Linha Aérea e outros voos - Descolagem de Londres na PIA, no ex-B 747 da TAP


Deus é Grande. Neste caso chamemos-lhe… Alá.

Em 1976, um ano após a descolonização e a Ponte Aérea, a frota da TAP continuava a ter 4 Boeings B747. Ultrapassavam em muito a nossa capacidade de os utilizar rentavelmente. Tanto avião para tão poucos passageiros… Não conseguíamos tráfego para tantos lugares oferecidos. A solução passou pela venda de dois aviões.
 

E foi assim que de Maio desse ano e até ao fim de Agosto, várias tripulações TAP deram assistência técnica em voo aos Pilotos e Mecânicos de Voo da Pakistan International Airlines, PIA, os felizardos que nos compraram os 2 mais modernos aviões da nossa frota de B 747. Eu fiz o último de todos esses voos e com uma história rocambolesca, que conto noutra história aqui.



É claro que os Pilotos paquistaneses a voar esses aviões eram os mais antigos e mais experientes. 

Mas nem sempre humildes, no sentido de aceitarem alguns simples conselhos que os experientes Pilotos e Mecânicos de Voo da nossa companhia lhes davam. Com aquele espírito que nos caracteriza de tudo dar quando se trata de transmitir conhecimento.
 

Hoje a classe de Mecânicos de Voo, depois chamados Técnicos de voo ou simplesmente TVs, desapareceu com a informatização dos cockpits.
 

Grandes senhores, estes profissionais com quem eu privei nessa altura!
 

Os paquistaneses tinham feito o curso na Boeing e agora, a voar já largados e com passageiros pagantes, precisavam da nossa experiência para tornar mais eficiente e segura a complicada tarefa de executar os muitos procedimento que o avião exigia. Especialmente quando uma revolucionária tecnologia tinha sido implementada há pouco na Aviação Comercial. De seu nome a “Nova Tecnologia”.
 

Consistia na execução de todo e qualquer procedimento, normal ou de emergência, seguindo um checklist que era lido pelo Piloto que de momento não estava aos comandos e executado por ambos.
 

Contrariamente ao que antes se fazia e que levava a alguns acidentes: todos os procedimentos tinham de ser executados de cor, em voz alta, volta e meia aos berros, no meio do stress de uma emergência, com alguns itens vitais a ficarem, às vezes, para trás por esquecimento no meio de todo aquele nervosismo…
 

Era muita novidade junta e o nosso papel ali era orientá-los, ajudá-los.
 

E foi assim que numa bela manhã de Maio de 1976, logo num dos primeiros voos, ainda na Placa do Aeroporto de Londres, o nosso Comandante TAP quis explicar ao camarada paquistanês como devia utilizar correctamente o novo sistema electrónico de navegação que equipava aqueles magníficos aviões: o INS, Inertial Navigation System. Equipamento que eles nunca tinham utilizado.
 

O INS funcionava à base de acelerómetros. Na partida de um Aeroporto só tínhamos de lhe colocar as coordenadas do sítio exacto onde estávamos para ele conseguir navegar sem mais ajudas electrónicas externas. E tinha uma grande precisão. Ao fim de dez horas de voo o erro de posição era mínimo. Um equipamento que dispensava qualquer ajuda ou contacto via rádio ou por satélite. 100% autónomo, o que era uma enorme mais-valia.
 

Muito basicamente, para que tudo corresse bem, o que havia a fazer era introduzir no painel do instrumento, além das coordenadas da posição actual, as primeiras 9 coordenadas dos pontos que se iriam sobrevoar e que constavam do plano de voo entregue e aceite pelas autoridades aeroportuárias. 

Nada mais simples e óbvio. O piloto automático encarregava-se de nos levar ao longo desses pontos introduzidos e assim sucessivamente ao longo do voo, por mais longo que fosse.
 

O que o nosso jovem Comandante TAP tentou explicar ao senhor Comandante paquistanês foi que numa descolagem, em que se sobrevoam várias posições espaçadas poucas milhas umas das outras, em curtos minutos, não era boa política colocar no INS todas essas primeiras posições porque rapidamente se esgotava a capacidade do aparelho: tendo só 9 posições de armazenamento de coordenadas, obrigava a estar permanentemente a “abastecê-lo” de novos pontos de modo a permitir que o piloto automático prosseguisse o seu voo ao longo do sinuoso caminho que é, normalmente, preciso percorrer depois de uma descolagem.
 

E com o muito trabalho que se tem, em voo, na saída de um grande Aeroporto, o correcto é colocar o primeiro ponto, no INS, numa posição do mapa já um pouco afastado do aeroporto, quando as distâncias entre os vários pontos a sobrevoar a seguir, já sejam de molde a manter o “abastecimento” do INS sem grande stress. Uma questão de bom senso e até de segurança.
 

Mas naquele dia o homem não estava para aturar aquele jovem Comandante português e com a experiência que tinha disse que sabia muito bem o que devia fazer.
 

A primeira classe do B747 era magnífica e foi para aí que o nosso Comandante e o seu Co-piloto TAP, este que escreve estas linhas, se dirigiram rapidamente, uma vez que os colegas aos comandos sabiam tão bem o que fazer…
 

O nosso Mecânico de Voo ficou no cockpit a ajudar o colega da PIA que manifestou o interesse nisso.
 

E lá foram aquelas centenas de pessoas para o ar em direcção a Frankfurt, Teerão e finalmente, Carachi.



Breves minutos após a descolagem, escassos minutos, muito poucos, num momento do voo em volta acentuada pela esquerda, o nosso Mecânico de Voo desce apressadamente as escadas do upper-deck do B747, que desembocam à entrada da 1ª classe e num riso perdido, entre palavras, gargalhadas e lágrimas soltas lá conseguiu explicar que o Comandante paquistanês estava em pânico com o avião a voltar inexplicavelmente para a esquerda, sendo que a rota era em frente e ele não percebia porquê nem sabia o que fazer…
 
O riso era justificado porque o nosso competente Mecânico sabia perfeitamente o que se estava a passar. O Comandante paquistanês é que não…
 

Quando o INS esgotava as 9 posições que o avião já tinha sobrevoado, indicava ao piloto automático que devia ir agora para a posição Nº1 que entretanto já tinha sido preenchida com as coordenadas da posição geográfica logo a seguir e assim sucessivamente até ao destino.
 

Nesta primeira descolagem dos experientes Pilotos da PIA, aquelas almas colocaram todos os pontos da saída de Londres no INS, a começar pelo ponto onde, no fim da pista, teriam de voltar à esquerda para o 2º ponto e assim sucessivamente. Eram 9 pontos que cobriam umas míseras 10 milhas no mapa. Voadas num ápice.
 

Com a sobrecarga de trabalho normal da descolagem, ninguém se lembrou de “abastecer” o INS de novos pontos para a frente em substituição dos já utilizados tão repentinamente e entretanto o avião estava a voltar, naturalmente, para voar da posição Nº 9, entretanto alcançada, para a posição Nº 1, praticamente o final da pista de onde se descolara breves minutos antes. Era para aí que o avião se dirigia, obediente e previsivelmente, sem nenhuma falha… e sem que aquelas almas conseguissem atinar porquê! Mas a rota era em frente…
 

É o que acontece quando se sabe tudo…
 

Esclarecido o Comandante paquistanês, lá prosseguiu o voo sem mais problemas de maior, com o Controlador de Tráfego Aéreo, em terra, sem perceber muito bem o que tinha sido aquilo.


(Actualizada em 1 de Maio de 2014)



Linha Aérea e outros voos - A minha largada em B 747 pelo Comandante Maya


1974. 25 de Abril. Foi a altura escolhida pelo destino para eu estar a meio das teóricas do curso de Boeing B 747, na TAP.

B 747

Logo a seguir fiz o Simulador, em Seattle. 9 fusos horários para trás. E como havia que poupar (porque é que me há-de calhar sempre a mim…) o Simulador começava sempre entre a meia-noite e as 4 da manhã, de Seattle. Só acertei as agulhas em pleno Atlântico, no voo de regresso.


O Simulador em que fiz o curso do B 747


Seatle, sede da Boeing. Abril de 1974

Seguem-se os voos base (onde tive a sorte de fazer o 1º borrego automático da TAP, CS-TJC) e imediatamente os voos de linha. E foi logo no voo de largada que me havia de calhar pela primeira vez, na TAP, o Comandante Maya!


Comandantes Maya, Mano e Marcelino. Tive a honra de ter sido Co-Piloto dos Capts Maya e Marcelino, no B 747

É preciso ter azar…
A minha pequenez cabia num dedal mas eu tinha de ser largado dentro do tempo regulamentar, custasse o que custasse.
Não correu mal… Mal foi haver quem massacrasse o “velho” Maya com a política. Quem estivesse constantemente a atirar-lhe à cara coisas que não tinham cabimento nenhum, não só por ser no local de trabalho, em voo, mas principalmente porque se misturava a ditadura que havia fanecido com atitudes que os mais velhos tinham forçosamente que tomar para poder sobreviver, naqueles conturbados tempos e sem que se lhes conhecesse qualquer acto que tivesse prejudicado alguém por motivos políticos ou a coberto daquela mesquinha política.
Fez-me pena ver e ouvir um homem que eu respeitava, que era uma lenda, com peso técnico mas de carácter também, em desespero dizer que já não podia mais e tinha de tomar um comprimido para acalmar! Num voo Lisboa, Luanda, Joanesburgo, Luanda, Lisboa…
E foi precisamente na aterragem em Lisboa, que me calhou fazer, num estado semelhante ao de um cantor de Festival da Canção frente ao Pavaroti, que eu vi a minha vida a andar para trás…
O senhor Comandante Maya resolveu fazer uma das dele e brifou toda a gente para o que se ia seguir.
- Tu continuas a aproximação e aterras normalmente e não ligues aos avisos. Tu fazes isto, tu fazes aquilo e eu tomo notas, a ver se a gente percebe como isto funciona.
E vai daí toda a gente se entreteve a dar-me cabo da vida, sem me ligarem nenhuma: ora falhava isto ora aquilo, soltavam-se bandeiras de cores variadas, apitava tudo quanto era corneta, guizos e sininhos, eu sei lá!... e a pista mesmo ali, caraças!
Mas a aterragem foi boa e eu fui largado!
E vi-me livre do “Fantasma” que era para mim o Comandante Maya que passou então a ser um Senhor, desligado das brumas da lenda que era até aí e que passei a ver com outros olhos, ainda com mais respeito e admiração.
Tive a sorte de ter um colega de curso, na TAP, em 1969, chamado Pedro e mais tarde um Co-Piloto, de seu nome Henrique, hoje Comandante de barba rija, que fez o mais espantoso e crítico borrego que já fiz, depois de estarem as rodas no chão, em Bogotá, num A310 das Aerolíneas Argentinas, de que éramos, os três, tripulantes em 1994.
As minhas lides de Linha Aérea estão, bem, cheias de Mayas.
Um abraço a todos os Mayas.

Na Guerra do Ultramar - Peso e centragem


Não é bom chatear certos aviadores!



Das várias actividades que os pilotos da Força Aérea tinham de executar no Ultramar, entre muitas outras, constava o transporte de correio ou de personalidades, por exemplo.
 

Algumas destas personalidades, felizmente poucas, eram pessoas com um grande ego e tinham dos pilotos a imagem de um condutor, que os conduziria, a ordens suas, para onde eles bem entendessem.
 

Mas quando se confrontavam com alguns pilotos, assim a modos que… mais peludos ou menos permeáveis a estas investidas, as coisas nem sempre lhes saiam bem…
 

Metangula, na Província do Niassa, Moçambique, deve ser, nos dias de hoje, um paraíso, em pleno Lago Niassa, virada ao Sol poente, aos magníficos pôr-do-sol Africanos.




Foto de José Augusto Martins. 
Metangula nos dias de hoje. A pista está na ponta direita do istmo


Metangula era, durante a Guerra do Ultramar, um aquartelamento dos Fuzileiros, com uma pequena pista construída mesmo ao rasar da água.

Foi aqui que me deparei com um dos mais caricatos episódios aeronáuticos da minha carreira. Mas este fica para outra história.
 

Havia aqui um funcionário administrativo dos de ego bem desenvolvido, ou talvez distraído, que por vezes se punha em bicos dos pés para mostrar a sua autoridade a todos (que ele achava serem seus subordinados).
 

Um dia de 1968, quando o DO-27 pilotado pelo Sargento Brochado chegou á “placa”, o funcionário esperou que o aviador saísse e disse-lhe:
 

- Eu depois vou consigo!
 

As instruções que o Brochado trazia de Vila Cabral não contemplavam tal passageiro. Mas este episódio não o beliscou minimamente.
 

Depois do almoço fizeram-se os preparativos para a viagem de regresso a Vila Cabral. 

Carregou-se o DO com o pessoal e material previsto mais… o tal excedentário senhor que sem dar cavaco a ninguém se instalara lá atrás, impante de autoridade.
 



Dornier DO-27 em voo


E o Brochado agia como se nada de especial se passasse.

Porta fechada, adeus a todos, capacete na cabeça, cintos apertados, checklist executado, o nosso aviador, antes de pôr o motor do avião em marcha, volta-se pela direita, para trás, curioso e indaga o sujeito:
 

- Desculpe lá, o senhor aí atrás pesa... para aí, quanto?
 

- 75 quilos.
 

- Temos 5 quilos a mais para a descolagem. O senhor tem de desembarcar!
 

Desembarcado o fulano, o Brochado põe o motor do DO em marcha, faz-se à pista, com o peso dentro da legalidade e descola calmamente rumo a Vila Cabral, hoje Lichinga.
 

Este meu amigo Brochado sempre foi um aviador muito certinho.

Muito competente...



(Actualizada em 28 de Agosto de 2016)



 

Linha Aérea e outros voos - Efeito das “castas” num voo de Boeing B747 da PIA


Aviação moderna num país asiático no Séc XX.
 
 

Tal como contei aqui na história a que chamei “Descolagem de Londres na PIA, no ex-Boeing 747 da TAP”, passada em 1976 durante os voos que alguns tripulantes da TAP fizeram de assistência aos colegas paquistaneses (pela venda de dois desses aviões da TAP às linhas aéreas do Paquistão) as relações entre os tripulantes paquistaneses em voo, pilotos ou não, reflectiam muito o grande desfasamento entre classes que existia naquela sociedade.
 
 

Na TAP por exemplo e suponho que em qualquer outra Companhia de Aviação do Mundo Ocidental, quando um dos pilotos, Comandante ou não, queria beber um café, tocava num botão existente no painel por cima da cabeça. Isso accionava um toque de telefone na galley lá em baixo, junto à primeira Classe. Uma das Assistentes ou um Comissário atendia-o e o diálogo correspondente estabelecia-se, ambos ao telefone. E quando fosse possível o café lá aparecia no cockpit.
 

Na Pia, nem pensar! Para começar havia um único tripulante exclusivamente de serviço aos Senhores Pilotos. E quando uma dessas Excelências se desse ao incómodo de tocar naquele botão era só para fazer o diligente tripulante subir rapidamente as escadas, entrar no cockpit e perguntar em que podia ser útil. Por norma o pedido era breve, lacónico, sem que o intocável Senhor se dignasse voltar-se sequer:
 

- Café!
 

Sem mais nenhuma palavra…
 

Como justificação diziam-me que no Paquistão havia 70 milhões de habitantes e um emprego daqueles era uma bênção do céu.
 

Outro exemplo. Na minha primeira chegada a Carachi para iniciar o meu contrato preparava-me para agarrar na minha pasta para desembarcar, isto ainda dentro do cockpit.
 

- Não faz isso! Não faz inflação!
 

Acontece que havia um carregador só para levar todas as malas dos Senhores Pilotos.
 

E uma última… À chegada às nossas escalas, Londres, Teerão, etc., havia um táxi para os Senhores pilotos e o resto ia num qualquer autocarro, evidentemente para hotéis de estrelas de diferentes cintilações.
 

Mas em ambiente técnico, no cockpit do avião mais evoluído que existia nesse tempo, as “castas” não podiam reflectir-se na natural diversificação de competências entre os seus tripulantes. Um Comandante não podia, não estava certificado para tal, executar as funções do Mecânico de Voo. Nem sequer sentar-se no local de trabalho do Co-piloto. 

Alguns estavam certificados mas por serem instrutores de voo.
 

Qualquer dos dois pilotos a bordo podia executar sozinho, e ainda hoje isso é naturalmente assim, as funções do outro, ambas as funções simultaneamente, mas só em emergência.
 

Na PIA, naquele tempo, 1976, não era bem assim. Ou pelo menos nem sempre era assim.
 

Para um piloto treinado na boa escola TAP, muitas aulas teóricas seguidas de 40 horas de “voo” em simulador em Seattle, USA, sede da Boeing, mais os voos de instrução sem passageiros, todo o entrosamento entre as diversas competências em voo estava bem construído e sempre sujeito a afinações.
 

E quem errasse, fosse em que procedimento fosse, tal como hoje, seria imediatamente chamado á atenção por um dos outros membros da tripulação no cockpit. Chamar à atenção não é apontar dedos em riste. É só chamar á atenção. E assim os voos se fazem com toda a segurança.
 

No primeiro voo que fiz na PIA a dar a minha fraca assistência (porque, na verdade eu, Co-Piloto na altura, auxiliava mais o meu Comandante TAP do que qualquer outro membro da PIA) estava no cockpit a assistir à aproximação a Teerão. Daí a dois meses estaria eu a voar como Co-Piloto da PIA integrado numa tripulação TAP, a fazer os voos deles. Interessava-me saber como era aterrar nos sítios em que viria a ser eu o executante.
 

No cockpit, na aproximação a Teerão, Maio de 1976, além da tripulação paquistanesa, estava o nosso Mecânico de Voo a auxiliar o colega paquistanês nos complicados procedimentos do vasto painel de instrumentos que ele tinha de gerir.
 

Como, por exemplo, o equilíbrio do avião, no consumo correcto do combustível armazenado em vários tanques. Sempre eram 150 toneladas a consumir com regras bastante restritas…
 

E não era essa a única função dele. Era também a sua correcta integração num cockpit moderno, com a nova filosofia de Recursos Humanos que revolucionara a aviação uns anos antes, a “Nova Tecnologia”.
 

Que obrigava a um desempenho conjunto e simultâneo entre os três tripulantes, baseado na leitura/resposta de checklists escritos, publicados e certificados pela Autoridade Aeronáutica de cada País.
 

Antes, nas emergências, fazia-se tudo de cor e em voz bem alta para todos ouvirem. Com o stress de cada um na execução do que tinha de fazer, nem sempre se ouvia bem o que os outros diziam, ou se ele falhava nalguma coisa.
 

Era um grande stress a juntar ao que já tínhamos com a emergência declarada.
 

E foi com este espírito que o nosso competente Técnico de Voo (anteriormente chamado Mecânico) ao observar que o Comandante não tinha acertado no instrumento devido a altitude a que estava autorizado a descer pelo controle de Teerão, avisou o colega da falha que o Co-piloto também não referiu.
 

O procedimento correcto iria fazer com que o avião, com o piloto automático ligado, ao chegar àquela altitude, a mantivesse e controlasse a potência dos reactores para manter também a velocidade.
 

E como a altitude seleccionada no instrumento á frente do Comandante, selecção feita anteriormente, era menor do que a que estavam agora reautorizados, era bem de ver que o piloto automático iria colocar o avião em situação pelo menos ilegal e muito provavelmente em rota de colisão com outro avião, ao continuar a descer para a altitude realmente seleccionada no momento.
 

E eu assisti a este diálogo:
 

- Então? Disse o nosso TV (Técnico de Voo) TAP.
 

- Então o quê?
 

- O Comandante não pôs a altitude no instrumento. Reparaste?
 

- Eu vi.
 

- E então?
 

- Então o quê? Repetiu ele e o nosso TV sem perceber.
 

- Tu não lhe dizes nada!?
 

- Quem?! EU?!!!...
 

Faltavam poucos pés (nos aviões a altitude mede-se em pés, 33cm cada pé) para o piloto automático ultrapassar a altitude legal para que o avião estava autorizado e lá ia ele de olhos fechados, a gemer, dentes a ranger, a mergulhar para o desconhecido, em termos de segurança, por ali abaixo, pode ser que não seja nada… seja o que Deus quiser, ia ele a pensar.
 

Não me cabia a mim intervir no trabalho do competente TV TAP que sabia o que se passava e actuava na perspectiva de quem ensina alguém.
 

Ele já estava senhor da situação.
 

E que senhor! Aqueles “velhos” TVs eram o máximo em competência e não só.
 

Alguns até podiam ser nossos pais. Tinham a autoridade da competência, do muito saber e o nosso respeito.
 

Voltemos à história.
 

Perante a incapacidade dos outros dois tripulantes da PIA em emendarem o esquecimento do Chefe, natural, dadas as circunstâncias, o meu camarada TV TAP agarra no grosso checklist e bate com ele no ombro do Comandante.
 

O TV paquistanês assiste, horrorizado.
 

O Comandante vira-se muito admirado para trás e o nosso TV diz-lhe:
 

- Altitude!
 

E aí ele percebeu.
 

E sem nenhum conflito “intertribal” ficámos a voar na altitude e velocidades certas.
 

Não sei quando é que as “Novas Tecnologias” foram realmente implementadas na PIA.
 

Mas não foi no nosso tempo, isso sei eu…
 

Era assim que se voava em algumas companhias de aviação.
 


(Actualizada em 6 de Maio de 2014)




Linha Aérea e outros voos - Viagem à Pérsia no B 747 da TAP/PIA




Em 1976, após a descolonização e com o êxodo de quase um milhão de portugueses de Angola e Moçambique, a TAP ficou com uma frota desajustada para o tráfego que conseguia captar.
E assim teve de alienar os dois Boeing B-747 mais modernos da nossa frota.








Para grande tristeza de toda a gente na TAP, os nossos dois melhores aviões foram vendidos à PIA, Pakistan International Airlines.







Do negócio fazia parte a assistência aos Pilotos e Mecânicos paquistaneses.
Eram os primeiros Jumbos que eles voavam.

Eu participei, voluntariamente, mas pago, como co-piloto, do primeiro grupo a voar com eles. O meu Comandante era o Com.te Ribeiro, um gentlemen. Chefe da frota do B-747 da TAP.



















O Comandante Ribeiro (de camisa grenat) com um Mecânico de Voo, em Rawalpindi, Paquistão




O nosso Mecânico de Voo, como se chamava na altura a classe, era o meu muito estimado amigo Pires Fernandes, que já nos deixou. Foi de paixão o relacionamento com aquele bom e sabedor homem, fundador da maior empresa portuguesa de metalo-mecânica.
























O saudoso Pires Fernandes prova a
água de um bebedouro público em Teerão




O nosso contracto teve início em Maio de 1976, mas o 1º voo, Londres – Karachi, era só no dia 8 desse mês.

- 8 de Maio…?!

- Mas eu sou piloto da PIA desde o dia 1, pensei eu...

O Com.te Ribeiro, contactado por mim, disse-me que nada havia no contrato que me proibisse estar em Londres no dia 1 de Maio. Mas eles podiam não aceitar, dado que o 1º voo seria só daí a 8 dias e com ele a chefiar.


- Posso ir já?

- Por mim… disse ele.


E fui.


No Aeroporto de Londres, Heathrow, fui à procura das operações da PIA e apresentei-me. Grande surpresa!


- Já!?


- Por contracto, estou ao serviço da PIA desde hoje… disse-lhes, calmamente.


Depois de vários telefonemas perguntaram-me o que é que eu queria fazer.


- Mandem-me para um Hotel, até ver.


- Quer dinheiro?


- Eu tenho. De momento não preciso.



Não tinha nem um tusto...


- Ok, tome lá um voucher para 3 dias de Hotel enquanto resolvemos o problema.


Três dias depois, que passei magnificamente instalado num luxuoso hotel de 5 estrelas virado para Hyde Park, com Rols à porta e muitos Árabes a entrar e a sair, fui contactado por um Com.te da Pia que me deu as ajudas de custo dos 3 dias anteriores e um voucher para mais 2 dias de hotel.


Esta cena durou os 8 dias, até à descolagem para Frankfurt/Teerão, escalas intermédias para Karachi.





O ex-B 747 da TAP à saída de Londres, agora com o visual da PIA e a carrinha da Pan American, Companhia de Aviação que já não existe



As ajudas de custo eram de 1,5 US$, por hora, de calço a calço. Eu explico: desde que o avião em que eu fosse parasse na Aerogare de destino, até que o avião em que eu partisse saísse da Aerogare para a descolagem. Cheguei a Londres dia 1 à tarde e saí para Frankfurt dia 8, também à tarde.
Os meus 3 filhos foram assim vestidos na Mother Care. Devem ter sido dos miúdos mais bem vestidos em Lisboa nessa altura...

Fui o único a ter uns dias de férias pagas, em Londres. Ou em qualquer outro lugar. Eles acordaram num instante e não deixaram sair antecipadamente mais ninguém de Lisboa para lado nenhum, até ao fim de Agosto…


O meu trabalho, a bordo, era dar as cartas de Navegação Jeppesen ao meu Com.te e arrumá-las depois no fim do voo. E conversar, pouco, com o meu colega asiático e muito com o pessoal de cabina. Cansativo…


Em Frankfurt as estadias eram no hotel Intercontinental, à beira do rio Main.



      Em Frankfurt, na janela do meu quarto de Hotel


Normalmente de um ou dois dias.


Em Teerão, onde fiquei uma semana na primeira vez, do hotel só me lembro que tinha quartos grandes, com tapetes que convidavam a andar descalço. E eu andava. Afinal estava na Pérsia! Autênticos tapetes persas que até parecia que massajavam os pés...













Aeroporto de Teerão com o conhecido Monumento ao fundo e as montanhas cobertas de neve, em Maio





O Xá Mohammad Reza Pahlavi ainda reinou mais 3 anos, até 1979. Pude pois visitar alguns locais emblemáticos da cidade como o Palácio de Golestan, as Jóias da Coroa e as Mesquitas azuis (pela cor dos azulejos).




  Uma das belíssimas Mesquitas Azuis




Pormenor da Mesquita   





O pequeno Palácio de Golestan era usado pelo Xá Reza Pahlevi nas recepções oficias a Reis, Presidentes e Embaixadores. Na sala do trono, do enorme, enorme, trono cravejado de diamantes, as paredes são todas cobertas com vidrinhos pequenos, como as bolas das discotecas. Imagine-se a luz reflectida naquela sala de grandes candelabros em cristal!


Palácio de Golestan, Teerão, Sala do Trono


O Trono



Ao longo dos corredores do Palácio estão expostas todas as ofertas feitas pelos Reis, Presidentes e Embaixadores, de tudo o Mundo.
Ali vi o que o Reino de Portugal ofereceu à Pérsia.

Quanto ao Museu com as jóias da coroa, moderníssimo, incluíam o vestido que a Farah Diba usou na boda. Todo ele, incluindo a cauda, 12 metros de cauda, era também cravejado de diamantes…


Em Londres tinha visto uma pequena imitação destas Jóias da Coroa… na London Tower.


Um grande problema em Teerão era atravessar as ruas.


A rua do Hotel tinha 6 faixas de rodagem, num só sentido, pejada de carros em grande velocidade. O Hotel ficava mesmo a meio de um grande quarteirão, o que obrigava a um razoável desvio para ir até aos semáforos.


Nós, os tripulantes portugueses da PIA, não conseguíamos atravessar aquilo, ali. Como? Eram 6 faixas e muito trânsito…


Mas os e principalmente as, iranianas, não tinham o mínimo problema. Com ou sem crianças pela mão, em amena cavaqueira, ainda sem as burkas, saiam do passeio quando queriam e era só passearem-se no meio das setas a falar umas com as outras, até ao fim do combate, no meio dos Índios, que era o que nos parecia aquela travessia. Nunca consegui atravessar aquela rua, ali. Nunca!


A bordo daqueles aviões que eu conhecia tão bem e já não pertenciam à TAP, a vida, para nós tripulantes portugueses, era muito agradável.


Principalmente para mim, o mais novo e o mais “desempregado”. As minhas funções naquele primeiro mês eram principalmente de public-relations.


Mas na verdade eram mais de “farniente” do que de outra coisa.


O Paquistão, em 1976 tinha mais ou menos 70 milhões de habitantes.


E a PIA só tinha alguns milhares de empregados.


Ser empregado da PIA era melhor do que sair o Euromilhões, que só sai uma vez, quando sai. Aquele emprego podia ser para a vida. Bem pago, viagens de borla a todo o Mundo. Estadias em Hoteis, etc.


Mas herdaram da Índia, de quem se tinham separado uns 30 anos antes, a ideia das castas. A bordo, ao Comandante mal se dirigia a palavra, tão lá em cima ele vivia! E no B747 era mesmo verdade. Para se ir ao cockpit tinha de subir umas escadas.


O avião até tinha um sistema de comunicações internas bem concebido. Na TAP, um tripulante, no Cockpit, quando queria alimentar-se ou beber um café, usava o telefone interno, ligava à galley da frente e pedia, se faz favor, à colega ou ao colega que o atendia, o que queria, caso fosse viável naquele momento.


Mas na PIA isso não era assim. Pelo menos para o Comandante Chefe da PIA , que era o Comandante aprendiz daquele meu primeiro voo.



Tripulação da PIA



O senhor Comandante, quando queria alguma coisa, carregava no botão de chamada do telefone, continuava a conversa que estivesse a ter sem agarrar no telefone e esperava que o Comissário, que estava encarregado só do Cockpit, sem mais outra função, lhe aparecesse lá em cima, muito prontamente. E aí sim. O Comandante, sem se virar para trás, dizia:

- Café!


-Yes Captain!


Era assim…


E como connosco não era assim, mas ”faxavor” para aqui, “faxavor” para ali, muito obrigado, desculpe, etc., etc., nem a Farah Diba, nem o Xá Reza Pahlevi nem o Musharraf (que seria ainda uma criança na altura) eram melhores servidos a bordo do que nós. Algumavez!?


Nas estadias na Europa, quando o grande avião parava na placa, havia normalmente um Autocarro ao fundo das escadas a recolher rapidamente os maltrapilhos tripulantes de cabina (isto passa-se em 1976, ainda o Ossama Bin Laden era menor) que eram internados numa Pensão ou Hotel de 2 ou 3 estrelas.


Para a casta superior, os senhores Comandantes e Co-pilotos, havia táxis.


Rumo a Hotéis de 4 e 5 estrelas.


À chegada a Karachi, no primeiro voo, quando me preparava para levar do cockpit o meu saco de cabina, fui avisado que não devia fazer inflação, ou seja, os sacos eram sempre carregados por um serviçal cujo único ofício era carregar os pertencem dos senhores pilotos, não fossem eles cansarem-se… ou não houvessem 70 milhões de paquistaneses à espera desse emprego.





Aeroporto de Carachi em 1976


Passei os meses de Maio e Agosto de 1976 ao serviço da PIA, em voos na Europa e de e para Karachi.
No mês de Maio fui assistente. No mês de Agosto a coisa mudou de figura. Trabalhei sempre como Co-piloto oficial, em todos os voos, até ao último dia.

Voo que correu mal, muito mal.


Mas a mim correu bem, muito bem, muito bem mesmo. 


Vejam a história aqui.


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Nota:

Os B 747 da TAP que foram vendidos à PIA:







(Actualizada em 02 de Março de 2019)