A minha Força Aérea - O atribulado início do meu curso em T-33 na Ota

Um T-33 na Base Aérea da Ota
O nosso começo como alunos da EICPAC,
na Ota, em 1964, não foi brilhante...


EICPAC, a Esquadra de Instrução Complementar de Pilotos de Aviação de Caça.



Logo da Esquadra de Instrução Complementar
de Pilotos de Aviação de Caça. "Os Caracóis"



Num belo dia de 1964 os quatro alunos do P1/62 que, a convite da Força Aérea, se tinham oferecido para os jactos, saem de Sintra rumo a Vila Franca de Xira onde chegam de comboio.

Á espera destes quatro brilhantes aspirantes a Alunos Pilotos da Aviação de Caça, em vez de uma qualquer viatura normal que nos levasse para a Base, fomos presenteados com o camião das compras para a messe.

E foi lá atrás no meio de batatas, cebolas, peixe, carne e laranjas, sentados em cima de tudo isto, cobertos por uma capota de lona verde, que entrámos triunfalmente na Ota. 


As armas da Base Aérea da Ota


A condizer com esta finura de trato esperava-nos um quarto para os 4 em que o espaço entre as camas não dava para andar. Tínhamos que passar por cima das camas.


A alimentação estava também de acordo. Numa determinada altura comemos 3 refeições seguidas de feijoada. A dieta indicada para pegadores de touros e não para se voar aviões pressurizados.


Simultaneamente a nossa saúde, inexplicavelmente, deu para nos sentirmos mal, com palpitações e pulsações elevadas. Uma visita ao médico, duas visitas, e a coisa não melhorava.


Nada disto, para nós, era compatível com o voo, que já tinha começado.


O ambiente tornou-se explosivo e os 4 aviadores deram por mal empregue o dia em que se ofereceram para os jactos, com o consequente acréscimo de 3 anos de tropa.


E foi um passo até á decisão unânime:


- Nós queremos desistir do curso!

- Não queremos voar mais o T-33!



Informado o Comandante da Esquadra, Tenente Vasquez, a quem já nos ligava uma certa amizade pelo bom trato que nos dava e após várias diligências dos instrutores aos 4 desiludidos pilotos ainda não brevetados (estávamos a começar a ser os VCCs…) chegou-se a um impasse.


Solução?


Coronel Diogo Neto, comandante da Base.


Na manhã seguinte os 4 irredutíveis aviadores foram civilizadamente levados ao gabinete do Comandante da Unidade.


Assim que entrei percebi imediatamente onde é que realmente estava.


 
Atrás da grande secretária, de pé, as mãos postas á frente do corpo, alinhados, as medalhas ao peito, estavam o nosso Comandante de Esquadra, o Médico da Unidade, o 2º Comandante da Base e o Comandante, Coronel Diogo Neto, que sabíamos ter sido promovido a Tenente Coronel e a Coronel por distinção por feitos em combate em Angolano 

Por detrás destas egrégias figuras, as bandeiras militares e da República Portuguesa impecavelmente colocadas. E os austeros retratos de Salazar e Américo Tomás.
 

A lembrar-nos a delicadeza do momento.
 

Os nossos chefes olhavam-nos com alguma gravidade, pareceu-me. Porém sem hostilidade.

Era só um assunto muito sério.

Pela primeira vez nas nossas vidas estávamos perante a nossa maioridade, em pleno, entregues a nós próprios e aos princípios que a família e a escola nos tinham ensinado.




Era mesmo um assunto muito sério...





E foi a partir desse dia que aprendi a ser Maior, mais responsável.
Foi a partir daí que a Força Aérea passou a fazer parte de mim...



Foi também nesse dia que "conheci" o Coronel Diogo Neto.
Feitas as apresentações e sabido o que nos levava aí, o Comandante da Unidade explicou-nos o que éramos, onde estavamos e o que de nós era esperado.
Com civilidade, sem ameaças mas com a autoridade que legitimamente representava.
Finalmente fez-nos ver que, como militares, não havia espaço para desistências. Ou chumbávamos no curso, ou não chumbávamos.
Qualquer outra alternativa deixaria as nossas chefias sem alternativa.

Nesta imagem, o Coronel Diogo Neto, em Angola,
              a ser condecorado com a Cruz de Guerra.


E todos nós trazíamos uma boa classificação do T6 feito em Salamanca, na Base Aérea de Matacán.

Não houve pressão alguma. Esperava-se só uma resposta da nossa parte mas também um sinal de que aquilo de que legitimamente nos queixávamos seria pelo menos avaliado



T-33



Postas as coisas neste pé, decidimos anular o pedido de renúncia ao curso. Sabíamos que havia um irredutível entre nós mas decidiu obedecer temporariamente às regras.

Reconhecidas também as nossas necessidades, fomos finalmente realojados em dois quartos contíguos, e com dieta melhorada.

Quem “desistiu”, mesmo, "sentiu-se mal" no voo que fez a seguir e foi dispensado, voltando a Sintra, sem quaisquer problemas.


Os outros 3 acharam que “desistir” ou até chumbar seria uma derrota pessoal.


Todos os nossos Instrutores nos receberam de novo de braços abertos e fomos presenteados com “voos para meninas” só para descontrair.

Duvido que outra Força Aérea ou ramo militar tivesse trato mais civilizado para com pilotos rebeldes.


O meu instrutor era o Tenente António Quintanilha. Mais tarde o gémeo Luís, também.


A ambos devo o muito que aprendi.


De trato difícil, mas ensinaram-me muito.


O nosso local de trabalho

Acabámos o curso, bem classificados, respeitados pelas nossas atitudes e pelo modo como, em conjunto, resolvemos os nossos problemas.


Eu, o Ary e o Leite da Silva

O que desistiu "acabou" num looping demasiado baixo em Angola, com outro VCC. Num T6.


Um abraço para vocês dois, amigos. Lá onde estiverem.


Algumas imagens pertencem a ilustres desconhecidos a quem peço desculpa por não os nomear.







 (Actualizada em 11 de Novembro de 2021)













Na Guerra do Ultramar - Olivença, Moçambique. 1968 (Lupilichi, nome actual)


Podia ter corrido mal, muito mal.

Mas houve 5 sobreviventes!




Do-27. Esta história passa-se num avião como este





Para o final da minha comissão em Moçambique (nos anos de 1967 e 1968) e durante 3 meses, fui incumbido da missão de obter imagens sensíveis, por fotografia aérea, com equipamento específico, de modo a um planeamento mais eficaz e cirurgico de determinadas operações da Força Aérea.




Voava um pequeno avião mono motor, um DO-27 matrícula 3497, auxiliado por um cabo especialista em fotografia aérea


Tinha como equipamento uma máquina fotográfica para fotografia vertical fixada ao avião, uma outra máquina fotográfica manual e uma guia de marcha que na rubrica "destino" tinha isto escrito:


Confidencial”. 


 

E o Norte de Moçambique era todo nosso… do Lago Niassa ao Oceano Índico, do paralelo de Nampula/Nacala ao Rio Rovuma!

Uma bela e vasta área para destinos confidenciais, num pequeno monomotor...




A minha zona de actuação: todo o Norte de Moçambique...


E as missões eram tão confidenciais que se o único motor daquele pequeno avião DO-27 falhasse ninguém, evidentemente, sabia onde me ir procurar…

Por causa destas minhas novas e secretas funções eu tinha que executar os voos sem o escrutínio de qualquer outra Unidade militar que não fosse o Comando Operacional da Força Aérea em Nampula. Como os Comandantes das Unidades não tinham nem podiam ter conhecimento das minhas movimentações, eu aterrava e descolava de qualquer Unidade sem que ninguém percebesse o que me levava ali.

Nas Bases operacionais nunca tive problemas. Mas o Comandante de Nacala não achava nada correcto este meu procedimento e mandou-me prender, sim, prender, por 3 vezes. 

Porque eu aterrava e descolava de Nacala sem dar cavaco a ninguém, obedecendo evidentemente às ordens superiores que tinha.
 

Na 3ª e última vez as ordens eram para voltar a Nampula o mais rápido possível depois de entregar o DO, fosse lá como fosse. Eu que me desenrascasse.
 

Após a aterragem e com o avião ainda a caminho do Hangar ouvi um avião Nord Atlas a pedir rolagem para descolar para Nampula. 

Pela rádio pedi boleia ao Comandante, estacionei o DO na Placa e saí a correr de um avião para o outro.

Estive em Nacala 30 metros de corrida…

O Comandante da Base se tivesse aviões de caça tinha-nos abatido. E lá me mandou prender pela terceira e última vez… 

Estas participações chegavam ao Estado-maior e eram enviadas para o cesto do lixo, sem nenhum comentário ou resposta ao autor dos autos...

Mas as coisas não eram sempre assim tão divertidas.


Num dia de Julho de 1968, como resultado de um RVIS (Reconhecimento visual feito num avião com armamento para utilizar caso o piloto achasse pertinente) um piloto do AB6, Nova Freixo, a voar T6, descobriu junto à fronteiro Norte no rio Rovuma não uma simples palhota mas aquilo que lhe pareceu ser um quartel inteiro!


No cumprimento da sua missão, bombardeia o objectivo. Mas sofre forte reacção antiaérea. Sem consequências graves.


Dias depois na ONU, naquela grande sala que 3 anos depois visitei armado em turista, “aqui discute-se a independência das Portuguese Colonies" disse a guia ao grupo, a Tanzânia queixa-se de ter sido atacada por Portugal na margem do rio Rovuma, a Nor-nordeste de Olivença, Província do Niassa.

E quando se prepara um linchamento ao piloto em causa, aparece um relatório da Pide sobre o sucedido.


Aquilo, o tal aquartelamento, nas margens do rio Rovuma, tinha sido palco, naquele mesmo dia, do II Congresso da Frelimo, com a presença do Eduardo Mondlane e com os jornalistas suecos levados a julgarem que estavam no interior de Moçambique!


Facto deveras extraordinário!




Local do ataque


Na fotografia mais abaixo poderão ver como o desenho da fronteira Norte de Moçambique naquele local não coincide exactamente com o serpentear pronunciado do rio Rovuma. O tal "quartel" ficava a Sul do rio, aparentemente já em Moçambique. Mas a fronteira é ainda um pouco mais para Sul...

O Estado-maior da nossa Força Aérea organiza então uma grande operação para a eliminação de tão grandioso objectivo.


Comanda a operação o malogrado Capitão Mantovani. Um homem afável, respeitado por todos pelas suas qualidades de carácter e humanas. (Este muito estimado piloto veio a ser abatido na Guiné, na comissão seguinte, por um míssil russo Strela.)


E era vê-los a entrar (4 ou 6 T-6) ao passe de tiro contra o "quartel" e as antiaéreas a contra atacar.


Uma guerra como deve ser…

De que eu não fiz parte porque andava naquelas secretas funções de “espionagem”.

Felizmente não houve baixas.


Agora vamos lá a ver como aquilo ficou… pensamento de um qualquer iluminado.


Sou chamado à ZAC (Zona do Ar Condicionado, vulgo Estado-maior) em Nampula e fico encarregue de ir lá fotografar tudo. Eles queriam ver tudo. Nunca percebi porquê. Mas a minha função não era fazer perguntas mas sim executar…


As fotografias com a câmara vertical montada no DO, tinham que ser feitas a 3000 pés de altitude e a 90kts de velocidade, fora-me ensinado no início.


Dada a complexidade da situação criada, a queixa da ONU, o Congresso da Frelimo, a dimensão das instalações, fui acompanhado do mais alto especialista em fotografia aérea na altura. Um Tenente que tinha sido abatido num Dacota (DC-3) pouco tempo antes na zona de Mueda.


E lá vamos os três, o tenente, o cabo e eu, guia de marcha com destino "Confidencial", no DO-27, a caminho de Vila Cabral, com destino a Olivença, onde eu nunca tinha ido.


Naquele quartel fomos recebidos pelo Alferes Oliveira, Comandante do destacamento e pelo médico, a quem contámos ao que íamos.



O médico tinha uma história interessante: estava um belo dia a fazer um estágio de Medicina em Nova Iorque, ou por ali, quando foi chamado para a Guerra.


E em 48 horas foi recambiado de Times Square para Olivença!


Apesar de saber que as duas últimas operações sobre aquele nosso objectivo tinham sido presenteadas com forte reacção antiaérea, o comandante de Olivença pediu-me para o levar no voo que iriamos fazer ao final do dia seguinte. Por mais que lhe explicasse que iria correr riscos desnecessários, não o consegui demover.


O pior foi depois o médico que também quis ir...


-Ó senhor doutor! 5 pessoas num DO mais o peso da máquina vertical e a falta de espaço, não dá… De todo!


Abreviando... no dia seguinte, 4 de Setembro de 1968, depois de um belo jantar na companhia daqueles simpáticos desterrados em Olivença, uma noite naturalmente mal dormida e um grande mata-bicho (pequeno almoço à moçambicana) lá descolo com a minha tripulação mais os dois inconscientes e "pegajosos observadores”…


A pista era grande embora parecesse mais um trilho do Dakar, ao longo de árvores altas.


Não conhecia o local mas pelo briefing que me foi feito em Nampula, não devia ser difícil.


Rumo ligeiramente a Nordeste à procura do grande rio que faz fronteira com a Tanzânia, num local onde ele é bastante largo e com algumas curvas.



Zona do objectivo, a Norte da Fronteira



E de repente!


-É ali! Só pode ser ali.


Reconheci imediatamente o meu objectivo, ainda a cinco minutos de voo.

E lá estão os aquartelamentos, que avistei de bem longe. Fiz uma volta a 90º para a direita para Este, a Sul do rio, afastado umas 2 a 3 milhas e segui em frente.


Para despistar. Achava eu.


 

Deve ter sido nesse momento que eles foram para as antiaéreas…


Umas 5 milhas depois fiz uma volta á esquerda, de 180º. Voltei assim para trás. Exactamente em direcção ao objectivo. A 3000 pés de altitude e a 90 kts, seguindo exactamente o procedimento recomendado.
 

Apontado ao pôr-do-sol que olhava para mim e abanava a cabeça como quem critica uma traquinice a uma criança:


- Gabriel, Gabriel…

 

O Tenente ao meu lado seguia atentamente a manobra para que fossem rigorosamente cumpridos os necessários parâmetros técnicos de funcionamento da máquina fotográfica fixada ao avião de modo a que se captassem com precisão as fiadas de mapeamento fotográfico daquele tão importante objectivo.
 

E eu tinha que apresentar aquelas provas do cumprimento do objectivo fixado.
 

Nessa altura eu era dos poucos pilotos que voava de capacete e cintos de peito no DO-27. Resquícios da disciplina da Esquadra 51 dos F-86…
 

No momento exacto e com a anuência do Tenente especializado ao meu lado, fiz sinal ao meu fiel companheiro cabo para accionar a máquina fotográfica vertical e começámos então a colher as imagens.
 

À medida que o "quartel" lá em baixo ia desaparecendo debaixo do nariz do avião, o silêncio entre nós foi-se tornando bastante pesado.

 Todos queríamos continuar a ouvir aquele silêncio por mais um minuto ou dois, pelo menos.


Mas…

 

Trás!

 

O tenente da fotografia, que ia ao meu lado, desata aos gritos:

 

-Já comemos! Já comemos! Já comemos!

 

Não esqueçam que este camarada tinha sido abatido pouco tempo antes num Dacota em Mueda exactamente numa sessão de fotografia aérea.
 

Eu bem ouvi o que pouco depois me pareceu ser o embate de um projéctil com um muito ligeiro estremecimento do avião, mas estava concentrado na manobra e tentei acalmá-lo, mantendo o avião em linha de voo, o mais estável possível e perguntei-lhe:

 

-Já comemos o quê?!
 


Nesse mesmo instante comecei a ouvir, apesar do uso do capacete e dos 3000 pés de altitude sobre o terreno, um forte “bang” contínuo e ritmado.

 

Bang! Bang! Bang! Bang!
 

-Pica! Pica! Pica! Gritava o tenente.

 

Meto a manete do motor a fundo, volto à esquerda para Sul, desço só ligeiramente para aumentar a velocidade e inicio então manobras de diversão com voltas à esquerda e á direita.
 

Pareceu-me que se picasse o avião, não alteraria grandemente a minha qualidade de alvo privilegiado.
 

4 ou 5 apertados “S”s depois, os “bang!” deixaram finalmente de se ouvir…
 


A tensão a bordo era enooorme...

 

Como estariam os meus “destemidos” companheiros lá atrás? Não tinha ouvido gritos, não deveria haver feridos...
 

Quando me volto pela direita vejo o pobre Cabo Especialista completamente manietado pelo médico, fortemente abraçado a ele, refugiado entre os seus braços, ambos de pé e sem fala, o cabo a tentar equilibrar-se, agarrado ao que podia.

O Alferes Oliveira parecia tranquilo, sentado, à espera que o médico e o cabo se desenvencilhassem mutuamente…
 

Depois de tudo acalmar pedi ao cabo que levantasse a lona do fundo do avião e no meio do escuro da fuselagem conseguimos ver alguns buracos lá no fundo da fuselagem, junto à cauda do avião, por onde entrava a luz exterior…
 

E lá fomos para Olivença, dever cumprido, sem feridos, a não ser a carcaça do nosso DO um tanto ou quanto esburacada.


O Alferes Oliveira mostra alguns buracos na fuselagem do DO-27













Já no chão, encontrámos um projéctil de grosso calibre firmemente encastrado, exactamente no topo da asa direita.

Os outros, os dos buracos, perdemo-los…















Reabastecimento antes da partida de Olivença




Nunca mais vi ninguém desta “equipa” a não ser o meu camarada cabo especialista que me aturou até ao fim desta minha tarefa com o DO da fotografia. Felizmente foram só 3 meses ao todo. Mas que me pareceram uma eternidade.


Mas trinta anos depois...


No Clube Naval de Olhão, numa mesa com alguns amigos e outros ilustres desconhecidos da Cidade da Restauração que me acolhia nessa altura, um dos que não conhecia olha para mim e pergunta-me:


-Ouça lá, nós não nos conhecemos?

Ideia nenhuma…


Depois de alguns momentos as nossas caras eram-nos de algum modo familiares. É daqui, é dali, de onde será?

-Você esteve aqui, ali?


E de repente caímos nos braços um do outro!

O Alferes Oliveira, Comandante do destacamento de Olivença, estava ali! Á minha frente no Clube Naval de Olhão! Distinto Médico Veterinário em Faro.

Trinta anos depois!

Foi simplesmente emocionante…

Levei anos a lamentar-me por não ter nenhum documento do sucedido. Ainda por cima com tanta máquina fotográfica no avião.

O Alferes Oliveira tinha tirado uma série de fotografias depois da aterragem, a apontar para os buracos na fuselagem, agora já sorridente...

Fotografias que me deu e reproduzo aqui (com algum Photoshop...) e que hoje fazem parte das minhas fotos de exposição permanente, na minha secretária.

Hoje em dia Olivença chama-se Lupilichi.

É uma vila na província do Niassa a Noroeste de Moçambique. 

Fica aproximadamente a 25 km a sul da Tanzânia.

Nesta área existem reservas de ouro que em 1955 se pensa que 13 toneladas de depósitos de aluvião de pepitas foram ilegalmente exploradas pelo Zaire, Tanzânia e Quénia.



______________________________________________


Já depois de ter publicado esta história li no livro " Os Anos da Guerra Colonial" dos Coronéis Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, pág 459/460, que o II Congresso da Frelimo se realizou realmente, entre os dias 20 e 25 de Julho de 1968, mas…

Em Matchedje, a cerca de 50km a Este do local dos acontecimentos bélicos desta história.



O II Congresso realizou-se em Matchedje, a seta castanha à direita
e não no círculo ao centro da imagem, onde
tiveram lugar as operações com os nossos aviões



De acordo com Joaquim Chissano, num discurso em Quelimane feito a 11 de Novembro de 2006 durante a cerimónia de homenagem aos heróis da luta de libertação que antecedeu o início do IX Congresso da Frelimo, "o II Congresso constitui a fonte de inspiração até à actualidade, sendo por isso que o considero um marco importante e ponto de reflexão para as gerações vindouras".
 





Mesa da presidência do II Congresso da Frelimo em Matchedje, Julho de 1968.





Monumento aos heróis, em Matchedje. 



Monumento aos heróis, em Matchedje, pormenor.

*3 fotografias publicada no livro Os Anos da Guerra Colonial" 




Se calhar… o “nosso” Congresso da Frelimo era afinal um posto avançado do Exército da Tanzânia.

Não demos cabo do Congresso mas pelo menos demos um aviso a quem ajudava abertamente o nosso inimigo de então.



Coisas das guerras e de espiões...





(Actualizada em 17 de Junho de 2020)










Um vídeo - Natalia Juskiewicz


Um Violino no Fado


 Natalia Juskiewicz é uma violinista polaca que reside em Portugal há vários anos.






Titular de um diploma superior em estudos clássicos de violino pela Academia de Poznan, uma das escolas mais conceituadas do mundo, muito cedo iniciou a sua carreira musical como intérprete solista ou integrando orquestras e formações polacas de prestígio internacional.

Durante umas férias, apaixonou-se por Portugal e decidiu ficar. Adaptou-se facilmente à língua e à cultura portuguesas e foi desenvolvendo, a solo ou fazendo parte de inúmeras orquestras e grupos musicais, um novo e variado percurso profissional que a levou a percorrer inúmeras vezes o país onde hoje se sente em casa.






Durante o ano de 2010, Natalia Juskiewicz decidiu concretizar um pessoalíssimo projecto artístico: a gravação de um disco de Fado clássico onde, pela primeira vez, a tradicional voz é substituída pelo seu violino.


Da pág oficial da Natalia Juskiewicz - http://nataliajuskiewicz.com/index.html


Vídeo com o fado de Amália Rodrigues “Com Que Voz”:
 








Pedaços de Vida- Memória Colonial


Em Homenagem ao meu Pai,
que soube ser um Ser Humano no meio do Portugal Colonial.

Em 1945 o meu Pai foi colocado em Moçambique, como Secretário de Circunscrição. Um posto abaixo da autoridade máxima regional colonial: o Administrador era a autoridade suprema em qualquer localidade importante. Era autoridade civil e policial. O Administrador só estava abaixo do Governador do Distrito, que vivia nas capitais dos Distritos.

A primeira terra onde fomos parar em Moçambique tinha, tem ainda, um nome bastante original:

Maganja da Costa.

Uma terra pequena do Distrito da Zambézia, rica no cultivo do arroz.
A Zambézia, capital Quelimane (banhada pelo Rio dos Bons Sinais) era considerada o celeiro de Portugal. Arroz, cana-de-açúcar, algodão, copra (o maior palmar do Mundo) chá, com as grandes caixas em madeira a dizerem “Made in England” ao embarcarem nos navios de carga em Quelimane. Eu vi...

Estrada para a praia da Zalala, Quelimane, hoje (alcatroada...) no meio do maior palmar do Mundo.

Tínhamos embarcado em Lisboa em Setembro no navio Moçambique, A minha irmã mais nova com 15 dias de idade. Eu com 4 anos. A minha irmã Lourdes tinha 12 anos.

Lembro-me perfeitamente de haver muitas fagulhas já apagadas de carvão que saiam pela chaminé daquele grande navio.

Foi no "Moçambique" que viajámos para o Índico

A casa do Secretário (o meu Pai) tinha, como todas as casas em África naqueles tempos, um grande quintal. Mais ou menos do tamanho da Praça de Londres em Lisboa…

E por simples observação cheguei à conclusão que tudo quanto havia neste mundo ou vinha do chão ou vivia em cima dele. Logo, o chão é bom! Vai daí, qualquer ferida que eu tivesse era curada esfregando a parte ensanguentada no chão, ao pé dos patos e galinhas, cães e gatos, porcos e perus que por ali viviam e se aliviavam… Sempre fui muito saudável, graças a esta mesinha caseira.
E tenho pena dos putos que não podem por o pé no chão porque é uma porcaria…

Casa do Administrador, com a sua típica varanda, anos 30.

Com 5 anos feitos, era evidente a minha vontade de saber ler as revistas de Banda Desenhada que o meu Pai me dava e que a Lourdes me lia na varanda, como o “Diabrete” ou o “Cavaleiro Andante”.



A revista Diabrete deliciou os mais jovens portugueses no período da 2ª Guerra Mundial, tendo o seu início em 4 de Janeiro de 1941, terminando a sua publicação 887 números depois em 29 de Dezembro de 1951. Começou por ser semanal (até ao #261), terminando como publicação bissemanal. Além da banda desenhada, o Diabrete publicou contos, organizou concursos e espectáculos, além de várias separatas de construções.

Por: José Vitor Silva
Como tal e depois de o meu Pai pedir ao Professor Primário (porque ainda não tinha idade para frequentar a escola) lá fui para as aulas, o mais novo de todos, com um daqueles mini garrafões empalhados de vinho da Madeira cheio de água.

Só assistia. Nem estava matriculado. O único aluno de uma espécie de jardim infantil que nem existia.

E assim aprendi mesmo a ler… com 5 anos.

Esqueci-me de dizer que o único branco dentro da sala de aulas era eu. O Professor que me ensinou a ler era um Moçambicano negro. Um grande Professor que nunca esqueci!

Mas a minha infância não é a razão desta história sobre o Colonialismo.

A descolonização era inevitável e deveria ter sido feita muito mais cedo. Mas na altura em que foi feita, com muitos exemplos como os que eu presenciei, era já difícil não ser em termos incondicionais.

É claro que nem todos os brancos se portaram de modo a deverem ser julgados num tribunal internacional dos Direitos do Homem. Se fosse hoje, eram certamente.

A família Cavaleiro foi parar à vila da Maganja da Costa em 1945. O meu Pai já vinha de 20 e tal anos de Guiné (onde eu nasci) e já era funcionário Administrativo: Chefe de posto.
Em 1920, com 18 anos, o meu Pai, por não querer passar do 9º ano, foi mandado para a Guiné para aprender a viver… o meu Avô era Médico do Exército, Major.

Na Guiné o meu Pai perfilhou uma filha de uma relação com uma mulher nativa da Ponte do Corubal.
 
A minha irmã Lourdes veio com ele já depois de casado com a minha Mãe. E foi ela quem ajudou a criar os outros 3 filhos que os meus pais tiveram. Éramos 4 irmãos. Sempre vivemos juntos até a vida nos separar.

Na Guiné o meu Pai vivia no mato, em muito pequenas povoações por razões que se prendiam com o cargo que ocupava. E desde sempre soube viver em harmonia com a população local, sem ter problemas raciais ou de qualquer outro tipo.

Mas quando chegou à Maganja da Costa as coisas começaram a mudar. 1945.

Por exemplo, eu lembro-me de ver, no meio da vila e ao pé da Escola, uma espécie de carril de caminho-de-ferro, com uns 4 ou 5 metros de comprido que servia para expiação de penas disciplinares dos naturais da terra. Uma pena ordenada pelo Administrador, chefe do meu Pai.

Maganja da Costa, anos 30.

De manhã, dois homens que chegavam da prisão acorrentados um ao outro agarravam no carril, um em cada ponta, assentavam-no cada um num dos ombros e lá se “entretinham” o resto do dia, de pé, carril num ombro ou no outro, até ao entardecer. Depois recolhiam novamente acorrentados à prisão para passar a noite. E esta cena repetia-se até ao fim da pena.
Quando alguma individualidade importante ia visitar a terra, o carril era enterrado superficialmente de modo a não ferir susceptibilidades…

A Maganja da Costa era e ainda deve ser, uma terra fértil para o cultivo do arroz. Essas artes requerem muita mão-de-obra na altura da sementeira mas especialmente durante a colheita.
O Administrador encarregava-se pessoalmente de conseguir a mão-de-obra necessária. É claro que o “voluntariado”, a maior parte das vezes, era conseguido com longas filas de gente amarrada uns aos outros, em longas filas indianas, a caminho do trabalho.

E o Administrador, no fim da colheita, no 1º ano que lá passámos, foi presenteado com um automóvel novo, que toda a gente da terra viu (e era mesmo para ser visto) porque vinha em cima de um camião e porque foi devolvido por ter uma amolgadela. Venha outro!

Esqueci-me de dizer que a mão-de-obra também compreendia mulheres grávidas que passavam o dia a apanhar o arroz, curvadas, dentro de água.



Não me lembro de ouvir comentários, tinha 4, 5 anos, mas acho que o meu Pai devia sentir-se mal naquele ambiente.
Até que um dia…

No gabinete que compartilhava com o Administrador, viu chegar um embrulho dirigido ao chefe. Outra oferta dum arrozeiro. Já depois do automóvel.

Era um cavalo-marinho.

Uma espécie de chicote feito com pele de hipopótamo, outrora usado como castigo. Consiste basicamente numa espécie de punho em madeira, forrado a pele e que na ponta tem três tiras de pele, cada uma com uma bola rija na ponta.

Há-os muito bonitos, como este era. Muito trabalhados, com altos e baixos-relevos feitos à mão. Mas quando batem na carne nua, com força, é muito pior que um chicote!

Pois o senhor Administrador desembrulhou deliciado o belíssimo cavalo-marinho e disse entusiasmado:
- Vou já experimentar!

E saiu porta fora.
Com o meu Pai atrás dele, pronto para o pior.

O senhor Administrador deu a volta ao edifício, na grande varanda colonial, coberta.

E nas traseiras encontrou um velho sentado à sombra.
Um alvo óptimo para a experiência…

Levantou o braço e à 2ª ou 3ª investida tinha o meu Pai a esmurrar-lhe a cara.
Ali à frente dos negros todos…

8 anos depois do devido, o meu Pai conseguiu ser promovido a Administrador, cargo que foi exercendo interinamente durante uns anos, mas sem a promoção efectiva nem o ordenado correspondente.

Mas no dia em que foi transferido daquela terra (ocorrência muito frequente e normal na sua profissão) tivemos uma grande surpresa.

O camião carregado com os pertences pessoais da família (não havia mobília porque todas as casas do Estado estavam apetrechadas com tudo) já pronto a partir, com a gaiola do gato no cimo de tudo, o meu Betinho, de seu nome… não conseguiu arrancar dali.

Uma multidão de gente agradecida apareceu de repente, do nada, de todos os lados, com muitas ofertas (galinhas, ovos, etc) a despedir-se daquela família que nunca mais se esqueceu deste momento muito pouco habitual.

E foi assim que saímos da Maganja da Costa.

Em grande! Mas com muita emoção.


Ainda não consegui lá voltar.

Tinha 5 anos mas lembro-me de tudo isto, quase 70 anos depois...



(Actualizada em 18 de Abril de 2014)