sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Pedaços de vida – O Milagre do Monte ‘Alto


Uma história difícil de contar


Só consigo contar esta história porque ao decidir contar tudo o que me lembro achei que devia ir ao fundo da memória, onde todos guardamos alguns tesouros que protegemos e encontrei uma história que teimava em esconder-se, misturando-se com todas as outras para que não se notasse, receosa de se expor.

Com muito cuidado segurei-a com ambas as mãos e quando por fim sossegou, percebeu que embora fosse muito delicada era, afinal, uma das histórias de uma vida.

Não como uma qualquer, mas na verdade uma das histórias. De mãos dadas com todas as outras.

...

E uma vida é assim, feita de muitos bocados.



Alguns cheios de lama, como quando era adolescente em Quelimane.

Um dia cortei-me num pé, num ferro enterrado no meio do lodo - o matope, na língua dos Macuas - da margem esquerda do Rio dos Bons Sinais, para onde davam os esgotos da cidade.


Isto passou-se ali junto ao cais que ainda não havia

Saía tanto sangue que achei que o melhor era meter novamente a perna no matope até ao joelho, tirá-la depois, lentamente, para que uma espécie de bota se formasse. Que secaria com a exposição ao Sol e estancaria depois o sangue.
Fui assim para casa ao pé-coxinho, só com uma “bota”. Lavei-me e nem sangue nem tétano. O pé estava intacto! A cicatriz ainda cá está.

Outros bocados das nossas vidas são, por vezes, mistérios.

Outros ainda são pedaços que para além de serem misteriosos e de encaixarem na realidade tão perfeitamente como um puzzle, não conseguirmos nunca explicar a sua relação com os demais.

Os mais intrigantes são no entanto aqueles que sendo um perfeito mistério e não encaixarem em coisa nenhuma parecem emanar uma luz, embora muito ténue.

Com 14 anos, 1955, vivi em Arganil durante as férias de um ano que os funcionários administrativos das Colónias, caso do meu Pai em Moçambique, tinham de 6 em 6 anos de serviço.

Arganil é a terra onde a minha Mãe nasceu. Terra dos meus Avós.

Onde fui parar, um jovem moçambicano cheio de uma vida selvagem e livre ao Sol e á chuva. Com o Mundo todo por quintal.

Quando era miúdo pequeno achava que tudo o que existe vem do chão e que, portanto o chão é bom. E quando me feria esfregava a ferida no chão, onde galinhas e patos debicavam e faziam as suas necessidades. Para me regenerar com a vida que achava que emanava do chão.

Também era um exímio tripulante de almadias (os barcos a remos dos moçambicanos, feitos de troncos escavados). E devoto praticante de bicicletas. E sabia nadar como os melhores, pudera! Tinha sido treinado pelo treinador italiano (Passeti?) do Campeão Nacional de bruços, o João Godinho meu colega no Colégio de Quelimane…

Apareci assim em Arganil, para grande espanto dos mais jovens habitantes daquela aldeia, enfiada num buraco, de calções.

Nunca tinham visto um "gajo de calções"…

Arganil hoje. Desenho de "A Comarca de Arganil"

Até tentaram apalpar-me o rabo, montado numa bicicleta. Mas eu não era o que aqueles saloios supunham. Nem era propriamente um menino da mamã...

E saloios não eram só eles. Tive um professor de Inglês, universitário em Coimbra a ganhar uns escudos para ajudar, que nessa altura garantia que um Porta-aviões era isso mesmo, um porta… aviões. Nada de aterragens nem descolagens. Cargueiro. Especializado no transporte de aviões, somente!

Mas pouco depois criava muitas e fortes amizades com toda aquela miudagem da terra da minha Mãe. Apercebi-me também que as gentes não eram tão saloias como me parecia. As pessoas eram mesmo muito civilizadas mas pouco servidas das coisas actuais do Mundo, que era o que convinha ao Estado Novo.

Meio felizes mas sem acesso à informação. E a Televisão só apareceria mais de 10 anos depois…

E eu já tinha feito duas viagens de barco entre a “Metrópole” (Portugal Continental) e a Colónia de Moçambique - era assim que a “Organização Política e Administrativa da Nação” classificava os territórios Ultramarinos em África e na Ásia - nas deslocações de trabalho do meu Pai. Viagens que para mim foram autênticos Cruzeiros… Conhecia Luanda, Lobito, Moçâmedes, meio Moçambique e na África do Sul conhecia Cape Town e Durban.

O Estado dava tudo o que os portugueses necessitavam. Mais, não era preciso. Achavam eles.

Arganil, a 50km de Coimbra, tinha afinal gente muito ilustre.

Apresento-vos, como exemplo, alguns nomes dos mais conhecidos. E não só.

O Médico Dr. Fernando Baeta Cardoso do Valle exerceu a actividade clínica desde 1926, após concluir a licenciatura em Coimbra. Foi médico municipal e delegado de saúde.




Republicano de sempre, foi um destacado opositor ao Estado Novo. Opositor do presidente António Oliveira Salazar, personalidade que considerava "uma coisa má" para Portugal. Esteve no “reviralho” e nas campanhas de Norton de Matos em 1949 - por isso foi demitido do posto de médico municipal do Concelho de Arganil - e Humberto Delgado. Escondeu em sua casa “clandestinos” perseguidos pela Polícia Política.

Atendeu na Serra de Arganil graciosamente quem procurava os seus cuidados médicos.

Ingressou nas Juntas de Acção Patriótica, o que levou a que fosse preso, entre 27 de Abril e 29 de Junho de 1962, na Cadeia do Aljube.

Fundador histórico do Partido Socialista Português, quando a democracia chegou poderia ter sido o que ele quisesse - assim o disse Almeida Santos. Apenas aceitou o convite para ser Governador Civil de Coimbra, de 04.10.1976 a 14.02.1980

Já em 1971, o regime, então liderado por Américo Thomaz e Marcello Caetano, tentou afastá-lo do Hospital da Misericórdia de Arganil. No entanto, uma manifestação de mulheres foi organizada para impedir que tal sucedesse e o afastamento de Fernando Valle foi evitado.

Galardoado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial) e Ordem de Mérito (Grã-Cruz)

Presidente honorário do Partido Socialista, o vulto de cabeleira branca e boina basca, o mais antigo maçon do Mundo, o decano dos médicos portugueses, o amigo íntimo de Miguel Torga, o companheiro de Universidade de Vitorino Nemésio, o camarada político de Mário Soares

Médico de Arganil, Maçon, Republicano Socialista, uma figura incontornável da República Portuguesa.

Lembro-me perfeitamente de o ver em Arganil, muito respeitado e amado por todos

O Diplomata Alberto Veiga Simões esteve colocado em Manaus, Pará, Viena, Praga, Budapeste e Bruxelas. Notabilizou-se ainda como escritor e jornalista.

A Comarca de Arganil, Semanário Regionalista que existe há 111 anos. Desde que me conheço que leio a Comarca de Arganil. A minha Mãe era assinante e mesmo nos confins de Moçambique sabíamos tudo o que se passava em Arganil. Mas naquela altura, há 50 ou 60 anos, a primeira coisa que se lia eram as notícias de quem caia aos poços. Incrivel, mas havia sempre alguém no fundo de um poço... Quando fui promovido a Comandante da TAP tive direito a uma notícia...



Sítio na net de "A Comarca de Arganil"
(Fazer "retroceder" para voltar a esta história ou "abrir num novo separador")

Dom José Alves Matoso (1860-1952), bispo da Guarda .

O Empresário de muito sucesso José Martins Dias da Cunha, fundador do Entreposto, pai de Dias da Cunha, ex-presidente do Sporting Clube de Portugal.

O meu primo, Empresário, Saúl Brandão, casado com a prima Aida, que construiu e explorou o Hotel Embaixador na Beira e era o proprietário dos transportes colectivos dessa cidade de Moçambique. Amigo do Engª Jorge Jardim - Pai da Cinha Jardim - que tive o prazer de conhecer num jantar em casa destes meus primos, na Beira.

O Maestro João Rodrigues Alves Coelho, pai do Maestro Alves Coelho, Filho.





O Maestro Alves Coelho, Filho compôs inúmeras canções com imenso sucesso:

Algumas das suas canções mais conhecidas:

· O Trevo
· A Giesta
· O Dia da Espiga
· Cartas de Amor
· Olhos castanhos
· Fado do Bairro Alto
· A saudade aconteceu
· Senhora do Almotão

Não conheci o Maestro Alves Coelho, Filho, mas um dia organizei um baile com os meus colegas do 3º ano do Liceu (que não havia, era um Colégio) nessa altura com os meus 14 anos, na varanda do Cine Teatro Alves Coelho, em Arganil.

Deu-se o infeliz caso de a orquestra que eu contratei, com 14 anos, repito, ser composta por uma guitarrista, um saxofonista e um baterista que afinal não apareceu mas não fez falta nenhuma porque eu ocupei o seu lugar, com 14 anos, repito novamente e sem nunca na vida, nunca, nunca, ter tocado semelhante coisa, nem qualquer outro instrumento sequer. Nem antes, nem mesmo depois. Não correu mal. Só muito de vez em quando é que me pediam para ser mais manso com os pratos que eu atacava furibundamente!

Os nossos tempos livres eram gastos em grandes passeios na mata que dá para os jardins da Misericórdia, em jogos de futebol, em excursões furtivas ao Rio Alva (para desespero de todas as nossas mães) em tardes de felicidade extrema a ouvir os relatos de Oquei em Patins – os Campeonatos do Mundo que ganhávamos – e em autênticas mini voltas a Portugal em bicicleta.

Gastava toda a mesada em aluguer de bicicletas…

Corríamos todos os caminhos ao redor de Arganil. Chegávamos a ir á Estrada Nacional, que vem de Coimbra. Nas etapas mais longas, onde todos merecíamos a camisola amarela, o doping era obrigatório. Obrigatório! Se nos fizessem análises ao sangue nas metas volantes e eram muitas, o teor de jeropiga ultrapassaria todos os limites! Marchava uma garrafa nas etapas maiores.

Não me lembro como arranjava aquele aditivo e reconstituinte, mas lembro-me do gesto de a emborcar, só uma mão no volante da bicicleta, cabelos ao vento, o Mundo todo por nossa conta, a gritaria pinhais fora, a muita velocidade nas descidas... Uma loucura!

Numa dessas inúmeras voltas, em que ninguém queria ser ultrapassado por ninguém, ninguém andava mais depressa do que nenhum de nós, havia uma descida que terminava numa curva apertada para a esquerda. E logo depois, já em linha recta e terreno plano, a estrada passava por um pontão de cimento que permitia o escoamento das águas por debaixo, numa vala estreita também cimentada.

No último metro da curva sou ultrapassado por um miserável que ia ainda mais depressa do que eu. Dou um aperto maior aos pedais atrás dele, já em desvario.

A imagem seguinte que tive foi ele a meter-se a toda a velocidade na vala em cimento, do lado direito da estrada e eu segui-o, um pouco mais para a direita, em cima de uma silvas, com o quadro da bicicleta partido. E nós os dois completamente intactos, no esplendor dos nossos 14 anos…

O meu amigo ficou debaixo da ponte, sentado em cima da bicicleta. Incólume. A inspeccionar o túnel...

Era assim que aprendíamos a superar-nos, a lidar com o sucesso dos outros, a limar as nossas fraquezas.

Mas não era só nas bicicletas. A recente obra de saneamento básico de Arganil (afinal já éramos muito civilizados nos anos 50 do Séc. XX) substituía perfeitamente os CSI Miami por aventuras igualmente empolgantes, ao vivo e 3D!

Conseguíamos iludir a vigilância da Guarda e fazer grandes cenas, trilogias até, dentro daqueles imensos esgotos que davam para correr, em semiobscuridade, de pé, Vila fora, subterraneamente, a tarde toda, em substituição das aborrecidas Matemáticas e Físicas…

O rio Alva, a mata, o reino dos esgotos, o Campeonato do Mundo de Oquei em Patins, os namoros, as bicicletas e o Monte ‘Alto, eram as nossas Playstations.

Wireless e com pilhas recarregáveis, infinitamente. E às vezes com jeropiga…Não nos faltava nada, nada!

Arganil, sede de um Concelho que se espalha por serranias, montes e vales de inigualável beleza que confinam com a Serra do Açor, teve o seu primeiro foral em 1114, concedido por D. Gonçalo, Bispo de Coimbra e renovado por D. Manuel em 1514.




Em 1809 a vila ficou marcada pelas invasões francesas, tendo as tropas de Wellington estado aquarteladas na Capela da Misericórdia, a qual lhes serviu de abrigo e depósito de munições.

Em Fevereiro e Março de 1811, os franceses de Massena deixaram um rasto de morte e pilhagem no concelho de Arganil, a ponto de este ser considerado um dos que em Portugal mais sofreu com as invasões que «o sanguinário corso (Napoleão) fez vomitar na Península Hispânica».

Ver no final desta história o link para a “Lista dos estragos conhecidos” causados pelos franceses

Em Arganil, o dia 15 de Agosto, o dia de Nossa senhora da Conceição, é tradicionalmente a festa dos Arganilenses, celebrada no Monte ‘Alto com muita devoção.


O Monte 'Alto

Situado a 500 metros de altitude, o Santuário da Senhora do Monte ‘Alto tem vistas de rara beleza, vendo-se dali o vale do rio Alva, os contrafortes da Serra do Açor e toda uma paisagem que se estende até à estrada da Beira.


A Serra do Açor, vista do Monte 'Alto

A Capela dista de Arganil, cerca de 10 Km, sendo a estrada de acesso ao longo da encosta, cheia de curvas, com um grande declive, rodeada de grandes pinheiros e eucaliptos, que cobrem quase todo o percurso, formando uma espessa mata.

O Monte ‘Alto é um Santuário de devoção Mariana, cujo acesso – a Ladeira - tem algumas capelas de interesse etnográfico, a primeira das quais é dedicada ao Senhor da Ladeira (séc. XIII) e acolhe uma imagem do Menino Jesus (da Ladeira) vestido à antiga. Na capela existem inúmeros fatos oferecidos ao Menino pelos muitos devotos.  E o Menino usa mesmo esses fatos todos.

O Santuário foi mandado construir em 1521, por Francisco Pires, natural de Arganil, filho de Domingos Pires e por seu irmão João de Coimbra no ano de 1521. No século XVIII o edifício foi reformado devendo o edifício actual ser de 1796.

Conta a lenda que "neste monte foi encontrada uma imagem de N. Sra. Mas como por ali não havia pedras (o que dificultava a construção de um santuário) e era muito íngreme, foi decidido levar a imagem para outro local onde foi feito uma pequena ermida em madeira para a proteger enquanto seria construída a igreja".

Contudo, a imagem, certamente incomodada, «fugiu» da sua nova casa para ir para o local onde fora inicialmente encontrada. As pessoas uniram-se e com os donativos feitos ergueram a igreja onde se encontra hoje.

Neste local celebra-se, pois, todos os anos o 15 de Agosto. É o reencontro dos familiares ausentes e dos amigos.


O Santuário de Nª Senhora do Monte 'Alto

E foi numa tarde de verão que a trupe daqueles ciclistas de 14 anos resolveu experimentar a muitíssimo íngreme subida ao Monte ‘Alto.

Não é nada fácil. Quem conhece o acesso ao Santuário sabe as dificuldades de qualquer subinte em chegar lá acima.

Pode-se ir pela estrada mas há quem, a pé, prefira subir aos quase 500m de altura pelas escadas.

É uma autêntica penitência, que aliás é assim aproveitada pelos mais devotos para pagar com sacrifício quaisquer bênçãos que tenham recebido. Ou como pedido para uma graça pretendida.

Mas é sempre um grande sacrifício.

E naquela tarde, como não podia deixar de ser, o esforço foi tão grande que tivemos que descansar no largo da Capela do Senhor da Ladeira. Éramos muito jovens, tenho a consciência que éramos bons rapazes e como tal fomos bem acolhidos pelo Menino… que nos deu forças para mais umas correrias tresloucadas até ao topo, ao Santuário, uns 100m mais acima.


A Capela do Senhor da Ladeira

E junto à Capela, no topo do Monte ‘Alto, com aquela vista deslumbrante numa tarde cheia de Sol, estive sem o saber na altura, junto à fonte onde a minha Mãe bebeu água no dia em que se casou, 15 anos antes.



A minha Mãe, no dia 6 de Junho de 1940, no Monte 'Alto

Por ali estivemos a avaliar os desempenhos ciclísticos de cada um, já a acicatarmo-nos uns aos outros para a desvairada descida que, afinal, era o nosso último objectivo, já há muito tempo planeado.

Bem descansados, bem oxigenados, completamente comprometidos com o nosso objectivo de descermos à frente de qualquer um, montámos nas nossas bicicletas alugadas e fizemo-nos à estrada, por ali a baixo num feroz despique.

Há que criar espectativas de vitória ao adversário e atacar nos sítios mais improváveis, quando ele adormece embalado na fuga, sem ver ninguém à frente.

Os meus ataques nas curvas apertadas apanhavam alguns desprevenidos e voávamos felizes a roçarmos os pinheiros, grandes precipícios ao nosso lado.

O trânsito era nulo, estávamos a meio da semana e a estrada, aquele velódromo onde batíamos todos os recordes do Mundo, estava por nossa conta.

A descida do Monte ‘Alto estava já a chegar ao fim e as trocas de posição a denunciarem uma euforia que, obviamente, não tinha em conta qualquer réstia de bom senso.

O mais pequeno deslize e estaríamos no abismo. Mas naqueles momentos a felicidade era o assobio do vento nos cabelos, o olhar para trás e ver rostos com esgares de vingança naqueles que se tinham atrasado um ou dois metros.

E chego àquela curva e contra curva em forma de “U” muito apertado. Já muito perto da meta que era, simplesmente, quando a estrada voltasse à horizontal.

A minha grande experiência, quase diária, de montes e vales sempre em grandes velocidades nas redondezas de Arganil, deu para me aperceber que aquela velocidade e a distância que estava da curva não ia dar, não conseguiria travar… nem fazer a curva.

Não ia dar…
Não ia dar…

Ou seguia em frente, pelo ar, precipício abaixo, ou chocava com aquele pinheiro a uns 2 metros de mim, àquela velocidade toda.

A curva, essa nunca a faria. Sabia-o! Tinha a certeza. E sabia o que se ia passar.

E já era tarde de mais!

No Colégio onde andara nos dois anos anteriores em Quelimane, Moçambique, por não haver Liceu, o Colégio do Sagrado Coração de Maria, acabei por ir à Missa todos os dias, com Comunhão diária e tudo. Antes das aulas.

Agradava-me sobretudo o Canto Gregoriano, que todos cantávamos.

Todos não. O Colégio era o único da Cidade e na minha aula havia, em 1953, rapazes, raparigas, católicos, hindus, maometanos, protestantes, não crentes em nada, etc.

Mas só ia à Missa quem queria.

As únicas obrigações eram o respeito pelo próximo, as boas maneiras.

E todos respeitávamos, evidentemente, o Ramadão do colega muçulmano de carteira.

Este foi o meu racismo, a intolerância em que fui criado, a falta de respeito pelo outro em que vivi, na selva Africana…

Quando saí do Colégio, antigo 5º Ano feito, já não ia à Missa, nem aos Domingos...

Foi provavelmente por estes meus princípios que, montado naquela bicicleta, naquele local e àquela tresloucada velocidade, percebi que nenhum dos meus avultados dotes de miúdo destemido me iria fazer dar aquela curva e que portanto a solução já não me competia, estava para além de mim.

Ainda havia, pois, um último recurso.

Mas que tinha de ser conseguido à custa de uma imensa convicção.

Toda a minha essência, corpo e alma, todas as minhas forças se concentraram num único e microscópico ponto.

Como uma centelha, uma minúscula parte da Matéria e como tal com uma imensa densidade!

E de dentro de mim saiu então um formidável lamento desesperado.

Um grito de ajuda, bem alto!

Tão alto que fosse mesmo ouvido:


- Valha-me Nossa Senhora!

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Como estou aqui a contar esta história, talvez com alguma vontade de que seja lida com gosto mas não acrescentando nada à verdade dos factos, quem me lê fica certamente a julgar que eu consegui, afinal, fazer aquela curva em “U” muito apertado, com muito, muito excesso de velocidade.

Mas a única coisa de que me lembro foi de ter “acordado” dez metros depois daquela curva, já na recta, montado normalmente na bicicleta e com uma velocidade perfeitamente adequada para negociar a curva seguinte.

A última curva da descida do Monte ‘Alto.

Mas o que se passou entre o momento em que dei o grito de pedido de ajuda e o local em que voltei a ter controlo da bicicleta, uns bons 15 metros de estrada em curva muito apertada e certamente ainda a grande velocidade, é como que uma misteriosa viagem nos meandros do desconhecido.

Durante 15 metros, talvez um longo segundo no tempo, fiz A Viagem da minha Vida.

Mas este segundo não cabe em 15 metros de estrada.

São dimensões diferentes.

É como iniciar, de repente, uma viagem que começa já à velocidade da luz, confortavelmente aninhado dentro de uma caixa de fósforos e parar um segundo depois, 15 metros á frente.

Nunca tive uma explicação cabal para este caso.

Nem mesmo num sempre adiado encontro entre Nós os dois.

Muitos anos depois, quase 60, em busca de um elo que ligasse as pontas entre aqueles 15 metros, convencido que seria atendido, tive coragem e fui, sozinho, a Fátima.

Mas a explicação continua adiada…

Não consegui comunicar.

Terei, provavelmente, de fazer mesmo a última viagem para saber o que aconteceu.

E aí sim. Serei levado pela mão àquele segundo que desapareceu da minha vida.

E tudo voltará a encaixar, a fazer sentido.


É que não se pode viver em paz com um segundo a menos de vida.


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(Actualizada em 19 de Abril de 2014)



Link para a Lista dos estragos conhecidos causados pelos franceses








2 comentários:

  1. Caro Gabriel Cavaleiro, não tenho palavras, acho que este Blog está espectacular, grandes retalhos da sua vida, grandes histórias, muitas alegrias e alguns dramas, tudo muito bem contado.
    PARABÉNS, votos de muita saúde e continuação de bons relatos.
    Canelas

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    1. Mais vale tarde do que nunca. Obrigado pelas suas palavras

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