segunda-feira, 28 de março de 2011

Pedaços de vida - Quando eu fui Topógrafo


Gloriosos oito meses numa tenda no meio do mato, em Moçambique no início dos anos 60!


Em 1960 eu era um ex-aluno Topógrafo, em Lourenço Marques.

Tinha passado 8 gloriosos meses seguidos a viver acampado numa tenda de lona, junto às margens do Rio Incomati, a poucos metros da margem, não muito longe de uma vila chamada Moamba e a uns 80km da Capital. Muito perto já do Kruger Park.

As 4 tendas individuais que abrigavam os 4 topógrafos, eu era o único aluno, tinham um WC comum. Um resguardo de canas de bambu atrás do qual havia um balde pendurado numa árvore com um ralo em baixo actuado por um cordel. Baixava-se o balde enchia-se de água subia-se o balde puxava-se a guita et voilá… um banho!

As outras necessidades faziam-se onde calhava… normalmente apontados ao Sol.

O resto dos “edifícios”, com sala de jantar, escritório e tudo, eram construídos com os materiais que por ali havia, em estilo arquitectónico palhota.











Nesta foto, a primeira tenda era a minha. O edifício seguinte era o escritório
 



As noites de trovoada ao longo do rio eram, podem crer, muito mais excitantes que o Avatar 3D ou qualquer jogo de consola.

Felizmente não havia TV nem Playstations, nem SMSs, nem tablets ou computadores, nem telefones mesmo pretos de manivela, nem electricidade sequer. Nem micro-ondas. E os frigoríficos eram a petróleo. E a iluminação também. E vivíamos e comíamos bem e éramos felizes.


 Os meus colegas topógrafos diplomados
 

Os muitos livros que lia eram lidos à luz de petromaxes. Candeeiros a petróleo, mantido sob pressão com uma bomba integrada e que davam uma excelente luz emitindo um forte sopro resultante da combustão. Um mini reactor mas muito luminoso…

A trovoada deslocava-se ao longo do rio. Por isso sabíamos sempre de antemão quando iríamos ficar à mercê do Criador.
Horas depois dos primeiros trovões longínquos, as faíscas acabavam por cair em redor de todo o acampamento, num frenesim dantesco de luz tão brilhante como o Sol e de sons tão fortes que metiam medo.

E as tendas ficavam mesmo por debaixo de imensos, imensos eucaliptos, altíssimos, como a foto acima mostra.

O Criador só queria mostrar-se grato por eu amar tanto aquela terra, aquelas gentes. Aquele fantástico espectáculo era todo para mim, sem ameaças veladas. Era só mesmo para eu o absorver todo inteiro, mergulhado em pleno na tempestade.

E era o que me acontecia. No meio daquele espectáculo dantesco eu fundia-me com a obra do Criador e era trovão, era também uma luz mais brilhante que o Sol.

E sentia uma felicidade imensa...



Os banhos no rio, desaconselhados pelos meus ajudantes nativos da zona, (havia uns quantos jacarés no Incomati…pouco dados a intimidades) nunca foram um perigo para mim. Ia sempre acompanhado pelo nosso cão.

Ele havia de dar sinal. Nunca deu, nem mesmo nas ilhotas de areia a meio do rio, bastante largo naquele sítio. E o cão era competente no ofício. Acho que os jacarés também estavam do meu lado:

- Deixa-o lá tomar banho sossegado, pensariam eles, tão merecedores daquelas águas como eu. Foram mesmo gentis.



As manhãs, muito cedo, começavam sempre com fantásticos pequenos-almoços: uma perna de cabrito assado com sumo de laranja e tudo o mais. Assim conseguia-mos andar a pé o resto do dia, que era o nosso verdadeiro ofício. O almoço nunca tinha hora certa.

E os três fins de semana seguidos que ficava sozinho a “tomar conta” do acampamento, eram normalmente diabólicas e frenéticas expedições pelas picadas, no jipes. Às vezes bem acompanhado. E eu não tinha carta…



Um dia, ao sair de uma curva muito apertada, o capim mais alto que nós, a velocidade a aproximar-se do suicídio, vi-me rodeado de uns duzentos pares de cornos de pobres vacas que pastavam naquele “autódromo”, sem o saberem… Fui recebido por elas como um campeão de Fórmula 1 no pódio!

E o “rally” era normalmente feito num jipe fabuloso: o Steyr Puch Aflinger, de origem Austríaca. Tracção e suspensão imdependente às 4 rodas! Parecia um Smart armado ao Dakar.




Um sonho de carro, nas picadas

As noitadas de conversa, nos meus fins de semana de serviço, à fogueira com os Moçambicanos que nos auxiliavam e que já defendiam veladamente a independência, compreendiam, por vezes, julgamentos democráticos de acções menos correctas do pessoal.

Tinha aprendido como proceder quando ouvi o meu Pai explicar como tinha feito na Guiné, com os Régulos. No caso dele nas horas de serviço, debaixo de uma grande árvore.

No meu caso acontecia depois do jantar todos juntos à fogueira, apresenta-se o acusado. Todos falam, eu só assisto e presido, o mais discretamente possível. Era ali o mais novo daquela magna assembleia de 30 homens e só tinha a autoridade que todos achassem que merecia. No fim, o Chefe do pessoal, o respeitado Capataz, apoiado pela grande maioria, ditava a sentença:


- Culpado!

- E o que é que se lhe faz, perguntava eu.

E o chefe dizia de sua justiça.

- Cumpra-se! aceitava eu, na qualidade de chefe supremo daqueles 30 homens bons.


Estávamos todos sempre de acordo. E a conversa continuava, normalmente sobre a problemática em que se vivia. A Guerra já se travava em Angola. E no Norte de Moçambique os guerrilheiros já tomavam posição.

Nunca tive problema algum com aquela humilde gente.

Nunca achei que me fosse necessária a Lee-Enfield distribuída. A espingarda do Exército português da 1ª Grande Guerra. Um venerável canhangulo com mais de 60 anos. 

Durante as deslocações por lugares completamente virgens, associava sempre esses sítios a trechos de música.





Houve um lugar mágico, uma simples volta de picada, um vislumbre de Deus sentado em repouso na mata, que me acompanhou toda a vida.


Ainda hoje tento descobrir qual era o Divertimenti de Mozart que ouvi no rádio do jipe, em AM, alguém sabe o que é AM? na primeira vez que por lá passei. Já os devo ter ouvido todos.

Mas nenhum é tão vibrante, tão real, nenhum toca cá dentro como quando ali passava. 


Deve ser outro Mozart, aquele nunca mais tocou assim.

Ou então é mesmo o som daquele espaço etéreo e único. Vá-se lá saber…



O meu trabalho era subir a uma torre de 18m de altura, desmontável, em módulos, montada e desmontada mais que uma vez por dia. Depois subia-a para trabalhar com um Telurómetro.






Uma coisa do tamanho de um computador quera era um rádio emissor/receptor e que simultaneamente media o tempo que as ondas levavam, maravilhadas com a paisagem, a percorrer o espaço ida e volta entre dois destes aparelhos, um “Mãe” e outro reflector, permitindo assim determinar com precisão a distância entre eles.

Estou quase certo que teria um acerto automático que compensava o atraso das ondas quando se perdiam em contemplação...



Havia outra equipa que fazia o mesmo e servia de emissor ou reflector, uns quilómetros distante de nós. Não havia possibilidade de contacto entre nós. Nem telefones nem “walky-talkies”. Ou melhor, havia um rádio telefone incorporado mas que só funcionava se o alinhamento das antenas fosse efectivo. 

E para apontar os aparelhos separados por quilómetros, um ao outro, com muita precisão, num ângulo de 2 ou 3 graus, era só preciso perguntar a um dos carregadores aonde é que estava a outra equipa. Este procedimento nunca falhou! Desisti de me armar em esperto porque eu nunca acertava…

- Não é aí minino, é ali. E era mesmo... 

Um dia fui-me aproximando da fronteira com a África do Sul, a subir e descer os 18m de altura da torre, à medida que me aproximava do Kruger Park, quando fui avisado que ia passar numa aldeia onde não viam um branco há mais de 3 anos.


Normalmente eu era respeitosamente cumprimentado pelas pessoas que encontrava nos sítios mais perdidos deste mundo, só pela minha condição de ter nascido com a pele clara. Não devia ser pelos meus 19 anos.

Naquela manhã, para grande surpresa minha, o único adulto que vi nem se dignou olhar para mim.

Pudera! Um ancião muito digno, uma presença majestosa com a sua barba e cabelos brancos, acocorado em meditação debaixo do telheiro da sua casa, uma palhota muito limpa o olhar em frente perdido em profunda comunhão com o Tempo.


Eu simplesmente não era.

Não pertencia àquela Eternidade que era a sua morada.


Quem se atrapalhou fui eu, com a sensação de que, por respeito, eu é que devia saudar tão digna pessoa, mas nada fiz. Erro meu. Percebi mas fiquei sem saber como agir.



 

Por toda a pequena aldeia de palhotas muitos miúdos de 3 ou 4 anos, brincavam como qualquer criança. Alguns lindos de morrer. Um deles, se calhar o mais mal comportado, chamou mais a minha atenção. Chamei-o, estávamos relativamente perto do Patriarca.

Dei-lhe uma moeda de 20 escudos, uma fortuna naquele tempo e lugar e disse-lhe:  

- Olha, isto é para comprares uma capulana. Toma.

Capulana é um pano, normalmente muito bonito, que serve de vestimenta.

O miúdo devia ter percebido que aquilo era certamente algo de muito especial e por isso se dirigiu, sem ninguém o interpelar, ao ancião. E em silêncio, aproximou-se, lentamente.

A cerca de um metro dele ajoelhou, braço todo esticado para lhe chegar, mas com muito respeito, olhos fixos no Patriarca. A moeda na sua mão muito pequena foi depositada com cuidado na mão do ancião que não fez o mínimo esforço para a receber.


E num Português correctíssimo, fixando o miúdo, disse-lhe, acto contínuo, sem me olhar: 


- Diz ao branco que eu vou comprar-te uma capulana.


Todos os dias são bons para recebermos uma grande lição de dignidade.

Todos os dias são bons para vermos a Humanidade a funcionar em pleno.


Local da travessia em batelão
A assistência médica também era exemplar, embora funcionasse à Africana. Eu explico. Um dia, com uma moléstia que me incomodava, a precisar da ajuda de um médico, desabafei com o meu colaborador chefe quando atravessávamos o Rio Incomati num batelão com o Jipe e muitos outros passageiros.

- Mas vai ali um médico Indiano, disse-me ele.  


E à falta de marquesa, foi mesmo de pé, a meio do rio, batelão a avançar esforçadamente, que eu despi o que foi preciso para ser observado.




O pior foi a cura...

Tinha de andar 10km de bicicleta para cada lado e atravessar o rio de batelão para levar as 3 ou 4 injecções. Mas se calhar o exercício também fazia parte da cura…

Esquecia-me de dizer que o cão que tínhamos era uma necessidade que, no início da campanha, não conseguíamos preencher, por falta de material. Um dia, no fim de semana que me calhava sempre ao fim do mês, já explico porquê, fui com um colega, topógrafo diplomado, à Pastelaria Princesa, na Av. 24 de Julho.

Parado o Volkswagen Carocha à porta da Pastelaria, abri a porta para sair e entra de súbito, com uma pressa desmedida, um cão vindo nunca soubemos de onde, que se anichou muito quietinho no banco lá atrás a lingua de fora, respirar apressado e a olhar para nós, a querer dizer:  

- Vamos embora! Vamos embora!

Obediente, fechei imediatamente a porta e o meu colega arrancou de imediato: já tínhamos um cão, que nos adoptou. Ficámos todos felizes: nós porque ele nos adoptara, o dono do cão que certamente se queria ver livre dele e o cão que estava evidentemente farto do dono.

E nós ganhámos um amigo que se atirava ao nosso peito, aos “gritos” de felicidade, sempre que, ao fim do dia, regressávamos ao acampamento.

  O nosso fiel companheiro detestava andar nos batelões e refugiava-se normalmente em cima do bidon da gasolina


Quando decidimos, de início, as escalas de fim de semana no acampamento, ofereci-me para só ir a Lourenço Marques no fim de cada mês. Podia assim gozar de 3 fins de semana seguidos armado em explorador Africano a treinar para o Raly Dakar (nunca ninguém deu por ela, ter carta não é sinónimo de guiar bem…)

E quando no fim do mês ia à cidade recarregava não só o espírito mas também uma pequena mala com os livros que iria ler durante o mês seguinte.


A baixa de Lourenço Marquesa em 1961:
Foto tirada por mim a partir de um avião do Aero Clube
E para começar este meu primeiro trabalho na vida, tive de recorrer a uma linha de mini-crédito, já que tinha comunicado ao meu Pai que não ia estudar mais e portanto deixava de querer receber a mesada. Mas precisava de comprar artigos de higiene para o mês todo e não tinha dinheiro nem para comprar um sabonete Life Boy, quanto mais o resto!

Para quem não sabe o Life Boy, sabonete inglês, tinha um delicioso perfume se assim se pode dizer, a creolina, muito próprio evidentemente para homens de barba rija! Ainda hoje gosto dele.


Na rua em que morava havia uma drogaria onde nunca tinha entrado. Entrei naquele dia, véspera da partida, confiante e expliquei ao senhor a minha situação. Precisava de tudo para a minha higiene pessoal durante um mês mas que só podia pagar-lhe umas 4 semanas depois… E, sem mais, saí dali com o necessário.

Nunca lhe fiquei a dever nem sequer uma ensaboadela, claro.

Terminámos a nossa campanha 8 meses depois.

Regressados à cidade, à civilização, era tempo de, com todos os dados que tínhamos coligido com os Telurómetros, introduzir aqueles infindáveis números (basicamente eram os milissegundos das ondas hertzianas) nas máquinas de calcular.

Funcionavam sem LCD's nem pilhas mas com X maniveladas, rápidas, para a frente e Y para trás um número Z de vezes, sempre para trás e para a frente muito depressa e eu ali naquilo na cidade sentado a uma secretária o dia todo, mas o que é isto!?


E os milissegundos a transformarem-se em anos-luz…

Até eu dar em maluco, esquizofrénico, tarado mesmo. Era de loucos!

Durante os 30 dias que aguentei – eram trabalhos forçados previstos para 4 meses no tempo das chuvas – nunca entrei a horas nem saí a horas. Tinha sempre uma desculpa. E acabei por pedir a demissão. Obrigado pelo meu Pai que não me deixou ir simplesmente embora como eu queria… Porta fora. Chissa! Grande alívio!

Ganhei o dinheiro suficiente para viver até entrar na Força Aérea e para comprar também uma Lambreta, sempre sem carta.

E fui preso, é claro, pouco tempo depois, a um Domingo à noite depois de voltar de um fim de semana na Praia do Bilene, onde dormi na areia.

Fui julgado no dia seguinte, em chinelos e calções de praia e condenado a 30 dias de cadeia.

Já não ouvi o Juiz dizer o resto, que era coisa para ser remível a uns quantos escudos por dia …tal foi o susto!

Era uma coisa assim…



Tinha passado as últimas horas numa cela com mais dois companheiros de uma noite: um marinheiro sueco com a cabeça aberta, a sangrar, numa rixa na Rua do Pecado (conhecida pelos bares que hoje se chamam de alterne, onde os Sul Africanos do Apartheid - "separação" em africânder - iam confraternizar pacificamente com as jovens negras locais) e um português de gema que se tinha feito passar por polícia, também numa rixa algures.

O pobre homem passava o dia a dizer que matava quem o prendeu mas quando o via através das grades aliciava-o com a grande amizade que lhe tinha…

O pequeno almoço “foi servido” numa malga de alumínio com três pães e três canecas de lata com uma espécie de café que o guarda depositou, enjoado, no meio da cela no chão.

O sueco nem olhou… o português de gema declarou-se em greve de fome e eu comi o que me apeteceu, sem problemas.

Acabei por vender a motocicleta a um Polícia. Foi justo…

E depois de uns meses de praia, na Costa do Sol, a minha vida tomou o rumo definitivo: alistei-me na Força Aérea.

Mas isso é outra história que só acabaria uns 35 anos depois…

(Todas as fotos a preto e branco foram tiradas por mim)





(Actualizada em 27 de Junho de 2014)





2 comentários:

  1. África do outro tempo...no seu melhor. Isto tem um sabor a nostalgia que nem lhe digo nada!

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  2. Isto foram os mais fantásticos 8 meses seguidos da minha vida...

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