terça-feira, 26 de abril de 2011

Pedaços de vida – O meu vulcão


Há 62 anos que choro a minha incapacidade para lidar com vulcões.

Em 1949 tinha 8 anos quando perguntei ao meu Pai o que era um Vulcão.

"Como é que eu hei-de explicar isto ao miúdo", terá pensado.

Se fosse hoje eu teria ido à net e via logo o que era:


Podia não saber como funcionavam, mas pelas imagens tinha logo uma ideia bastante aproximada. E poderia ter corrigido os erros que ainda hoje lamento ter cometido…

Mas em 1949 em Pebane, na Zambézia, Moçambique, no meio do mato, não havia assim tantos recursos técnicos…

Nesse tempo não havia as coisas rotineiras de hoje.

Não havia Magalhães.

Nem Internet.

Nem TV. Juro que é verdade!

Nem telemóveis.

Nem FM, sequer.

Nem iPhones iPodes iPades, acreditem!...

Como é que era possível?!

O meu pai andava sempre de uma terra para a outra. Tinha sempre o mesmo emprego mas mandavam-no constantemente mudar de sítio.

Era Administrador de Circunscrição. O Boss lá da terra. Chefe civil, administrativo, policial e tudo o mais. Havia também padres, professores primários, cantineiros (donos de mercearias) e outras profissões menores. Mas o mau pai é que era o Chefe daquilo tudo!

O meu pai era constantemente transferido. Não dava para andar com Enciclopédias atrás, claro…
 

Não fora isso e eu teria ficado a saber, exactamente, o que era um vulcão.
 

Ia à Wikipédia e:
 

«Vulcão é uma estrutura geológica criada quando o magma, gases e partículas quentes (como cinzas) escapam para a superfície terrestre. Eles ejectam altas quantidades de poeira, gases e aerossóis na atmosfera, podendo causar resfriamento climático temporário».



Ou, mais abreviadamente, que é o que nos interessa para esta história, ia à Suapesquisa.com:
 

«Vulcão é uma abertura na crosta terrestre, de formato montanhoso, por onde saem magma, cinzas, gases e poeira».




Magma…? Que raio…
Crostas? OK, tinha muitas. Andava sempre a esfolar-me!
Gases?! O vulcão também faz isso?...

Mas o meu Pai, para eu não continuar por ali fora com mais perguntas, disse-me:

- "Vulcão? Olha, um Vulcão é um buraco com fogo de onde saem muitas pedras".

Muito mais simples, tão a ver?!

Os pais sabem sempre até onde devem ir nestas explicações complicadas. Especialmente quando não percebem bem do assunto. Mas não era, de todo, o caso do meu pai.

Olhou-me nos olhos e viu logo que podia continuar descansado o seu trabalho. Aquilo tinha encerrado a questão. Simples, conciso, completo.

Ou melhor: se é tão simples vamos lá a ver se funciona…

Vai daí, resolvi logo fazer, eu, um Vulcão.

Afinal, um buraco, fundo, cheio de pedras e palhas…e uns fósforos ...e já está.

É canja! Que era muito boa a da minha Mãe.

E pequenos ramos de uma goiabeira, que por ali havia muitas com goiabas muito boas.

Também havia muitas papaeiras mas a lenha devia arder muito devagar e se calhar as pedras não conseguiam sair do vulcão e lá se ia o efeito.

É que um vulcão tem as suas manias, como se sabe.

Ná…

Tudo previsto…

A trabalheira que me deu calcular a profundidade do buraco de modo a que as pedras saíssem na vertical, num belo efeito misto de explosões, fumo e fogo, com algumas parecenças com fogo de artifício, coisa que eu nem sabia que existia. Mas que, no íntimo, já sabia como era e o efeito que fazia.

Eu era mesmo muito precoce.

Tudo deve ter começado mal aqui: o meu pai disse-me que era um buraco, etc, etc, e a Wikipédia diz que é uma estrutura geológica, que não deve ser bem um buraco, acho eu.

E o Suapesquisa.com diz que é uma coisa na crosta terrestre, de formato montanhoso.

Tudo muito científico!

E o que é que eu, amador, uma criança, não esqueçamos, fui fazer? Um buraco! Um buraco… Nada mais que um buraco.

Não havia nenhuma estrutura geológica, nem crosta terrestre nem nada montanhoso. Um buraco…um simples buraco no meio de um terreiro, longe de tudo, não fossem as pedras dar cabo de uma série de coisas.

E vamos lá a ver se isto funciona. O meu pai disse-me que era assim, portanto…

A palha e os tronquinhos da minha amada goiabeira lá no fundo a taparem as pedras, a altura certa, livre, até ao topo para as pedras poderem ir na estilha, na vertical.

Tudo pronto, tudo calculado, vamos a isto!

Mas foi preciso coragem, podem crer…muita coragem. Sempre era um vulcão, não é?

Fósforo aceso... atirei-o, meio agachado, para dentro do vulcão, com muito cuidado, não fosse aquela coisa começar logo a trabalhar, Baaang! como um vulcão deveria fazer …e fugi!

Não estava á espera, mas tive de tentar mais que uma vez. O fósforo apagava-se na queda sobre os troncos da goiabeira. E não pegava fogo às palhas e o vulcão não podia funcionar, claro.
 

Se calhar o buraco era demasiado fundo.
 

Mas era preciso espaço para o calor que as chamas haviam de dar e que fizessem as pedras subir com muita força…
 

Mas às tantas, Olha! Olha! Fumo dentro do vulcão! Está a sair fumo! Fujam! Fujam!
 

E fugi de novo.
 

Por causa da saraivada de pedras que aí vinha. 

Atão… não é que as… pedr...as ficaram …lá no fundo?

Nem se mexeram...

É que nem se mexeram!

Enquanto as palhas ardiam... E os troncos da goiabeira a crepitar...

...E a minha cara! Haviam de ter visto... 

O meu vulcão só tinha “gases e partículas quentes (como cinzas)” a escaparem-se. As pedras, todas negras, malcheirosas, coitadas, recusaram-se a sair e aquilo não funcionou de todo!


Durante muito tempo não percebi o que aconteceu.

É que não percebi mesmo!

E foi aí que comecei a desconfiar de que aquela história do Pai Natal, se calhar... também não funcionava lá muito bem…




(Actualizada em 19 de Abril de 2014)






3 comentários:

  1. ... nem o coelhinho da Páscoa!
    flo

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  2. Foi certamente com medo dos vulcões que passaste a ir para cima do poço arranjar bicicletas. Contudo... o poço é um buraco, fundo, cheio de pedras e palhas...

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  3. Já me tinha esquecido disso... mas a bicicleta, que esteve um ano dentro de uma lata de gasolina (as peças pequenas) voltou a andar. Acho que o meu Pai se recusou a ajudar-me, no que fez bem, claro...

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