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Aviões que voei - Eu e o Boeing 727 - na TAP

2ª Parte da História do Boeing B727                  
Clicar aqui para ver a 1ª Parte                  




Comecei a voar na TAP em 1971 como Co-Piloto de B707.

Até aí a entrada em Linha fazia-se sempre pelo avião menor mas por razões de acessos futuros com as previsiveis despesas com cursos sucessivos, foi decidido que não seria assim para o meu curso.

Sina minha já que na Força Aérea também não fiz o T-6 em Sintra mas sim em… Salamanca, 1963 (Ver aqui).

Três anos e meio depois de ter começado a voar o B 707, no dia 25 de Abril de 1974, acordei em plena Revolução dos Cravos para estudar o resto do meu curso teórico de Boeing B 747, antes de partir para Seattle fazer o simulador.

Sina minha…não podia ser um curso normal, como o de toda a gente.





Fui Co-Piloto de B747 durante a Revolução, o PREC e as independências das Províncias Ultramarinas (o Estado Novo dera-lhes esse estatuto. Não eram oficialmente “Colónias”).

Como consequência de todos estes acontecimentos somados, a frequência dos voos de B747 diminuiu drasticamente, até ao ponto de a TAP ter de vender metade da frota ao Paquistão, à PIA e a maioria dos voos passar a ser feita sempre com dois Comandantes e um só Co-Piloto que acabava por fazer uma média de uma única aterragem por mês…



E foi com toda esta falta de treino e proficiência nos dois anos anteriores que chegou o meu dia de ir a comando.

Valeu-me ter voado um mês com aterragens quse diárias na minha estadia em Karachi no verão de 1976, aquando da venda dos nossos amados B 747 à PIA (Ver aqui).

Fiz o último voo de Co-Piloto poucos meses depois na passagem de ano 1976 / 77 num voo Lisboa, Kinshasa, Joanesburgo, Kinshasa, Lisboa em B 747, claro.













E tive o previlégio de os dois Comandantes desse último voo me terem dado 2, duas ! 2 aterragens nesse percurso! Em Joanesburgo e em Kinshasa. Não é para me gabar, mas foram das melhores que fiz…

 
As teóricas do curso de B 727 foram feitas com recurso á mais moderna das técnicas e em regime de… é melhor dizer em português corrente, “salve-se quem puder”...

Com recurso a um “muito sofisticado (?!)” sistema áudio-visual autogerido pelos alunos, com base em dois projectores de slides e um leitor de cassetes que iam debitando a matéria mas que faziam normalmente grandes paragens porque aquilo empancava tudo e tinha de se chamar o técnico para harmonizar tudo de novo.

Sina minha… tenho sempre sorte nos cursos: o meu colega de aulas teóricas foi nem mais nem menos que o meu grande amigo Carlos Varanda.

Quando percebemos como aquilo funcionava, acabaram-se as investidas do técnico e passámos nós a fazer o trabalho em auto-gestão com passaetas a pé em cima dos equipamentos e outras actividades semelhantes que é melhor não mencionar…

Acabámos o curso teórico em tempo recorde, acho que uma semana antes do previsto e agendado.

Já no meu curso de F-86 conseguira economizar 5 meses e meio ao tempo do curso anterior…(Ver aqui).


Cockpit de um Boeing B 727  









Findas as aulas teóricas, as muitas sessões de simulador e o Voo Base (voos de instrução, sem passageiros) fomos finalmente para a Linha, com passageiros e tudo mas assitidos por um Comandante encartado.

Desses voos assistidos em linha por outro Comandante, antes de eu ser largado, lembro-me principalmente dos dois primeiros.



O primeiro de todos, um Lisboa Geneve-Zurique, com o Comandante Queirós. No dia 6 de Abril de 1977 no CS-TBK

E lembro-me porque sendo o primeiro voo de todos como Comandante, embora asistido, o controlador suiço de Geneve resolveu mudar a pista no último instante e consciente da quase impossibilidade de uma aterragem segura naquelas condições me ter até perguntado:


- Você consegue?...


Com a minha nenhuma experiência em Comando e naquele avião (era o 1º voo e com a responsabilidade de ter a cabina cheia de passageiros, que nunca sabem o que está prestes a acontecer...) fiquei mudo aqueles milésimos de segundo que parecem sempre uma eternidade, sem saber o que lhe responder...

O Queirós disse-me rapidamente que sim, eu podia e assim aceitei a rasteira do controlador.

Mas o Queirós ensinou-me como fazer, sentado na cadeira atrás de mim:

- Reduz toda a potência, já! Trem em baixo! Não desças! Deixa a velocidade cair! Flaps todos em baixo! Aterra agora…

E lá passei eu aquela montanha entre Lion e Geneve com enorme razão de descida em direcção à pista mesmo em frente, a querer desaparecer-me debaixo do nariz do avião...

Mas fiz uma boa e segura aterragem.

Já na Placa do Aeroporto o Queirós ensinou-me mais uma coisa:

- Da próxima vez quando ele te perguntar se és capaz, responde-lhe:


- Eu não e você?!


Obrigado Queirós, lá onde estiveres.



Boeing B 727-100


O outro voo assistido de que me lembro, o 2º que fiz, foi um cargueiro a Londres, com escala no Porto. No dia seguinte, no CS-TBN

E quem me havia de calhar como Comandante assistente?



Nem mais nem menos que o Comandante Silva Soares.

O grande Senhor da TAP e da Aviação Portuguesa.



   Comandante Silva Soares








Vai ser o meu fim, pensei, mas tenho que passar por isto! E lá fui para as Operações, perfeitamente amarfanhado.

Tudo correu bem até à aterragem nocturna no Porto.

Uma avaria que requeria assistência da Manutenção local. O Técnico de Voo resolveu então ir para a Aerogare espairecer, pudera... mas eu decidi permanecer a bordo para me aperceber de toda aquela envolvência.

E o Comandante Silva Soares também…




Os dois sozinhos a bordo enquanto a Manutenção trabalhava...


E durante uma hora tive a mais completa e empenhada lição de Recursos Humanos na vertente Comandante de Avião que poderia ter tido.


O Senhor Comandante Silva Soares abriu o livro e naquela hora deu-me a mais fantástica aula teórica que tive em Aviação de Linha Aérea.



Nota aos filhos do Comandante Silva Soares: após ver o vídeo de Homenagem ao vosso Pai,
com ligação aqui em baixo, fiquei com a sensação que naquela noite no Porto ele viu em mim
mais um filho que merecia e precisava dos conselhos de um Pai 
do que um comandante qualquer em instrução.
Depois de ver o vídeo, senti-me um de vós, não levem a mal...


Video de Homenagem ao Comandante Silva Soares no 69º Aniversário da TAP 



Aproveitei tão bem a lição que sete meses depois estava a ser convidado para Verificador de Linha e Instrutor de Simulador, praticamente ao mesmo tempo que iniciava a operação no “antigo” Aeroporto do Funchal.

E 14 dias depois do meu treino naquele Aeroporto dá-se o terrível acidente do Funchal com o meu camarada de treino, o Comandante João Lontrão.


Nos primeiros 10 anos de B727, voei em operação contínua para Aeroporto do Funchal com menos 1.181m de comprimento do que actualmente tem.


Curiosidade:

À velocidade de 150km/h, a velocidade aproximada de aterragem de um avião, percorrer 1.181m leva mais de 28 segundos... Não acreditam? Façam as contas.


E voava para Ponta Delgada, que se considerava na altura um Aeroporto também difícil em condições marginais de situação meteorológica.

E obviamente que para todas as outras Linhas de Médio Curso que a TAP operava na Europa e em África.


Em 1986 fiz os primeiros voos para a Air Atlantis, a subsidiária de voos charter da TAP que operava principalmente a partir de Faro

Era uma operação simpática que deixava vontade de repetir.

A repetição deu-se no início do ano seguinte, com uma particularidade:

- Decidi abraçar a actividade do voo charter e assinei um contrato de dois anos com a Air Atlantis, não deixando o vínculo à TAP.

O último voo que fiz nos B 727 da TAP foi no dia 31 de Maio de 1987. No CS-TBW





Mas passei a voar, com imenso prazer e muita dedicação, os da Air Atlantis.



Assunto para uma outra história de uma forte ligação a este mágico avião que foi a minha Escola de Comando de Linha Aérea mas também uma Sala de Aulas como Instrutor que fui, em Simulador e em voos de Verificação para muitos futuros Comandantes da TAP.







Linha Aérea e outros voos – O acidente do Funchal - O dia seguinte




Estatisticamente, pelo número de passageiros já transportados, pelas horas de voo já voadas, um grande acidente com um avião da TAP deveria ter acontecido vários anos antes do fatídico dia

19 de Novembro de 1977


Por essa razão, pela falha contínua de todas estas estatísticas, a TAP se mantém, desde sempre, como umas das companhias aéreas mais seguras do Mundo.


E dadas as características da pista na altura, esse acidente só poderia ter acontecido no Funchal e portanto com um B 727.

E na pista 24, tão esquecida da limpeza da borracha.

E por diversas razões, que aqui não cabem, num B 727-200.



O B 727-200 CS-TBR



(Meses depois do acidente, por eu ter tido problemas de travagem num Boeing 727-100 no início da pista 36 em Lisboa, junto à rotunda do relógio, só deixei o Aeroporto depois de vários telefonemas meus que levaram ao encerramento imediato daquela pista, para a remoção da borracha.

Eu era Instrutor de Simulador e Verificador e essa condição foi uma alavanca.)


Já se passaram mais de 36 anos sobre a data desse acidente.

Das minhas escalas de serviço naquele mês de Novembro de 1977, fazia parte um voo ao Funchal no dia 20. Com apresentação às 6 horas da manhã no Aeroporto da Portela. Eu morava nos Olivais e bastava-me portanto acordar uma hora antes.

Na véspera, no dia 19, antes de me deitar resolvi ligar a televisão e dei de caras com a terrível notícia. 

O acidente no Funchal!

Acto contínuo, decido ir imediatamente para as Operações da TAP, no Aeroporto, dado que não conseguia telefonar para ninguém e tinha uma necessidade imperiosa de saber o que tinha acontecido realmente.

E ali estive umas horas em conversa com os muitos colegas que decidiram fazer o mesmo. Todos nós nos colocámos à inteira disposição da Companhia para colaborar como pilotos em quaisquer voos extra que fosse necessário fazer.

E assim se decidiu que a Comissão de Inquérito seguiria num voo que ficou escalado para a hora do meu voo anteriormente programado, seguindo eu no terceiro, por volta das 9 horas da manhã.

Ainda hoje acho que a troca se ficou a dever à minha pouca experiência, na altura, naquele Aeroporto… A Comissão de Inquérito cuidou-se…

Voltei para casa seriam umas 4 horas e tentei descansar. Em vão, claro. E pensei que não estaria, poucas horas depois, nas melhores condições para fazer aquele voo e logo para o Funchal, que ainda estava sob muito mau tempo.

E quem é que estaria, naquele dia, em melhor estado do que eu?

E lá me apresentei, poucas horas depois de uma noite de quase insónia, tentando ostentar o melhor aspecto físico e anímico possível. Tinha 36 anos e não era difícil “enganar” os tripulantes que tinham o azar de ir voar comigo, um inexperiente Comandante no Funchal, com 17 dias de prática e que iria fazer o seu 4º voo para lá. Toda a gente sabia…

Não terá sido só por isso, mas quando me apresento dou de caras com uma tripulação esfrangalhada, nervos destroçados, lágrimas nos olhos, vários amigos perdidos, encontros que nunca mais se voltariam a dar. Um grande e sério drama para o qual eu não tinha a mínima preparação e que me apanhou completamente desprevenido.

Não sei onde fui buscar tanta calma, tanto à vontade, mas tinha de fazer alguma coisa pela minha tripulação que naquele momento, sentia-o, estava completamente dependente do meu auto controle, da minha serenidade e da capacidade de me superiorizar a todo e qualquer outro Comandante.

Refiro-me à atitude, como é óbvio…

Consegui uma salinha onde nos reunimos todos e disse-lhes que me sentia muito bem, bem dormido e descansado, que tinha uma longa experiência de 7 anos de piloto na Força Aérea e 6 anos já na TAP, estava completamente desinibido perante a situação e que aquele voo iria correr muito bem. Todos nós voltaríamos a nossas casas no fim do dia, dever cumprido.

Nós tínhamos que colaborar, especialmente naquele dia, deixando para trás os nossos problemas, esquecendo, por umas horas, o acidente. E mantendo a cabeça fria, enfrentar com confiança aquele dia que teria de ser um dia normal de trabalho. Igual aos outros.

Fui convincente. Tão convincente que até me convenci a mim mesmo…

E tudo correu bem. Naturalmente com os imprevistos sempre possíveis.

Boeing B 727-100
A começar por um pedido que me foi transmitido pela Escala da TAP no Funchal, em voo e ainda antes de aterrar. Precisavam que fossemos, a partir do Funchal, fazer dois voos extra a Porto Santo para o transbordo de passageiros chegados da Venezuela em aviões de Longo Curso que não podiam aterrar na pequena pista do Funchal.

O que significaria aterrar 3 vezes seguidas naquele agora fatídico Aeroporto, quando só nos cabia, por escala publicada, tentar que a única aterragem que tínhamos programada corresse bem…

Como os ânimos não davam para pura e simplesmente aceder, sem mais – eu tinha alguns jovens tripulantes de cabina em franjas – consultei toda a minha tripulação, mais com o intuito de os preparar do que á espera de ouvir sins ou nãos e lá respondi que faríamos o que nos fosse possível.

Um voo de cada vez. Iriamos ver…

A minha aproximação à pista onde deveria aterrar foi toda feita a observar o fumo que ainda se desprendia dos destroços esmigalhados do que fora um avião como o que eu pilotava. Íamos aterrar exactamente sobre o local onde o avião se precipitara após a aterragem, em sentido contrário ao que voávamos agora. O vento tinha mudado.

Aquele fumo sinalizava a morte de 131 pessoas. Entre elas vários colegas e amigos.

A curiosidade de tudo ver bem foi enorme e eu fiz os últimos segundos da aproximação, até a pista aparecer no topo do barranco, a observar tudo aquilo.

E não era fácil de se ver. Praticamente nada havia de minimamente volumoso no local onde o cockpit do avião tinha ficado, mesmo à beira de água. E saia fumo de vários sítios.

E foi por isso que me “esqueci”, por milésimos de segundo, do que estava a fazer e o avião decide, por si só, acabar com o voo e num assomo de rebeldia, estatela-se fragorosamente naquele chão, hoje ainda mais duro, da pista. E como ele não sabia o que fazer e eu só percebi isso demasiado tarde, resolveu voltar para o ar...

E aí sim. Agora mando eu! Vais para o chão e é já!

Mais um enorme trambolhão e o Boeing B 727, que eu controlava sempre tão bem, acabou por se imobilizar, também ele com os nervos à flor da pele. Todo a tremer, com os reactores em reverse, num esgar de raiva.

Como só o Comandante é que podia aterrar, não me podia desculpar com a azelhisse do Co-Piloto. Também nunca o fiz…Ou melhor, fi-lo várias vezes, mas sempre a sorrir.

Claro que toda a equipa de Investigadores de Acidentes, os meus chefes, colegas e outros que tal de vários Organismos Oficiais, se divertiram imenso a ver aquela falhada e mirabolante aterragem, sabendo que era eu o Comandante e resolveram tentar, só tentaram, subir ao avião quando os passageiros saíram. Mas de cima da pouca altura da escada do avião avisei-os que não queria ninguém a bordo e que fossem pregar para outra freguesia.

Resultou…

Saí rapidamente do avião munido da minha máquina fotográfica e fui para o Inferno dos destroços e fotografei tudo.









As pessoas, ainda surpresas, a meio do barranco. Um B 727 vai descolar na Pista 06


Parte de um brinquedo em cima de uma roda
Estas fotos foram tiradas por mim a preto e branco.
E tratadas depois em Computador.


Sem querer integrar-me no que via.

Aquilo não era verdade.

Aquilo não podia ser real.

De volta ao meu avião agora já descarregado limpo e de novo abastecido, descolámos para o 1º voo extra a Porto Santo. Toda a tripulação a tentar recompor o esqueleto após a aterragem que eu tão graciosamente proporcionara…

Pedi ao meu Co-Piloto (a quem peço desculpa por não me conseguir lembrar quem era) se não se importava que eu fizesse também a aterragem no Porto Santo para esconjurar os fantasmas do que acabara de fazer.

Ele percebeu-me e a coisa correu bem.


Foto recente do Aeroporto de Porto Santo. De "A Terceira Dimensão - Fotografia Aérea"

Acabámos por almoçar por lá, num repasto difícil quanto a conversas, ambiente e bifes também.

Uns falavam das consequências para os familiares que tinham perdido o sustento da casa, outros de Seguros, etc., etc. e uma assistente chorava revoltada com a conversa. Como era possível falar-se de dinheiro e eles ali, mortos!

Entretanto a comida condizia com o estado de espírito. O meu bife era verde. Verde a sério. E o acompanhamento e tudo mais. Tudo verde. A sala onde comíamos era interior e mal iluminada por lâmpadas fluorescentes verdes, de luz muito verde. Verde a sério. Mas naquele dia já estávamos por tudo…

Depois deste complicado almoço descolámos de Porto Santo, agora num excelente dia de Sol, para uma nova aterragem no Funchal e sobrevoando outra vez os destroços que teimosamente ainda fumegavam!...

Desta vez o grande aviador que assim se autoproclamara em Lisboa tinha de provar que o era realmente.

E foi mesmo!

Quando as rodas tocaram, muito suavemente, no chão e no sítio regulamentar, já os speed brakes estavam em posição de actuar em simultâneo com o reverse dos reactores.

Foi tudo ao mesmo tempo e sem um único solavanco.

A pista era de algodão…


Pista do Funchal após a 1ª ampliação, 5 anos depois destes acontecimentos.


E a tal comitiva de inquiridores, que me esperava avidamente para se banquetear com novo fracasso, foi convidada em bloco para subir as escadas e beber um café. Agora, sim, autorizados a entrar!

Felizmente não nos pediram para fazer o 2º voo a Porto Santo. Depois de tudo o que todos tínhamos passado nas últimas horas seria um pouco inseguro esticar tanto a corda.

Mas tê-lo-íamos feito, se fosse necessário.
Estávamos preparados e dispostos a tudo.


Não era um dia normal.

A minha tripulação de cabina  neste voo inesquecível:

CC Ruben
AB Vanda Pires
AB Céu Mendes
CB Rui Quintas

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Veja a descrição do voo fatídico nesta história:
O acidente do Funchal - O voo TP 425


Veja uma história relacionada neste texto:
As Bruxas do Funchal

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Tirei várias outras fotografias que não quis colocar nesta história.
É no entanto um documento. Pertence à nossa História.
À História da Aviação Portuguesa.
Para que não se repita.
Para que as lições que se aprenderam não fiquem esquecidas.
Para as ver, click aqui.


(Actualizada em 11 de Janeiro de 2016)




Linha Aérea e outros voos - As Bruxas do Funchal


De como o Além e os de cá chegaram à fala...

O título desta história não relaciona as pessoas com bruxas. É simplesmente uma associação do Misterioso com o Desconhecido...

No final dos anos 70 havia um grande interesse pela Astrologia, pelo oculto, pelo desconhecido, enfim…

Toda a gente conhecia alguém com “poderes”. Lia-se tudo o que havia sobre Espiritismo, Allan Kardec, Cartas Astrais, leitura da sina, Tarot e por aí fora.

Havia muita curiosidade e em muitas casas organizavam-se sessões de Espiritismo com o pouco que se sabia. Normalmente com a ajuda de uma vizinha ou amiga que entretanto sabíamos que era médium ou tinha os tais “poderes”.

Uma grande folha de papel com o abecedário e os números também a toda a volta, os participantes sentados à mesa com um pires de chávena de chá no meio do papel. Uma marca na borda do pires, uma cadeia de mãos dadas e um dedo indicador de cada um no pratinho.

- E agora?

E agora espera-se que um espírito se manifeste e coloque a marca do pires em frente a uma letra ou número. E o pires, estranhamente, com vontade própria, vai andando com os dedos em cima, sem o forçarem, pela estrada de letras e números.

E vai contando estórias de arrepiar, às vezes…
 

Quando o pires descola, de mansinho, rumo ao alfabeto ou aos números, a razão ausenta-se incapaz de lutar e vai dizendo baixinho “é mentira, não acreditem, alguém está a empurrar o pires, isto é uma treta!”. Mas à medida que se afasta e a lonjura impede que a ouçamos, também aquele movimento suave mas contínuo nos transforma instantaneamente em actores de uma realidade paralela. Acrescem-nos “poderes”…
 

Não há nada a fazer. A emoção despreza a razão e entramos num Mundo Novo.
 

Verdade ou mentira, logro ou realidade, o que é que isso interessa?
 

Vamos ver o que isto dá. Grande entusiasmo!

Alguém de fora da cadeia de mãos dadas toma nota dos caracteres onde a marca do pires se demora mais e vai formando palavras. E frases.

À medida que o espírito comunica. E fazem-se-lhe perguntas. E descobrem-se coisas estranhas.

E quem sabe vai tomando a iniciativa da conversa. E os outros todos crédulos ou cépticos ficam mais ou menos estarrecidos mas todos entusiasmados. Alguns com muito medo.
 

E o espírito que por ali deambula, provavelmente farto do nada em que talvez viva (viva?) desabafa e leva a conversa para onde quer.
 

Era muito divertido mas perigoso, diziam os entendidos. Cuidado com as crianças, que iam recambiadas para o quarto brincar com as bonecas ou os carrinhos de corrida.
 

Cuidado sobretudo com alguns espíritos que andam por aí sem rumo e podem ficar por aqui e as coisas podem começar a desandar cá em casa.
 

Eram uns serões aterradoramente divertidos…
 

Até que chega o fatídico dia 19 de Setembro de 1977.
 

Que foi o dia do acidente do avião da TAP no Funchal.


A pista onde se deu o acidente era assim, antes da primeira pequena ampliação. Mesmo junto ao mar, no prolongamento da pista, o local onde foi parar o Cockpit do avião no dia do acidente

Muitos mortos. Sobretudo muitos amigos desaparecidos entre os tripulantes da TAP.

Muitas amizades desfeitas com os vário tripulantes que pereceram. Muitas famílias destroçadas. E algumas famílias que já estavam a caminho da separação e aqueles que se preparavam para preencherem os vazios que se iriam seguir. E que nunca mais foram preenchidos.

Nos meses seguintes, no Hotel Atlantis, junto ao Aeroporto da Madeira, onde os tripulantes da TAP ficavam muito bem instalados, muitas conversas houve, muitas confidências se fizeram. Muitos apelos a quem poderia pôr em contacto os de lá e os de cá. Muitos problemas que talvez se pudessem solucionar assim, quem sabe? Tentar não custa.

O Hotel Atlantis no Machico

E muita gente que se revelou ser capaz de ajudar. E que o tentou fazer. Pelo menos acalmando os espíritos, de cá. E os de lá talvez também, não sei…

Mas houve quem dissesse que sim. Houve quem conseguisse o melhor nos dois mundos paralelos. Afinal quem sabe que mundo é este e se outro existe ou não...

As conversas sobre os espíritos faziam parte do dia-a-dia. Os cépticos gozavam com o que se ia passando, participassem ou não dos trabalhos.

Mas às vezes calavam-se. Mudos de espanto e sem explicações. E se calhar com medo…

Como naquela tarde...

Em que dois grupos de tripulantes se juntaram em duas mesas, no mezanino do Hotel, sobre a Recepção, a jogar às cartas e a conversar sobre o assunto.

- Eu não acredito em nada disso!


- Mas devias ter mais respeito.


- É tudo conversa, só vendo! O espírito que se manifeste.


- Manifeste como? O que é que queres dizer com isso?


- Manifeste! Faça qualquer coisa que se veja! Que eu perceba que é um espírito que está aqui.

Neste momento, sem ninguém o chamar, o elevador abre a porta e fica parado com a porta aberta, ali mesmo ao nosso lado.

- Estás a ver?!


- Mas o que é que eu estou a ver? Um elevador com a porta aberta… nada mais!


- Para estar aqui foi porque alguém o chamou e nós estamos aqui todos juntos, sentados.


- Avariou! E daí?!

E nesse momento o elevador, tomado de brios raivosos e daquela força toda que o Além lhe deu logo ali, põe-se a dialogar com ele.

À sua maneira. Mas de modo a que o tomassem a sério.

Começou a abrir e a fechar, rapidamente, as portas, que se moviam com grande estrondo, tal era a velocidade dos movimentos.

E sem parança!

Até parecia que estava a olhar para ele, mão nas ancas, desafiador…


- Atão pá, o que é que tens a dizer a isto, agora!?

E nós sem fala a olhar para aquilo!

E isto durou o tempo suficiente para o recepcionista do Hotel dar por ela, subir as escadas até lá acima e zangar-se connosco porque estávamos a brincar e a estragar o elevador. Teve que o desligar para conseguir vencer o Além...

E ninguém se tinha levantado das cadeiras pelo menos nos últimos dez minutos…

Ainda hoje não tenho explicações para tal. E eu estava numa das mesas…

Não sei se foi por tanto espírito ter vivido naquele Hotel em tormentos que nem se adivinham sequer, por tanta ajuda pedida (e alguma realmente conseguida – pelo menos alguns, de cá, sossegaram…) por tanta ajuda se ter perdido, pelos certamente inúmeros conflitos “espirituais” entre os de lá que não conseguiam chegar aos de cá, não sei se foi por tudo isso mas a verdade é que entre tamanha tragédia, tantos tormentos e convulsões, em conclave, os de lá decidiram:

«Esta casa está transformada numa espécie de Embaixada do Além na Terra, à revelia dos Entes realmente Superiores e por isso:

- Deite-se o Hotel a baixo!»

E o Hotel foi mesmo demolido, por implosão, anos depois.

Dia 28 de Março do ano 2000 às 09h45m:

A implosão do Hotel Atlantis

Incrível, não é?

Era um magnífico Hotel, o Hotel Atlantis...

A implosão vista de outro ângulo, com as obras da ampliação final da pista à vista
(Vejam dois vídeos ilustrativos do sucedido, um é da RTP, no fim deste artigo)

Numa das minhas estadias nessa altura, muito antes da implosão, organizou-se uma sessão com o pires, no quarto de uma das mais reputadas especialistas no assunto.

Uma colega que tinha participado num longo diálogo entre uma família dividida. Os de cá e o de lá acertaram mesmo os problemas. Ela, portanto, sabia o que fazia. Era uma autoridade e uma excelente pessoa, também.

E um grupo de muitos tripulantes juntou-se, numa tarde chuvosa, num dos bons quartos do Hotel para uma possível conversa com o Além. Com a ajuda dela. Podia ser que alguém viesse falar connosco. Era aliciante. E fomos todos.

Com um senão. No quarto ao lado e deliberadamente não informado, estava hospedado um tripulante muito pouco aceite em intimidades pela maioria de nós. Era PC e dos muito activos. Até distribuía livros nas instalações da TAP e nas estações de metro. E tinha uma filha da idade da minha, muito bonita e simpática que por vezes ia a nossa casa. Gostávamos muito dela.

Pois nessa tarde a preocupação era não fazer muito barulho, não fosse o tipo do quarto ao lado dar com a língua nos dentes e transformar uma tarde de convívio despretensioso e curioso num acontecimento menos próprio que poderia ter de fazer intervir as nossas chefias da TAP.

E lá começou o pires do pequeno-almoço a andar ás voltas na toalha de papel, carregado de dedos indicadores, afanosamente á procura das letras e números que mais lhe interessavam para comunicar o importante que nos tinha a dizer.

E os mais cépticos na galhofa, como de costume.

- Calem-se! Se não acreditem, vejam só!


- Não façam barulho! Cuidado com o “vizinho”!


- Estás a escrever? O que é que já disse?


- Continuem! Eu digo no fim.

Pareceu-me estranha a voz do escriba. Deve haver algo de estranho no que o espírito está a querer comunicar, pensei para comigo mesmo.

E no meio de calem-se e como vai a escrita, e da muita concentração que aquilo requeria para criar a energia que fazia andar o pires (ainda por cima com tanto dedo indicador às costas) achou-se por bem saber com quem estávamos a falar.

- Vá lá… diz lá o que escreves-te.


- Vocês não vão acreditar!


- Lê lá, deixa-te de coisas!


- Ok. Então é assim: o que aqui está escrito é o seguinte. Eu passo a ler:

“O FDP DO xxx  É COMUNISTA”

Claro que o pires, nessa tarde, não teve mais vontade de andar por ali às voltas e acabámos todos a falar de coisas menos estranhas, entre golos de whisky e muitos cigarros.

No ano de 1978 a coisa acalmou bastante…

E uns tempos de pois, numa segunda ampliação, antes da actual, a pista ficou com este aspecto.


Assim, as aterragens tornaram-se mais fáceis...

Resumindo, eu não acredito em Bruxas.

- Pero que las hay, hay!



E a Maria Isabel Camacho-Santos, a Camachinho, Assistente de Bordo na altura, hoje a viver a reforma nos Estados Unidos, comentou assim esta história, no dia 28 Set 2011, no Facebook:

"É por isso que te amo! Estava la', ouvi as portas do elevador e assisti a tudo o que dizes no blogue. Uma coisa é certa se não escreves um livro quem te vem puxar as pernas depois de morrer sou eu. Já estou com a lágrima teimosa cara abaixo. LUV U"

E noutro comentário ao Blogue, do dia 27 de Setembro de 2014, que podem consultar, alguém escreveu:

«O que é curioso é que o João (O Comandante João Lontrão) consultou um respeitado astrólogo tempos antes (que também eu consultava) e que também já não está entre nós. E que entre outras leituras previu um acidente na vida do João, não especificando se o mesmo era pessoal, rodoviário ou outro».


VIDEOS incluidos:


Da RTP:


De Rui Martins:
Breve História do Aeroporto da Masdeira


(Actualizada em 30 de Abril de 2014)