quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na Guerra do Ultramar - O Grandalhão e o Elegante


Os autênticos, originais e gloriosos malucos das máquinas voadoras!


Eram dois pilotos que sabíamos terem uma relação muito descontraída com os aviões. Cumpriam, claro, mas tinham dias…

E naquele dia… foram incumbidos de ir do AB6, Nova Freixo, a Nampula num T6. Os dois no mesmo avião.

Estamos em 1968.


O AB 6, em Nova Freixo, Norte de Moçambique



A pilotar no lugar da frente, por acordo entre ambos, foi o mais elegante e mais baixo. Atrás, instalou-se o mais alto e mais desengonçado.

O intercomunicador entre estes dois ilustres aviadores não funcionava. Os aviões eram normalmente operados por um só piloto de modo que não era um item muito importante.
 

O grandalhão meteu-se no lugar de trás, confortavelmente instalado, de romance na mão.
 

Á frente, muito compenetrado, o elegante descolou rumo a Nampula, numa tarde soalheira.
 

Ao grandalhão por ser alto, desengonçado, efusivo e muito falador, deram-lhe a alcunha de “o Pateta”, dos desenhos animados da Disney. De pateta mesmo não tinha absolutamente nada. Era só a figura…
 

Ao elegante chamo-lhe eu assim por ter aparecido na guerra, figura esguia, vestido de branco dos pés à cabeça e a fumar uma longa boquilha em marfim. Um autêntico Peter O'Toole.
 

Um Lawrence de todas as Arábias…
 

A primeira vez que foi a minha casa (eu era o único piloto em Vila Cabral que vivia com a família numa casa civil, a do Director do Aeroporto) vestido naqueles propósitos, um autêntico manequim, num lanche que era comum haver com todos nós virou-se para a minha mulher muito sério e perguntou-lhe, finamente:
 

- Que bolos horríveis! Foi a senhora que os fez?
 

Era só uma maneira diferente de agradecer a iguaria.
 

Voltemos à história daqueles dois magníficos personagens descolados de Nova Freixo rumo a Nampula...

Uma meia hora depois o grandalhão, incomodado naquele espaço lá atrás que era mesmo à justa para ele, teve necessidade de mudar de posição.

E o pé que estava esticado foi encolhido e a outra perna pode finalmente distender-se. Porém, porém… a manobra foi feita com alguma largueza e ele não conseguiu evitar mandar uma sapatada no pedal do leme de direcção do avião, que estremeceu um pouco.
 

Aquela súbita manobra “acordou” o elegante que se voltou para trás para tentar perceber o que se passava.

O grandalhão, com um gesto de mão aberta no ar, pediu-lhe desculpa, entre dentes, claro.

Lembrem-se que não havia interfonia e o barulho aerodinâmico do voo não permitia conversas de viva voz.

Afinal não fora nada.
 

O elegante, satisfeito com o que viu, virou-se para a frente e tudo voltou à normalidade. 

Agora muito mais descontraído.
 

Um olhava em frente, tranquilo e o outro voltou á leitura empolgante do livro.


T6 em voo

Como já devem estar a perceber, a coisa não podia acabar bem.

Aliás a coisa, coisa, encaminhava-se sub-repticiamente para a asneira, para a tragédia mesmo…

O que o elegante percebeu quando olhou para trás foi uma mão aberta a querer dizer: “Olha, o avião é meu!” Um termo que os aviadores usam para dizer que, agora, sou eu quem pilota. Irrevogável!
 

Afinal o dono daquela mão era mais antigo e mais graduado e portanto não deixava de fazer sentido. Embora o combinado não estipulasse nenhuma mudança de piloto a meio do voo.
 

E assim temos um T6 em voo em que um piloto, lá atrás, lia muito concentrado um belo romance e o outro, lá à frente,  observava, deliciado, a paisagem com as mãos gentilmente pousadas no regaço… 

Em descanso, como a Inês do soneto.
 

Simplesmente idílico...
 

Iriam a uns 3.000 pés de altitude, calmamente.
 

O primeiro, ou talvez não, Drone da Força Aérea Portuguesa…
 

Pouco a pouco o T6 em auto gestão mas deficientemente equipado para tal, achou que também podia fazer umas graças e resolveu começar a descer.
 

E a dar uma pequena voltinha.
 

E a ganhar velocidade.
 

E por aí fora.
 

Coisa que não preocupou minimamente nenhum dos dois, já que tinham acabado de entrar de folga havia breves minutos. O da frente, porque o de trás nem ainda tinha feito nada. A cultivar-se, devorando página atrás de página do empolgante livro.
 

Quando a manobra se revelou francamente fora do combinado em terra, o grandalhão olhou para o lado e viu que o avião executava uma volta larga a descer, entre dois morros, com centro numa aldeola, em zona livre de terrorismo. E pensou que o elegante estaria interessado em observar melhor aquela aldeia.

Normal… e voltou ao romance, alheado novamente.
 

Já o elegante não pensava nada. Deixa-o lá fazer o que ele quiser. Ele é que sabe. Ele é que é o verdadeiro chefe desta missão.
 

À segunda volta consecutiva, sempre entre os morros, o grandalhão incomodado tira os olhos do livro, avaliou melhor a situação e achou que aquilo talvez fosse muita velocidade a mais, muita mesmo!
 

Além disso a canopy tremia a bom tremer.

Mas…
 

Não deram a terceira volta porque finalmente alguém tinha de tomar uma atitude e a canopy, assustadíssima, achou por bem evadir-se, desertar mesmo, avião fora… Antes que fosse tarde. Um verdadeiro suicídio!
 

Saiu e nunca mais ninguém a viu! Até hoje!
 

O voo picado a grande velocidade passou a ser feito em descapotável...

E o susto levou a que ambos resolvessem fazer um duplo comando, se calhar a quatro mãos e evitaram o pior.
 

Mesmo à beirinha da tragédia!
 

A canopy era o menos…
 

Boa gente estes dois, de quem eu era e sou, amigo…



(Actualizada em 8 de Janeiro de 2016) 



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