domingo, 24 de abril de 2011

Linha Aérea e outros voos - O vento de lado


O Vento de lado num voo a solo em Piper Cub


Piper Cub J3 - Não foi neste, foi no CR-AFD

Isto passou-se pouco depois de Vasco da Gama ter saído de Quelimane pelo rio dos Bons Sinais fora, para a Índia, a bolinar, a caminho da Ilha de Moçambique…

Na verdade, no dia 16 de Janeiro de 1498, as caravelas de Vasco da Gama chegam ao sítio onde hoje é Quelimane. O grande Navegador faz aí uma escala prolongada para recuperar a tripulação, exausta e doente com escorbuto. Devem ter comido poucas goiabas, devem…

Fundeado no rio, com margens muito lodosas, chamou-lhe rio dos “Bons Sinais”. Por ter sido aí onde teve as primeiras informações de que estaria no bom caminho e que mais à frente irá encontrar pilotos capazes de o guiar até à Índia. Possivelmente na Ilha de Moçambique.

460 anos mais tarde, em 1958, era eu aluno Piloto no Aero Clube da Zambézia, em Quelimane, sócio n.º 242. Rio dos Bons Sinais… bons sinais, realmente, do que viria a ser toda a minha futura vida produtiva.


Talão de cota paga
Logo do Aero Clube da Zambézia, 1958

Recém largado com 8 horas de voo e 16 anos…(o mais novo em Moçambique) fui fazer mais um voo a solo em Piper Cub J3, manhã cedo porque depois tinha aulas às 8h no Colégio do Sagrado Coração de Maria.


Até dá gosto, só de ver...

Os meninos e meninas que hoje se queixam de não ter tempo, bem podiam apagar as Play Station os tablets e smartphones mais cedo, dar folga aos dedos dos SMSs e não irem para a cama tão tarde! Já não adormeciam nas aulas e podiam assim fazer desporto antes de irem para as aulas. Ou outras úteis coisas. Acreditem que desta maneira há tempo para tudo…

O encontro com o Câmara, meu instrutor, era no meio da Cidade, junto à Piscina Municipal (inaugurada em 1937!), debaixo da árvore que, é da tradição, Vasco da Gama usava para se reunir com o Sultão. E onde eram sentenciados, na forca, os malfeitores. Seria por isso que não dava frutos ou não é mesmo uma Mangueira?

E lá fomos Chuabo Dembo fora para o Aeroporto. Ia voar sozinho outra vez.


 Quelimane hoje e o seu moderno Aeroporto


Depósito atestado, procedimentos feitos, motor em marcha, lá vou eu, com 16 anos, o maior!, no Piper Cub J3 para a cabeceira da Pista. Nessa altura essa pista ficava no meio de um pântano com as bermas cheias de capim com 2 ou 3 m de altura.

Cockpit do Piper Cub



A outra pista, a principal, era utilizada pelos aviões da Deta (já havia linhas aéreas regulares em 1958!) Mas esta tinha boas bermas.



Motor a fundo! Aí vou eu!

Cockpit do Piper Cub


Mas o avião, aconteceu-me pela primeira vez, foge para a esquerda, quase a sair da pista. Imaginei logo que seria o vento cruzado (nunca tinha apanhado vento cruzado até àquele dia).




Solução imediata e espontânea da minha parte: apontar ao vento e sair a 45º com a Pista para a direita (linda manobra…) Aqui o instrutor começou a suar:

- Como é que aquele gajo vai aterrar aquela merda? Tou fff...eito!"

Não havia rádio nem o aviador estava minimamente preocupado com o vento ou coisa alguma... a não ser voar e aspirar o bom cheiro a gasolina.

Sobrevoei o Chuabo Dembe, o bairro que se vê á direita, na foto do Google acima e passeei-me uns 15 minutos, mas sempre com atenção ao nível de combustível do depósito. O indicador era um arame espetado numa rolha de cortiça a flutuar na gasolina, cuja ponta saía cá para fora. Mesmo em frente aos olhos, no motor. Quanto mais arame, melhor...

Cumprida a missão, fiz-me á Pista, seguindo os procedimentos habituais.

Canja para o experiente piloto que eu era...

Mas o Piper fugia para a Esqda… Que raio! Novamente!?


Bonito de se ver...

Corrigi p/ a Dta. Ficou certo, mas voltou a ficar outra vez desalinhado para a Esqda.

- Áh... deve ser o vento de há pouco, pensei. E bem.

Vai daí, apontei o avião ao vento como tinha feito na descolagem e aproximei-me da pista “torcido” para a direita. A olhar para a pista para a minha esquerda, em vez de ser em frente. As asas direitas, à bolina. Mas a progredir alinhado com o eixo da pista

Estava a fazer, sem o saber, um “Crab” para a direita. Nem eu conhecia ainda essa palavra nem o significado: voltar o avião na direcção do vento para compensar o arrastamento provocado pelo vento ao longo de um caminho.

Direitinho que nem um fuso com o alinhamento da pista. Mas apontado á direita…



"Atão é assim que se faz...” concluiu o aviador.



Mas não era…não era assim que se ensinava…

Era, neste caso, com asa Dta em baixo (do lado de onde vinha o vento) pé esquerdo metido o necessário, avião sempre alinhado com a pista mas a sofrer forças antagónicas entre o aileron e o leme em posições opostas. Uma aberração! Que ainda hoje se ensina em muito bom sítio... Ainda hoje.

O meu instrutor entrou em pânico:

- O gajo vai partir aquela merda toda!!! Agora é que estou mesmo fff...eito! e suava em bica.

Quando desapareci no capim alto de ambos os lados da pista, ainda todo torcido, no meio de um pântano, ficou tudo á espera da nuvem de fumo.

Mas o aviador, quase a tocar no chão, meteu pé esquerdo e aterrou como se nada fosse. Na maior das calmas, inconsciente do “perigo” que tinha passado! Foi a minha primeira aterragem com vento de lado. E sem dar pelo que tinha feito realmente.

Nem eu sonhava com o Funchal ou Ponta Delgada…

Mais tarde, 4 anos mais tarde, na Força Aérea ensinaram-me a aterrar com vento de lado: exactamente como eu tinha feito, em Quelimane!  

E já agora, para que se saiba, uma hora de voo, em instrução, custava naquela altura 200$00, duzentos Escudos = 1€.


€1 a hora de voo. Uma bica e meio pastel de nata...

A Mocidade Portuguesa pagava uma parte, exactamente como hoje acontece aos jovens com menos posses para se iniciarem na Aviação. (Diga...???).

E o meu Pai não era propriamente um descamisado...

Claro que eu era da Moçidade Portuguesa.

Obrigado a ser, mas com algum proveito, como se vê....



(Actualizada em 29 de Abril de 2014)




2 comentários:

  1. Não fosse o amigo...o melhor piloto ao norte de Moçambique e a voar um Piper Cub que quase voa parado!
    Espectáculo estas magníficas prosas...

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