Mostrar mensagens com a etiqueta Piper Cub. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Piper Cub. Mostrar todas as mensagens

A minha Força Aérea - A minha não-largada em Piper Super Cub


       O Super Cub do Museu do Ar





Isto ocorreu nos idos do final da década de 60 do século passado.


Estava eu colocado na Esquadra 51 em Monte Real, Leiria, na Base Aérea Nº5.




E já tinha voado mais rápido que o som num F-86 daquela Esquadra.
















Sou um Falcão! 








Ver essa história aqui.








Recuando uns bons 10 anos no tempo, eu tinha sido largado, com 16 anos, num
Piper Cub, igual a este aqui em baixo, do Aero Clube da Zambézia em Quelimane, Moçambique.










logótipo do Aero Clube da Zambézia









Fui o piloto mais novo a voar sozinho num avião em Moçambique.


E pouco mais voei porque achei que o meu Pai não devia continuar a sacrificar-se.

Deixou pois de haver dinheiro para mais horas de voo, mesmo com o abençoado subsídio da Mocidade Portuguesa.

Fascista, fascista, mas muitos jovens puderam assim fazer todo o tipo de actividade desportiva com o seu precioso subsídio. E hoje, como é? Adiante...












Pois bem, voltando a Monte Real, refiro que a Força Aérea também estava equipada com aviões Piper Cub mas do modelo Super Cub que diferia do Cub normal, entre outras coisas, por ter um motor mais potente.

Servia para voos de ligação e treino.

E como o mexilhão é sempre quem sofre mais... os pilotos menos graduados eram os que, na Base Aérea Nº5, normalmente voavam nele.




Em Monte Real até dei instrução num desses aviões a um digníssimo Oficial da Academia Militar que em 1974 foi escolhido para Conselheiro da Revolução.

Daqui lhe mando um grande abraço, lembrando-lhe aquele voo em que sendo eu o responsável pela segurança a bordo, como instrutor, conseguimos mesmo à justinha, os dois em simultâneo sem termos tido sequer tempo de comunicar um com o outro, com grande mérito, evitar um grave acidente!


É desta raça que se fazem os grandes aviadores…















Aconteceu que sobrevoando nós um braço do rio Mondego perto de Montemor, mas na margem Sul, com uma manobra rápida, própria de aviadores competentes, conseguimos evitar embater em arames esticados no meio do canal.

No meio do canal! Quem diria...




Imaginem arames esticados a uns míseros 50 centímetros da superfície daquele calmo braço de rio…

Ladeado de frondosas árvores.

Lindo...


Os dito cujos arames serviam para os pescadores os usarem como tracção manual de deslocamento de pequenos barcos de pesca entre as duas margens do estreito canal.

Foi ou não foi bonito?


No comments…


Pertencendo eu aos tais mexilhões, tinha de voar simultaneamente os aviões da Esquadra de Ligação e treino a pouco mais de 150km/h e os supersónicos F-86 que faziam 9 minutos de Monte Real a Lisboa contra os 45 minutos dos aviõezinhos que no entanto também davam gozo voar.















Voltei a ser largado, em Monte Real, no Chipmunk onde poucos anos antes aprendera a voar em Aveiro, na Base Aérea de S. Jacinto, hoje extinta.







A Base Aérea Nº7 nos seus bons tempos




  Placa de estacionamento dos Chipmunks em S. Jacinto, Aveiro, 1962











E por causa da monotonia a que eu estava obrigado naqueles penosos 45 minutos, mexilhão é mexilhão… fazia os voos, normalmente para Alverca, a uma considerável altitude.

Simples bom-senso…

É que eu sabia que ia adormecer inevitavelmente, com o sol de frente. E ás tantas o avião começava também a adormecer por falta da  minha companhia...

O coitado acabava afinal por relaxar, a querer ir por ali a baixo, sonolentamente...





Quando a aerodinâmica iniciava o processo de aumentar a velocidade, na queda inevitável, aquele barulho acrescentado fazia-me acordar, sem sobressaltos.

Afinal ainda havia muita altitude para perder…

Segurança acima de tudo!















A minha largada no Super Cub na Base Aérea de Monte Real foi sendo sucessivamente adiada sempre por razões fortuitas. Tinha que haver, por norma, um senão à última da hora.

Até que…




O Comandante da Esquadra daqueles aviões ligeiros recebe um telefonema no seu gabinete com um pedido para se ir buscar com urgência uma peça de motor a Alverca, ás Oficinas Gerais de Material Aeronáutico.

Sai logo do gabinete á procura do primeiro aviador capaz e dá de caras comigo no corredor. 

E diz-me.

- Ó Cavaleiro você tem de ir já, já, a Alverca no Cub buscar uma peça.

E eu nada…

- Você já foi largado, não foi?

Salta-lhe a dúvida. Era a minha grande oportunidade!

- Já sim senhor.

- Ok, então vá lá...



Ordens são para se cumprir.



Tinha já um Cabo Mecânico à minha espera para fazer o meu primeiro voo naquele avião e ir buscar a peça.



Antes de entrar no Cub disse-lhe:









- Camarada, eu nunca voei nesta coisa. Você arrisca ir comigo?

- Se você acha que é capaz…

- Bora!






E pronto, foi assim que fui largado no Super Cub da Força Aérea Portuguesa.




(Como se diz nos filmes, não tentem fazer estas coisas lá em casa, nem deixem os putos fazer…)















A minha Força Aérea - Para grandes males, grandes remédios!



 Aviador que se prese tem sempre uma solução...


Como piloto de F-86 na Base Aérea de Monte Real, actual casa dos F-16, entre 1964/66, as minhas obrigações levavam-me a voar todos os tipos de aviões existentes na Base. Além do F-86 voei o Chipmunk, o Beechcraft Model 18 e o Super Cub, sendo os mais ligeiros pertencentes à Esquadra de Ligação e Treino.

E é nesta vertente de "Ligação" que cabe esta história.

Melhor dizendo de "Frete".

Duplo frete.

a) Porque o voo era uma espécie de frete, desempenhar uma incumbência, fazer um recado e…

b) Porque era cada vez mais um frete o frete que fazia



Vamos à história.



Eu no meu F-86
Em F-86 eu cronometrei o tempo que me levava a voar entre Monte Real e Lisboa. Uns 9 minutos, mais coisa menos coisa.



Em Chipmunk, o avião onde aprendera a voar em Aveiro 3 anos antes, o voo tinha mais minutos. 

Cinco vezes mais minutos.

45 minutos ao todo, que tive que aprender a gerir.













Chipmunk

A partir de determinada altura passei a voar sempre alto, entre 500 e mil metros de altitude, 1500 a 3000 pés.

Porque era sempre vencido pelo sono… 

E a altitude a mais era perdida pela descida desenfreada que me acordava ainda a tempo de evitar estragar a pintura ao avião. O barulho que aquilo fazia ao passar para uma velocidade bastante maior que a de voo em cruzeiro era um óptimo despertador. Coisa muito segura, como se vê.

Era pois um frete voar cinco vezes mais lentamente do que o fazia normalmente.





Mas tinha o seu encanto. Dava para apreciar melhor a paisagem. Felizmente não tinha nenhuma namorada no caminho o que às vezes dava para o voo acabar em cima do telhado da casa dos pais delas, ou no laranjal do quintal, como um que eu conheci, o fez.

No meu caso teve o aliciante de ir controlando o andamento dos trabalhos da ampliação da EN 1, no troço entre Leiria e Rio Maior, ao longo da Serra dos Candeeiros.

E já perto da inauguração da obra, o Almirante Américo Tomás a afiar a tesoura e o Ministro das Obras Públicas Arantes e Oliveira a mandar passar a fita a ferro, a ligação ao novo troço já estava devidamente preparada.

Pude aperceber-me que para evitar que os aceleras do costume fossem por ali fora antes do Tomás aparecer de tesoura em punho, tinham protegido o acesso fácil àquela nova estrada que muito beneficiou o trânsito.

Puseram uns bidons a tapar a entrada, exactamente no cruzamento com a estrada que vinha das Caldas da Rainha para Rio Maior.



O facto de ser um dos pilotos mais novos daquela Esquadra de aviões ligeiros da Base Aérea de Monte Real implicava ter de transportar toda e qualquer pessoa que precisasse de se deslocar para qualquer unidade da Força Aérea.

E por vezes a vontade era nenhuma e então quando os “clientes” eram personalidades menos recomendáveis…

Por um mero acaso descobri um dia como amenizar algumas viagens mais aborrecidas pela deficiente qualidade do passageiro.

Funcionava sempre. Manobra baseada na Fisiologia de Voo que como ciência que é faz parte da Natureza Humana. Experimente quem possa.


É mesmo infalível.





Não ensinem isto a ninguém, ou pelo menos não digam que fui eu que vos disse..


É assim:


A meio de um trajecto, ao fim de uns bons e serenos minutos de voo, procura-se uma nuvem do tipo Cumulus, base larga e plana em dia de bom tempo, entra-se na nuvem afoitamente (quem não tem formação em Voo por Instrumentos por favor não tente) e ao fim de uns segundos inicia-se mas muito lentamente uma volta para um dos lados, mantendo a altitude.



 

A manobra tem de ser feita com muita precisão: a volta tem se ser muito bem coordenada de pés e mãos e iniciada muito lentamente.

O avião inicia então uma volta com um pranchamento de pelo menos 20º (inclinação das asas em relação à horizontal)

E é só isto. Mais nada.

Quando a nuvem acaba, isto é, quando o avião sai da nuvem com as asas inclinadas e o horizonte enviesado o que é que acontece ao cérebro do incauto pendura?



Ciência pura...

Como estava anteriormente a voar direitinho e entrou suavemente numa volta, sem dar por isso, os neurónios ainda a voar paralelos ao horizonte da Terra, de repente a Terra entorna-se.

E o estomago do sujeito também.

E o almoço também se entorna e o cheiro a vomitado cheira mas é a já dei cabo de mais um

E assim eliminava a hipótese de voltar a ser “contratado” por aquele camarada.

E isto sem fazer nenhuma manobra súbita ou acrobática.



Mas havia um sujeito que não podia “eliminar” porque desempenhava funções importantes de logística.

Até ao dia em que percebi que, voando sempre para Alverca, para as OGMA, onde o homem se demorava horas infinitas e nunca cumpria os horários que ele mesmo estabelecia, me pareceu que ele me usava para ir a Lisboa de passeio e fazia de mim o seu piloto particular tratando dos seus assuntos pessoais.


E foi assim que naquele dia…


- Ó amigo, disse-lhe eu à chegada a Alverca, isto sai às 5 da tarde em ponto e se você não aparece fica cá.

- Sim senhora, estou cá às 5!


E foi mesmo a essa hora que o avião saiu da placa.

Sem o sujeito.


Não tinha ainda rolado 10 metros aparece-me o homem a correr pela placa fora a gesticular freneticamente.

Lá parei ele entrou e descolei para Monte Real, no Chipmunk.

E em vez de subir em direcção a Norte, subi, subi, subi às voltas sobre Alverca até aos 3.000’ (pés) 1km de altitude.

E aí, sim. Aí iniciei o voo.

Mas um bocadinho para a direita do Norte... Um bocadinho para Este…

Em direcção a Rio Maior, à Serra dos Candeeiros, àquele cruzamento que eu tão bem conhecia. Em linha recta e sempre a descer!

São uns bons 10 a 15 minutos. Direitinhos que nem um fuso a velocidade sempre a aumentar até ao limite máximo. Aí fui reduzindo o motor para cumprir os limites estruturais do avião quanto à velocidade.

O meu passageiro devia ir deliciado a ver a Terra a aproximar-se cada vez mais. Começam-se a ver as casas maiorzitas e todas as coisas aparecem com mais definição.

Os meus olhos iam fixos naquele cruzamento que ainda não tinha expressão mas eu sabia onde ele estava.

E quando comecei a ver ainda lá ao longe os bidons de pé no meio da estrada, o alcatrão era novinho, comecei a tirar medidas.

A estrada era uma via rápida de duas faixas com árvores altas de um lado e do outro. Mesmo por cima dos bidons uns fios de Alta Tensão atravessavam-na na perpendicular.

Ou seja, havia uma espécie de rectângulo cujo lado superior eram os fios, o lado inferior eram os bidons e as laterais aquelas bonitas árvores.


Era aqui, mas agora é um viaduto que passa por cima da estrada das Caldas. E os fios eram mais baixos.

Rectângulo um pouco maior do que o tamanho do Chipmunk. Mas não muito…

              
 - Mas o avião cabe! Concluí eu.
 








Quando me apercebi disso, agarrei o manche com ambas as mãos, fortemente, não fosse haver uma tentação de alguém desviar aquele avião um milímetro que fosse.

O desgraçado passageiro lá atrás apercebe-se do que ia suceder e grita:


- Cuidado com os fios!!!

- Quais fios!? Grito eu…


Nunca mais nos vimos no mesmo avião, está claro.


Os aviadores têm sempre maneira de tornar aliciante qualquer voo, por mais aborrecido que seja.


É da Arte…





Publicações - Parabéns Quelimane



20 de Setembro...


Hoje é o dia da Cidade de Quelimane.
Há mais de 70 anos foi elevada a Cidade.
No dia 20 de Setembro de 1942.

Tinha eu 1 ano e pouco de vida.




Foto recente de Quelimane




Quelimane foi decisiva para a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia. Foi aqui que Vasco da Gama, em 1498, teve notícias do muito Comércio que já naquela altura por ali se fazia com a Índia.

Foi aqui que iniciou as diligências para contratar um Piloto que o guiasse até á Índia aproveitando as Monções.




A cidade no início do Sec XX


Foi aqui que me apaixonei pela primeira vez.

Exactamente no dia 5 de Julho de 1953.

No dia em que fiz 12 anos. No dia em que desembarquei naquele cais do Rio a que Vasco da Gama chamou "dos Bons Sinais", que dá o nome a este Blogue.

Vinha de um colégio interno (Instituto Portugal) onde estava há dois anos. Fiz a viagem de barco desde Lourenço Marques num navio costeiro, sozinho, numa viagem de sete dias.



Lurio



Dois anos antes o meu Pai metera-me neste mesmo barco ou noutro semelhante não me lembro para iniciar a 5ª classe naquele Colégio por não haver mais que a 4ª classe em Pebane onde morávamos na altura e onde o meu irmão mais novo nasceu.

Tinha eu portanto 10 anos…


A cidade e o Rio dos Bons Sinais



Depois do almoço após o barco zarpar de Quelimane para Lourenço Marques, os seis passageiros que eu nunca tinha visto, já que não conhecia ninguém a bordo, reuniram-se no bar para o café e o bagaço da ordem.

Conversa puxa conversa eu a um canto muito calado ouvi um dos meus companheiros de viagem dizer bem alto:

- Logo vamos ao pacote ao puto.

Nos meus primeiros 10 anos de vida sempre a viver no mato sem miúdos brancos com quem brincar (os meninos pretos eram os meus únicos e melhores amigos) nunca tinha tido medo de nada a não ser de uma viagem de almadia (piroga feita de tronco de árvore escavado) com os meus pais numa travessia em dia de temporal e de uma cobra, na Maganja da Costa, que às tantas apareceu do nada entre as cadeiras em que eu e a minha irmã mais velha, a Lourdes, nos sentávamos ela a ler-me o Cavaleiro Andante.



Foto do porto de Quelimane muito antiga


Aquela frase dita num bar de um pequeno barco costeiro no meio do Oceano Índico entre gente desconhecida eu com 10 anos sozinho sem família nem ninguém a quem pedir ajuda, levou-me a lutar contra o que me pareceu, vagamente, ser uma ameaça.

Nem eu sabia o que em gíria “pacote” queria dizer.

Nem eu sabia que havia sexo e muito menos pedofilia.

Mas o instinto de sobrevivência levou-me a sair calmamente do bar e a desaparecer naquele pequeno barco, ilha minúscula no grande Oceano Índico.

Resultou.

Era noite cerrada quando finalmente o Comandante do naviozinho me encontrou escondido debaixo de um oleado dentro de uma baleeira.

Acalmaram-me e disseram-me que estavam a brincar comigo, brincadeiras parvas já se vê.

O resto da viagem decorreu sem mais incidentes.

Comecei por dizer que Quelimane foi onde me apaixonei pela primeira vez. Paixão que durou uns bons 8 anos. Pudera a Bela era a miúda mais gira de Quelimane por quem todos se apaixonavam quando lá chegavam e era minha vizinha e irmã de um dos meus3 ou 5 grandes amigos, até hoje.

Apaixonei-me depois variadíssimas vezes mas a última... é que foi fatal! Vivemos há 26 anos juntos.

Mas Quelimane foi muito mais que uma paixão.

Foi onde aprendi a conviver com gentes muito diferentes de mim sem isso causar conflito algum.

Perfeita analogia com o que aconteceu ao Vasco da Gama o que me enche o ego mas com pouca validade como se perceberá…

No Colégio de Freiras onde estudei, o Colégio do Sagrado Coração de Maria porque não havia Liceu, contrariamente ao que se passava em Portugal Continental, na Colónia de Moçambique (na altura ainda não era uma Província) todas as salas de aula tinham rapazes e raparigas, cristãos e nessa altura eu Comungava todos os dias, protestantes, muçulmanos com o seu Ramadão que respeitávamos muito por o cumprirem à risca e simultaneamente todas as obrigações académicas incluindo desporto, hindus, mestiços, goeses, pretos e brancos tudo à molhada e com fé em vários deuses..



O Colégio novo que eu já não conheci mas vi em obras





A Igreja de Nª Srª do Livramento, hoje em ruinas


O Mundo para mim ainda é assim. Uma grande panela onde cabe tudo e todos têm direito ao mesmo lume aos mesmos temperos e acabam cozinhados todos ao mesmo tempo.

Uns têm melhor sabor que outros.

Nem sempre se gosta de tudo.

Mas há sempre quem goste. É normal assim.

Em Quelimane aprendi a andar a sério de bicicleta

Pratiquei muito também o fascinante desporto de “roubar” almadias “perdidas” e então remar ao longo da marginal e pelos mocurros acima que são pequenos riachos, na maré enchente e depois descê-los a toda a velocidade na vazante. Mas depois deixava-as onde as tinha tirado.

Aprendi a desobedecer e a ser penalizado da maneira que mais dói.

Um fim-de-semana em que estava proibido de ir ao cinema se calhar por más notas pisguei-me a meio da tarde como se fosse dar uma voltinha de bicicleta.

Mas o meu Pai, Administrador de Quelimane e portanto Comandante da Polícia é que desconfiava onde é que eu me tinha metido entretido a desobedecer-lhe.



Era neste edifício, a Camara Municipal, que o meu Pai trabalhava


A meio do filme tudo às escuras e em silêncio profundo as pipocas eram ali desconhecidas ouve-se na coxia uma frase em voz bem alta e muito afirmativa:

- Minino! Sr Administrador está chamar!

Era mesmo um Cipaio impecavelmente fardado de cofió e tudo. (Polícia negro com o característico barrete castanho) de dedo em riste a apontar para o meio da fila exactamente onde eu estava sentado, já todo encolhido.

Felizmente o cinema só levava 200 pessoas e TODOS sabiam quem eu era…

Em Quelimane aprendi a nadar bem na Piscina Municipal construída em 1937 com o treinador do Campeão Nacional de bruços João Godinho meu colega no Colégio. O Treinador chamava-se Passeti.



A legenda desta foto diz: Clarinha Soares de Albergaria Ferreira Martins, tia da Clarinha Múrias, duas amigas e a sua mãe Petitinha Soares de Albergaria Brandão de Mello. Na piscina de Quelimane, 1949.



Em Quelimane comecei a tirar a carta de condução teria 16 anos com um Instrutor que às tantas adormecia e eu andava por ali fora sozinho no meio da cidade a embalá-lo docemente não fosse ele acordar e lá se ia o gozo.

Foi em Quelimane que a minha vida sem eu o saber tomou o rumo que me havia de levar até à Reforma:

- Aprendi a voar num Piper Cub do Aero Clube da Zambézia com o Instrutor Câmara e fui largado (voei sozinho) com 16 anos e 8 horas de voo. Com subsídio da Mocidade Portuguesa pois claro.



Era mais ou menos assim...


Foi em Quelimane que fiz outro dos 2 ou 3 ou 4 ou 5 grandes amigos para a vida. O Pedro era filho do Governador Civil, Dr Gouveia e Melo, chefe do meu Pai.

Para que se saiba este senhor é tio de um português Ilustre, bem conhecido na Pandemia de 2020. O Vice-Almirante Gouveia e Melo, Coordenador da Task Force da Vacinação contra o Covid 19, é filho do irmão mais novo deste senhor que era Avogado em Quelimane.

O Vice-Almirante Gouveia e Melo nasceu em Quelimane.

Nós os dois, o Pedro e eu, aprendemos a hipnotizar com o curso do Sr C. H Ciernan que encontrámos na Biblioteca Municipal da cidade.

Comprei, anos depois, os livrinhos e ainda os tenho.

Era o Joel a nossa “vítima”. Um colega do Colégio. Com ele conseguimos ler o pensamento das pessoas e o meu amigo Pedro sabia sempre quando devia ir para casa porque o Joel o avisava dos passos do Pai não fosse o “velho” chegar primeiro e ele não estar lá como devia. Nunca falhou. Mas a Madre Albert soube das nossas actividades "paranormais" e fez-nos jurar que nunca mais o fazíamos e por ali nos ficámos.



O Palácio do Governador, a casa do Pai do Pedro






Reunião de Administradores em Quelimane. O Governador Dr. Gouveia e Melo está na frente de casaco branco e o meu Pai logo atrás dele por sobre o ombro esquerdo.



Também foi em Quelimane que aprendi que as diferenças entre as pessoas são para serem respeitadas até ao último grau. Não me refiro a uns seres mais que os outros mas a sermos todos diferentes.

Um fim de tarde apareceu um Cipaio aflito em nossa casa e pediu ajuda pessoal ao meu Pai, na qualidade de Comandante da Polícia:

- Sr. Administrador! Tem um branco bêbado na Mesquita sentado na cadeira do Profeta a dizer:

- Agora aaaadorem-me!

O meu Pai quis ir prendê-lo, pessoalmente, para dar o exemplo.

Foi em Quelimane que comecei a ver o que era política.

Nas eleições em que o Gen Humberto Delgado participou os comícios eleitorais eram em recintos fechados com a devida autorização obrigatória.

Ora a União Nacional do Estado Novo do Salazar resolveu fazer um comício em Quelimane e nem se preocupou com autorizações nenhumas.

Foi o Pai do Pedro, o Governador Civil, que convenceu o meu Pai a não "mandar prender aqueles gajos todos". Era o que lhe apetecia fazer…

Já agora digo-vos que embora 2/3 dos zambezianos tenham votado em Umberto Delgado, foi Américo Tomás quem, oficialmente, ganhou. Coisas do Estado Novo...

Quando saí de Quelimane após o 5º ano porque não havia 6º no Colégio não sabia que nunca mais viveria naquela terra tão amada.

Mas não faz mal.

Eu nunca saí mesmo de Quelimane…

Parabéns Quelimane!!!
Parabéns Quelimanenses!
Parabéns Chuabos!

Mas não fui só eu quem se apaixonou por aquela terra.



Vejam o que um  Vice - Almirante disse de Quelimane em 2021


«Quelimane - a minha Terra, uma inspiração. 

Quando olho para o caminho que percorri, agradeço a Deus ter nascido nesta pequena e pacata cidade, na foz do rio dos Bons Sinais, em Moçambique, onde as circunstâncias me proporcionaram uma infância verdadeiramente feliz e equilibrada, entre a natureza, muito presente no dia a dia, seres humanos de diferentes raças e credos, numa comunidade vibrante e cheia de energia, num mundo pequeno inserido num oásis num espaço muito mais amplo, africano.  Foi aí também que senti o sopro dos ventos de mudança que afetaram todas as nossas vidas futuras, a Revolução, o princípio da descolonização, o fim do último império ocidental.  

Vivia na marginal, a 50 metros da Piscina Municipal, com o rio dos Bons Sinais pela frente e a Igreja de Nossa Senhora do Livramento ao lado. 

Os meus pais educaram-me com princípios e valores cristãos, respeitador, autoconfiante, mas sem orgulhos  deslocados ou sentimento de qualquer forma de superioridade, com carinho quanto bastasse, mas sem proteção especial. Conferiram com isso “asas” à minha resiliência e adaptabilidade, essenciais no meu futuro percurso. 

Lembro-me de viver entre a Piscina, o Clube Náutico, a Escola Vasco da Gama, o Colégio Paulo VI e, depois, o Liceu João Azevedo Coutinho, já nos arredores da cidade. 

Guardo memórias de cheiros e sons do rio dos Bons Sinais, onde nadei, brinquei e velejei, dos amigos da marginal, dos Sedeval Martins, meus amigos de infância e adolescência, da Capitania do Porto e da sua rampa,  onde se picava a ferrugem dos cascos metálicos das embarcações, dos passeios e das caçadas nas savanas africanas, das praias, em especial da fabulosa praia de Zalala. 

Guardo também memórias do meu irmão, já falecido, o Manuel, maior do que a vida, um verdadeiro enfant terrible, que deixava o meu pai com “os nervos em franja,” mas que tinha “ um coração do tamanho do mundo ” e que se tornou uma personagem na cidade. 

Lembro-me que Quelimane na sua pequenez era estranhamente cosmopolita, uma junção de europeus, africanos, indianos e alguns chineses, com duas igrejas e uma mesquita, parte natural da comunidade. 

Regressado de África em 1975, fui para o Brasil, onde passei da pacata Quelimane, com uma pequena paragem em Viseu, para a gigantesca metrópole de São Paulo. Curiosamente, não me senti amedrontado, algo de selvagem em mim, nutrido em África, me preparou para  esse choque e para muitos outros seguintes. 

De volta a Portugal, entrei na Escola Naval em 1979. Curiosamente, e por feliz coincidência, aportámos no mesmo curso três quelimanenses: eu, o João Azevedo e o José Costa e Castro, este último meu companheiro nos submarinos durante muitos anos. 

Quiseram as circunstâncias da vida que o mar, na sua dimensão, a solidão e  a torça dos elementos me fizessem sentir tantas vezes a minha terra natal, na imensidão das suas planícies e savanas, nas tempestades tropicais e na força indomada da natureza que nos  fazia sentir pequeninos, indefesos e com um verdadeiro sabor da fragilidade humana. Nestas ocasiões, os cheiros, os sons e os esplendor do pôr e do nascer do sol prendiam-me num limbo transcendente de quase felicidade. 

Após uma longa carreira na Marinha de Guerra Portuguesa, grande parte realizada em submarinos, as circunstâncias vieram tornar-me o coordenador do processo de vacinação contra a covid-19. 

O processo de vacinação contra a Covid-19 veio colocar Portugal numa posição cimeira e singular, tendo sido o primeiro país do Mundo a ultrapassar a marca de 85% de vacinação completa.

Este sucesso não é meu, mas de toda uma comunidade que se soube unir em torno de uma ideia simples: combater um vírus mortal e resgatar o controlo das nossas vidas. Isto implicou um esforço coletivo gigantesco, em que reagimos, de forma excecional, enquanto comunidade unida por um desígnio. Estou em crer que vencemos a primeira batalha, mas que a “guerra” continua e que nada está ainda garantido a longo prazo. E é sobre isto que gostaria de escrever algumas poucas palavras e através delas lembrar Quelimane. 

Enquanto privilegiado que fui,  pela posição e pela sorte, não posso esquecer de que tínhamos uma relação muito desigual para com uma grande comunidade de africanos à nossa volta. Durante a crise e a entrada da Troika para Portugal, voltei a pensar em Quelimane, interiorizando melhor o que se sente quando nos acusam de indolentes, quando rebaixam a nossa estima e nos roubam a esperança. Por isso, Quelimane não é para mim uma saudade, mas uma permanente inspiração. 

O mundo ocidental tem de fazer a sua “guerra” de vacinar as partes menos desenvolvidas do planeta Terra; vivemos todas na mesma nave que circula o Sol, uma nave limitada e interconectada pela globalização. Na mesma Quelimane onde nascemos, estão seres desprotegidos, sem acesso a tantas coisas que consideramos banais. A essa e outras cidades, devemos fazer chegar as vacinas contra a covid-19, devemos lutar por isso enquanto privilegiados que  somos. 

Assim termino a minha história sobre Quelimane, dizendo que Quelimane me gravou no coração a certeza de que não há seres humanos menos importantes ou descartáveis nem lugares que possam ser esquecidos e que não mais deixarei que a minha consciência descanse e que seja “envenenada” por uma ética e moral relativa, focada só num pequeno mundo próximo. 


Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo,»


Vice - Almirante, Coordenador da Task Force contra a Covid 19 em 2021.

 







(Ultima actualização em 26 de Fevereiro de 2022)