PEDAÇOS DE VIDA – Cor Mira God II - O Movimento dos Capitães

 



Movimento dos Capitães


RAZÕES E FACTOS QUE CONDUZIRAM AO MOVIMENTO DOS CAPITÃES


Texto apresentado pelo Coronel Pil Av António Mira Godinho

na Escola Secundária Poeta Al Berto, em Sines,

no dia 26 de Abril de 2023.



CANSAÇO: Treze anos de guerra, com sucessivas comissões, foram criando dificuldades familiares aos Militares do Quadro permanente (Profissionais). Este sentimento de cansaço, também se fazia sentir na População Civil. As Forças Militares empenhadas na Guerra, eram na sua maioria formadas pelo serviço militar obrigatório.

O número de casualidades, muitos feridos e fatalidades, o sentimento Universal que aumentava de anticolonialismo, a par de alguns movimentos antiguerra que se foram generalizando, a que o movimento Estudantil, seguindo o movimento de Maio de 1968 em França e a campanha antiguerra que se ia também generalizando nos Estados Unidos, contra a guerra no Vietname, foram engrossando uma desmotivação que começou a afectar a opinião pública e o modo como encaravam as Forças Armadas.

Era frequente nos Territórios Ultramarinos, os Militares serem acusados de serem responsáveis pela continuidade da Guerra, para obtenção de melhores vencimentos e em Portugal Continental de serem acusados de assassinos profissionais. Este sentimento, para uma classe que vinha sofrendo as consequências da Guerra, foi criando uma desmotivação, e o sentimento de que a política teria que determinar qual o sentido a tomar. Estavam criadas as sementes para o desenvolvimento do processo que conduziria ao despoletar do Movimento..

A agravar a situação, o Regímen lançou mais uma acha para a fogueira, criando uma razão que afectava a Carreira dos Oficiais do Quadro Permanente, ao permitir que os Oficiais Milicianos que quisessem ingressar no Quadro Permanente, o fizessem sem perder antiguidade, e por vezes até ganhando antiguidade em relação aos Militares oriundos da Academia Militar.

E foi assim que se gerou um movimento, chamado dos Capitães.

As tentativas de golpe Militar, vinham acontecendo ao longo dos tempos, mas mostraram-se sempre incipientes.

Posso enumerar alguns factos que teriam a intenção de mudar o rumo aos acontecimentos.
Uma tentativa encabeçada pelo Gen Botelho Moniz, que foi detectada e abortada.

A chamada intentona de Beja, encabeçada pelo Capitão Varela Gomes, em que o quartel daquela cidade foi assaltado, foi morto o Secretário de estado do Exército, Coronel Zuquete da Fonseca, mas que abortou.

Ganhou na altura espectacularidade o sequestro e desvio do Paquete Santa Maria, pelo Coronel Henrique Galvão.

Um desvio de um avião da TAP, que foi desviado e foi lançar panfletos sobre o Estádio Nacional numa final da Taça de Portugal.
                                                                                                    
A fuga de alguns presos do forte de Peniche, entre os quais o Dr. Álvaro Cunhal.

A candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.

E eventualmente uma ou outra tentativa, mas sempre derrotadas ou abortadas.

Por último e englobando alguns dos elementos integrantes do Movimento dos Capitães, houve o chamado Movimento das Caldas da Rainha. Em 16 de Março de 1974, em que uma coluna Militar foi interceptada à entrada de Lisboa. Este Movimento, mostrou que dentro do Movimento dos Capitães, havia mais do que uma corrente. Sendo derrotada, teve um papel muito importante, pois serviu de catalisador e impulsionou o 25 de Abril.

Há um outro facto que foi fundamental para a consecução do Movimento da Forças Armadas, foi o livro escrito pelo Gen Spínola, “PORTUGAL E O FUTURO” O Gen Spínola era provavelmente o Oficial com mais prestígio dentro das Forças Armadas, e contribuiu para credibilizar o Movimento.
Foi acordado, igualmente para dar uma maior credibilidade ao Movimento, nomear um conjunto de Oficiais Generais, os mais prestigiados dentro dos três ramos das Forças Armadas, para assumir o controlo da situação. E assim foi criada a Junta de Salvação Nacional, liderada pelo Gen Spíniola, que assumiria, por indicação do MFA, a Presidência da República.

A Junta de Salvação Nacional, além do General Spínola, teria mais seis Oficiais Generais.

O Gen Costa Gomes e o Gen Silvino Silvério Marques, por parte do Exército.

Os Generais Diogo Neto e Galvão de Melo, pela Força Aérea.

E os Almirantes Rosa Coutinho e Pinheiro de Azevedo, pela Marinha.

E foi assim que se chegou à madrugada do dia 25 de Abril, sendo a senha para dar início ao Movimento, antecipadamente combinada com alguns radialistas do Rádio Clube Português, passar algumas canções.

Ficaram célebres as cantada por Fernando Tordo, “A tourada” e a última, cantada por Paulo de Carvalho, “E depois do adeus”.

O Presidente da República Almirante Américo Tomaz e o Primeiro Ministro, Marcelo Caetano, foram depostos e presos.

Seguiu-se um período, de grande euforia, o Governo de Marcelo Caetano, tinha sido deposto e a Junta de Salvação Nacional assumiria o controlo da situação.

De imediato, todos os partidos que estavam proibidos foram autorizados e todos os Portugueses que estavam exilados foram autorizados a regressar, bem como foram libertados todos os presos políticos

As manifestações sucediam-se e a euforia era grande. Foi um período de grande elevação e alegria.

Sob a égide do Comando do MFA, e da Junta de Salvação Nacional, foi nomeado o primeiro Governo Provisório, ficando acordado que dentro de um ano seriam realizadas eleições legislativas. O Professor Adelino da Palma Carlos, foi indicado para formar Governo, que englobaria personalidades dos Partidos Políticos autorizados, bem como personalidades independentes e alguns elementos das Forças Armadas. Tomou posse a 16 de Maio de 1974.

Iniciou-se um período de muito difícil Governação. Começou muito cedo a fazer-se sentir as diferentes correntes que existiam dentro do MFA. Logo em princípios de Junho, o Primeiro-ministro começou a sentir dificuldades de Governação, bem como o Presidente da República, por sentirem interferência dos elementos do MFA. E logo em princípios de Junho, o Presidente da República e o Primeiro-ministro, solicitaram ao MFA uma reunião por sentirem dificuldades de Governação.

E foi nas instalações da Administração Militar, que se efectuou uma reunião Magna, com todos os que tinham participado nas reuniões preparatórias do Movimento dos Capitães, reunião na qual estive presente.

Falou o Primeiro Ministro adjunto, Sá Carneiro, falou o Ministro das Finanças, Dr. Vieira de Almeida, alegando que a situação económica do país se estava a degradar. Falou-se em falência técnica e insistiram para que o MFA não interferisse com a Governação. Por último falou o General Spínola, que numa alocução muito emotiva, pôs a questão, de impossibilidade de continuação da Governação, se continuasse a haver interferência do MFA.

Por fim pôs na mesa a proposta para que o Movimento reiterasse a sua confiança nos Órgãos, até ali indicados e a que foi dada posse pelo MFA, ou ele tomaria a decisão de abdicar e demitir-se bem como o Governo. Para isso seria feito um intervalo. E depois de almoço, ou seria reafirmado a confiança do MFA, ou ele demitir-se-ia.

Após o almoço, alguns membros do MFA dissertaram e foi dado um voto de confiança, numa Assembléia um pouco confusa e em que foi notório que nem todos estariam de acordo. Mais uma vez o Gen Spínola, de um modo muito emotivo e aceitando que o MFA lhe reiterava a confiança bem como ao Governo, deu por finda a sessão.

E mais claro que nunca, acabado de sair 
o General Spínola do anfiteatro onde foi realizado o encontro, começaram a ouvir-se os primeiros sinais de desacordo.

A situação foi-se agravando e o Primeiro Governo provisório, face à continuidade das dificuldades de governação, acabou mesmo por se demitir no dia 18 de Julho de 1974.

Pouco mais de dois meses e já era notório que o MFA estava profundamente dividido.
A situação foi-se agravando, e as condições económicas do País degradavam-se, a situação Social, também se agravava. Em fins de Julho, era notória a clivagem, dentro das fileiras do MFA.

Alguns acontecimentos aceleraram a cisão.

No RAL 1, posteriormente designado RALIS, realiza-se um Juramento de Bandeira, em que à revelia da hierarquia Militar, o juramento, ao contrário do que estava determinado, fez-se jurando fidelidade à causa Socialista, que deveria ser o objectivo Nacional.

Na mesma altura, um dos intervenientes na intentona de Beja, na altura Capitão Varela Gomes, que após o 25 de Abril, tinha sido reintegrado no Exército, e a quem já tinha sido confirmada a próxima promoção ao posto de Coronel, ainda antes da sua promoção ser promulgada, entrou nas instalações Militares, envergando já as insígnias de Coronel, desrespeitando a hierarquia Militar.

Na altura, alguns Oficiais do RAL1, face à tomada de posição enérgica do Chefe do Estado Maior do Exército, General Silvino Silvério Marques, confrontado com essa atitude, chegaram a pôr a hipótese de fazer um novo 25 de Abril, defendendo as suas ideias e posições revolucionárias.

Caminhava-se a passos largos para uma confrontação.

Alguns Oficiais, todos ligados à gênese do Movimento dos Capitães, mas de uma ala mais moderada do Movimento, começaram a reunir-se, pondo em consideração a hipótese declarada pela ala mais radical e extremista do Movimento.

Como se diz na gíria Militar, começam a "contar-se espingardas".

Nessas reuniões é elaborado um documento, para ser disseminado nas diversas Unidades do Exército, alertando para as manobras da ala radical.

Documento chamado “Documento Hugo dos Santos”, por ter sido um dos elementos fautores.

Nessa Reunião, conduzida sob grande sigilo, estavam presentes Oficiais de grande Prestígio nas Forças Armadas. Posso dizer, passado este tempo todo, que me senti muito lisonjeado, por ter sido convidado para estar presente, na condição de Comandante da Esquadra de helicópteros. Fui convocado, sendo o único Oficial da Força Aérea Portuguesa, presente.

Porque alguns desses Homens de carácter, estão ainda entre nós, não me permito divulgar os seus nomes. Deu-se a disseminação do Documento Hugo dos Santos, alertando para a situação e apelando para a vigilância de todos os que estivessem em desacordo com a tergiversação dos princípios do Movimento a que estávamos a assistir.

Chegamos a 28 de Setembro de 1974, onde o confronto foi notório e houve uma tentativa de efectuar uma Manifestação da chamada Maioria Silenciosa. Temeu-se um confronto, mas a demissão do Presidente da República, dos Generais Silvério Marques, Diogo Neto e Galvão de Melo da Junta de Salvação Nacional, evitou o confronto, mas criou o primeiro grande Cisma no Movimento das Forças Armadas. O General Costa Gomes foi nomeado Presidente da República, a Junta de Salvação Nacional foi dissolvida e em seu lugar foi criada o Concelho da Revolução integrando Oficiais do Exército, Força Aérea e Marinha, que tivessem participado no Movimento dos Capitães.

Órgão muito numeroso, que integrava o Presidente da República, o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas e o seu Vice-Chefe, bem como os três Chefes do Estado Maior, do Exército, da Marinha e da Força Aérea, o primeiro-ministro, caso fosse Militar e mais 14 Oficiais das Forças Armadas.

Este Órgão, que tinha como função principal assegurar que as Forças Armadas seriam o motor da Revolução, teria então 21 membros que tinham o poder total, de fazer cumprir a Constituição e de dirigir o País rumo ao Socialismo. Um órgão tão numeroso e com tão largos poderes, muito dificilmente poderia governar, ou deixar governar. E foi assim que as crises se foram agudizando, a indisciplina das Forças Armadas foi grassando, a autoridade das Forças Militarizadas, Guarda Nacional Republicana, da Polícia de Segurança, foi sendo afectada.

E entrou-se num período muito crítico.

O confronto mesmo entre os membros dos órgãos de soberania foi claro, e em dado momento foi posta a possibilidade das Forças Armadas, não só serem o motor da Revolução, como se falou em que seriam uma Força política que dirigiria o País, não se realizando as Eleições previstas para 25 de abril de 1975.

A isto, creio que se poderia chamar uma ditadura Militar.

Todo este panorama conduziu a uma cisão muito grave nas Forças Armadas, conduzindo ao movimento do 11 de Março de 1975.

Após a derrota das forças deste movimento, entrou-se num processo de Nacionalizações e de confrontos de ordem ideológico. A indisciplina nas Forças Armadas e a perda de autoridade das Forças de Segurança e de manutenção da ordem, criaram problemas muito graves. Nas Forças Armadas apareceu uma organização denominada SUV, algo impensável e que nunca poderia ser tolerável. Neste período assistiu-se à invasão da Embaixada de Espanha, com a destruição de um valor incalculável de obras de arte, e outras obras e artigos.

Ocupações selvagens, sem qualquer sentido, contribuindo para a destruição do sector produtivo do nosso País.

Em 25 de Abril de 1975 realizaram-se as primeiras eleições democráticas em Portugal, depois do 25 de Abril 1974, para a constituição da Assembléia Constituinte, que elaborou a Nova Constituição.

Nestas eleições a vitória foi dos Partidos mais moderados, levando a um crescendo de instabilidade. Os confrontos foram notórios e levou à queda do 5º Governo Provisório de Vasco Gonçalves.

O documento do grupo dos nove, criou a cisão total e a grande Manifestação da Fonte Luminosa em Lisboa, de apoio ao Dr. Mário Soares, evitou que o País se envolvesse numa luta interna.

Em 19 de Setembro 1975, é nomeado o VI Governo Provisório.

O período a seguir à tomada de posse do VI Governo Provisório, com o Almirante Pinheiro de Azevedo como Primeiro-Ministro, foi caótico.

As divisões e cisões no MFA criaram uma instabilidade enorme, que conduziu ao golpe do 25 de Novembro de 1975 numa tentativa desesperada da ala esquerda do MFA retomar o poder.
As forças revoltosas foram derrotadas, sendo determinado o fim do COPCON e
afastado o brigadeiro graduado Otelo Saraiva de Carvalho.

Gradualmente a situação foi-se normalizando e em 25 de Abril de 1976 foram realizadas as Eleições Legislativas, com a maior votação pertencendo ao Partido Socialista. Em 23 de Julho de 1976 foi empossado o 1º Governo Constitucional da 3ª República Portuguesa, com o Dr Mário Soares como primeiro-ministro.

Com dificuldades, avanços e recuos pós 25 de Abril de 1974, iniciou-se um novo ciclo Democrático, em que foi permitido ao Povo Português o direito de viver num ambiente Democrático, em que todos podemos exprimir as nossas opiniões.

Com Portugal assumindo a sua posição na União Europeia, como País Democrático, compete à nova Geração, contribuir para o seu fortalecimento.

É a vossa vez de contribuir para melhorar a situação que as nossas Gerações vos legaram.

Coronel Piloto Aviador António Mira Godinho
Na Reforma.



O que dizia o:

Programa do Movimento das Forças Armadas Portuguesas



Sumário dos capítulos desta história: 

1.      O que foi o 25 de Abril de 1974.

2.      O Movimento dos Capitães (Esta história)

3.      Preparativos para o 11 de Março

4.      11 de Março de 1975

5.      Fuga para Espanha e Brasil

6.      Preso num Seminário, em Braga

7.      Da prisão à liberdade

8.      Programa do MFA






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