terça-feira, 19 de julho de 2011

Na Guerra do Ultramar - Olivença, Moçambique. 1968 (Lupilichi, nome actual)


Podia ter corrido mal, muito mal. 5 sobreviventes!


Do-27. Esta história passa-se num avião como este

Para o final da minha comissão em Moçambique (entre 1967 e 1968) e durante 3 meses, fui incumbido da missão de obter imagens sensíveis, por fotografia aérea, com equipamento específico, de modo a um planeamento mais eficaz e cirurgico de determinadas operações da Força Aérea.

Voava um pequeno avião monomotor, um DO-27 matrícula 3497, auxiliado por um cabo especialista em fotografia aérea. Tinha como equipamento uma máquina fotográfica para fotografia vertical fixada ao avião, uma outra máquina fotográfica manual e uma guia de marcha que na rubrica destino tinha isto escrito: “Confidencial”.
 

E o Norte de Moçambique era todo nosso… do Lago Niassa ao Oceano Índico, do paralelo de Nampula/Nacala ao Rio Rovuma! Uma bela e vasta área para destinos confidenciais, num pequeno monomotor...

A minha zona de actuação: todo o Norte de Moçambique...

E as missões eram tão confidenciais que se o único motor daquele pequeno avião DO-27 falhasse ninguém, evidentemente, sabia onde me ir procurar…

Por causa destas minhas novas e secretas funções eu tinha que executar os voos sem o escrutínio de qualquer outra Unidade militar que não fosse o Comando Operacional da Força Aérea em Nampula. Como os Comandantes das Unidades não tinham nem podiam ter conhecimento das minhas movimentações, eu aterrava e descolava de qualquer Unidade sem que ninguém percebesse o que me levava ali.

Nas Bases operacionais nunca tive problemas. Mas o Comandante de Nacala não achava nada correcto este meu procedimento e mandou-me prender, sim, prender, por 3 vezes. 

Porque eu aterrava e descolava de Nacala sem dar cavaco a ninguém, obedecendo evidentemente às ordens superiores que tinha.
 

Na 3ª e última vez as ordens eram para voltar a Nampula o mais rápido possível depois de entregar o DO, fosse lá como fosse. Eu que me desenrascasse.
 

Após a aterragem e com o avião ainda a caminho do Hangar ouvi um avião Nord Atlas a pedir rolagem para descolar para Nampula. 

Pela rádio pedi boleia ao Comandante, estacionei o DO na Placa e saí a correr de um avião para o outro. Estive em Nacala 30 metros de corrida… O Comandante da Base se tivesse aviões de caça tinha-nos abatido. E lá me mandou prender pela terceira e última vez… 

Estas participações chegavam ao Estado-maior e eram enviadas para o cesto do lixo, sem nenhum comentário ou resposta ao autor dos autos...

Mas as coisas não eram sempre assim tão divertidas.


Num dia de Julho de 1968, como resultado de um RVIS (Reconhecimento visual feito num avião com armamento para utilizar caso o piloto achasse pertinente) um piloto do AB6, Nova Freixo, a voar T6, descobriu junto à fronteiro Norte no rio Rovuma não uma simples palhota mas aquilo que lhe pareceu ser um quartel inteiro!


No cumprimento da sua missão, bombardeia o objectivo. Mas sofre forte reacção antiaérea. Sem consequências graves.


Dias depois na ONU, naquela grande sala que 3 anos depois visitei armado em turista, “aqui discute-se a independência das Portuguese Colonies" disse a guia ao grupo, a Tanzânia queixa-se de ter sido atacada por Portugal na margem do rio Rovuma, a Nor-nordeste de Olivença, Província do Niassa.

E quando se prepara um linchamento ao piloto em causa, aparece um relatório da Pide sobre o sucedido.


Aquilo, o tal aquartelamento, nas margens do rio Rovuma, tinha sido palco, naquele mesmo dia, do II Congresso da Frelimo, com a presença do Eduardo Mondlane e com os jornalistas suecos levados a julgarem que estavam no interior de Moçambique!


Facto deveras extraordinário!

Local do ataque
Na fotografia mais abaixo poderão ver como o desenho da fronteira Norte de Moçambique naquele local não coincide exactamente com o serpentear pronunciado do rio Rovuma. O tal "quartel" ficava a Sul do rio, aparentemente já em Moçambique. Mas a fronteira é ainda um pouco mais para Sul...

O Estado-maior da nossa Força Aérea organiza então uma grande operação para a eliminação de tão grandioso objectivo.


Comanda a operação o malogrado Capitão Mantovani. Um homem afável, respeitado por todos pelas suas qualidades de carácter e humanas. Este muito estimado piloto veio a ser abatido na Guiné, na comissão seguinte, por um míssil russo Strela.


E era vê-los a entrar (4 ou 6 T-6) ao passe de tiro contra o "quartel" e as antiaéreas a contra atacar. Uma guerra como deve ser… de que eu não fiz parte porque andava naquelas secretas funções de “espionagem”.


Felizmente não houve baixas.


Agora vamos lá a ver como aquilo ficou… pensamento de um iluminado.


Sou chamado à ZAC (Zona do Ar Condicionado, vulgo Estado-maior) em Nampula e encarregue de ir lá fotografar tudo. Eles queriam ver tudo. Nunca percebi porquê. Mas a minha função não era fazer perguntas mas sim executar…


As fotografias com a câmara vertical montada no DO, tinham que ser feitas a 3000 pés de altitude e a 90kts de velocidade, fora-me ensinado no início.


Dada a complexidade da situação criada, a queixa da ONU, o Congresso da Frelimo, a dimensão das instalações, fui acompanhado do mais alto especialista em fotografia aérea na altura. Um Tenente que tinha sido abatido num Dacota (DC-3) pouco tempo antes na zona de Mueda.


E lá vamos os três, o tenente, o cabo e eu, guia de marcha com destino "Confidencial", no DO-27, a caminho de Vila Cabral, com destino a Olivença, onde eu nunca tinha ido.


Ali fomos recebidos pelo Alferes Oliveira, Comandante do destacamento e pelo médico, a quem contámos ao que íamos.
O médico tinha uma história interessante: estava um belo dia a fazer um estágio de Medicina em Nova Iorque, ou por ali, quando foi chamado para a Guerra.


E em 48 horas foi recambiado de Times Square para Olivença!

Apesar de saber que as duas últimas operações sobre aquele nosso objectivo tinham sido presenteadas com forte reacção antiaérea, o comandante de Olivença pediu-me para o levar no voo que iriamos fazer ao final do dia seguinte. Por mais que lhe explicasse que iria correr riscos desnecessários, não o consegui demover.


O pior foi depois o médico que também quis ir...


-Ó senhor doutor! 5 pessoas num DO mais o peso da máquina vertical e a falta de espaço, não dá… De todo!


Abreviando, no dia seguinte, 4 de Setembro de 1968, depois de um belo jantar na companhia daqueles simpáticos desterrados em Olivença, uma noite naturalmente mal dormida e um grande mata-bicho (pequeno almoço à moçambicana) lá descolo com a minha tripulação mais os dois inconscientes e pegajosos “observadores”…


A pista era grande embora parecesse mais um trilho do Dakar, ao longo de árvores altas.


Não conhecia o local mas pelo briefing que me foi feito em Nampula, não devia ser difícil. Rumo ligeiramente a Nordeste à procura do grande rio que faz fronteira com a Tanzânia, num local onde ele é bastante largo e com algumas curvas.



Zona do objectivo, a Norte da Fronteira

-É ali! Só pode ser ali.

Reconheci imediatamente o meu objectivo, ainda a cinco minutos de voo.

E lá estão os aquartelamentos, que avistei de bem longe. Fiz uma volta a 90º para a direita para Este, a Sul do rio, afastado umas 2 a 3 milhas e segui em frente.


Para despistar. Achava eu.
 

Deve ter sido nesse momento que eles foram para as antiaéreas…

Umas 5 milhas depois fiz uma volta á esquerda, de 180º. Voltei assim para trás. Exactamente em direcção ao objectivo. A 3000 pés de altitude e a 90 kts, seguindo exactamente o procedimento recomendado.
 

Apontado ao pôr-do-sol que olhava para mim e abanava a cabeça como quem critica uma traquinice a uma criança:

- Gabriel, Gabriel…
 

O Tenente ao meu lado seguia atentamente a manobra para que fossem rigorosamente cumpridos os necessários parâmetros técnicos de funcionamento da máquina fotográfica fixada ao avião de modo a que se captassem com precisão as fiadas de mapeamento fotográfico daquele tão importante objectivo.
 

E eu tinha que apresentar aquelas provas do cumprimento do objectivo fixado.
 

Nessa altura eu era dos poucos pilotos que voava de capacete e cintos de peito no DO-27. Resquícios da disciplina da Esquadra 51 dos F-86…
 

No momento exacto e com a anuência do Tenente especializado ao meu lado, fiz sinal ao meu fiel companheiro cabo para accionar a máquina fotográfica vertical e começámos então a colher as imagens.
 

À medida que o "quartel" lá em baixo ia desaparecendo debaixo do nariz do avião, o silêncio entre nós foi-se tornando bastante pesado. Todos queríamos continuar a ouvir aquele silêncio por mais um minuto ou dois, pelo menos. Mas…
 

Trás!
 

O tenente da fotografia, que ia ao meu lado, desata aos gritos:
 

-Já comemos! Já comemos! Já comemos!
 

Não esqueçam que este camarada tinha sido abatido pouco tempo antes num Dacota em Mueda exactamente numa sessão de fotografia aérea.
 

Eu bem ouvi o que pouco depois me pareceu ser o embate de um projéctil com um muito ligeiro estremecimento do avião, mas estava concentrado na manobra e tentei acalmá-lo, mantendo o avião em linha de voo, o mais estável possível e disse-lhe:
 

-Já comemos o quê?!
 

Nesse mesmo instante comecei a ouvir, apesar do uso do capacete e dos 3000 pés de altitude sobre o terreno, um forte “bang” contínuo e ritmado.
 

Bang! Bang! Bang! Bang!
 

-Pica! Pica! Pica! Gritava o tenente.
 

Meto a manete do motor a fundo, volto à esquerda para Sul, desço só ligeiramente para aumentar a velocidade e inicio então manobras de diversão com voltas à esquerda e á direita.
 

Pareceu-me que se picasse o avião, não alteraria grandemente a minha qualidade de alvo privilegiado.
 

4 ou 5 apertados “S”s depois, os “bang!” deixaram finalmente de se ouvir…
 

A tensão a bordo era enooorme...
 

Como estariam os meus “destemidos” companheiros lá atrás?
 

Quando me volto pela direita vejo o pobre Cabo Especialista completamente manietado pelo médico, fortemente abraçado a ele, refugiado entre os seus braços, ambos de pé e sem fala, o cabo a tentar equilibrar-se, agarrado ao que podia. O Alferes Oliveira parecia tranquilo, sentado, à espera que o médico e o cabo se desenvencilhassem mutuamente…
 

Depois de tudo acalmar pedi ao cabo que levantasse a lona do fundo do avião e no meio do escuro da fuselagem conseguimos ver vários buracos lá no fundo da fuselagem, junto à cauda do avião, por onde entrava a luz exterior…
 

E lá fomos para Olivença, dever cumprido, sem feridos, a não ser a carcaça do nosso DO um tanto ou quanto esburacada.
 

Já no chão, encontrámos um projéctil de grosso calibre - 20mm – firmemente encastrado, exactamente no topo da asa direita. Os outros, os dos buracos, perdemo-los…

O Alferes Oliveira mostra alguns buracos na fuselagem do DO-27

Reabastecimento antes da partida de Olivença

Nunca mais vi ninguém desta “equipa” a não ser o meu camarada cabo especialista que me aturou até ao fim desta minha tarefa com o DO da fotografia. Felizmente foram só 3 meses ao todo. Mas que me pareceram uma eternidade.

Mas trinta anos depois...

No Clube Naval de Olhão, numa mesa com alguns amigos e outros ilustres desconhecidos da Cidade da Restauração que me acolhe desde essa altura, um dos que não conhecia olha para mim e pergunta-me:

-Ouça lá, nós não nos conhecemos?

Ideia nenhuma…

Depois de alguns momentos as nossas caras eram-nos de algum modo familiares. É daqui, é dali, de onde será?

-Você esteve aqui, ali?

E de repente caímos nos braços um do outro!

O Alferes Oliveira, Comandante do destacamento de Olivença, estava ali! Á minha frente no Clube Naval de Olhão! Distinto Médico Veterinário em Faro. Trinta anos depois!

Foi simplesmente emocionante…

Levei anos a lamentar-me por não ter nenhum documento do sucedido. Ainda por cima com tanta máquina fotográfica no avião.

O Alferes Oliveira tinha tirado uma série de fotografias depois da aterragem, a apontar para os buracos na fuselagem, agora sorridente, fotografias que hoje fazem parte das minhas fotos de exposição permanente, na minha secretária.

Hoje em dia Olivença chama-se Lupilichi.

É uma vila na província do Niassa a Noroeste de Moçambique. 

Fica aproximadamente a 25 km a sul da Tanzânia.

Nesta área existem reservas de ouro que em 1955 se pensa que 13 toneladas de depósitos de aluvião de pepitas foram ilegalmente exploradas pelo Zaire, Tanzânia e Quénia.

Já depois de ter publicado esta história li no livro " Os Anos da Guerra Colonial" dos Coronéis Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, pág 459/460, que o II Congresso da Frelimo se realizou realmente, entre os dias 20 e 25 de Julho de 1968, mas…

Em Matchedje, a cerca de 50km a Este do local dos acontecimentos bélicos desta história.


O II Congresso realizou-se em Matchedje, a seta castanha à direita e não no círculo ao centro da imagem, onde tiveram lugar as operações com os nossos aviões

De acordo com Joaquim Chissano, num discurso em Quelimane feito a 11 de Novembro de 2006 durante a cerimónia de homenagem aos heróis da luta de libertação que antecedeu o início do IX Congresso da Frelimo, "o II Congresso constitui a fonte de inspiração até à actualidade, sendo por isso que o considero um marco importante e ponto de reflexão para as gerações vindouras".
 



Mesa da presidência do II Congresso da Frelimo em Matchedje, Julho de 1968.


Monumento aos heróis, em Matchedje. 

Monumento aos heróis, em Matchedje, pormenor.

*3 fotografias publicada no livro Os Anos da Guerra Colonial" 


Se calhar… o “nosso” Congresso da Frelimo era afinal um posto avançado do Exército da Tanzânia.

Não demos cabo do Congresso mas pelo menos demos um aviso a quem ajudava abertamente o nosso inimigo de então.


Coisas das guerras e de espiões...



(Actualizada em 28 de Abril de 2014)


4 comentários:

  1. Passados tantos anos gostei de relembrar peripécias deste género.
    Estive no AB5/Nacala, de OUT/1968 a DEZ/70. Era Fur. Milº. OCART.
    Antes de OUT/68 o comandante do AB5 já era o TCor. Pil. Av. Figueiredo?
    Saudações amistosas.
    C. Albuquerque

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  2. Obrigado meu caro. Desconheço a resposta...
    Abraço.

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    1. OK. Obrigado também.
      Para si, as minhas melhores saudações.
      C. Albuquerque

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  3. Boa noite!
    Eu estive no AB5 Nacala de outubro de 68 a dezembro de 69 e o comandante era um Coronel chamado Joaquim José Correia, uma boa pessoa e um grande cavalheiro.
    Saudações, António Santos Gabriel

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