segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Outras navegações - As fantásticas viagens de barco que fiz



Nos meus primeiros 25 anos de vida tive o gosto de 
pertencer ao mundo das grandes viagens por mar.


A Aviação Comercial não estava ao alcance de todos e as Low Cost só iriam aparecer uns 50 anos depois.

Claro que também não havia televisão, nem a preto e branco sequer, nada de telemóveis e não sei como conseguíamos viver sem Internet. E computadores nem a CIA ou o KGB tinham...

Portugal tinha desde os finais do século XIX várias empresas apetrechadas com esplêndidos navios que asseguravam toda a logística de transportes entre Macau e Lisboa.

Com todo o Império Português pelo meio.

Fascinava-me o Mar, o infinito espaço, as noites preenchidas por um céu em todo o seu esplendor, sem nenhuma poluição luminosa.

E os navios e toda a vida a bordo.

Viaja-se a 25 milhas náuticas por hora, pouco mais de 45km por hora.

Há tempo para tudo...



               O "Príncipe Perfeito" em Lisboa



No auge da vida dos fantásticos navios da nossa Marinha Mercante, nos anos 50/60 do século passado, fiz várias viagens de e para Moçambique em belíssimos navios, viagens que foram autênticos Cruzeiros mas com a vantagem de não ter de passar o tempo em lojas, casinos e Centros Comerciais flutuantes.







Era só mar...
O grande mar oceano.
E o silêncio para além do seu murmúrio cheio de cambiantes.
O mar nem sempre é feliz. O Mar nem sempre se acomoda.

Muitas vezes está de mau humor.

Mas normalmente não está assim tão rabugento. Sente-se bem a levar-nos gentilmente para outras paragens.

E a comunhão é total...




Eram viagens de sonho para o miúdo que eu era. E mais nada me fazia falta naqueles autênticos Cruzeiros.

Havia 1ª e 2ª Classe consoante as posses de cada um.

Não quero jurar mas parece-me que havia também uma 3ª Classe.

Cada uma dessas Classes tinha um único restaurante para as três refeições diárias.

Os dias eram passados a ver o mar, ler, conversar, apanhar sol.
sempre com o Mar muito presente.





Navio "Vera Cruz"           



Passava muito tempo, quando tive idade para o poder fazer, na proa do navio, mesmo no último centímetro, a ver a majestosa nave a afundar-se nas ondas e a sair delas, a uma velocidade inebriante de uns 25/30 nós... Tudo com muita espuma, um cheiro a mar enfeitiçante e uma sensação de se pertencer a tudo aquilo.

Na poupa a sensação era outra. Estava a a afastar-me do passado. Ia a caminho do desconhecido mas com muita esperança, muita confiança.

Era como que uma libertação.

Viajava para o futuro.

Literalmente.




A minha primeira viagem deve ter acontecido por volta de 1944. Tinha eu dois anos e meio e foi da terra onde nasci, Bissau, para Lisboa.

O meu Pai vivia na Guiné desde 1920 onde era funcionário administrativo, Chefe de Posto. Casou-se com a minha Mãe em 1940.

Quando foi promovido a Secretário de Circunscrição e transferido para Moçambique, por volta de 1944, gozou antes umas férias na Metrópole (como se chamava a Portugal Continental) e foi aí que me estreei na nossa Marinha Mercante

A segunda viagem aconteceu em meados de Setembro de 1945 no antigo "Moçambique", terminadas as férias do meu Pai na Metrópole, a caminho das suas novas funções agora em Moçambique






                                    Partida de Lisboa para Lourenço Marques.



A minha irmã Teresa tinha nascido em Arganil 15 dias antes...







A minha Mãe nunca mais se esqueceu das muitas vezes que teve de lavar os pertences da menina, cheios de fagulhas de carvão emanadas pela grande chaminé do navio...

Já não me lembro mas provavelmente tivemos de fazer o transbordo para um navio costeiro em Lourenço Marques ou na Beira, rumo a Quelimane, ao Rio dos bons Sinais que dá o nome a este blogue.

E depois uma longa viagem de carro até à Maganja da Costa e um ano depois, Pebane.

(À margem deste texto, poderão ver o que foram os primeiros anos desta vida da minha família em Moçambique, numa história onde lembro e homenageio o meu Pai. Para ler aqui, sem perder o rumo a estes Cruzeiros em que estamos)

E aos 10 anos de idade, 1951/52, fui, sempre rumo ao futuro, levado pelos meus Pais para um Colégio, o Instituto Portugal em Lourenço Marques. Em Pebane, na Zambézia, onde vivíamos, o meu Pai era Administrador de Circunscrição (e onde nasceu o meu irmão João Manuel). Naquela terra o ensino acabava na 4ª Classe.







A viagem para Lourenço Marques foi feita num navio costeiro. Como este. Dos muitos que passavam por Quelimane.

No fim do primeiro dos dois anos que estive naquele Colégio, voltei a Quelimane mas pelo ar, num voo da DETA, num avião Dragon Rapid.

No regresso, para o início do 2º ano, o meu Pai não me pode acompanhar.

Tinha eu 11 anos.




Este é o "Lumane"






Deixou-me em Quelimane enfiado num pequeno navio costeiro como este da foto, que sete dias depois chegaria a Lourenço Marques.

(Provavelmente sob o olhar atento do Comandante).






Fiz a viagem sozinho tendo como companheiros 6 ilustres desconhecidos, para além da tripulação.

Lembro-me de ver os pés nus do meu coabitante do beliche cheios de coisinhas pretas que não consegui identificar.

Começou mal, muito mal, este meu regresso ao caminho do futuro.

Mal o barco desceu o Rio dos Bons Sinais a caminho da perigosa foz, foi servido o almoço.

Não deve ter sido mau pois na memória só me ficou o momento que os meus companheiros de viagem, que "conhecera" poucas horas antes, foram para o bar beber um café com cheirinho, suponho eu.

Ali perdido, sem Pai nem Mãe nem irmãos nem amigos só me restava ouvir a conversa daqueles matulões com quem teria de partilhar os exíguos espaços do pequeno navio durante os próximos sete dias.

Nada que me interessa-se, para além da natural curiosidade de ouvir o que desconhecidos teriam para dizer uns aos outros.

No meio daquelas desinteressantes conversas ouvi perfeitamente um deles dizer para o companheiro de mesa:

- "Logo vou ao pacote ao puto".

Não fazia a mínima ideia do que aquilo quereria dizer.

A mínima ideia. No meu mundo aquilo não fazia sentido.

E como tal não devia ser nada recomendável.

Vai daí saí sub repticiamente do bar e procurei um local que me pareceu seguro perante aquela mais que evidente ameaça.

O problema é que isto se passou logo depois do almoço e a tripulação, em pânico, só deu comigo já noite cerrada.

Se era para me esconder...

Destapada uma lona de uma das baleeiras lá conseguiram dar comigo.

Deslindada a brincadeira de mau gosto o resto da viagem não teve história.

Voltei ao Mar no final do ano lectivo. Completado o 11º ano rumei a Quelimane. Sempre sozinho. Sempre com grandes ganas de chegar ao futuro.

Nunca mais esquecerei esse dia, até fazer a última viagem...


5 de Julho de 1953.


Fiz nesse dia 12 anos.

Não sabia mas acabava de chegar aquela que viria a considerar a minha verdadeira terra.

O meu Pai era na altura o Administrador de Quelimane.

Cheguei a casa para a festa de anos e como convidados estavam os meu vizinhos, filhos do Regente Escolar, família Alves Pereira.

O Rui, que já está no futuro, o Zé (de quem serei amigo mesmo depois de chegar o futuro) e a irmã Bela por quem me apaixonei instantaneamente, sem apelo nem agravo quando a vi nesse dia.

Mas eu estou aqui afinal para contar as minhas viagens nos nossos belos e históricos navios e como tal vou voltar ao Mar.

Devido á especificidade do trabalho dos funcionários públicos, o meu Pai tinha direito, de 6 em 6 anos a um ano de férias na Metrópole (Portugal Continental). Era a Graciosa. Assim se chamava esse direito. 

Assim, em meados dos anos 50 toda a família foi, em Lourenço Marques, metida no navio "Império", o mais recente.

As viagens tinham imensas paragens.



A minha triste figura ao frio...      















A nossa primeira paragem foi na África do Sul em Cape Town no Cabo da Boa Esperança.







    Foto tirada no Lobito com toda a família e amigos

















As paragens seguintes foram em Angola: Moçâmedes (hoje Namibe), Lobito e Luanda.




























Depois São Tomé.







Cabo Verde    


Cabo verde e a Madeira.

Chegámos no fim do ano de 1954 à Madeira.

Estava eu cheio de dores na barriga e com alguns vómitos. Chamado o Médico de bordo ao camarote este diagnosticou-me uma febre tifóide.
Receitou-me uns comprimidos e a coisa lá passou antes da chegada a Lisboa

Passámos um ano em Arganil e o inevitável regresso teve lugar navegando pelas mesmas paragens.

Voltámos a Quelimane em mais um cruzeiro.

Estas viagens faziam-se de barco porque a bagagem para um ano e tanta família eram incompatíveis com as viagens de avião, acho eu hoje.

Neste regresso a casa, Quelimane, viajámos com a Companhia de Vasco Santana que ia dar espectáculos a Luanda.

Ele, outras actrizes e actores e muitas coristas

Algures depois de Cabo Verde, sempre rumo a Sul, alguém ouviu, provavelmente um ocupante da parte superior de um beliche, vozes que não vinham do além mas que atravessavam a antepara do camarote contíguo por uma rede.

Felizmente não eram vozes do além... Eram vozes e imagens a cores e ao vivo das coristas do Vasco Santana nas suas higienes e cuidados pessoais antes de se meterem nas camas.

Não faço a mínima ideia de como aquilo me chegou aos ouvidos. Com 13 anos era natural que os mais velhos não me informassem mas o certo é que lá me meti também na bicha, num desconhecido camarote, para ver o inesperado espectáculo das corista do Vasco Santana.

Só me lembro que a mim, por sorte ou azar, me calhou uma mãe e uma filha falantes de inglês.

As criaturas lá evoluíam sob o olhar guloso de dúzias de mirones

Cruzeiro Hard Core...

Chegado a casa, em Quelimane, tempos depois e 14 anos já feitos, volto a sentir os mesmos sintomas, mas mais agravados, que sentira na ida ao chegar à Madeira.

Consulta marcada no excelente médico que havia em Quelimane (faça o favor de me desculpar por não me lembrar do seu nome) a minha Mãe informa o Sr. Dr. que eu tinha febre tifóide.

Analisado o problema, fui operado de urgência ao apêndice.

Assim se provou que o medicamento para a febre tifóide da altura também atenuava a inflamação do apêndice...



E só voltei a navegar uns doze anos depois, em Fevereiro de 1967 quando a Força Aérea me "pagou um cruzeiro" pelos mares do sul.

De Lisboa a Lourenço Marques no "Príncipe Perfeito".







Um autêntico Cruzeiro, onde conheci o Imediato que anos depois viria a ser meu colega na TAP

Tinha-me oferecido como voluntário para combater o terrorismo, na "minha" terra, na Guerra do Ultramar.




A rematar esta história de gloriosos cruzeiros em dois oceanos. em dois continentes, sei que o meu próximo passeio marítimo não se fará naqueles enormes barcos com 3000 tripulantes e largos milhares de turistas.


     Como este






A empresa responsável pelos cruzeiros do Carnival Vista é a Carnival

O navio tem capacidade para 3954 passageiros




Tenho quase a certeza...  




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