quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A minha Força Aérea – O dia em que voei mais rápido que o som

Sou um Mach Buster! Bati a Barreira do Som!

Mach Buster, aquele que passou para além de Mach 1.0.
 

O termo “Número de Mach” deriva do nome do físico e filósofo Austríaco Ernst Mach, que investigou o fenómeno.
 

É um termo comummente usado para representar a velocidade de um objecto que se desloca à velocidade aproximada ou imediatamente acima da velocidade do som:

- Cerca de 340 m/s, 760 mph ou 1224km/h.

Barreira do som: este termo está normalmente associado ao voo supersónico.

“Bater a Barreira do Som” é o processo de acelerar através de Mach 1, a passar de voo subsónico a voo supersónico.
 

Um F-18 Hornet passa a barreira do som

Tal barreira obviamente não existe, mas o termo ficou.
 

Essa “barreira”, afinal, era ultrapassável com a modificação aerodinâmica dos aviões e com melhorados comandos de voo.
 

Pois eu também bati a Barreira do som, num F-86F da Força Aérea Portuguesa. No dia 18 de Setembro de 1964, no avião matriculado 5329.

Um F-86F na Base Aérea de Monte Real, Leiria

Até tenho um diploma dado pelo fabricante do avião, que tem um erro na data, diz 21 de Setembro, mas não foi, foi 3 dias antes.


O meu diploma de Mach Buster
 
Voar um F-86F era uma grande aventura. Antes de mais porque o avião é monolugar. Não havia simulador. O primeiro voo é feito a solo, sem instrutor lá dentro. Sem ninguém a dar uma ajuda.

Descola-se com uma imensa felicidade por se estar no ar sozinho naquele fabuloso avião, mas depois é preciso aterrar, sozinho também. Ninguém ajuda. Ou se consegue ou…


Cockpit de um F-86F
Haver instrutor, havia, mas ia ao nosso lado, dentro de outro avião igual. E ia-nos dizendo coisas, pela rádio.

É assim a instrução.

E dois dias depois de ter feito o primeiro voo mandaram-me, sem instrutor ao lado, sozinho, bater a barreira do som.

Adrenalina, stress, aventura, uma boa dúzia de ondas, outras tantas de shots, tudo à mistura! É essa a sensação, embora shots nunca tenha bebido…

A bordo do meu F-86, 5329, descolo para a missão de instrução mais desejada por todos os pilotos na altura.


Eu, numa de Top Gun. E era...
Bater a barreira do som! Voar mais rápido que o som. Voar, por momentos, em silêncio. Estar à frente do som.

A subida para os 30.000’ de altitude, mais ou menos 10km, foi feita numa crescente ansiedade. Ia juntar-me ao rol dos poucos portugueses eleitos que naquela altura tinham feito aquela manobra…

E o que tinha a fazer não era muito, mas tinha que haver disciplina, como sempre que se entra em qualquer avião, pequeno ou grande, rápido ou mais lento, seja qual for a missão.

Tudo verificado, tudo a funcionar normalmente.

Vamos a istoooo!!!

Não foi nada assim...

Não era uma habilidade de circo. Era uma manobra descrita em manuais que se tinha de cumprir rigorosamente. Nada de menos, nada de mais.

E como é que se fazia?

Mantendo a altitude de 30.000 pés metia-se a manete do motor a fundo. Atingida a velocidade máxima em linha de voo coloca-se o avião em voo invertido - nós de cabeça para baixo - puxa-se o manche para fazer o avião apontar à terra e agora é só manter a descida, na vertical, com o motor todo metido, o altímetro às voltinhas rápidas, mas para trás, a descontar os pés já ganhos.

Agora é que é preciso a cabeça fria.

Controlar a velocidade e a altitude com muita atenção.

O avião não pode acelerar indefinidamente nem a altitude pode diminuir até não haver recuperação possível.

Mach 0.8.

Mach 0.9.

Mach 0.95.

Grande stress, muita adrenalina, isto está quase e já perdi 8000' de altitude (2,5km)!

O meu corpo deslocava-se na vertical, direito ao chão a uma velocidade que eu nunca antes atingira.

Devia estar a voar a cerca de 960km/h naquele momento. E sempre a acelerar, com o motor ainda todo metido!

Reconstituição...
Mach 0.98.

Mach 0.99.

- Estou quase lá!

Mas a altitude desce muito, muito rapidamente! É preciso ter atenção!
 
Estou a 20.000’!

E de cabeça para baixo, direito ao chão, com o motor todo metido, a mais de 1000km/h!

Sempre a acelerar, o altímetro cada vez mais louco a desandar furiosamente através daqueles números, cada vez mais pequenos…

Mach 1.0!!!

- Vou ultrapassar a Barreira do Som!!!

O avião, provavelmente a querer dar-me um sinal de felicidade, abanou, num ligeiro estremecimento, para me dizer que estávamos a voar para além da velocidade do som, a mais de 1224km/h.

Entrei num mundo de silêncio absoluto...

Mas na vertical, direito ao chão e a continuar a aceleração!

Mach 1,05!

Era a velocidade que se tinha de atingir nesta missão de treino e só depois iniciar a manobra de recuperação.

- Ultrapassei a Barreira do Som!!!

O altímetro indicou-me que acabava de cruzar 15.000’, exactamente metade da altitude a que tinha começado a manobra.

Ainda na vertical, direito ao chão e com o motor todo metido!

- Voei mais rápido que o som!

- Bati a barreira do som!

Está na hora de recuperar o voo normal.
 
Com muita gentileza há que reduzir o motor totalmente e puxar o manche com suavidade, tenho ainda muita altitude para executar com segurança a manobra de recuperação.

E assim fui parar aos 10.000’.

Com o avião controlado e um lugar no quadro de honra dos pilotos portugueses que voaram mais rápido que o som.

O fabricante do avião, a extinta North American Aviation, brindava os pilotos que ultrapassassem aquele fictícia barreira com um pin muito bonito em esmalte e todo colorido, atestando que éramos Mach Buster's. E o diploma que já vos mostrei acima e que está exposto no meu escritório


Uma silhueta de avião bate a barreira do som

Roubaram-me o primeiro pin. Deram-me outro. Perdi o segundo pin, talvez nos anos 70 do Séc XX.

Nunca mais consegui outro, mas nunca desisti de tentar encontrar um.

40 anos dpois descobri um maduro no ebay que mo vendeu.

Aguardei a volta do correio para o receber, quase com tanta emoção como naquele longínquo dia 18 de Setembro de 1964.


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O pin chego!

Uma beleza...

Acreditem por favor: voltei a não saber onde o meti!




(Actualizada em 26 de Abril de 2014)



2 comentários:

  1. Boas, estou deliciado, a ler estas histórias.
    Tomei conhecimento do Blog na entrevista, da TVI sobre a descolonização de Angola. Por o meu avô lá ter estado cerca de 19 anos, embora acho que ele, não foi afectado directamente com este processo, foi um assunto que me despertou interesse e decidi ler o blog, e depois também porque o meu pai esteve em Moçambique, para cumprir o serviço militar, foi um dos embarcados no Paquete Império a 5 de Janeiro de 1970 e a 9 de Janeiro o navio sofre um incidente, um rombo na casa das máquinas, existem várias teorias do sucedido.
    Ainda agora o comecei, do inicio claro e só vou aqui no mês de Outubro de 2011.
    Mas no entanto já soltei várias gargalhadas sozinho.
    Uma pergunta sobre o presente post, o certificado está errado 3 dias ou por um ano e 3 dias?
    Já agora nunca pilotou o Fiat G91, este não seria melhor que o F86?

    Cumprimentos

    Nelson Fontinha

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