LINHA AÉREA e outros voos - Travessia 4 - O sextante modificado por Gago Coutinho

 


O sextante modificado por Gago Coutinho

e Sacadura Cabral, também





(que mudou para sempre a Navegação Aérea
e fez nascer a Aviação Comercial)













O sextante usado na Marinha, modificado por Gago Coutinho. Para aplicar à navegação aérea os processos usados nos navios, mas de modo a calcular com rapidez e precisão a longitude e a latitude de um avião em voo, pela observação da Altura dos Astros.

Independentemente das condições do voo, como o vento (direcção e intensidade) luminosidade (de dia ou de noite) e com ou sem visibilidade para usar a linha do horizonte (a base do cálculo da Altura dos Astros).




Por ser muitas vezes difícil, em voo, determinar com exactidão essa linha do horizonte, acrescentou ao sextante um nível de bolha de ar, na verdade um horizonte artificial, que permitia os cálculos baseados na vertical exacta do momento dessa medição, sem que esse valor se alterasse com as oscilações do avião.








Gago Coutinho e Sacadura Cabral adaptaram e simplificaram também todo o processo de cálculo das coordenadas normalmente usado na navegação marítima, com a criação de um algoritmo expedito que reduzia o tempo do cálculo e traçado duma Recta de Altura, tornando-o rápido e automático.









Sacadura Cabral também contribui, não só na simplificação dos cálculos como também na introdução de um pequeno dispositivo para calcular a direcção e a força do vento, o 
"corretor de rumos" (o "plaqué de abatimento") para compensar o desvio causado pelo vento. 

O Sextante modificado completa-se ainda com um óculo que permite focar simultaneamente o astro observado e a bolha do nível (que tem iluminação própria, possibilitando fazer observações nocturnas).

Era, pois, um Sextante totalmente modificado e aperfeiçoado entre 1919 e 1938, ao qual Gago Coutinho chamava carinhosamente o seu «Astrolábio de Precisão», 
que incluia iluminação eléctrica e um óculo especial que focava simultaneamente o astro e a bolha de nível.

Podemos ainda acrescentar à sua plêiade de inovações a adopção ao uso da mão esquerda, permitindo que a direita ficasse livre para o registo das horas do cronómetro e das alturas lidas no Astro (bolha). Estes princípios de vanguarda foram depois adoptados a todos os sextantes, tanto para uso aéreo como para uso marítimo (quando é noite ou em neblina), verificando-se a sua expansão internacionalmente.

No entanto, o sextante só se tornou conhecido e triunfou como instrumento preciso e necessário, após o sucesso obtido com a sua utilização na viagem Lisboa – Rio de Janeiro.

Em Novembro de 1921, no Congresso Internacional de Navegação Aérea de Paris, estes inventos e procedimentos foram ali apresentados com grande êxito.

Este instrumento veio depois a ser fabricado e comercializado pelo construtor alemão C. Plath (que adquiriu a patente) com o nome de «System Admiral Gago Coutinho».

A História da Aviação ficou assim definitivamente marcada pelo contributo destes dois Oficiais da Marinha portuguesa que permitiu pela primeira vez uma Navegação Aérea astronómica, científica e de precisão, com todas as implicações na segurança, na economia e na segurança.

Desde aí até ao aparecimento dos sistemas electrónicos de navegação (o primeiro avião da TAP equipado com um moderno sistema destes foi o Boeing B747 introduzido em 1972!) o Sextante e os procedimentos para os cálculos abreviados, de Gago Coutinho foram a ferramenta essencial de navegação de toda a aviação mundial.

Voei muitas horas em Boeing 707, entre 1971 e 1974, com o auxílio de um Navegador que se servia de um instrumento semelhante para a orientação dos voos entre Lisboa e África ou as Américas, do Norte e do Sul.



Boeing B 707     



Destapava um orifício no tecto do cockpit, sem o despressurizar, enfiava ali o aparelho e dava pouco depois as correcções ao rumo a voar, ao Comandante.

O sistema de Navegação que dois anos depois, em 1974, usava no B 747, o 
Inertial, era baseado em acelerómetros e dependia só da introdução,  num pequeno aparelho, no cockpit, na consola entre os dois pilotos, antes da descolagem, das coordenadas do local de partida. Depois bastava introduzir, consecutivamente, os próximos nove pontos seguintes a sobrevoar, para a Navegação se fazer automaticamente. Uma maravilha da ciência de então, sem GPSs nem satélites...



      Boeing B 747



Os Navegadores tinham perdido o emprego na Aviação...

Assim como os Radiotelegrafistas, com quem eu ainda voei nos Boeing 707. Nos inícios de 1971 éramos ainda 5 no cockpit!

Quando passei a comando no Longo Curso, em Airbus A310, no início dos anos 90 do século passado, já só éramos 2 no cockpit e com metade dos motores para fazer o mesmo, com mais passageiros e a maior velocidade...



Airbus A 310-300     



Tinham desaparecido o Radiotelegrafista, o Navegador e o Mecânico, depois chamado Tecnico de Voo.

Não notei grande diferença quanto á aerodinâmica ou á performance dos aviões, mas aqueles homens fizeram-nos muita falta...

No Boeing B 747 não havia observações astronómicas a fazer, mas era preciso ir preenchendo periodicamente os nove pontos seguintes, sucessivamente, até ao fim do voo.

Trabalho de Copiloto...

Fi-lo muitas vezes, durante os 3 anos em que tive o imenso prazer de voar tão fantástico avião!

O Boeing B 747!

O melhor avião que voei!

Para verificar a eficácia do seu sextante modificado, Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram várias viagens aéreas, uma das quais foi a viagem entre Lisboa e o Funchal em 1921, em aproximadamente sete horas e meia.



Nada melhor que as palavras de Gago Coutinho para nos falar sobre a sua Navegação Aérea:


"A travessia aérea Lisboa-Rio foi caracterizada pela necessidade de viajarmos entre pontos que não se avistavam uns dos outros, pontos separados por largos troços de mar, entre os quais não havia referências para nos dirigirmos, como seriam ilhas ou navios de apoio.

Para satisfazermos essa necessidade servimo-nos de recursos simples que não inventámos mas apenas a adaptámos da navegação marítima e tivemos confiança em que levávamos na mão os meios de irmos aos pontos, que eram etapas obrigatórias, sem hesitações, que a escassez de combustível não me permitia.

Depois da viagem aérea Lisboa Funchal ficou demonstrado que os nossos processos, adaptados da nossa navegação marítima, como disse, eram os suficientes para demandar com exatidão qualquer ponto afastado de Terra, por pequeno que fosse, recurso este que se tornava muito essencial em uma projectada viagem aérea de Lisboa ao Brasil.


Como princípios fundamentais era preciso:

1º -  As operações da navegação aérea deviam ser fáceis e materiais, porque os navegadores aéreos não têm a experiência de frequentes e largas viagens o que por enquanto se não tem realizado.

2º - Como o avião marcha a grande velocidade, geralmente mais de 1 milha por minuto, essas operações têm que ser também rápidas.

3º - Visto o avião, do alto, ter facilidade em reconhecer a terra, não é necessária grande precisão de navegação.


Da experiência das nossas viagens concluímos:

A - A primeira condição para se fazer uma boa navegação é haver boa disposição de espírito, e por isso o espaço reservado ao navegador deve ser cuidadosamente preparado. Tudo deve estar à mão, ocupando lugares apropriados, de modo a não cair nem se perder, e ser cómodo e facilmente empregado.

B - Os métodos de navegação devem ser simples e ter-se prática suficiente para os executar quase que mecanicamente; um bom navegador aéreo só se consegue com muita prática. Não basta saber como observar e fazer os cálculos; é necessário ir preparado para rapidamente resolver com segurança quaisquer dificuldades, porque as velocidades das aeronaves são enormes e o combustível é limitado. 

Em terra, o voar alto é uma necessidade para termos tempo de procurar um campo onde poisar em caso de pane. No mar, para pousar tanto faz que se vá alto como baixo, e por isso bastará voar à altura suficiente para, em caso de pane, haver tempo para fazer face ao vento e preparar para poisar."




O Corrector de rumos:


O corretor de rumos (inventado por Sacadura Cabral) serve também para o estudo prévio de uma viagem pois que permite por simples inspeção, fazer ideia da influência de um vento previsto.

Efetivamente, é fácil, admitindo uma direção e velocidade do vento, avaliar imediatamente a correção do rumo a fazer, e qual será a velocidade útil do avião.

Para medição do abatimento empregamos sempre em viagem a boia de fumo, que é, como se sabe, um flutuador, contendo fosforeto de cálcio, que ao cair na água se inflama espontaneamente, produzindo um fumo branco, que se vê alguma distância, e que fica marcando no mar um lugar por cima do qual se passou


O Corrector de Rumos     


















O Comandante Silva Soares, da TAP explica o funcionamento do Corrector.
Este Comandante é uma das figuras emblemáticas da fundação da TAP.
Com ele aprendi muito num voo em que me assistiu na minha formação de Comandante de Boeing B 727



A medição do ângulo do abatimento pode fazer-se de bordo do avião, empregando o taquímetro vulgar. Mas preferimos empregar uma graduação especial da cauda do avião, com riscos bem visíveis de 5 em 5°, referidos a pontos de mira de um e outro lado do observador. O processo é prático e preciso, sendo, como é natural, necessário que o piloto previna o observador sempre que o avião vai exatamente ao rumo, para ele então observar a marcação das boias.

Na navegação astronómica empregou se, como a bordo dos navios, um cronómetro médio, que dá a hora de Greenwich; e levávamos também um bom contador médio. Na previsão de observações astronómicas de noite, tínhamos mais um cronómetro regulado para o tempo sideral de Greenwich.

Para as observações astronómicas íamos prevenidos com o mesmo sextante de alumínio, que já serviu na viagem à Madeira, o qual permitia observar alturas, tanto em horizonte de mar, como os sextantes vulgares, como em horizonte artificial de nível de bolha de ar, recurso este que está sendo adotado nas aviações estrangeiras. 

O sistema de horizonte artificial, que levamos, já foi pormenorizadamente descrito nos anais do Clube Militar Naval de 1919. Em princípio, adaptado ao sextante um pequeno nível de bolha de ar, cuja imagem se traz, por meio de um espelho, a mesma direção em que se fazem as observações no horizonte de mar: sobre essa imagem do nível, vista por trás do espelho horizontal, que é furado, se aplica a imagem do astro. E como a distância do olho do observador à imagem virtual da bolha do nível é igual o raio do mesmo nível, basta fazer a coincidência de imagens em qualquer ponto do campo, respeitando-se assim o antigo princípio fundamental do emprego do sextante."

Apesar de tanta ciência e de tanto trabalho e empenho, o carácter irreverente de Sacadura Cabral comparava ironicamente o corrector de rumos desenvolvido por si e pelo seu camarada aos “elixires que os charlatães costumavam oferecer no Terreiro do Paço, de tal modo as suas aplicações eram numerosas”...



Vejam aqui este filme da 

"Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul" (Duração: 08:20)







Índice da Travessia

 

          1 - Preâmbulo a toda a história

                       1a - Os Antecedentes, os Homens envolvidos e os Aviões utilizados. 

             1b - O voo do capitão-tenente Read

             1c - A Travessia feita pelo capitão Alcock e pelo tenente Brown

2 - Aviões empregues nestas travessias

              2a - A escolha do avião para a Travessia Lisboa . Rio de Janeiro

3 - Primeiro raid aéreo Lisboa - Funchal 


4 - O sextante modificado de Gago Coutinho (Capítulo actual)


          5 - Breves biografias de Sacadura Cabral e Gago Coutinho 

               5a - Artur de Sacadura Freire Cabral 

               5b - Carlos Viegas Gago Coutinho 

               5c - As Ordens Militares atribuídas

          6 - Preparativos para a viagem 

          7 - O voo de Sacadura Cabral e Gago Coutinho entre Lisboa e o Rio de Janeiro

          8 - As homenagens no Brasil e o regresso a Portg al






(Actualizada em 8 de Abril de 2022)












LINHA AÉREA e outros voos - Travessia 5 - Breves biografias de Sacadura Cabral e Gago Coutinho

 













Breves biografias de

Sacadura Cabral e

Gago Coutinho























Artur de Sacadura Freire Cabral




Filho de Artur Sacadura Cabral e de Maria Augusta da Silva Esteves, nasceu no concelho de Celorico da Beira, freguesia de São Pedro, no dia 23 de Maio de 1881.

Paulo Portas   afirma que Arthur de Sacadura Freire Cabral era descendente direto do navegador que "descobriu" o Brasil, Pedro Álvares Cabral (Aspetos da Vida de Sacadura Cabral)

Muito novo ainda, por morte do seu pai, a mãe ficou com o encargo de o sustentar e educar, não só a ele mas também aos seus nove irmãos, todos menores.

Após os estudos primários e secundários assentou praça em 10 de Novembro de 1897, aos 16 anos, como aspirante de marinha e frequentou a Sala do Risco, antecessora da atual Escola Naval, onde foi o primeiro classificado do seu curso.

Concluído o curso em 1º lugar, embarcou no S. Gabriel (1901) para integrar a Divisão Naval de Moçambique.

No dia 27 de Abril de 1903 foi promovido a segundo-tenente e passou a comandar as lanchas-canhoeiras Sabre e Lacerda e o vapor General Silvério

Nesse país, (na altura uma Colónia portuguesa) coproduziu um rigoroso levantamento hidrográfico da bacia do rio Espírito Santo e afluentes para o melhoramento do porto de Lourenço Marques (Maputo)e na retificação da fronteira entre o Transval e Moçambique, em 1906 e em missões geográficas e geodésicas com Gago Coutinho, que foi seu chefe.




Já em Angola, assumiu o cargo de subdiretor dos serviços de Agrimensura (nomeação de 1911) e participou com Gago Coutinho na missão do Barotze, de delimitação das fronteiras leste do país.

Em Novembro de 1915 Sacadura Cabral foi para a França e deu entrada na Escola Militar de Chartres, para instrução de pilotagem.







Terminada a sua aprendizagem em França, regressou a Portugal em Agosto de 1916. Nesta altura estava a ser organizada a Escola de Aviação Militar em Vila Nova da Rainha e Sacadura Cabral foi aí incorporado como piloto instrutor no primeiro curso de pilotagem em Portugal (1916)

Sacadura Cabral foi consecutivamente promovido aos postos de segundo-tenente (1903), de primeiro-tenente (1911), de capitão-tenente (1918) e de capitão-de-fragata (1922).

Unanimemente considerado um aviador distintíssimo pelas suas qualidades de coragem e inteligência, notabilizou-se a nível mundial, ultrapassando as insuficiências técnicas e materiais que na época se faziam sentir. Quando conheceu Gago Coutinho em África, numa missão geodésica  em Moçambique, incentivou-o a dedicar-se ao problema da navegação aérea, o que levou ao desenvolvimento do sextante de bolha artificial. Juntos inventaram também um "corretor de rumos", para compensar o desvio causado, em voo, pelo vento.



Entretanto, tendo o governo resolvido enviar para Moçambique, em 1916, uma esquadrilha de aviação para cooperar com o exército, na região do Lago Niassa na defesa deste território em relação aos ataques alemães, Sacadura Cabral foi encarregado de adquirir em França o material necessário.















Aeroporto da Beira, Moçambique.

Homenagem a Sacadura Cabral



Esta foi a primeira unidade de aviação constituída em Portugal.


51 anos depois, coube-me a mim voar, em soberania, na Foça Aérea, nessa mesma área do Lago Niassa...










Em seguida Sacadura Cabral foi encarregado de organizar a aviação marítima em Portugal, tendo sido nomeado, em 1918, Director dos Serviços da Aeronáutica Naval e, a seguir, comandante da Esquadrilha Aérea da Base Naval de Lisboa.


Três dias depois de o "Lusitânia" ter amarado com enorme sucesso junto aos Penedos, feito celebrado em todo o Mundo, foi agraciado, juntamente com Gago Coutinho, com a Grã-Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, a 21 de Abril de 1922.

Ainda em 1922, por proposta da Faculdade Técnica da Universidade do Porto (atual Faculdade de Engenharia) foi-lhe atribuído o título de Doutor Honoris Causa.

Em 1923 projetou uma viagem aérea de circunavegação e, em 1924, foi incumbido de fazer uma proposta para o estabelecimento de carreiras áreas comerciais.

A viagem de circunavegação queria fazê-la no sentido oposto á de Fernão de Magalhães, aproveitando a circulação geral dos ventos no Hemisfério Norte, de Oeste para Este. Nunca ninguém tinha atravessado em voo o Oceano Pacífico.

Para tal foram comprados na Holanda 5 hidroaviões Fokker T III comprados por Portugal, através de subscrições públicas em Portugal e no Brasil, para a realização dessa volta ao mundo a fazer pelos dois heróis da travessia do Atlântico em 1922.


      Fokker TIII - (Digital Hangar3D_Paulo Alegria)


O primeiro destes Fokker a fazer a viagem para integrar a Aviação Naval em Lisboa, foi pilotado por Sacadura Cabral.

Sacadura Cabral, na altura com 43 anos deslocou-se novamente a Amesterdão com cinco colegas da Marinha a fim de levantarem outros três Fokker.


Fokker TIII W - Ilustração de Miguel Amaral  -      
















Como todos os outros companheiros, o capitão de fragata Sacadura Freire Cabral, acompanhado pelo cabo artilheiro mecânico José Pinto Corrêa (nesta imagem de 1922 em Fernando de Noronha, na montagem do 3º Fairey, o F17 "Santa Cruz") descolou de Amesterdão num sábado, 15 de Novembro de 1924, num dia de intenso nevoeiro. Sacadura pilotava o Fokker 4146.



Logo após a descolagem, embrenhados num intenso nevoeiro, perderam-se uns dos outros.






O Fokker 4194 amarou em Brest e o 4197 em Cherburgo.

O hidroavião de Sacadura Cabral, o Fokker 4146 nunca chegou a lado nenhum.


Desapareceu algures no Mar do Norte,


Quatro dias depois foram encontrados no mar destroços de um flutuador.

Portugal, 30 dias depois, perdidas as esperanças de se encontrarem os corpos dos dois tripulantes do avião, considerou o dia 15 de Dezembro de 1924 dia de luto nacional, em memória dos dois militares desaparecidos.













Acerca da sua morte, um poeta escreveu:


"Encontrou a sepultura em pleno mar

Que a terra, donde andava foragido,

Era pequena demais para o sepultar".




A 1 de maio de 1922 foi-lhe outorgada a

Grã-Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.


Sacadura Cabral é tio da economista

Helena Sacadura Cabral

e tio-avô dos políticos

Miguel (já falecido) e Paulo Portas.


"O meu tio-avô era um típico herói do amanhecer do século XX: altivo na confiança que tinha nele próprio, arrojado quanto aos feitos por fazer e arejado pelo mundo que conhecia. A ideia familiar que tenho dele e que não só não tinha medo como não tinha medo de ter medo, o que é uma qualidade pouco frequente. Era também de um patriotismo irrepreensível mas vivido a meias com a consciência da nossa exiguidade continental. Parece-me que morreu a fazer aquilo que adorava: voar e de preferência voar até mais além."

Paulo Portas

(Da Wikipédia e U. do Porto - Universidade Digital / Gestão de Informação, 2013)

























Carlos Viegas Gago Coutinho




Carlos Viegas Gago Coutinho nasceu em São Brás de Alportel, no distrito de Faro, no dia 17 de Fevereiro de  1869, mas foi registado em Belém, Lisboa 

Filho de José Viegas Gago Coutinho e de sua mulher e prima em segundo grau, Fortunata Maria Coutinho-

O avô paterno, Manuel Viegas Gago Coutinho também era natural de São Brás de Alportel. Foi livreiro em Faro e Cabo de Esquadra do Regimento de Artilharia de Faro.






















O pai, segundo Gago Coutinho, José Viegas Gago Coutinhoera um homem de reduzida educação literária. Só tinha a primária, mas conhecia escrita comercial, em que praticava (…) era homem alto, desempenado”, também oriundo de São Brás de Alportel.


Gago Coutinho, aluno da Escola Naval, com o pai em 1886.



O pai chegou a ser escrevente da Nau Vasco da Gama.

A sua mãe, Fortunata Maria Mendes Coutinho, era uma senhora pequena, morena, algarvia, filha de padeiros, e que devia ter ascendência moura". Morreu quando o jovem Gago Coutinho tinha 8 anos e pelas vicissitudes dos afazeres do pai, foi daí em diante criado por uma amiga da família, Maria Augusta Pereira.


A uma das principais e centrais ruas de S. Brás de Alportel foi dado o nome de "Almirante Gago Coutinho".

De família humilde, não pode frequentar, como desejava, o curso de Engenharia na Alemanha. Em 1885, depois de ter acabado o Liceu, ingressa na Escola Politécnica e no ano seguinte opta por entrar na Escola Naval, com 17 anos.

Terminado o curso em 1888, obtendo a melhor classificação do curso, entre 35 camaradas, inicia a sua carreira de oficial da Marinha, embarcando para Moçambique, promovido a Guarda Marinha.

Serviu em vários navios e participou nas operações militares de Tungue (Moçambique) em 1890 e em Timor em 1912.

Em 27 de Abril de 1903 é promovido a segundo-tenente.

Distinguiu-se como cartógrafo e geodeta, a partir de 1898, aquando de sua primeira comissão em Timor. Até 1920 levantou e cartografou não apenas aquele território, mas também o de Niassa (1900), Congo (1901), Zambézia (1904-1905),

Em 1905, com Bon de Sousa, fez o levantamento rigoroso da bacia do rio Espírito Santo e seus afluentes, para a modernização e rectificação do canal de acesso ao porto de Lourenço Marques (Maputo)

Esteve em Barotze (1912-1914), São Tomé e Príncipe (1916), estabelecendo vértices geodésicos e determinando coordenadas em missões científicas onde conseguia precisões notáveis, devido ao seu rigor e dedicação à missão que lhe fora confiada. Foi o responsável pela demarcação definitiva da fronteira norte entre Angola e Zaire.

Em 1906, fez a rectificação da fronteira entre o Transval e Lourenço Marques

Como aluno topógrafo que fui, em 1961, em Moçambique, junto a essa fronteira, limítrofe ao Kruger Park, na zona moçambicana da Moamba, 80km a noroeste de Maputo, conheci vários desses vértices geodésicos deixados por aquele distinto Geógrafo. (Ver a história sobre este assunto aqui )


















Toda a sua vida fez exercício fisico, em ginásio ou mesmo em casa


No decurso daqueles trabalhos, Gago Coutinho fez, a pé, a travessia da África, por duas vezes, entre Angola e Moçambique. Calcorreou mais de 5200km, chegando a fazer, durante dois meses, "42 km diários, sempre a pé!"

E era ele que transportava sempre as suas ferramentas de maior importância como a bússola, o teodolito e o sextante.




Sacadura Cabral aparece na sua vida em 1907 e a partir daí uma sólida amizade passou a uni-los.

Este incentivou-o a dedicar-se ao problema da navegação aérea, o que levou ao desenvolvimento do sextante de horizonte artificial.

Depois de inúmeros estudos e testes e da colaboração científica entre os dois geógrafos, aparecem os instrumentos que revolucionaram a aviação Mundial, o sextante de bolha de ar e o corrector de rumos.

Os dois aparelhos e os cálculos matemáticos que os acompanhavam foram dados a conhecer ao Mundo em Novembro de 1921, no I Congresso de Navegação Aérea de Paris.

O feito extraordinário da travessia do Atlântico Sul, ao encontro de umas rochas com 200m de comprido e 15 de altura, onde um pequeno barco de guerra os esperava, 908 milhas náuticas após uma descolagem feita 11h 21 minutos antes, levou ao reconhecimento de todo o Mundo como um feito único do rigor científico e no acreditar daqueles dois homens que tinham uma fé inabalável nas suas capacidades técnicas, dando origem á Aviação Comercial, como a conhecemos hoje.

Gago Coutinho recebeu largo reconhecimento devido a este feito, tendo sido promovido a contra-almirante e condecorado com as mais altas e prestigiosas distinções do Estado Português, 

Foi agraciado com a Grã-Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito a 21 de Abril de 1922

A Grã-Cruz da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico a 1 de Maio do mesmo ano 

Elevado a Grã-Cruz da Ordem Militar de São Bento de Avis a 18 de Outubro de 1926

Além de ter recebido várias outras condecorações estrangeiras.

No dia 17 de Agosto de 1932 foi promovido ao posto de Vice-Almirante.

Retirou-se da vida militar em 1939.

Pouco depois (já tinha 70 anos de idade) foi convidado para um voo comemorativo entre o Rio de Janeiro e Porto Seguro, a “primeira terra a ser descoberta pelos portugueses”.

Deu-se então conta que o Brasil, menos de 20 anos após a sua Travessia, tinha já 500 aeroportos e que a “carta que enviava para Inglaterra a partir do Palace Hotel do Rio de Janeiro viajava por correio aéreo, na companhia de mais 50 passageiros, num avião super-rápido de passageiros” da companhia brasileira PanAir do Brasil – um Lockheed Constellation.

Foi a última das cartas que escreveu ao Capitão Tamlyn, enviada por ocasião do 24º aniversário do salvamento.

Correspondeu-se com grandes nomes da história da aviação da época como Alberto Santos Dumont, apoiou Sarmento de Beires e João Ribeiro de Barros.

Pertenceu ao Grande Oriente Lusitano da Maçonaria Portuguesa e foi sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, onde foi responsável por uma das secções.

A 28 de Janeiro de 1943 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Império Colonial.

E a 28 de Junho de 1947 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo














Em 1955 a TAP convidou-o para um voo experimental ao Rio de Janeiro num DC-4, antecipando a futura linha regular que se estabeleceria em 1961.



     Durante esse voo


Em 1958 por resolução da Assembleia Nacional Gago Coutinho foi promovido ao posto de Almirante.





















Gago Coutinho morreu em 1959 no seu apartamento na rua da Esperança, em Lisboa no dia seguinte a completar 90 anos, 18 de Fevereiro de 1959.



Está sepultado no Cemitério da Ajuda em Lisboa.

 

Homem humilde que nunca esqueceu as suas origens doou tudo o que tinha a todos os mais próximos, amigos, criada, governanta, vizinhos, jardineiro, pobres da Madragoa, bibliotecas, academias, etc., etc.






No testamento registou um pedido, que demonstra quanto África deixa a quem a conhece bem, uma indelével marca de enorme apego ao chão daquele continente mágico onde eu nasci:









"O caixão de pinho será pobre (…)

 Vestir-me-ão os calções e casaco de caqui,

como atravessei África.


Tudo pobre, como nasci.


Aliás nunca fui almirante a valer,

mas autêntico geógrafo de campo".


Em 1958     



Infelizmente nem um nem outro sabiam jogar á bola.

Senão talvez merecessem estar, os dois, no Panteão Nacional...


(Com textos da Wikipédia)





As Ordens Militares atribuídas a Sacadura Cabral e a Gago Coutinho




Cerimónia de imposição das insígnias da Torre e Espada a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no Ministério da Marinha, depois do regresso a Lisboa





Da esquerda para a direita:

- Grã-Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito

- Grã-Cruz da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico

- Grã-Cruz da Ordem do Império Colonial.






- Grã-Cruz da Ordem Militar de São Bento de Avis

- Grã-Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo


Lembro que Sacadura Cabral morreu em 1924 e Gago Coutinho em 1959, 35 anos depois.








Índice da Travessia

 

          1 - Preâmbulo a toda a história

                       1a - Os Antecedentes, os Homens envolvidos e os Aviões utilizados. 

             1b - O voo do capitão-tenente Read

             1c - A Travessia feita pelo capitão Alcock e pelo tenente Brown

2 - Aviões empregues nestas travessias

              2a - A escolha do avião para a Travessia Lisboa . Rio de Janeiro

3 - Primeiro raid aéreo Lisboa - Funchal 

4 - O sextante modificado de Gago Coutinho 


          5 - Breves biografias de Sacadura Cabral e Gago Coutinho (Capítulo actual)

               5a - Artur de Sacadura Freire Cabral 

               5b - Carlos Viegas Gago Coutinho 

               5c - As Ordens Militares atribuídas

          

          6 - Preparativos para a viagem 

          7 - O voo de Sacadura Cabral e Gago Coutinho entre Lisboa e o Rio de Janeiro

          8 - As homenagens no Brasil e o regresso a Portugal