segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

ORIGEM DO NOME DESTE BLOGUE













É como se chama o rio que corre na cidade de Quelimane, situada em território do povo Macua, capital da Zambézia, Moçambique, este rio desagua 22km depois no Oceano Índico, o Grande Mar Português.


 

Foi Vasco da Gama, em Fevereiro daquele longínquo ano de 1498, à bolina pelo Oceano Índico nas costas de Moçambique, durante a primeira viagem, quem deu o nome de "Bons Sinais" ao rio que o levou a Quelimane.

Isto por ter tido ali bons sinais junto de famílias islâmicas originárias de Angoche, ali perto, de poder concluir com sucesso a viagem mar fora até à Índia..


Resa assim a Relação da primeira viagem à Índia pela armada chefiada por Vasco da Gama



«Uma segunda-feira, indo pelo mar, houvemos vista de uma terra muito baixa e de uns arvoredos muito altos e juntos. E indo assim nesta rota vimos um rio, largo em boca; e, porque era necessário saber e conhecer onde éramos, pousámos; e uma quinta-feira à noite entrámos (...)
Esta terra é muito baixa e alagadiça e é de grandes arvoredos, os quais dão muitas frutas, de muitas maneiras, e os homens desta terra comem delas.

E esta gente é negra, e são homens de bons corpos e andam nus, somente trazem uns panos de algodão pequenos com que cobrem suas vergonhas, e os senhores desta terra trazem estes panos maiores. E as mulheres moças, que nesta terra parecem bem, trazem os beiços furados por três lugares e ali lhes trazem uns pedaços de estanho retorcidos. E esta gente folgava muito connosco; e nos traziam ao navio disso, que tinham em almadias*, que eles têm. E nós isso mesmo íamos à sua aldeia a tomar água.

E depois de haver dois ou três dias, que aqui estávamos, vieram dois senhores desta terra a ver-nos (...). E um deles trazia uma touca posta na cabeça, com uns vivos lavrados de seda; e o outro trazia uma carapuça de cetim verde. Isso mesmo vinha em sua companhia um mancebo que, segundo acenavam, era de outra terra daí longe; e dizia que já vira navios grandes, como aqueles que nós levávamos, com os quais sinais nós folgávamos muito porque nos parecia que nos íamos chegando para onde desejávamos. (...)

E nós estivemos neste rio trinta e dois dias, em os quais tomámos água, e limpámos os navios e corregeram ao Rafael o mastro. E aqui nos adoeceram muitos homens, que lhes inchavam os pés e as mãos, e lhes cresciam as gengivas tanto sobre os dentes que os homens não podiam comer.
E aqui pusemos um padrão, ao qual puseram nome: o padrão de São Rafael, e isto porque ele o levava; e ao rio: dos Bons Sinais.

Daqui nos partimos um sábado, que eram 24 dias do mês de Fevereiro; (...)»



* Almadias - canoas feitas de troncos de árvores escavadas por dentro.
                      Aprendi a andar de almadia sozinho tinha 8 anos. Em Pebane


Os macuas do litoral, no delta do rio dos Bons Sinais, tornaram-se conhecidos por Chuabos, “gente do forte”, por ter sido ali erigido o forte de Santa Cruz durante o governo do general D. Estêvão de Ataíde (1610-1613) na ponta sul da barra, a dos Cavalos-marinhos. 



O rio ainda hoje se chama assim...


  (Nome original deste rio: “Qua Qua”)




Na sequência de ordens régias de 1761, em 6 de Julho 1763, foi instituída a Camara Municipal e a povoação foi elevada a Vila, conservando o nome de S. Martinho de Quelimane.
























Igreja de Nª Sª do Livramento, hoje uma lamentável quase ruína, foi mandada reconstruir (a original tinha sido paroquiada pelos Jesuitas) pelo governador e capitão-general Baltazar Pereira do Lago em 1776, mas só foi concluída em 1786 por António de Melo e Castro.


Um texto de Eugénia Rodrigues   





O testemunho de Luís Vaz de Camões:




"E foi, que estando já da costa perto,
onde as praias e vales bem se viam,
num rio, que ali sai ao mar aberto,
batéis à vela entravam e saiam.


Muito aqui nos alegrámos com as gentes,
e com as novas muito mais;
pelos sinais que neste rio achámos,
o nome lhe ficou dos Bons Sinais.












domingo, 6 de outubro de 2019

OS VENTOS na mitologia grega e romana


Os deuses dos ventos


Gregos e latinos



Os gregos distinguiam quatro divindades básicas do elemento ar, nascidas de Eos (a Aurora) e Astreu (o Céu estrelado).

Os nomes dos quatro grandes ventos das mitologias

       grega / romana, são:
       ____________

    Bóreas - Aquilon (N), o vento norte, frio e violento. É o vento que sopra a partir da direção do sol nascente no solstício de verão
    Zéfiro - Favonius (O), o vento oeste, suave e agradável;
    Euro Vulturnus (L), o vento leste,[3] criador de tempestades;
    Noto - Auster (S), o vento sul, ou mais exatamente vento do meio dia. Ventos quentes, secos e densos, às vezes considerados adversos, porque poderiam corromper o ar devido à sua umidade contida. Estava associado ao final do verão e trazia tempestades de vento e chuva, por isso era temido como destruidor de colheitas.




Zéfiro, deus grego do vento oeste, e a deusa Clóris Por William_Adolphe Bouguereau, 1875 (Wikip)





Ventos menores da mitologia grega:

    Kaikias (Cécias em latim) (NE), o vento nordeste
    Apeliotes (Subsolano, em latim) (SE), o vento sudeste
    Lips (SO), o vento sudoeste
    Siroco (NO), o vento noroeste que traía densas nubes y niebla o humedad.

O siroco ou xaroco (em italiano scirocco e em árabe ghibli) é um vento quente, muito seco, que sopra do deserto do Saara em direção ao litoral do Norte da África, comumente na região da Líbia. Este fenômeno causa gigantescas tempestades de areia no deserto e manifesta-se quando baixas pressões reinam sobre o mar Mediterrâneo.

Frequentemente o siroco, sem humidade devido ao efeito Föhn, cruza o Mediterrâneo atingindo com violência o sul da Itália e, em certas ocasiões, chega até à Costa Azul e à Riviera.

“O termo sirocco tem sido empregado, de modo geral, para designar qualquer vento quente e seco, que ocorra no sector quente de uma depressão móvel que tenha sido aquecida pelo contacto com superfície continental quente e árida”. (FPColumbofilia)


"Ventos":

Os deuses dos ventos, os romanos homólogos dos Anemoi dos gregos.

Eles são Aquilo, também chamados Septentrio, Auster, Vulturnus e Favonius.

Outras divindades menores do vento são Caecius, Apeliotus, Caurus ou Corus, Afer ventus ou Africus.

Em Roma, as tempestades (tempestados) tinham um santuário próprio com sacrifícios regulares na Porta Capena, fundada em 259 AC, em consequência de um voto feito para a preservação de uma frota romana em uma tempestade no mar. 

Os generais romanos, quando embarcavam, geralmente ofereciam orações aos ventos e tempestades, bem como aos outros deuses, e lançavam oferendas e sacrifícios sangrentos nas ondas para propiciá-las.

Aos ventos benéficos eram oferecidos animais brancos

De cor escura, às tempestades equinociais e de inverno, malignas.

As vítimas eram geralmente carneiros e cordeiros.



TORRE DOS VENTOS (WIKIP):      


















Também chamada de Horológio de Andrônico, é uma torre de mármore de planta octogonal, existente na ágora de Atenas. Foi provavelmente construída por Andrônico de Cirro por volta do ano 50 a.C.
Com doze metros de altura por oito de diâmetro, era coberta antigamente por um cata-vento com o desenho de um Tritão, que indicava a direcção do vento.











No friso, imagem ao lado, relevos representavam as oito divindades gregas para o vento, segundo sua direção:
Bóreas (N),
Kaikias (NE),
Eurus (E),
Apeliotes (SE),
Noto (S),
Lips (SO),
Zéfiro (O)
e Siroco (NO).




No interior da torre havia ainda um relógio de água (clepsidra), movido pela água que vinha da acrópole.

Nos primeiros tempos do cristianismo, a torre foi usada como campanário de uma igreja bizantina anexa, destruída por um incêndio. A torre dos ventos estava semi-enterrada e chamuscada quando foi escavada e restaurada por arqueólogos no século XIX.




Para voltar ao episódio da História da 1ª Viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, clique aqui

Textos e imagens recolhidos da Wikipédia e da Federação Portuguesa de Columbofilia):

https://en.wikipedia.org/wiki/Anemoi
http://www.fpcolumbofilia.pt/meteo/main0614.htm
https://pantheon.org/articles/v/venti.html









quinta-feira, 8 de agosto de 2019

FERNÃO DE MAGALHÃES 1 - Como se fosse um prólogo




Como se fosse um prólogo:




"We are such stuff as dreams are made on."

(Somos da mesma substância que os sonhos)

 William Shakespeare, em a "Tempestade"




«Cousa nunqua escripta, nem ouvida, nem vista,
pois sahindo do Occidente, dando volta pello
Globo do Universo, tornaram pello Oriente
ao mesmo porto donde haviam partido,
o que nenhum há feito desd’a
criação do mundo ate nossos dias».

Gaspar Frutuoso







Quem isto vir e mesmo ler,

guarde Deus do mal.

Fernão de Magalhães


























Fui eu que concebi, organizei e realizei,
há exactamente 500 anos,
a viagem que acabou por ser a primeira de circum-navegação da História.









Aqui, onde agora me encontro (e para toda a Eternidade) nos confins da última galáxia, 500 anos depois da minha morte terrena acontecida numa praia da Ilha Mactan, estou no lugar mais tranquilo, aprazível e luminoso do Universo e tenho por companhia todos os Grandes da Humanidade.







Adoro sentar-me em amena cavaqueira com o Shakespeare, o Camões e o Cervantes

Por vezes junta-se a nós, discretamente, aquele dandy do Chiado, agora sentado como heterónimo de liga metálica frente à Brasileira e diz-nos duas ou três coisas que nos deixa deliciados. Ainda por cima foi ele que escreveu o mais espantoso poema de todas as  nossas odisseias, a Ode Marítima. Uma excelente companhia o Fernando Pessoa.


Já perdoei ao Camões e demos um grande abraço, por ter escrito no Canto X de "Os Lusíadas":

"Irá buscando a parte mais remota
O Magalhães, no feito, com verdade,
Português, porém não na lealdade".


(Quando releio estas estrofes lembro-me sempre das teorias que também me dão como espião em Castela ao serviço de el-rei D.Manuel... Adiante.)

Muitas vezes ouvimos simultaneamente, acreditem, a música de Beethoven e a de Bach, por exemplo, (ouvimos tantos…) mas conseguimos ouvi-las como se fossem tocadas separadamente.

E discuto Matemática com o Einstein enquanto uma figurinha de chapéu de coco, bigodinho e bengala anda por ali aos pulinhos a divertir-se, o Charlot, claro.

Mas principalmente dá-me muito gozo falar com os amigos Neil Armstrong e John Glennagora que vocês comemoram os 50 anos da ida á Lua.

Lembro-me muito bem daquela noite... Daquele momento em que o Neil pisou o solo lunar!

Foi o primeiro homem a fazê-lo e ainda há quem não acredite nisso…



Ilustração da BBC      

“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade” 



(Vocês sabiam que foi uma portuguesa que coseu a bainha da bandeira americana que está na Lua desde 1969? Pois foi mesmo...)


Universalmente a primeira viagem de circum-navegação da História está reconhecida como o mais extraordinário feito da Humanidade.

Senhores meus compatriotas, não sou eu que o digo, entre outros disse-o o Stefan Zweig na minha biografia que publicou em 1937 e que também anda por aí, o Stefan.

Mesmo assim, o Neil, de cada vez que me encontra, dá-me uma palmadinha nas costas e com um sorriso sussurra-me ao ouvido:



- Hernan, olha que eu fui o primeiro a ir á Lua e voltar, OK?






Nasci em 1480 no Porto no seio de uma família nobre,
os Sousa de Arronches, com algumas posses.


Sou português, mas também sou cidadão espanhol. 



Devido à minha condição familiar fui Fidalgo da Casa Real de Portugal.



Sei que me dão como nascido em várias localidades, terras que muito prezo
e onde sou homenageado com muitas honrarias que me enchem de orgulho.

Mas sempre me disseram que tinha nascido no Porto...


Com dez anos fizeram-me Pajem da Corte da Rainha D. Leonor, mulher de D. João II e por volta dos meus 12 anos ouvi ali dizer que Cristóvão Colombo tinha descoberto a América!

Acabei por viver toda a minha juventude na Corte dos Reis D. João II e D. Manuel I, onde fui Escudeiro. Mais tarde fui funcionário da Casa das Índias. Por essa razão os meus estudos giraram sempre â volta das recentes Descobertas dos nossos primeiros grandes Navegadores e da Ciência Náutica que sempre me fascinou.

Obviamente que comecei a sonhar com as Índias e finalmente para lá fui a primeira vez com 25 anos no dia 25 de Março de 1505 na Armada de D. Francisco de Almeida.

Fiz parte de várias expedições onde aprimorei os meus conhecimentos de bem marear e a arte de bem combater.

Participei na grande Batalha Naval da conquista de Diu a 3 de Fevereiro de 1509.

Comandava a nossa Armada de 19 navios com 1900 homens, no galeão Flor de La MarD. Francisco de Almeida que quis vingar a morte do filho D. Lourenço ocorrida num combate, também naval, com uma esquadra árabe em que a sua nau foi afundada tendo morrido 80% da tripulação.

Quando a nossa Armada chegou a Chaul, que conquistámos de imediato, o nosso Vice-Rei mandou uma carta ao capitão de Diu com o seguinte aviso:



"Eu o visorei digo a ti honrado Meliqueaz, capitão de Diu, e te faço saber que vou com meus cavaleiros a essa tua cidade, lançar a gente que se aí acolheram, depois que em Chaul pelejaram com minha gente, e mataram um homem que se chamava meu filho; e venho com esperança em Deus do Céu tomar deles vingança e de quem os ajudar; e se a eles não achar não me fugirá essa tua cidade, que me tudo pagará, e tu, pela boa ajuda que foste fazer a Chaul; o que tudo te faço saber porque estejas bem apercebido para quando eu chegar, que vou de caminho, e fico nesta ilha de Bombaim, como te dirá este que te esta carta leva."



Esta batalha foi o início do domínio real e concreto de todo o Oceano Índico pelos portugueses.

“Era Vasco da Gama”, como hoje lhe chamam os historiadores indianos e que durou 500 anos.

Até à entrega de Macau à China em 20 de Dezembro de 1999.

Em 1509 andava pelas Molucas com o meu grande amigo Francisco Serrão, a quem salvei a vida num feroz combate durante a desastrada expedição de Diogo Lopes de Sequeira a Malaca.

Combati na conquista de Goa em 25 de Novembro de 1510



    Pormenor de um quadro de Ernesto Condeixa













Ambos ajudámos também, em 15 de Agosto de 1511, o Grande Afonso de Albuquerque a conquistar Malaca.


Foi a conquista de território mais longínqua até então da história da Humanidade.

(Pintura aqui ao lado)

Foi nesta altura que comprei o meu fiel escravo malaio Enrique




Eu e o Francisco ficámos grandes amigos para o resto das nossas vidas terrenas. 

Francisco Serrão foi um dos capitães dos três navios capitaneados por António Abreu numa expedição enviada de Malaca por Afonso de Albuquerque em 1511, com a missão de localizar as "Ilhas das Especiarias" de Banda, nas Molucas. Estas ilhas comercializavam com Veneza, via Egipto, cravo, noz moscada e macis.

Não havia no Mundo mais lugar algum onde colher tais especiarias.

Em 1512 o seu navio naufragou, mas Serrão e um grupo de outros tripulantes, conseguiram chegar à ilha de Luco-Pino (Hitu), ao norte de Amboino. Dias depois roubaram um barco pirata, voltam a Banda e por lá ficam cerca de um mês, seguindo depois num junco em direcção às Molucas.

Com uma tripulação mista de portugueses e de indonésios, o navio foi assolado por uma enorme tempestade que o mandou de encontro a um recife ao largo de uma pequena ilha, a ilha de Ternate.

Serrão gostou tanto das gentes e da ilha que decidiu tudo abandonar e por lá ficou...

Passou a viver aí e foi nomeado chefe do sultão Bayan Sirrullah, um dos dois poderosos senhores que controlavam o comércio de especiarias. Tornaram-se amigos íntimos, acabando o Sultão por nomeá-lo como seu conselheiro pessoal para todas as questões politicas, militares e até pessoais.

Constituiu família em Ternate (casa-se com uma princesa de Tidore) e decidiu permanecer por lá, tudo abandonando, não voltando a Malaca.

Era de Ternate que me enviava as cartas que, via Malaca, eu recebia de tempos a tempos, tanto em Lisboa como em Sevilha, mais tarde.


Eu só regressei a Portugal nos inícios de 1513.


Mas no dia 17 de Agosto desse mesmo ano voltei a partir, desta vez para Marrocos numa expedição comandada por D. Jaime, Duque de Bragança e sobrinho de D. Manuel, para a conquista de Azamor.

O que foi conseguido logo no dia 3 de Setembro.

Pouco depois, numa pequena escaramuça, mataram o meu cavalo às lançadas e uma delas feriu-me um joelho, deixando-me manco para o resto da minha vida.

Como fidalgo tinha direito a ser ressarcido da despesa com a morte do meu cavalo.

Vocês não sabem mas eu digo-vos que os Cavaleiros entravam nas batalhas montados nos seus próprios cavalos, envergando as suas próprias armaduras. Cavalos e demais atavio militar não eram fornecidos pela coroa. Eram pagos por nós!

O belo animal paguei-o com meu dinheiro a quem mo vendeu para que eu o usasse em combate para defender a Coroa.

Por estas razões cheguei à fala com o Fidalgo Francisco de Pedrosa que era o encarregado de conhecer a morte e perda de cavalos nos combates ou por doença.

Foi-me passada por ele uma certidão da morte do cavalo que entreguei na Casa Real com uma petição que rezava assim:










Aqui numa versão que, hoje, percebem melhor o que escrevi a El Rei:









A certidão do fidalgo Francisco de Pedrosa rezava assim:






Sua Alteza nunca me quis mandar pagar a demasia, tendo insistindo eu várias vezes.

Para grande enfado de El Rei...



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Mas hoje estou aqui para vos contar tudo
sobre a minha viagem de circum-navegação,
procurando encaixar os vários acontecimentos
com as datas em que as coisas ocorreram.





Foi tudo há tantos séculos que vou socorrer-me
do meu amigo Pigafetta para me avivar a memória.













O António Pigafetta era um gentil-homem italiano nascido em Vicenza no ano da Graça de Nosso Senhor de 1491, de boas famílias que estudou Astronomia, Geografia e Cartografia.
Chamava-se a si mesmo “Patrício de Vicenza e Cavaleiro de Rodes” por pertencer à Ordem de S. João de Jerusalém.



Apresentou-se-me em Sevilha com autorização de El Rei D. Carlos I para seguir viagem connosco e com várias cartas de recomendação, num dia de Junho de 1519, exactamente três meses antes da nossa partida.

Foi com alguma relutância que tive que o admitir na tripulação, mas bastava-me a autorização de El Rei para o fazer sem hesitar.

Embora pouco entusiasmado com tal companhia, coloquei-o na nau capitana da frota, a minha, a Trinidad.

E como cronista que pretendia ser, com a única função a bordo de registar tudo o que via, foi alistado como um dos “criados del Capitán y sobressalientes”, a única categoria possível, inscrito como Antonio Plegafetis ou, como em outra lista aparecia, Antonio Lombardo.

Era, no entanto, um homem culto, conversador, com quem acabei por ter uma boa relação.


Antonio Pigafetta numa imagem do CANAL HISTÓRIA (um actor)      








Achava muito engraçado vê-lo sempre muito bem ataviado no seu gibão que mais parecia a farda original dos Guardas Suíços do Vaticano desenhada por Miguel Ângelo em 1505, a cirandar pelo navio sempre com o seu caderninho de notas debaixo do braço, a pena e o tinteiro.


Volta e meia, com o adornar do barco e o desconchavo das velas nos dias de tormenta maior, lá se ia o atavio impecável do Pigafetta, todo cheio de tinta preta, gibão abaixo... e o tinteiro vazio.

Mas não deixava de andar sempre por ali a escrever, com muito empenho e às vezes enquanto as coisas aconteciam.

E assim se desenvolveu uma grande amizade entre nós.




Passámos longas noites à conversa no meu camarote, navegando calmamente no Grande Mar Oceano a que dei o nome de Pacífico, quando todos já dormiam, á luz de velas que pareciam querer adormecer também, tendo ao nosso lado deitado numa esteira o meu fiel escravo Enrique a dormir a sono solto.


O António foi sempre um bom companheiro...












Um dia confidenciou-me que gostaria de publicar em Itália, quando voltasse a casa, um relato da viagem a que chamaria “Relazione del Primo Viaggio Intorno Al Mondo”.

E na verdade, ao regressar a Itália, publicou o livro em Paris em 1525.


Escreveu-o a pedido de Filipe de Villers Lisle – Adam, ínclito Grão Mestre de Rhodes e seu Senhor Observantíssimo (43º Grão Mestre da ordem de São João de Jerusalem)


O relato integral da sua obra só no século XVIII seria publicado,






Este manuscrito  é  o  mais  importante  manuscrito
de carácter geográfico conhecido em todo o Mundo.



Das 3 ou 4 cópias que foram feitas, nomeadamente os manuscritos Ambrosiano e da Biblioteca de Paris (Nº 5650), uma existe que foi doada á Yale University em 1964 por Edwin J. Beinecke e está na "The Beinecke Rare Book and Manuscript Library".

O Visconde de Lagoa na sua magnífica biografia que escreveu sobre mim, “Fernão de Magalhães”, uma Edição Seara Nova de 1938, usa uma tradução do manuscrito da Biblioteca de Paris, profusamente anotada “segundo os roteiros” de vários cronistas portugueses, contemporâneos de Pigafetta e não só.


Com a ajuda destes notáveis documentos, vou então contar-vos tudo e como tudo aconteceu.



Fiquem bem.

Na Paz do Senhor.

Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum



O vosso, 


                               Fernão de Magalhães




















(Actualizada em 20 de Novembro de 2019)