sábado, 15 de outubro de 2011

Na Guerra do Ultramar - O Sargento “Ribelo”


Contém um Manual de "Metreologia"
 


Um bom amigo, um bom piloto, uma figura interessante de se observar.

Conheci-o em Nacala, recém-chegado para a iniciar minha comissão, como voluntário na Guerra do Ultramar, em Março de 1967.

Chamava-se, obviamente, Rebelo. Mas como era natural de Goa e tinha o típico sotaque indiano, quando se apresentava dizia chamar-se Ribelo e assim ficou conhecido.

Fiquei alojado no Aeródromo de Nacala, depois de um breve treino de adaptação, em Nampula, àquelas máquinas que não voava há uns 3 anos.

No mesmo quarto do Rebelo.

Tinha, como todos nós, as suas paixões, as suas fraquezas, as suas aptidões especiais.

Algumas muito especiais...

Na manhã do dia 23 de Julho de 1967, acordou e a primeira coisa que me disse foi:

- Cávaleiro, naquele português de Goa, sonhei qui tinhas tido uma filha…

Na verdade eu estava á espera de um filho(a) e a minha mulher estava em Lourenço Marques, no fim da gravidez.

15 minutos depois deste “comunicado” batem à porta do quarto e entra um cabo que me entrega um telegrama. Que dizia:

“Mãe e filha encontram-se bem”, assinado: “Ibarra Martins”. Um amigo dos tempos de Quelimane, do Rio dos Bons Sinais, piloto da DETA, a grande Companhia de Aviação Moçambicana.

De outra vez o Rebelo acorda-me para me pedir um conselho, com uma frase que faz parte do meu léxico das grandes dúvidas existenciais. Quando tenho uma dúvida, é esta frase a que melhor define o contexto:

- Cávaleiro. Não sei qui hei-di fazê. Si dou rilógio aos meus irmãos, si dou lata di fruta…

É sempre a minha dúvida: relógios ou latas de fruta.

Parece descabido, mas não é tanto assim. A fruta tropical, naquela altura, não era comercializada. E nos mercados não se viam uvas, caríssimas, pêssegos, caríssimos, cerejas, tão caras como o caviar e por aí fora.

As latas de fruta, naqueles tempos, eram, na verdade, um manjar. E muitas vezes, uma necessidade.

Por exemplo, em Vila Cabral, a 1500m de altitude, não se vendia fruta tropical porque não se dava bem com a altitude. E a fruta, fruta, a fruta da Metrópole, maçãs, pêssegos, etc., ninguém a cultivava.

Solução? Lata di fruta…

Estive em Vila Cabral a comer destes enlatados 8 meses seguidos. E da primeira vez que comi ananases vivos, daqueles ainda antes de entrarem nas latas, feitos em rodelas muito certinhas, comi tantos que a diarreia foi inevitável.

Ainda hoje não consigo olhar para fruta em lata

Mas o meu amigo Rebelo tinha outras peculiaridades interessantes.

Tinha uma sebenta de Meteorologia, da Faculdade de Ciências em Lisboa, que um amigo lhe tinha dado ou vendido, não sei. Era uma preciosidade que o Rebelo levava para todo o lado. A sua amada sebenta de Meteorologia!

Um dia descobriu um Cabo Especialista que tinha frequentado o curso, ou parte, de Artes Decorativas da Escola António Arroio. O homem prontificou-se a encadernar-lhe a sebenta, em carneira, letras gravadas a ouro e tudo!

Magnífico Códice, que o Rebelo passou a exibir com o mesmo orgulho que o Berardo a sua colecção no CCB.

Só que…

- Rebelo, disse-lhe eu, a olhar para a obra e sem saber bem como dizer-lho, o gajo lixou-te o livro.

- O quê?!

- O gajo lixou-te o livro todo.

- Porquê? Qui é qui tém?

- Olha, ele não escreveu Meteorologia na capa. Ele escreveu “METREOLOGIA”…

Um mal menor, porque o livro, em carneira, letras a ouro, era mesmo bonito.

Teria já a minha filha um ano, numa tarde quente e húmida o Rebelo chegou a Marrupa, bem no centro Norte de Moçambique, onde eu já estava. Preparava-se uma acção conjunta com as forças terrestres e eram precisos reforços.

Marrupa é uma terra que me diz muito. O meu Pai,  Álvaro Cavaleiro, foi aqui Administrador de Circunscrição, em 1960/61, exactamente no início do terrorismo. Com ele também viveram aqui a minha Mãe e a minha irmã. Em 1961 vim passar uns dias a Marrupa, antes de me ter ido meter na Topografia. Foram uns dias muito felizes. Os últimos em que convivi na mesma casa com o meu Pai.

Como ele vivia sempre em paz com os locais de cada terra em que era o responsável máximo e nem sempre em paz com os que não eram de lá, o terrorismo, em Marrupa, ficou à espera que ele se fosse embora para começar. Com ele, não tinham bases de apoio por perto e não conseguiam instalar-se.

Marrupa deve também ao meu Pai e existência do Aeroporto, já que foi ele quem escolheu  o sítio e construiu a pista, naturalmente ainda em terra batida.

Quando ele foi transferido, mais uma vez, agora de Marrupa, foi para tomar conta do cargo de Encarregado dos Negócios Indígenas, na África do Sul, em Barberton, como Intendente. O assunto tinha a ver com os muitos moçambicanos que queriam ir trabalhar nas minas de ouro sul-africanas.

Mas voltemos ao Rebelo e à sua sempre desejada e simpática presença entre os outros pilotos da Força Aérea.

Chegado então a Marrupa, o Rebelo, antes de nos falar, instalados naquele momento no "Bar", uma palhota feita com os mesmos materiais de construção que os locais usavam para construir as suas, o Rebelo deixou os seus parcos pertences junto à janela da sala do Operador de Rádio e da Meteo.


A "Base Aérea" de Marrupa
No chão, num montinho. Lá estavam o capacete de voo, as luvas e o grosso livro, encadernado, em carneira com belas letras gravadas a ouro a dizer: “Metreologia”.

E enquanto esperávamos todos pelo Bispo de Vila Cabral, D. Eurico Dias Nogueira, que ia fazer um voo com o Rebelo, ficámos a saber, por ele, as últimas notícias de Nampula.

O Rebelo, preocupado com os seus pertences, à mercê dos muitos cães que tinham muitos donos nas nossas unidades, ia deitando o rabo do olho, especialmente para a sua amada “Metreologia”.

E um daqueles errantes animais de muitas estimações, resolveu ir espreitar aquele montinho de coisas novas e brilhantes. E pareceu-lhe que aquilo teria o seu interesse. Muito interesse, mesmo.

O Rebelo, desconfiado com tanto à vontade, desabafou, sentado no Bar a olhar preocupado para o cão:

- Não mi diga qui vai mijá!

O cão farejou e voltou a farejar, sempre à procura de um destinatário conveniente.

E sem nenhuma reacção do seu legitimo proprietário, um torrencial aguaceiro de urina canina desabou sobre aquela “Metreologia” que o não previra e as outras coisas do Rebelo, que reagiu, perplexo:

- E mijou mesmo!…

Nada a fazer. Nem ele fez nada…

As conversas voltaram à animação anterior. E com a chegada de mais militares do Exército, em jipes camuflados, carregados de gente em camuflado, vários grupos de conversa se foram formando, mesmo em frente aos T- 6  e aos DO – 27.


O estacionamento de Marrupa em 1968

Era uma rara ocasião de confraternizarmos com outras pessoas, fora do nosso grupo restrito da Força Aérea.

E é claro que havia muito para contar.

E entre tanta gente metida no mesmo barco, combater o terrorismo, ninguém deu pelo passar do tempo.

Mas o Rebelo, numa grande roda de militares, não podia deixar de se preocupar com as horas do voo programado com o Bispo de Vila Cabral. Afinal o pôr-do-sol era a hora limite para a aterragem. E já não faltava muito.

E não se conteve. Olhando para o relógio, protestou, dirigindo-se ao grupo:

- O sacana do Bispo nunca mais vem!

Aquele anafado interlocutor de camuflado, mesmo ao seu lado, sorridente, disse-lhe:

- O Bispo sou eu…

- Atão já podia ter dito! Vamos embora!

Se estes dois tivessem morrido nesse fim de tarde, estou certo disso, teriam ceado nessa noite à dta de Deus Pai.



Sobre a figura do Bispo de Vila Cabral, consultar:
http://dornelasdozezere.no.sapo.pt/marcelismo.htm



(Actualizada em 29 de Abril de 2014)






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