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Na Guerra do Ultramar e não só - O Comando de uma LFG na Guiné (1)

 

O Comando de uma LFG na Guiné

(LFG - Lancha de Fiscalização grande)


1ª Parte

Os navios da classe ARGOS













LFG ORION


Esta história relata, muito resumidamente, o que foi a comissão no Ultramar de um digníssimo Oficial da Armada, Luiz Pereira Vale

 na altura 1º Tenente, na Guiné, exactamente no auge do conflito com o PAIGC, imediatamente antes do 25 de Abril.

Conhecemo-nos por essa altura por morarmos no mesmo prédio em Lisboa. A amizade ficou-nos agarrada desde aí...

O texto está publicado na Revista de Marinha, Nº 985, Maio/Junho 2015.

O texto, integral, está subdividido por mim em várias histórias, tendo-lhe acrescentado eu imagens que fui encontrando na Internet e um ou outro texto que ajuda a perceber o envolvimento de alguns episódios aqui narrados.


A história é todo o texto que se segue:

__________________________________________________________


Entre junho de 1963 e setembro de 1965 foram aumentados ao efectivo da armada 10 navios da classe ARGOS, então designados por lanchas de fiscalização grandes (LFG’s).

Os primeiros 4 foram construídos nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e os restantes no Arsenal do Alfeite.


Na Wikipédia encontrei este texto que o blogue aqui reproduz (não está na história do autor):

“A classe Argos foi uma classe de lanchas de fiscalização grandes (LFG), ao serviço da Marinha Portuguesa, entre 1963 e 1975.

 As lanchas foram construídas entre 1963 e 1965 no Arsenal do Alfeite, e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.

 As unidades desta classe foram baptizadas com o nome de constelações.

 As Argos tiveram origem no Projeto de Lancha para Timor, resultante de um requisito da Capitania do Porto de Dili, para um tipo de lancha com capacidade para ser empregue na fiscalização das águas territoriais de Timor Português. Em virtude da Guerra do Ultramar, nenhuma das lanchas acabou por ir para Timor, sendo enviadas para África, onde foram empregues em operações militares.

 A maioria delas foi transferida em 1975 para a República Popular de Angola, e as restantes afundadas ao largo da Guiné-Bissau no mesmo ano.

 De notar que a Marinha Portuguesa voltou a utilizar o nome de Classe Argos para denominar uma nova classe de Lanchas de Fiscalização lançadas ao mar em 1991” 


No fim do conflito, 7 desses navios,

ARGOS, DRAGÃO, CASSIOPEIA, HIDRA, LIRA, ORION e SAGITÁRIO,

 encontravam-se na Guiné.



     LFG's no cais de Bissau


Os outros 3 ESCORPIÃO, PÉGASO e CENTAURO, em Angola.

Os da Guiné estavam reforçados com chapa balística para proteção da ponte e do costado na zona da casa das máquinas.

Estes navios tinham deslocamento máximo de 210 tons, cumprimento de 41,7 m e um calado de 2,1 m e eram proporcionadas por 2 motores que permitiam uma velocidade Máxima de cerca de 17 de nós e uma autonomia de 1660 milhas em velocidade de cruzeiro.

O comando dos motores era feito diretamente da ponte, o que facilitava muito a manobra, fator importante nas condições de navegação da Guiné, efectuada muitas vezes em águas restritas e sujeitas a fortes correntes e marés de grande amplitude e particularmente nas atracações, que aliás só podiam ser efectuadas nos cais de Bissau e de Bolama e em 2 pontões de madeira no rio Cacheu.

O armamento principal das LFG’S’s era constituído por 2 peças Boffors de 40 mm, complementado na Guiné com 2 metralhadoras ligeiras MG-42 instaladas nas asas da ponte e por vezes também com 2 espingardas G-com dispositivo lança-granadas ofensivas.


Em rios estreitos, designadamente no Rio Cacheu era também instalado o morteiro de 60 mm na ponte alta operada por fuzileiros.


As peças boa Boffors, dotadas de uma elevada cadência de tiro e projéteis explosivos, constituíam um armamento poderoso no tipo de operações efectuadas nos rios da Guiné, mas tinham uma forte vulnerabilidade por serem de comando exclusivamente elétrico.


Com a vantagem de necessitarem apenas de um apontador, em vez de 2 como nas peças de comando mecânico, um para apontar em direção e outro em elevação, podiam assim fazer um fogo mais rápido e certeiro, mas tinha um perigoso inconveniente de ficarem inoperativas em caso de falha de energia.


Daí que a principal limitação operacional das LFG’S’s se devesse aos seus geradores, já com muitos milhares de horas de funcionamento e com grandes dificuldades de sobressalentes que só podiam estar parados quando os navios recebiam energia de terra.


Sem energia elétrica os navios ficavam indefesos, sem comunicações e até sem poder de manobra, pelo que quando um dos 2 geradores se avariava os navios entravam em limitação operacional. Outra limitação das LFG’S’s tinha a ver com as comunicações.


Possuíam bons equipamentos de HF, mas que apenas podiam comunicar em grafia e um mau equipamento de fonia, que só foi substituído após o fim do conflito.






    A LFG ORION no Tejo. em Lisboa



Assim, quando os navios necessitavam de comunicar com Bissau, dadas as características dos seus equipamentos, tinham de enviar as mensagens em morse para a estação rádio naval de Cabo Verde, que depois as retransmitia para Bissau. 


Isso significava que num pedido de apoio aéreo urgente, os minutos necessários para que as os aviões nos apoiassem podiam transformar-se facilmente numa hora.


As LFG’S’s dispunham também de equipamentos portáteis para comunicações a curta distância com as forças terrestres ou aéreas mas que eram de fácil intercepção pelo inimigo pelo que a sua utilização era fortemente restringida.


Quanto a pessoal, as guarnições das LFG’s eram constituídas por 2 oficiais, 4 sargentos (Condutor de Máquinas, Artilheiro, Manobra e Enfermeiro), e 21 praças, complementadas com 3 civis africanos que desempenhavam as funções de impedidos dos oficiais e dos sargentos e a de padeiro e ajudante do cozinheiro.


Esta lotação permitia que os navios navegassem abordadas meia guarnição nos postos e a outra a descansar, mantendo praticamente a mesma capacidade da situação de “postos de combate”.




As outras Histórias sobre este assunto:



 



 

Luiz Pereira Vale

Oficial da Armada

ex-Comandante do N.R.P. Orion

Revista de Marinha, 985, Maio, Junho 2015









Na Guerra do Ultramar e não só - O Comando de uma LFG na Guiné (3)


O Comando de uma LFG na Guiné 


3ª Parte

A operação no rio Cacheu e não só

                                               


No Cacheu, rio de grande extensão navegável, a zona de operações da LFG’s era essencialmente entre a base de Guanturé e a povoação de Binta.

A sua missão principal era tentar impedir a travessia do rio (cambança) por parte do inimigo, que o utilizava para efectuar o seu abastecimento logístico em pessoal e material à área do Morés a partir da fronteira com o Senegal, situada a poucos quilómetros a Norte. 

Nesta zona a navegação diurna não oferecia dificuldade, pois bastava navegar a meio do rio, que embora estreita e com grande corrente, tinha profundidade suficiente para se navegar até junto das margens, pelo que havia apenas que estar com atenção às ações do inimigo, normalmente efectuadas a partir das clareiras da margem de sul. 

Dava até prazer navegar naquele rio com um luxuriante conjunto de árvores de grande porte ao longo das suas margens e recordo especialmente a sua beleza ao nascer do dia quando a macacada por vezes nos pregava sustos com os saltos e guinchos repentinamente largados à nossa passagem. 

Já a navegação noturna era bastante complicada, pois era feita normalmente em grande velocidade e total ocultação de luzes, quer para tentar surpreender o inimigo quer para dificultar as suas possíveis ações ofensivas. 

Para isso o Comandante e o Imediato posicionavam-se junto ao radar, cujo monitor emitia a única claridade permitida, rodeados de torcidas fumegantes de Lion-Brand para afugentar os inúmeros mosquitos que os mordiam impiedosamente, embrulhados muitas vezes em cobertores, pois naquele clima quente o frio noturno nos rios também era muito.

 No radar apenas se conseguia observar o troço do rio em que se estava a navegar, sabendo-se pela carta que o troço seguinte seria para estibordo ou para bombordo e qual a variação de rumo aproximada. 

Quando o navio entrava na ou curva metia-se o leme todo a um bordo e aguentava se a guinada quando no radar se começava a ver o troço seguinte. 

Às vezes as coisas não corriam bem e os navios roçavam pelas árvores lá deixando alguns vergueiros, pelo que no exterior apenas podiam permanecer os operadores das peças. 

Enfim, uma operação arriscada e votada ao insucesso, uma vez que o ruído dos motores naquele ambiente silencioso era ouvido a distâncias consideráveis e mesmo com o navio a pairar ou fundeado, ouvia-se o ruído dos geradores.




Foi no Rio Cacheu que passei o meu primeiro Natal na Guiné e aí recebi do Ministro da Marinha, senhor muito simpático, que ofereceu uma nota de 100 escudos, para pagar umas cervejas à minha guarnição.

Nesse Natal de 1972 o senhor Ministro foi fazer uma visita aos fuzileiros na base de Ganturé e depois de me pedir desculpa por não ter tempo para ir ao meu navio, disse-me para desejar um bom Natal à minha guarnição, o que fiz sem lhes revelar quem na realidade pagou a maioria das cervejas por ele oferecidas.

Mas é nessa base de Ganturé em que, passados mais 3 meses, acompanhei os trágicos episódios que se sucederam ao abate nas suas proximidades de 3 dos nossos aviões, perecendo camaradas com quem convivi.

É também aí que algum tempo depois, desembarquei e me despedi com a emoção, do meu amigo Capitão Matos Gomes, que heroicamente com os seus comandos africanos atravessou a fronteira com o Senegal durante a noite para atacar a base inimiga de Cumbamori e assim aliviar o prolongado cerco ao nosso aquartelamento fronteiriço de Guidaje, em cuja defesa se distinguiu, entre outros, o então Capitão Salgueiro Maia.

É também de Ganturé que guardo a imagem da evacuação dos feridos numa violenta emboscada sofrida na temida clareira de Tancroal, efectuada por vários helicópteros em simultâneo, numa cena que lembrava filmes de outras paragens.

A comandar a LFG DRAGÃO, em missão de escolta a várias embarcações civis e à LDG MONTANTE, entrámos numa clareira à velocidade mínima, com uma máquina parada e a outra avante devagar, cozidos com a margem onde estava o inimigo, para proteger as embarcações civis que navegavam encostadas à margem oposta.

Sem termos tomado a precaução de efetuar alguns disparos prévios, fomos atingidos a muito curta distância, valendo-nos imediata a reação das nossas peças, que acabaram por ficar inoperativas durante o contato de fogo.

A peça de vante apenas fez alguns tiros porque ficou logo sem energia, devido a termos sido atingidos na zona do quadro elétrico que a alimentava e aos ferimentos sofridos pelo seu municiador. A peça de ré por sobreaquecimento do cano, devido os muitos disparos efetuados em curto espaço de tempo.

Da emboscada resultaram 2 feridos na guarnição da LFG e 14 no pessoal da estiva da LDG, que navegava à nossa popa e também se envolveu no combate. Tivemos sorte, porque a maioria dos projéteis inimigos caíram na água e uma munição explosiva que penetrou num dos nossos cunhetes os de munições não explodiu.

No rio Combijã a navegação era completamente diferente da do rio Cacheu. Não era fácil demandar a sua barra, pois era necessário Navegar por uma estreita passagem entre 2 baixios, apoiados apenas por uma única marca radar colocada a várias milhas de distância, pelo que um pequeno desvio podia dar direito a encalhar.

À entrada do rio tínhamos a bombordo a célebre ilha do Como, alvo de uma penosa ação militar alguns anos antes quando era considerada a principal base do inimigo e estibordo, a península do Cantanhez santuário do inimigo, onde em fins de 1972 se tentou fazer uma vez mais a sua ocupação militar.




A ORION foi uma das várias unidades navais envolvidas nessa ação e recordo naquele cenário de guerra em que foram empregues avultados meios terrestres, aéreos e navais. a desagradável sensação do silvo das granadas da nossa artilharia ao passarem por cima de nós ou a de adrenalina sentida, quando numa noite escura como breu fomos forçados a abortar um desembarque de fuzileiros por termos sido detectados pelo inimigo que se encontrava na margem a curta distância do local onde tínhamos fundeado.

O enorme ruído dos motores da LDM que transportava os fuzileiros fiz com que o inimigo procurasse saber a nossa exata posição, lançando very-lights. Sem podermos sair daquele local enquanto a LDM não regressasse, também não poderíamos ripostar se fossemos atacados, pelo perigo de podermos alvejar o nosso pessoal, pelo que se viveram momentos de grande tensão.

Mas voltando à navegação no rio Combijã, este era praticável para as LFG’s até à zona de Cufar, onde existia a pista de aviação alternativa à de Bissau para aeronaves de maior porte e apoio é toda a zona sul da Guiné.

Ao contrário do rio Cacheu, no Cumbijã a navegação não podia ser efetuada a meio do rio e tinha de ser bastante cuidadosa, navegando-se junto a uma ou outra margem, conforme a sua profundidade.




As outras Histórias sobre este assunto:




 



Luiz Pereira Vale

Oficial da Armada

ex-Comandante do N.R.P. Orion

Revista de Marinha, 985, Maio, Junho 2015








Na Guerra do Ultramar e não só - O Comando de uma LFG na Guiné (2)

 

O Comando de uma LFG na Guiné


                                                               2ª Parte

Primeiros tempos na Guiné




NRP Argos                

Cheguei à Guiné para assumir o comando da Orion e em meados de Outubro de 1972, após uma atribulada viagem aérea por força das avarias dos 2 motores da mesma asa de um velho quadrimotor DC-6, ocorridas entre as Canárias e Cabo Verde.

Aterrei em Bissau 5 dias depois de sair de Lisboa, à boleia de outro DC-6 de carga, sentado em cima de caixotes de sobressalentes de 2 velhos bombardeiros B-26 da 2ª Grande Guerra Mundial, cuja aquisição tinha levantado um grande alarido nos areópagos internacionais e que iam para Angola. 

Logo no dia seguinte à minha chegada, após os cumprimentos da praxe e um briefing sobre a situação militar no território, voltei a embarcar num pequeno avião pertença da marinha a embarcar no pequeno avião pertença da Marinha, destinado principalmente ao transporte de correio para as unidades que estavam fora de Bissau, para ver como era a “guerra”.

Depois de aterrar numa pequena pista de terra batida, desbravada no meio da floresta compacta Já muito perto da fronteira com o Senegal, subi para o camião conduzido pelo fuzileiro que me aguardava e ao fim de uns quilómetros de picada, vislumbrei no meio das árvores o que me pareceu ser um navio de guerra.

Na realidade lá estava uma LFG, atracada no pontão de madeira que servia a base de fuzileiros de Ganturé, na margem do rio Cacheu.

 

Lembro-me de ter reparado de imediato que na tolda, envolta da peça de ré, havia uma profusão de cunhetes de munições, bidons de combustível, um jogo de matraquilhos e até uma vaca viva que aguardava espaço nas frigorificas… estava noutra Marinha!

 

Depois do susto da praxe, a cargo dos fuzileiros que nessa noite simularam um ataque do inimigo, no dia seguinte fizemos a patrulha do rio na zona de operações que ia até à povoação de Binta, onde estava aquartelada uma companhia do Exército e perante os meus receios ao observar toda aquela alta vegetação junto às margens estreitas por onde íamos navegando, fui elucidado que não era dali que vinha o perigo mas sim das clareiras, onde os navios eram atacados.

Quando já me sentia mais descontraído recebemos um pedido de apoio dos fuzileiros que estavam a ser atacados numas dessas clareiras a célebre clareira do Tancroal, para onde nos dirigimos imediatamente à máxima velocidade. Eis que quando estávamos já muito perto e em “postos de combate”, o Comandante mandou parar o navio e perante a minha interrogação, apontou para o céu, onde se viam os nossos aviões e esclareceu-me que quando isso acontecia ele não entrava na zona de combate, porque na sua anterior comissão, também na Guiné mas como fuzileiro, tinha havido diversas baixas provocadas pelos nossos meios aéreos. Senti-me elucidado e em apenas 48 horas, já bastante preparado para o que se iria seguir…

Quando iniciei a minha comissão a iniciativa militar ainda nos pertencia. No final desse ano de 1972 foi lançada uma grande ofensiva contra um dos santuários do inimigo, a península do Cantanhez, situada na parte sudoeste do território da Guiné, entre os rios Cumbijã e Cacine.

Mas logo a seguir à morte de Amílcar Cabral, ocorrida em Janeiro de 1973, o curso da guerra sofreu uma drástica alteração, especialmente após serem abatidos vários aviões com mísseis Strella SA-7, quebrando a nossa supremacia aérea e prejudicando o imprescindível apoio às forças terrestres.











À táctica de guerrilha seguida até então sucedeu-se uma poderosa ofensiva do inimigo, que dispondo de mais e melhor armamento, passou a atacar fortemente os nossos aquartelamentos mais vulneráveis, Guidaje, na fronteira norte com o Senegal e Guilege e Guadamael, perto da fronteira sul com a Guiné-Conakri. Em Setembro o PAIG c declarou a independência e daí até ao dia 25 de Abril de 1974, a situação militar não parou de se deteriorar perigosamente.




Nesta fase do conflito fase do conflito, a Marinha desdobrava-se no apoio militar e logístico das forças terrestres empenhadas nas áreas com acesso marítimo. As LFG’s enfectuavam sobretudo a vigilância e patrulha do rio Cacheu no norte da Guiné e dos rios com bijan e cacine no sul com o objetivo de impedir ou dificultar a sua utilização pelo inimigo, mas também outras missões tais como o patrulhamento das águas territoriais e do arquipélago dos Bijagós, a escolta a partir da denominada “bóia de espera” dos navios militares e civis que demandavam o porto de Bissau, a escolta de outros meios navais ou embarcações civis nos rios em que isso era possível e necessário, o transporte e a projeção de forças terrestres e asseguravam também a defesa marítima do porto e cidade de Bissau.

Quer no comando da ORION, quer embarcado noutros navios, em apoio a substituição dos seus Comandantes nos seus impedimentos, testemunhei muitos e variados episódios ocorridos naquele período difícil de fins de 1972 até ao fim do conflito, que não seria possível narrar aqui, pelo que apenas referirei alguns que poderão dar uma ideia do ambiente que então se vivia nos rios Cacheu, Cumbijã e Cacine.





Nem todos esses episódios foram trágicos e os piores que recordo foram vividos no acompanhamento de acontecimentos que envolveram os militares as forças terrestres os grandes sacrificados naquela guerra.

Na Marinha, para além dos Fuzileiros, o meu grande apreço veio para as guarnições das Lanchas de Desembarque Médio (LDM’s), que para além da perigosidade das suas missões, viviam em péssimas condições de habitabilidade, agravadas pelo clima dos rios da Guiné.

Nas LFG’s, para além do sentimento de uma maior segurança incutido pelo seu elevado poder de fogo, as guarnições dispunham de razoáveis condições de vida com alojamentos climatizados e até uma melhor alimentação.




As outras Histórias sobre este assunto:



 




Luiz Pereira Vale

Oficial da Armada

ex-Comandante do N.R.P. Orion

Revista de Marinha, 985, Maio, Junho 2015









Na Guerra do Ultramar e não só - O Comando de uma LFG na Guiné (4)

 

O Comando de uma LFG na Guiné 


4ª Parte

2 episódios que vivi


É neste rio que também vivi 2 episódios que não resisto a narrar rapidamente.











Um, que agora dá para sorrir, foi a recuperação de um avião DO-27, que aterrou de emergência no lodo, junto à célebre ilha do Como. Vinha embarcado na LFG LIRA a demandar a entrada do rio, quando avistámos a aeronave, que ao longe nos fez imaginar uma hipotética rampa de foguetões, dada a sua inclinação a 45°. Enquanto nos aproximámos, os tripulantes, o piloto e 2 enfermeiras para-quedistas, foram recolhidos pelos fuzileiros, pelo que nos restava tentar a recuperar o avião. A primeira parte da operação foi fácil, porque amarrámos uns bidões vazios à sua fuselagem e quando a maré encheu o avião ficou a flutuar.











Pediu-se então a Bissau o envio de uma LDG, que chegou no dia seguinte, mas aí começaram as complicações. Devido às fortes correntes não se conseguiu içar o avião para dentro da LDG, pelo que foi necessário pedir o envio de uma outra LDG transportando uma grua.


Mas nem com a grua se conseguiu içar a aeronave, que entretanto já estava muito danificada, pelo que se tomou a decisão de se separar as asas da fuselagem e amarrá-las aos bordos da LFG. Quando voltámos para Bissau, impantes da nossa proeza, não fomos bem recebidos pelos camaradas da Força Aérea pelos estragos que tínhamos causados ao avião!...


O outro episódio que recordo deste rio foi bastante mais triste. 


No Natal de 1973,

estava embarcado novamente na LFG LIRA, quando foi decidido lançar outra grande ofensiva no Cantanhez, tentando desta forma surpreender o inimigo, quando na véspera e no dia de Natal era usa ver um cessar-fogo dos 2 lados.

Mas nessa noite terrível, ouviam-se nas nossas comunicações os desesperados pedidos de ajuda dos jovens em risco de vida, em combate ali tão perto de nós e sem qualquer possibilidade de lhes prestarmos qualquer auxílio.

Nessa altura não pude deixar de imaginar que àquela hora, os pais daqueles jovens estariam provavelmente a pensar nos seus filhos e talvez mesmo a rezar por eles à lareira ou a assistir a alguma missa do galo…

Por fim, vou referir-me ao Cacine, outro rio bastante demandado pelas LFG’s, especialmente a partir de meados de 1973. Era um rio bastante largo e, tal como o rio Geba que servia Bissau, não oferecia dificuldades especiais de navegação até a zona de Gadamael.

No entanto apresentado problemas na sua barra, que para além de ter sondas muito baixas, necessitava de ser demandada navegando em águas territoriais da Guiné-Conakry, mas onde felizmente no meu tempo não se registaram ataques aos nossos navios por artilharia instalada no território daquele país.

É ao rio Cacine que vou pela primeira vez no dia 2/06/1973 vindo de emergência do rio Cumbijã com 2 LDM’s e uma companhia de para-quedistas, para acorrer aos acontecimentos que vieram a ser recordados como o “Inferno de Gadamael”.


Ver aqui o que foi esse Inferno:


O Inferno de Gadamael

Escrito por: José Casimiro Pereira de Carvalho


Também em:

Gadamael - o verdadeiro Inferno


A situação que ali se deparava era terrível. Muitos dos nossos militares pertencentes às guarnições de Guilege e Gadamael, não aguentando a pressão exercida pelos pesados e precisos bombardeamentos do inimigo, para os quais nem sequer dispunham de abrigos adequados, tinham-se refugiado nas margens do rio, onde se encontravam à sua mercê.


Ignorando a ordem do General Spínola que proibia a sua recolhaa Orion e as LDM’s e os botes de Fuzileiros retiraram nesse dia cerca de 300 militares para o quartel de Cacine e mais algumas centenas de civis africanos, no dia seguinte.


Mas o pior viria a acontecer nos dias que se seguiram quando foi ordenada a defesa a todo o custo de Gadamael, cabendo à Marinha o transporte de homens e material para lá, e a evacuação dos feridos e mortos para Cacine, onde os helicópteros já podiam aterrar para fazer o seu transporte para Bissau.

Dessa ação, em que muito se distinguiu o meu amigo então Capitão Manuel Monge, que viria a comandar o golpe de 16 de Março que antecedeu o do 25 de Abril, resultaram em poucos dias 24 mortos e 147 feridos, uma grande parte dos quais transitaram pela ORION para serem levados para Cacine, onde os meios aéreos efetuavam a sua evacuação para Bissau. 

A mesa do refeitório das praças eram local onde o sargento enfermeiro, ajudado pelo grumete eletricista, lhes prestava a assistência possível naquelas circunstâncias e as variadas cenas então vividas são ainda hoje de dolorosa recordação.


25/04/1974


Mas foi também no rio Cacine que a Orion se encontrava no dia 25/04/1974. Nesse dia, ao contrário dos anteriores, sentiu-se uma estranha acalmia das ações do inimigo, designadamente nos pesados bombardeamentos dos nossos quarteis.

Já passava da meia-noite quando o telegrafista comunicou que suspeitava que alguma coisa tinha acontecido em Lisboa e, passados 2 ou 3 dias recebemos a bordo, a seu pedido, uma delegação de guerrilheiros do PAIGC, que apenas nos queriam transmitir que para eles a guerra tinha acabado, uma vez que tinha sido uma guerra contra o nosso governo e não contra os portugueses.

Não pude deixar de pensar então no sacrifício de tantos jovens, que ali sofreram e, em particular, naqueles que ali deixaram a própria vida!... E também que estava ali a testemunhar o fim de uma era gloriosa da nossa história!


Em Julho de 1974 regressei a casa.










A ORION ainda foi morrer a Angola,,,

mas permanecerá

sempre viva

nas minhas recordações!


 



As outras Histórias sobre este assunto:




 




Luiz Pereira Vale

Oficial da Armada

ex-Comandante do N.R.P. Orion

Revista de Marinha, 985, Maio, Junho 2015