboio e tentar o reabastecimento por helicóptero de alimentos e água.

E aí pensei. De manhã?! Será daqui a quantas horas? E a essa hora a 240/250km/h será aonde?

Ultrapassámos a Pampilhosa em “marcha lenta”, a menos de 200km/h, vá-se lá saber porquê, e Mangualde aproxima-se.

As casas de banho começaram a não comportar mais dejectos e os jornais e revistas que havia tiveram que ter um uso diferente…

Já era bem noite quando a Guarda foi ultrapassada.

A Protecção Civil teve o condão de nos assustar ainda mais ao avisar um passageiro perto de mim que não largava o telemóvel, que as autoridades Espanholas estavam avisadas e já tinham tomado todas as acções necessárias.


Espanhóis metidos nisto!?


Foi aí que nos lembrámos que a linha não acaba ali em Vilar Formoso…

O Google Maps dizia-me que logo a seguir viria Fuentes de Oñoro e depois Salamanca

Um grande cansaço apoderou-se de mim. A minha cara-metade já dormia há muito embrulhada num casaco, evadida daquela assustadora realidade e eu resolvi descansar um pouco também.

Não era só o corpo que perdia as forças. A razão, incapaz de compreender o que estava a suceder e fortemente condicionada pela comoção geral que nos abalava a todos no Alfa Pendular, também estava a perder a capacidade de funcionar coerentemente e pedia para parar por uns tempos, à beira do colapso.

Soube-me bem desligar-me de tudo aquilo mas não consegui escapar a ainda ter um vislumbre de Salamanca, onde há mais de 50 anos atrás vivi naquela Base Aérea de Matacán, onde me fiz Piloto Militar. Do Ejército del Aire e da Força Aérea Portuguesa.


Mas voltei logo a adormecer, felizmente.


Os primeiros lampejos de luz mostraram-me uma imagem que conhecia dos filmes.

Uma carruagem totalmente desorganizada com gente a dormir no chão, roupa pendurada das bagageiras, um cheiro nauseabundo que parecia vir de todo o lado e um olhar assustado e resignado na maioria das pessoas.

A vontade de lavar a cara e as mãos a ficar por ali, sem solução…

Estávamos a passar Valladolid e há já bastante tempo que não tínhamos notícias de coisa alguma porque o WiFi há muito deixara de funcionar e ninguém conseguia ligar-se à Internet.


Assim que o Sol nasceu pudemos apreciar melhor toda a gente que como nós se entregara àquela vontade insana do Alfa que agora nos parecia uma entidade com vida própria, como se fosse um ser inteligente, mau mas inteligente, com o desígnio de nos levar à força para um local perdido, escolhido por ele.

Provavelmente iriamos ser feitos prisioneiros num qualquer túnel e nunca mais ninguém ia saber do nosso paradeiro, acorrentados uns aos outros numa caverna sem luz.

Eram também os primeiros sinais de falta de sanidade mental que se instalavam nos nossos cérebros…

Todos nós, quer pela falta de higiene pessoal, (não havia água para nos lavarmos, nem para beber) quer pela fadiga, o medo, a fome, o desespero, a impotência, éramos condenados a prazo que esperávamos pelo final certamente trágico que nos esperava. E os nossos rostos reflectiam bem tudo isso.

Deixáramos de ter medo.



O Alfa, de quem dependíamos e a quem nos ligávamos num aperto infernal, continuava a sua marcha louca.

Criatura demoníaca.

Um ser verdadeiramente extraterrestre com vontade férrea e determinação absoluta.



Tínhamos-lhe como que respeito. Muito respeito e um ódio visceral de que não queríamos que ele se apercebesse, não fossem as coisas complicarem-se ainda mais.

Sabíamos que isto era irracional mas não conseguíamos deixar de pensar assim, sempre com grande temor.



A Protecção Civil Espanhola e a RENFE deviam também ter tomado as medidas possíveis porque até ali tudo tinha corrido bem.

Até ali…

Depois de ultrapassarmos Segóvia, já com um Sol radioso, vimos um helicóptero militar aproximar-se. Identifiquei-o:


Era um SA.330 – Puma de Busca e Salvamento.





De portas abertas, soldados com os pés de fora, tentavam aparentemente com a ajuda de um guincho, colocar um deles no tejadilho do Alfa.

Não chegaram a usar o guincho...

As catenárias das linhas eléctricas não deixavam e o velho Super Puma também já nos limites da velocidade não conseguiu colocar ninguém naquele desvairado comboio e afastou-se. Mas manteve-se por perto durante algum tempo.

E logo a seguir começamos a subir para o planalto de Madrid.

Podia ser que o Alfa perdesse velocidade e se lhe acabassem as forças.

Mas não. Não tivemos sorte. A subida foi feita a 220km/h e já lá em cima voltou á loucura. 245km/h, a devorar quilómetros e quilómetros de carris.

Entramos nos arredores de Madrid e pudemos observar que toda a Espanha nos esperava ali. Todas as estradas e agora todas as ruas dos arrabaldes de Madrid estavam pejadas de carros parados em grandes e infindáveis filas e toda a gente de fora dos carros a saudarem-nos como que a dizerem que estavam solidários connosco.

Mas todos “freezados”, como bonecos ali propositadamente dispostos aleatoriamente.

Mesmo assim foi bom mas de pouco serviu…

Entretanto a vida a bordo piorava a olhos vistos.

Havia gente no chão que não sabíamos se estava a dormir um pouco ou para sempre.

Ajudávamo-nos no que se podia ajudar. Havia quem necessitasse mais de palavras amigas do que pão para a boca. Mas a maioria começava a sofrer de muita sede e pouca comida. Ou melhor, nenhuma.

Todo o que tinha sobrado dos mini lanches de cada um fora já dado, muito amiúde, às crianças mais chorosas.

Felizmente ainda não havia desacatos notórios.

E passámos pela tristemente famosa estação de Atocha sempre em velocidade desvairada. A estação estava pejada de gente que nos saudava. Mal deu para perceber…

Nesta direcção em que seguíamos houve quem informasse que o Alfa escolhera ir para Guadalajara que era a estação seguinte.

Ninguém comentou esta escolha do Alfa. Ele lá sabia…

O Helicóptero Puma voltou â carga para grande alegria nossa mas de novo teve de se resignar a acompanhar-nos a uma distância de segurança, para ele.

Sem comunicações, sem destino, sem as mínimas condições de salubridade (as necessidades eram feitas nos WC mas sem água nem esgotos) sem alimentação, entregues ao arbítrio do Alfa Pendular.

Já estávamos a entrar numa atitude de abandono, embora houvesse quem continuasse a tentar as coisas mais mirabolantes para tentar solucionar a situação. Mas como não se conseguia abrir nenhuma janela nem porta para o exterior, a muita gente pareceu que continuando as autoridades a controlar as vias e a circulação, o Alfa poderia continuar como até ali. Até onde ninguém sabia. Pelo menos a bordo.

E foi com estas conjecturas que passámos por Pamplona, quase sem darmos também por isso. Aliás, só por mera curiosidade nos interessava o caminho. A maior necessidade era tentar mantermo-nos o mais quietos possível e esperar que o pesadelo tivesse um fim.

Alguns já tinham desistido e queriam isso mesmo. O fim. Deles.

Entretanto uma dúvida começou a tomar forma entre os mais entendidos e curiosos nestas coisas de comboios e linhas férreas, Altas Velocidades e TGV’s.

O problema era a bitola.


A Bitola!

A Bitola!

 


A medida Internacional que rege o tamanho das vias. A distância da separação entre os carris.

Portugal e Espanha têm uma medida diferente do resto da Europa.

Mas ninguém tinha mesmo a certeza do que estava a dizer.

Sabíamos que havia uma bitola larga na Europa para lá dos Pirenéus e uma bitola estreita na Península Ibérica.

Ninguém sabia se a Espanha já tinha actualizado as suas linhas férreas para que o AVE (Alta velocidade Espanhola) fosse compatível com o TGV Francês.

Se já o tivesse feito, o que duvidávamos, como é que o Alfa, de bitola estreita, andava por ali a muito mais de 200km/h…

Mas no que todos concordávamos, sabe-se lá se com razão ou não, era que a nossa bitola estreita do Alfa não dava, de modo nenhum, para a bitola larga para lá de San Sebastian, que seria, naturalmente, a próxima estação.

E essa constatação deixou-nos com os nervos ainda mais em franja.

Parecia-nos que o fim da nossa viagem se aproximava. E o fim individual de cada um de nós era então inevitável.


Os que há muito o esperavam iam ser recompensados…


Depois de tudo o que já tínhamos passado a nossa capacidade de encaixar mais infortúnios tinha-se esgotado.

Ninguém duvidava da catástrofe eminente e isso foi interiorizado com diferentes matizes de sofrimento e manifestações de desespero.

Entre resignados em silêncio e outros em grandes gritos de aflição, o Alfa agora a 255m/h, 13º de temperatura exterior, passou velozmente e sem que nos apercebêssemos da sua aproximação, por uma grande estação pejada de gente, praticamente 24h depois de ter saído de Faro.

Só podia ser San Sebastian!

E era!

E o Alfa, aparentemente sem grande esforço naquela fúria de chegar a todo o lado sem destino, com muita, demasiada pressa, continuou a sua marcha em direcção a Bordéus.


- Não é aqui que a bitola muda!? Gritou alguém.

- É mais à frente, em Irún! Na fronteira! Responderam.


Tanto me faz, foi a reacção íntima geral, embora ninguém tivesse aberto a boca.

E logo a seguir, muito poucos minutos depois, naquele grande parque ferroviário, consegui ler “IRUN FICOBA”.


A ponte sobre o rio Bidassoa…

A França!

A estação de Hendaia!

Tudo passado a 245km/h!

Na maior das calmas…


Agora já não faltava nada!












O Alfa mantinha o misterioso fito de caminhar rapidamente sem destino para lado nenhum inclinando-se vertiginosamente nas curvas...





O problema da bitola estava resolvido.


O Alfa, afinal, “abitolou-se” aos carris. Só podia ser isso…



E foi ao passar na Gare de Guéthary muito perto daquele mar hoje cinzento batido pelo vento forte de Norte que sentimos pela primeira vez aquele cheiro acre.

Alguns passageiros das carruagens mais á frente começaram a aparecer e falaram-nos do cheiro que, aparentemente, era mais intenso na frente do Alfa. Segundo eles cheirava a algo que estivesse a ser submetido a calor, muito calor. Mas não havia fogo. Nem fumo.

E atiraram-se para ali, mais aliviados ou um pouco menos assustados. Como que a adiar um problema que previam mas eram impotentes para o enfrentar.

Ao passar por Baiona (“passei aqui há dias” disse um conhecedor do local) e a ponte sobre o Rio Adour, já bastantes pessoas se estavam a encaminhar para a retaguarda do comboio fantasma.

Alguns caminhavam com grande esforço de tão fracos que estavam para conseguir trepar por cima de tanta gente deitada no chão.

Mas todos mostravam um semblante de medo, olhando furtivamente para a frente da marcha.

E já respirávamos com panos na cara a proteger-nos daquele cheiro cada vez mais intenso, mas ainda suportável.

O que de todo não era suportável era o mar de gente que nos invadira o espaço que anteriormente já era ocupado por demasiada gente, crianças deitadas nos bancos, gente que dormitava em pé como eu…


Bastante assustados andámos assim, levados por aquele imparável monstro de mau génio,  absolutamente indomável, ainda durante bastante tempo.

 






E o cheiro acre, aquele cheiro sempre a insinuar-se…

Meio a dormir meio acordado vi uma grande gare com o nome parecido com St Paul qualquer coisa.

Não deu para ver… a tantos km/h a que nos deslocávamos.


Foi então que as coisas animaram...



Um helicóptero da Força Aérea Francesa, tal como os Espanhóis fizeram antes, tentou aproximar-se o mais possível, evitando as catenárias. O meu iPhone com 13% de pilha ainda deu para uma foto.




 

Havia militares de fora a gesticular mas ninguém percebia nada do que eles queriam.

Logo a seguir apareceram mais helicópteros do outro lado do Alfa, também com a grande porta aberta e muitos militares lá dentro, alguns completamente fardados de preto.


Devia ser uma força especial que tentaria “assaltar” o Alfa.





Este passou por cima de nós, da esquerda para a direta.

Mas era muito perigoso para eles.

No entanto aquela companhia reforçou-nos o moral.


Foi nesse momento que o fumo apareceu. A pouco-e-pouco, de mansinho, em crescendo, acre, irrespirável…

 


Pareceu-nos que o Alfa também tinha dificuldades em respirar com o próprio fumo que exalava porque por vezes a velocidade caía abaixo dos 200Km/h, para retomar logo de seguida aquela loucura dos 220/255km/h.

Os poucos, como eu, que seguiam o voo, ora perto, ora mais longe, dos helicópteros mas com grande dificuldade em respirar, tivemos por momentos uma certeza que nos veio certamente do desespero em que estávamos.


Eles vão atacar!...



Eles estão a preparar-se para atacar o Alfa...


Que agora dá nítidos sinais de estar a entrar em pânico, com aquela marcha errónea, rodeado de helicópteros ameaçadores mas também sufocado pelo fumo como que a tentar calcular o momento do que nos parecia vir a acontecer.

A marcha errónea também podia ser uma forma evasiva de evitar um ataque certeiro dos seus perseguidores no ar.

E foi logo a seguir a Labouheyre, com uma gare mesmo em frente a um descampado, onde passámos a 255km/h, que as coisas começaram a ser mais complicadas ainda.

Estávamos numa grande recta e os helicópteros voavam ao nosso lado, 3 de cada lado, ao lado uns dos outros, em formação cerrada.

Não fora o drama que vivia, dava gozo ver aquilo. Lembrava-me os meus velhos tempos na minha Força Aérea…

Mas aquilo não era um filme, era mesmo real e tinha um ar demasiado bélico para não ser tomado a sério.

Os helicópteros afastaram-se um pouco, o fumo já não deixava ver bem…


E de repente uma saraivada de pequenos roquetes rapidíssimos saíram daqueles justiceiros que pilotavam os helicópteros.

 


O impacto foi brutal!



Embora ferido de morte no maquiavélico centro de toda aquela loucura que o movia, o Alfa manteve-se estóica e desesperadamente nos carris. A velocidade a diminuir acentuadamente mas o fumo a tornar-se dramaticamente irrespirável.

De repente tudo se apagou com aquele fumo todo. Agora que começava a ficar mais escuro, ainda por cima sob um céu carregado de nuvens.

O Alfa continuava a abrandar mas ia ainda algo rápido, ofegante naquela infindável recta que parecia ter sido construída logo ali, para o que estimávamos e desejávamos, ainda a medo de o expressar, ser o seu fim breve.

Foi então que um grande helicóptero nos passou subitamente por cima e logo a seguir tudo ficou pintado de laranja.

O Alfa parecia esvair-se sob um pegajoso e viscoso sangue à medida que a velocidade, agora sim, se aproximava do fim.

Só víamos campos lavrados por entre os sulcos daquele alaranjado e pastoso líquido que escorria lentamente pelas janelas do moribundo Alfa e que milagrosamente fizera parar o fumo.

O Alfa teria sido atacado por um helicóptero contra incêndios, com um líquido laranja, retardante.

Agora que a velocidade estava a chegar a zero, inúmeros helicópteros pousavam nos campos, à nossa volta.

Já parados, fomos “assaltados” por militares franceses que com machados abriram as portas e janelas do Alfa de um e de outro lado.



E finalmente respirámos o ar fresco e puro da Gasconha.

 


O Alfa, moribundo, nos últimos momentos de vida, “abitolado” aos carris por onde espalhou o terror em centenas e centenas de quilómetros, acabou por morrer, não sem antes ter sentido o gozo, mórbido, é sabido...

 

...de se ter sentido um VERDADEIRO TGV!

 


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As fotografias desta história:

Algumas fotos do Alfa Pendular foram extraídas de excelentes vídeos no You Tube de Fábio Quintas e Paulo Caldeira Martins.
Outras são minhas, incluindo as da Estação do Oriente.
Algumas levaram um "banho" de Photoshop...
As fotos de helicópteros foram obtidas em diversas páginas da Wikipedia.

Com os meus agradecimentos a todos.





A culpa disto tudo é um gajo estar reformado, ter descontos na CP e pôr-se a imaginar coisas…
 

Prontus!



Actualizada em 11 de Abril de 2015