quarta-feira, 27 de junho de 2018

Outras Histórias - A trivela de Quaresma

NOTA:

Esta "História" é 100% cópia de um brilhante texto de
Marta Leite Ferreira no "O Observador" de 26 de Junho de 2018.

Todas as imagens são também do jornal.














Marta Leite Ferreira



A TRIVELA DE QUARESMA




A trivela com que Quaresma garantiu a presença de Portugal nos oitavos é mais uma jóia da seleção. Rege-se por leis da física estudadas há cinco séculos, mas só compreendidas há dez anos.

Ao longo dos últimos quase cinco séculos da história da ciência, houve pelo menos três génios que tentaram explicar aquilo que Ricardo Quaresma fez segunda-feira à noite contra o Irão e que valeu à seleção portuguesa a qualificação para os oitavos de final do Mundial. Quem viu o jogo não esquece o momento: Quaresma acertou de  com a parte de fora do pé direito na bola, que “até parecia teleguiada”, viajando 22 metros em 1,1 segundos até ir parar ainda a rodopiar ao fundo das redes da baliza iraniana.





A corrida para a bola


Em pouco mais de um segundo, o atacante português cumpriu duas das condições essenciais para tornar um golo indefensável: chutou a bola para o canto mais afastado do guarda-redes, que não teve tempo suficiente para reagir ao remate, e ainda por cima deu-lhe uma direção que era impossível de prever pelo guardião do Irão. Para explicar cientificamente a famosa trivela de Quaresma, que ele anda a aprimorar desde aquele Beira-Mar-FC Porto de 2004, é preciso andar para trás e revisitar as teorias de Galileu Galileu, Isaac Newton e Albert Einstein. Sim, esses mesmos.

Conta Vincenzo Viviani, biógrafo e pupilo de Galileu Galilei, que num dia algures entre 1589 e 1592 o físico italiano subiu ao cimo da Torre de Pisa com duas esferas na mão e atirou-as das alturas para provar que, apesar de terem massas diferentes, elas chegavam ao mesmo tempo ao chão. Desde então que na física se conhecem as leis do movimento, as mesmas que explicam pelo menos parte das trivelas de Quaresma: a NASA, agência espacial norte-americana, diz que o efeito que o jogador português provoca na bola “é causado por forças aerodinâmicas“.



O remate, como a parte de fora do pé direito



“Tudo o que é necessário para criar a sustentação da bola é criar um fluxo de ar: assim como o aerofólio de uma asa  [aquela parte final das asas dos aviões ou o que alguns carros transformados têm na parte traseira] cria um fluxo, o mesmo acontece com uma bola que gira. Os detalhes sobre como é que a força é gerada é bastante complexa, mas depende do tamanho da bola, de quão rápida ela gira, da velocidade do pontapé e da densidade do ar”, resume a NASA. Pois, não é fácil.
As características desse fluxo de ar que permite à bola viajar de um ponto ao outro numa trajetória curva dependem da natureza do pontapé, como concretiza Kenneth S. Mendelson, físico da Universidade de Marquette (Estados Unidos): “O movimento giratório de uma bola de futebol é determinado pela forma como ela é chutada. Se a bola for chutada diretamente em linha com o seu centro de massa não girará, mas um chuto fora do centro de massa fará com que ela gire. Quanto mais forte for o pontapé e quanto mais longe for dado do centro de massa da bola, mais depressa ela vai girar“, explica.
É por isso que nesta fotografia (fantástica, diga-se) partilhada pela Federação Portuguesa de Futebol, o pé de Ricardo Quaresma parece tão desviado daquele que seria o percurso mais normal de um pontapé: o que o internacional do Besiktas faz é desviar/entortar (ou chamemos-lhe o que quisermos ao olhar para a imagem) o pé de modo a passar de raspão na Telstar, fazendo com que gire mais rápido e de forma completamente imprevisível.


É aqui que entram as contribuições de Isaac Newton. Um dia, o astrónomo britânico assistia a uma partida de ténis quando reparou quese o tenista acertasse na bola com um movimento da raquete executado de baixo para cima, ela acabaria por começar a girar e a subir para depois cair bruscamente no campo do adversário; enquanto que se ele acertasse na bola no movimento contrário, de cima para baixo, ela começava a girar no sentido contrário e levantaria em vez de cair repentinamente. Hoje em dia, esses movimentos já têm nomes no ténis: o primeiro chama-se topspin, enquanto o segundo é conhecido como backspin.



A bola já gira a grande velocidade segundo as leis da física


Para a física o nome é outro: efeito Magnus. E acontece quando arotação de um corpo altera a trajetória que ele vai percorrendo ao longo de um líquido ou de um gás, como o ar: “Dando à bola um giro, um jogador de futebol pode fazer com que o caminho desta pelo ar se curve ou dobre. A curvatura é causada por uma força, chamada de efeito Magnus, provocada pelo movimento do ar sobre a bola giratória”, resume Kenneth S. Mendelson.
Isso acontece porque, quando o ar passa por uma bola, ou se move através do ar, uma fina camada de ar adere à superfície da bola: é a camada limite. Essa camada limite deixa de conseguir manter-se agarrada à superfície da bola quando o ar passa para a parte detrás dela, altura em que se transforma numa série de remoinhos: “O resultado é que a bola exerce uma força no ar fazendo com que ela se mova na direção daquela forma que vemos. Segundo a Terceira Lei de Newton, há força de reação do ar na bola que faz com que o caminho da bola se curve”, diz o físico norte-americano.

Essa explicação foi retomada  no livro “Como Vejo O Mundo” de Albert Einstein ao falar do Princípio de Bernoulli, que diz que “se a velocidade de uma partícula de um fluido aumenta enquanto ela se escoa ao longo de uma linha de corrente, a pressão do fluido deve diminuir e vice-versa”. Vamos trocar isto por miúdos: quando Ricardo Quaresma fez com que a bola seguisse uma trajetória curva, o futebolista também fez com que ela começasse a girar no sentido dos ponteiros do relógio e arrastasse o ar à sua volta. Na parte de baixo da bola, o ar desloca-se no mesmo sentido da corrente criada pelo movimento da bola para a frente, enquanto na parte de cima, as duas correntes têm sentidos contrários à bola. À conta disso, o ar por baixo da bola movimenta-se com maior rapidez e a pressão é menor; e o ar de cima desloca-se mais lentamente e a pressão é maior. Essa diferença força a bola a seguir uma trajetória curva: “Há, portanto, um desequilíbrio nas forças e a bola desvia-se para lhes obedecer“, concretiza a revista Physics World num artigo publicado há 10 anos.



E a bola a entrar onde devia, no canto mais afastado do guarda-redes iraniano




Isso também é contado num estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que explica tudo por partes. “À medida que a bola se move no ar, o ar enrola-se em volta da bola. Na parte de trás da bola, as correntes de ar que se separaram ao encontrar a bola voltam a unir-se. No entanto, como a bola se move significativamente mais rápido que o ar, há uma lacuna entre o lado de trás da bola e o local onde as correntes de ar se reúnem. A bola é como uma rocha num rio que flui rápido: a água divide-se em redor da rocha e depois agita-se para a envolver, causando turbulência. Essa área é chamada ‘esteira da bola’ e aponta para longe da direção em que a bola vai voar”, começa por ler-se. Explicada a forma como a bola atravessa o ar, o MIT avança depois como se forma a rotação dela: “Se olharmos para a parte de trás de uma bola em rotação, podemos ver uma direção que é útil para descobrir como a bola se vai curvar. O ar vai agarrar-se na superfície da bola a girar como se fosse feito de xarope. Isso significa que o ar vai fluir ao redor da bola na mesma direção em que ela vai girando. Assim, o ar ao longo do lado esquerdo da bola é arrastado para a direita, tal como a rotação dela“.

A tudo isto é preciso juntar o facto de a bola não só estar a girar, mas também a avançar para a frente, realça o MIT: “Como a bola se está a mover para a frente, é como se o ar se estivesse a mover para trás e ao longo da superfície da bola. Ao fazê-lo, as correntes de ar separam-se em torno da bola e depois voltam a unir-se novamente. Mas devido à maneira como o ar flui ao redor da bola, o fluxo de ar divide-se de uma maneira muito estranha”.

E é estranha porque é como se o fluxo de ar fosse soprado para o lado e não se encontrasse no centro de massa da bola: “Como os fluxos se encontram mais à direita do centro, o rasto que devia estar diretamente atrás da bola passa a estar mais para o lado direito da bola”. Mas a quantidade de ar em ambos os lados da bola permanece a mesma, por isso o ar à esquerda tem que se espalhar mais para preencher o espaço livre à direita. No caso específico do golo de Quaresma, como a mesma quantidade de ar precisava de ocupar mais espaço, isso criou uma pressão de ar no lado esquerdo da bola: “Como o ar ao redor da bola flui mais para a direita, a própria bola é forçada a rolar para a esquerda para preencher a lacuna causada pela rotação”, termina o artigo do MIT.
Tudo isto acontece tanto mais rápido quanto mais forte for o pontapé de Quaresma. Mas há mais um aspeto físico a favor do avançado português: é que a bola não é uma esfera perfeita. Tem hexágonos cosidos uns aos outros. Como a superfície da bola é irregular, mesmo que a bola esteja a girar devagar ou que não esteja a girar de todo, o ar não se agarra a ela: as costuras da bola interrompem o fluxo de ar, que se torna turbulento e por isso pode girar de volta para a bola dando-lhe empurrões que podem aumentar a velocidade ou colocá-la a girar mais depressa. 

Aquilo que Ricardo Quaresma fez na segunda-feira à noite é precisamente igual ao que o brasileiro Roberto Carlos fez em 1997: o Brasil defrontava a França num jogo de preparação para o Campeonato do Mundo quando o lateral foi chamado para marcar um pontapé livre. Ao início, a bola parecia dirigir-se para a direita como se fosse sair no canto da área francesa, mas depois fintou os defesas e voltou a encaminhar-se para a baliza de França, onde Fabien Barthez ficou imóvel sem conseguir reagir ao efeito conseguido.

Depois disso, vários cientistas tentaram explicar exatamente o que tinha acontecido em campo naquele dia, conforme noticiou a BBC em 2010: “Uma equipa francesa de cientistas descobriu a trajetória do golo e desenvolveu uma equação para descrevê-lo. Dizem que ele poderia ser repetido se uma bola fosse chutada com força suficiente e com o movimento giratório apropriado”, dizia a notícia. O estudo a que se referia a notícia acrescentava: “Nós demonstrámos que o caminho de uma esfera quando gira é uma espiral” como se fosse “uma trajetória com um formato igual à concha de um caracol”.
Aquilo que os cientistas estudam há cinco séculos e que só conseguiram aplicar ao futebol há dez anos não impressa Ricardo Quaresma. Nas entrevistas depois do Irão-Portugal, Quaresma disse: “Peguei bem na bola, já habituei as pessoas a esse tipo de remates. Foi um grande golo, mas o mais importante foi alcançar o grande objetivo de todos nós, que era chegar à fase seguinte”.

Quando está em campo, é pouco provável que Ricardo Quaresma faça contas aos efeito Magnus para dar feitios à trajetória da bola ou que tente calcular como a força de gravidade lhe vai traçar o rumo: para ele vão contando os 14 anos que passou a aperfeiçoar as trivelas.





A festa dos dois amigos de sempre

















domingo, 17 de junho de 2018

A Minha Força Aérea - A minha não-largada em Piper Super Cub


       O Super Cub do Museu do Ar





Isto ocorreu nos idos do final da década de 60 do século passado.


Estava eu colocado na Esquadra 51 em Monte Real, Leiria, na Base Aérea Nº5.




E já tinha voado mais rápido que o som num F-86 daquela Esquadra.
















Sou um Falcão! 








Ver essa história aqui.








Recuando uns bons 10 anos no tempo, eu tinha sido largado, com 16 anos, num
Piper Cub, igual a este aqui em baixo, do Aero Clube da Zambézia em Quelimane, Moçambique.










logótipo do Aero Clube da Zambézia









Fui o piloto mais novo a voar sozinho num avião em Moçambique.


E pouco mais voei porque achei que o meu Pai não devia continuar a sacrificar-se.

Deixou pois de haver dinheiro para mais horas de voo, mesmo com o abençoado subsídio da Mocidade Portuguesa.

Fascista, fascista, mas muitos jovens puderam assim fazer todo o tipo de actividade desportiva com o seu precioso subsídio. E hoje, como é? Adiante...












Pois bem, voltando a Monte Real, refiro que a Força Aérea também estava equipada com aviões Piper Cub mas do modelo Super Cub que diferia do Cub normal, entre outras coisas, por ter um motor mais potente.

Servia para voos de ligação e treino.

E como o mexilhão é sempre quem sofre mais... os pilotos menos graduados eram os que, na Base Aérea Nº5, normalmente voavam nele.




Em Monte Real até dei instrução num desses aviões a um digníssimo Oficial da Academia Militar que em 1974 foi escolhido para Conselheiro da Revolução.

Daqui lhe mando um grande abraço, lembrando-lhe aquele voo em que sendo eu o responsável pela segurança a bordo, como instrutor, conseguimos mesmo à justinha, os dois em simultâneo sem termos tido sequer tempo de comunicar um com o outro, com grande mérito, evitar um grave acidente!


É desta raça que se fazem os grandes aviadores…















Aconteceu que sobrevoando nós um braço do rio Mondego perto de Montemor, mas na margem Sul, com uma manobra rápida, própria de aviadores competentes, conseguimos evitar embater em arames esticados no meio do canal.

No meio do canal! Quem diria...




Imaginem arames esticados a uns míseros 50 centímetros da superfície daquele calmo braço de rio…

Ladeado de frondosas árvores.

Lindo...


Os dito cujos arames serviam para os pescadores os usarem como tracção manual de deslocamento de pequenos barcos de pesca entre as duas margens do estreito canal.

Foi ou não foi bonito?


No comments…


Pertencendo eu aos tais mexilhões, tinha de voar simultaneamente os aviões da Esquadra de Ligação e treino a pouco mais de 150km/h e os supersónicos F-86 que faziam 9 minutos de Monte Real a Lisboa contra os 45 minutos dos aviõezinhos que no entanto também davam gozo voar.















Voltei a ser largado, em Monte Real, no Chipmunk onde poucos anos antes aprendera a voar em Aveiro, na Base Aérea de S. Jacinto, hoje extinta.







A Base Aérea Nº7 nos seus bons tempos




  Placa de estacionamento dos Chipmunks em S. Jacinto, Aveiro, 1962











E por causa da monotonia a que eu estava obrigado naqueles penosos 45 minutos, mexilhão é mexilhão… fazia os voos, normalmente para Alverca, a uma considerável altitude.

Simples bom-senso…

É que eu sabia que ia adormecer inevitavelmente, com o sol de frente. E ás tantas o avião começava também a adormecer por falta da  minha companhia...

O coitado acabava afinal por relaxar, a querer ir por ali a baixo, sonolentamente...





Quando a aerodinâmica iniciava o processo de aumentar a velocidade, na queda inevitável, aquele barulho acrescentado fazia-me acordar, sem sobressaltos.

Afinal ainda havia muita altitude para perder…

Segurança acima de tudo!















A minha largada no Super Cub na Base Aérea de Monte Real foi sendo sucessivamente adiada sempre por razões fortuitas. Tinha que haver, por norma, um senão à última da hora.

Até que…




O Comandante da Esquadra daqueles aviões ligeiros recebe um telefonema no seu gabinete com um pedido para se ir buscar com urgência uma peça de motor a Alverca, ás Oficinas Gerais de Material Aeronáutico.

Sai logo do gabinete á procura do primeiro aviador capaz e dá de caras comigo no corredor. 

E diz-me.

- Ó Cavaleiro você tem de ir já, já, a Alverca no Cub buscar uma peça.

E eu nada…

- Você já foi largado, não foi?

Salta-lhe a dúvida. Era a minha grande oportunidade!

- Já sim senhor.

- Ok, então vá lá...



Ordens são para se cumprir.



Tinha já um Cabo Mecânico à minha espera para fazer o meu primeiro voo naquele avião e ir buscar a peça.



Antes de entrar no Cub disse-lhe:









- Camarada, eu nunca voei nesta coisa. Você arrisca ir comigo?

- Se você acha que é capaz…

- Bora!






E pronto, foi assim que fui largado no Super Cub da Força Aérea Portuguesa.




(Como se diz nos filmes, não tentem fazer estas coisas lá em casa, nem deixem os putos fazer…)















quinta-feira, 24 de maio de 2018

Outras histórias - Madgermanes, meus irmãos





Tão parecidos que nós somos...



No dia 24 de Fevereiro de 1979 o presidente da RDA (República Democrática da Alemanha, comunista, de Leste) Erich Honecker assinou em Maputo, com Samora Machel, presidente da República Popular de Moçambique, acordos de “amizade e cooperação” entre os dois estados.

O interesse era comum. Aos alemães de leste interessava-lhes uma mão de obra barata, que teriam que formar. À Frelimo dava jeito a injecção de divisas e a mais valia de terem uma elite formada na Alemanha, capaz de ajudar na reconstrução do país, a braços com uma sangrenta guerra civil que durou 15 anos.

Entre 1979 e até à queda do muro de Berlim e a consequente reunificação da Alemanha em 3 de Outubro de 1990, mais de 20.000 moçambicanos trabalharam a custo reduzido em 193 empresas estatais da RDA ou estudaram em escolas criadas para o efeito.



   A Escola poucos dias depois de aberta











A “Escola da Amizade”, símbolo da Amizade Internacional,  abriu em 1982, perto de Magdeburgo. 899 crianças moçambicanas estudaram lá, num curso de 4 anos.

Algumas com 12 anos de idade...










 


Aprendiam ofícios de pedreiro, soldadores, lavadeiras… e a ideologia Socialista, tão do agrado da Ministra da Educação moçambicana, Graça Machel.





Em 1987, 13 jovens pescadores de Moçambique receberam instruções sobre como trabalhar
com motores na empresa estatal VEB Fischfang Rostock. 



Moçambicanas durante uma formação de indústria téxtil na empresa estatal VEB Frottana Großschönau (Löbau-Zittau) em Março de 1983. 


 

 









A Ministra de Educação da RDA, Margot Honecker, de visita à Escola da Amizade no dia 25 de Junho de 1983.




 









Samora Machel,Presidente da República Popular de Moçambique e a Ministra de Educação da RDA, Margot Honecker encontraram-se em 3 de Março de 1983.



As mulheres dos presidentes dos dois países eram pois Ministras da Educação
 



Esta “amizade”... “acabou” um ano antes da queda do muro de Berlim e a escola fechou.



Quando, no final dos anos 80 do séc. passado, a RDA começou a desmoronar-se e a economia também sucumbiu. À beira da reunificação da Alemanha, em 3/10/90, os tais Acordos de 1979 também deixaram de fazer sentido.

Obrigados a regressar inesperadamente a casa estes moçambicanos encontraram um país em guerra civil e sem ofícios para eles.

Alguns voltaram à Alemanha.

Quando o muro de Berlim caiu, em 9/9/89, cerca de 15.500 moçambicanos ainda trabalhavam na RDA.

Muitos tinham constituído família, uma vida, com filhos e tudo.

E quando  voltaram à terra-mãe eram falantes de Alemão, altamente competentes em Socialismo e nos seus ofícios manuais, cultura de rigor alemão, profissionalismo e nenhum sítio onde aplicar todas estas aptidões.

Mas com um nível académico muito baixo, 4ª classe. Na tal escola da amizade alemã a cultura ministrada pouco passava do Socialismo e corte e costura…


Além disso eram fervorosos adeptos do Leipzig Futeball Club, evidentemente…

(Leipzig, a city that can claim to be the home of German football )

 


Por tudo isto ficaram conhecidos por Madgermanes, de “Made in Germany”…




E aqui começou o calvário para milhares de Madgermanes. 


Viram-se sem emprego e sem dinheiro.

Sem dinheiro significa que os 60% do salário da Alemanha que lhes era descontado e enviado para Moçambique para futuramente lhes ser pago, referente à segurança social abono de família, indemnização por rescisão de contrato, juros de mora, etc., constituindo uma futura reforma, desapareceram! 



A Alemanha diz que mandou os Marcos.

Moçambique não diz nada.

E eles, sem emprego, nada recebam… 



E de uma elite emergente para a qual foram aliciados, acabaram por pertencer à mais cruel geração perdida.

Partiram da Alemanha socialista depois de amealharem um pé de meia e regressaram a casa onde o socialismo já não era o que tinha sido, com uma economia de mercado nascente, sem trabalho e sem o pé de meia que foram obrigados a entregar à guarda de dois Estados, que lhes ficaram com o dinheiro.

Pelo menos um deles...

Entregues a si, inúteis na sua terra e não desejados numa parte da Alemanha afinal muito pobre e atrasada.


E a recordarem melhores dias passados, de cachecol do Leipzig FC ao pescoço e a entoarem slogans num alemão perfeito…





Numa visita oficial a Moçambique nos finais de Novembro de 2015, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha Frank-Walter Steinmeier, actual presidente da Alemanha, disse:
“Há seis anos que estou no governo e, durante esse tempo, nunca fui consultado nem solicitado por parte do Governo Alemão ou de Moçambique, bem como dos ex-trabalhadores da RDA sobre esse diferendo”.













O presidente da Associação dos ex-trabalhadores na antiga RDA, Zeca Cossa, ficou indignado com o ministro.



Oldemiro Balói, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, visitou a Alemanha em 2009 e em 2014.

Guido Westewelle, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, visitou Moçambique em 2013.

Não parece credível que toda esta gente desconhecesse o que se passava com estes ex-trabalhadores da RDA...



No dia 6 de Fevereiro 2009 o presidente da Assembleia da República (AR), Eduardo Mulémbwè, evitou, mais uma vez, reunir-se com a Associação dos Antigos Trabalhadores Moçambicanos na Alemanha (ATMA), adiando o encontro que tinha sido marcado ...por razões de infelicidade pessoal!



 
Infelicidade pessoal têm os Madgermanes, que se reúnem regularmente, nem todos filiados na Associação, ás 4ªs Feiras no jardim 28 de Maio em pleno centro de Maputo ( o magnífico Jardim Vasco da Gama, no meu tempo) e também em vários núcleos por todo Moçambique.


















Organizam, desde 2002,
manifestações de protesto
geralmente não autorizadas










 Maputo 2009











Estas manifestações por vezes acabam mal...



   Familiar de Cachopa no funeral









Como no dia 3 de Julho de 2012 em que Carlos João Chivambo (Cachopa para os amigos) foi morto à queima roupa naquele jardim por um polícia de folga e à paisana. 




Ou com cargas policiais, como aconteceu em Maputo há exactamente 3 anos, Dez de 2014.

Em Berlim também foi organizada por muitos moçambicanos residentes na Alemanha uma manifestação, a 12 de Setembro de 2015 à qual também compareceram filhos de Madgermanes.

Lázaro Magalhães, membro fundador da Associação dos Antigos Trabalhadores Moçambicanos na Alemanha (ATMA), resolveu mudar de estratégia e entregar o caso aos Tribunais.

"Decidimos remeter uma queixa formal junto do Tribunal Administrativo da cidade de Maputo", revela Lázaro Magalhães.

“Ao abrigo dos acordos entre os dois países, deveríamos ser reintegrados”.

Na antiga RDA ficaram 3.000 moçambicanos.

Em Moçambique existem pouco mais de 11.000 Madgermanes dos quais 5.000 são filiados na associação.

Vários perderam a vida, "por várias razões", lamenta o antigo trabalhador na RDA. "Tiros da polícia, nas manifestações, para intimidar este grupo. Disparar para matar, para impedir que outros viessem", descreve. Outros, acrescenta, foram vítimas de doença, uma vez que "uma pessoa que não trabalha não consegue arranjar nem um metical para poder ir ao posto médico, ao hospital ou ao centro de saúde". Numa estimativa pessoal, o membro fundador da ATMA fala em "cerca de 4 a 5 mil mortes".

(Este último parágrafo é um texto da DW)




Madgermanes, meus irmãos!

 

Falantes de Alemão e...

 

adeptos do Leipzig  FC.

 




Com votos de que os Tribunais vos façam justiça e o Estado vos pague, se tiver dinheiro...





Sites consultados (além de um documentário num canal da DW):














http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2009/02/mul%C3%A9mbw%C3%A8-foge-dos-magermanes.html?asset_id=6a00d83451e35069e2011168578406970c