terça-feira, 25 de outubro de 2011

Na Guerra do Ultramar - Estás em Nº1 para te matares!

 
 A humildade compensa...


Quando cheguei a Vila Cabral, AM 61, 1967, para iniciar a minha actividade neste destacamento do AB6, Nova Freixo, tive a incómoda sensação de ser recebido pelos meus camaradas pilotos como se eu fosse um extraterrestre.


Um T-6

Afinal eu era o mais velho, o mais experiente mas o mais novato ali. Tinha voado pelo menos mais três aviões que eles. E um deles era o F-86, na altura o avião de elite da Força Aérea Portuguesa.

Nesse mesma tarde o Comandante do Destacamento, um Alferes Miliciano que eu nunca tinha visto, aliás como todos os outros, depois de uma amena conversa em que começou a perceber quem eu realmente era, foi mostrar-me a zona onde passaria a operar durante os próximos meses.

Voámos em dois aviões até aos montes que começavam a 10 minutos dali.

Fiquei a conhecer as maminhas da Gina, aquela formação rochosa em forma de seios a quem associaram a Gina Lolobrígida.

As maminhas da Gina
O Lago Niassa não fica longe.

Dois T6 a voar naquela paisagem deslumbrante do Niassa.

Uma hora depois, em plena placa, ainda a tirar o capacete, o Alferes Comandante da Unidade diz-me:

- Sabes, Cavaleiro, eu não quis só mostrar-te a zona. Eu agradeço-te que me digas, tu que vens dos jactos, o que achas da minha pilotagem.

Complicado de se ouvir, assim a frio, sem mais.

Momento difícil na vida de alguém acabado de chegar a uma comunidade em que não conhecia rigorosamente ninguém.

Eu sempre quis partilhar tudo o que sei, com gosto de enriquecer os outros com os meus melhores conhecimentos. Em qualquer campo.

E como sempre fiz em todo e qualquer voo, antes e depois deste, durante as manobras tinha observando tudo o que me pareceu bem e menos bem na pilotagem daquele jovem muito pouco experiente e que me iria chefiar.

Era afinal um dos jovens pilotos fresquinhos, acabadinhos de ser brevetados na Base Aérea de Sintra e imediatamente destacados para o Ultramar, meu superior, a pedir-me, do alto da minha muito maior experiência e competência, achava ele humildemente, que o ajudasse a corrigir o que estivesse hipoteticamente mal no seu desempenho,

Não me foi pois complicado dar-lhe de muito bom grado e honestamente a informação que me pedia.

E aquele humilde pedido de ajuda revelava muito do seu carácter. Merecia sem dúvida ser mesmo ajudado. Era bom para ele e até para a condução das operações em que me ia integrar.

E meu dever para com a Força Aérea que tanto me tinha dado. Estava na hora de retribuir…

Como sempre foi meu hábito, fui frontal. Se era para o ajudar tinha que lhe dizer exactamente o que pensava. E não foi difícil. Já tinha visto o suficiente para formar a minha opinião e entregar-lha no formato mais convincente possível:

- Estás em Nº1 para te matares!

Expliquei-lhe então o porquê de tão radical opinião.

Tive ocasião de verificar mais tarde que esta foi uma conversa muito útil.

Ficámos grandes amigos desde esses momentos. Ele ainda está vivo, apesar de alguns AVCs… Vive no Rio de Janeiro.

E a minha admiração por ele reforçou-se quando mais tarde me contou parte da sua infância. Afinal tinha andado a vender jornais, descalço, no Porto. E era como que protegido pelo grande Bispo do Porto D. António Ferreira Gomes, exilado por ordem de Salazar entre 1959 e 1969.





(Actualizada em 29 de Abril de 2014)




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